Sociedade

Um processo obscuro – Impressão do evento “Oslo aos 25: A paz elusiva”

Nos dias 22 e 23 de outubro, especialistas se reuniram para discutir a questão palestina, ainda em aberto, mesmo após Oslo 

Por Amanda Capuano (mandycapuano@gmail.com), Daniel Medina (danieltmedina@gmail.com) e Maria Eduarda Nogueira (mariaeduardanogueira@usp.br)

Elusiva, segundo o dicionário, é sinônimo de arisca, obscura, imprecisa. Adjetivos como esse caracterizam fielmente a paz que foi definida pelos acordos ‒ ou melhor, processo ‒ de Oslo. Pode ser caracterizado como processo pois, por envolver questões complexas, foi preciso diversas reuniões entre os dois principais envolvidos ‒ Israel e Palestina.

Após 25 anos da marcante negociação, a discussão aflora novamente, tomando conta do auditório Nicolau Sevcenko, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo

Com presenças ilustres, incluindo intelectuais vindos de fora do Brasil, “Oslo aos 25: A Paz Elusiva” foi, antes de tudo, um evento de análise. Não apenas do momento histórico de 1993, mas também do contexto atual. Foram muitas as manifestações de solidariedade em relação à conjuntura política brasileira, principalmente dos estrangeiros. Mesmo discutindo a questão palestina, mesmo analisando um processo que ocorreu do outro lado do mundo… A todo momento, ele não.  

A sessão de abertura começou trazendo à tona diversas discussões. Os estudiosos ressaltaram suas opiniões e também a importância de um evento como esse. O professor Paulo Sérgio Pinheiro, que atuou na Organização das Nações Unidas (ONU), enfatizou que não há garantia que uma discussão como aquela possa acontecer no próximo ano. Novamente, a situação do Brasil foi posta às claras. Novamente, os brasileiros presentes sentiram um misto de medo e vergonha. Novamente, a seguinte ideia ressoou: ele não.

A menção ao presidenciável neofascista, como Paulo Sérgio o denominou, não foi apenas uma manifestação de descontentamento. Analisando as relações do Brasil com ambos Israel e Palestina nos últimos anos, há uma certa solidariedade do povo tupiniquim em relação àqueles que clamam pela legitimidade de seu Estado. Um dos objetivos de Jair Bolsonaro é anular o reconhecimento do Estado da Palestina e legitimar Jerusalém como capital de Israel. A questão política das capitais é tema de calorosas discussões nos tempos atuais. Por um lado, Tel Aviv, capital reconhecida internacionalmente, representa os judeus moderados. Por outro, Jerusalém é o lugar sagrado e, em uma lógica de direito divino dos extremistas, a real capital de Israel.

As provocações, que depois foram seguidas pelo primeiro painel ‒ “O contexto político e geoestratégico de Oslo” ‒, não se resumiram a isso. O professor de ciência política fez questão de ressaltar: “Israel, hoje, é uma democracia para os judeus”. Os árabes israelenses são tidos como cidadãos de segunda categoria. Essa etnocracia, difundida pela ala extremista do judaísmo, parece não ser julgada por muitos poderosos do contexto geopolítico. A impotência do Conselho de Segurança (CS) da ONU, chamado de “farsa” por Paulo Sérgio, é incapaz de garantir a paz mundial, como se observa na carnificina na Síria, cujos envolvidos não respeitam as resoluções do CS.

A análise da atuação de Israel na geopolítica mundial, em especial relacionada à questão Palestina, não foi exclusividade de Paulo Sérgio. Em seguida a sua fala, Peter David, ministro de Relações Exteriores e Trabalho de Granada, deu continuidade às críticas. O desrespeito às leis internacionais e a negação do direito à autodeterminação dos palestinos foram alguns comportamentos mencionados, que justificam a desaprovação a Israel. De um certo modo, a Palestina nunca teve a experiência da descolonização. Por ser de Granada, colônia do Reino Unido independente desde 1974, Peter deu ênfase ao status de nação sem Estado, característico da Palestina.

Os múltiplos conflitos após a partilha da ONU, em 1947, agravaram a situação geopolítica da região. A crise dos refugiados, uma realidade triste ‒ mas que parece ser lembrada apenas em momentos trágicos marcantes ‒, atinge em massa a Palestina desde o fim da Segunda Guerra.

A responsabilidade da ONU novamente foi lembrada. O órgão transnacional é constantemente alvo de críticas, por sofrer influência dos principais atores geopolíticos. A ameaça de Trump de reconhecer Jerusalém como capital de Israel é um desafio à organização e à própria Palestina. Para Peter, os EUA é complacente com a situação colonial. “Apenas uma solução justa pode provar a paz”, ressalta. O caráter elusivo do processo de Oslo foi relembrado a todo momento no evento. Afinal, o povo palestino continua sofrendo as mazelas da colonização.

A professora do Instituto de Relações Internacionais (IRI-USP), Janina Onuki, se ocupou de ressaltar a importância da universidade para discussão de diversos pontos de vista. Em momentos de incerteza e insegurança, tanto no Brasil como no próprio Oriente Médio, eventos como “Oslo aos 25” podem ser transformadores na promoção do diálogo.

O jornalista saudita Jamal Khashoggi, assassinado por motivos políticos no começo de outubro, também foi relembrado. “O melhor jeito de honrar sua memória é lutar pelo direito dos jornalistas ao redor de todo o mundo”, declarou um representante da Middle East Monitor. Ocorridos como esse afetam diretamente a concepção da profissão. Um misto de sentimentos: ao mesmo tempo que sabemos da importância do ofício para a democracia, entendemos os riscos, principalmente daqueles que se empenham em denunciar injustiças cometidas pelos poderosos.

Por fim, a chefe do departamento de Letras Orientais da USP, Safa Jubran, relembrou o poeta palestino Mahmoud Darwich, que foi extremamente crítico aos acordos de Oslo. Para o literato, o processo “foi a maior imprudência já cometida por um líder para seu povo”. O líder no caso era Yasser Arafat, presidente da Organização Nacional para a Libertação da Palestina (OLP). A fala de Darwich mostra que já havia uma previsão que o processo ocorrido em Oslo estava fadado ao fracasso.

Painel I: O contexto político e geoestratégico de Oslo

Mediada por Feliciano Guimarães, professor do IRI, a primeira mesa buscou estabelecer as nuances geopolíticas do processo de Oslo ‒ o fim recente da Guerra do Golfo, a queda da União Soviética, a nova ordem mundial e a Conferência de Madrid, em 1991.

O jornalista e escritor Ben White discutiu a “Separação e construção nacional: o processo de Oslo e as considerações estratégicas de Israel”. Antes de começar sua exposição, o inglês fez questão de oferecer solidariedade ao Brasil no período eleitoral.

“Israel viu em Oslo uma oportunidade para atingir certas metas e adquirir vantagens estratégicas”. Em nenhum momento, o país visava a fundação de um Estado Palestina. Os acordos de Oslo foram, para o lado israelense, uma oportunidade de pura separação demográfica, classificada de apartheid pelo intelectual Edward Saïd. A condição das milhares de pessoas deslocadas de sua origem, processo que se intensifica desde a separação em 1947, foi quase que completamente desconsiderada. Sendo ainda mais incisivo, Oslo foi uma resposta à pergunta: o que fazer com os árabes?

A criação da Autoridade Nacional Palestina (ANP) possuía, em certa medida, pontos de vantagens para Israel. Por ser uma órgão provisório de autogoverno ‒ o caráter provisório é discutível ‒, a ANP se responsabilizou por “tomar conta dos árabes”, retirando essa responsabilidade de Israel. Essa condição de “menos que um Estado” mostra novamente o posicionamento egoísta e puramente estratégico do Estado israelense, que enxergou em Oslo uma chance de fazer seu political establishment ‒ estabelecimento político, em tradução literal.

Em seguida, o professor da Faculdade de Filosofia e Humanidades da Universidade do Chile, Kamal Cumsille também apontou seu ponto de vista, seguindo o tema “Oslo como discurso: redefinindo a balança de poder regional após 1991”. Em uma paralelo com a visão de Ben White, Kamal considera que o processo teve êxito quanto ao modo de administrar os palestinos, vide a ANP.

Para o chileno, Oslo pode ser associada a uma tentativa de pax americana nos anos 90. Os Estados Unidos, em sua tentativa de garantir hegemonia após a queda da União Soviética, tiveram atuação no acordo, que serviu como um dispositivo estratégico para esse discurso de paz.

Em relação à autodeterminação dos povos palestinos, foi um “processo que nasceu morto.” Novamente, as questões econômicas e geoestratégicas foram colocadas acima da principal: a humanitária. Ainda assim, os acordos de 1993 podem ser considerados um triunfo da racionalidade sobre a ideologia, segundo Kamal. O fato do líder Yasser Arafat ter se disponibilizado a dialogar com Israel foi um avanço em relação a governos anteriores.

Em seguida, a também latino-americana presente, Susana Mangana, professora de Estudos Árabes e Islâmicos no Uruguai, fez questão de enfatizar o caráter processual de Oslo, ao relembrar o Acordo de Madrid, de 1991. Apesar de ter falhado, foi a primeira negociação entre Israel e Palestina que, posteriormente, culminou no evento de 1993.

Ben White, autor e analista político (Imagem: Maria Eduarda Nogueira/ Audiovisual/ Jornalismo Júnior)

Os acordos de Oslo tiveram, à época, influência positiva na população, que acreditava no sucesso das negociações. A mídia também foi responsável por esse ponto de vista. 25 anos depois? A desesperança assola novamente o Oriente Médio, que assiste, junto ao resto do mundo, os conflitos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Imaginar um evento como esse nos tempos atuais chega a ser utópico.

Para Susana, Oslo não foi um acordo de paz, mas sim de reconhecimento. Em troca do reconhecimento de Israel, a OLP renunciaria aos atos terroristas, muito utilizados para atingir seus objetivos. Por ter se proposto a negociar com o “inimigo”, o ex-primeiro ministro de Israel, Yitzhak Rabin, foi considerado um traidor e assassinado em 1995 por um extremista judeu. Dividiu com Arafat e Shimon Peres o Nobel da Paz em 1994, por ter lutado pela paz no Oriente Médio.

A uruguaia relembra, no final, o fato de que a América Latina deve ser mais proativa na questão palestina. Apesar da influência reduzida nos países dos conflitos, é preciso solidariedade ‒ não apenas nos momentos de maior tensão. “O panorama estratégico mundial é desastroso para os palestinos”.

A frase “por último, mas não menos importante” nunca fez tanto sentido quanto no evento do auditório Nicolau Sevcenko. O judeu israelense Yuri Haasz, que mora no Brasil há mais de 30 anos, se dedicou a discutir sobre a possibilidade de diálogo entre as duas identidades ‒ israelense e palestina. Fundador da Rede Educacional para os Direitos Humanos na Palestina / Israel (FFIPP), Yuri apresenta um ponto de vista muito inovador: apesar de ter sido criado para defender os interesses de seu país, hoje é ativista da causa palestina, por enxergar todas as injustiças que acontecem no território.

Ele ressalta a existência de um “cegueira do privilégio”, que acomete aqueles que não conseguem enxergar sua posição favorecida. Por ter estado na posição de poder, sendo israelense, Yuri relata que não era capaz de identificar seus privilégios, durante muito tempo. Assim, há um desafio ainda maior para a promoção do diálogo.

Além disso, o fundador da FFIPP põe em questão a própria ideia de acordo de Oslo: “Só homens livres entram em acordos”. O que houve, realmente, foi um reconhecimento do estado de apartheid. A narrativa judaica foi que os judeus buscavam a paz com os “inimigos”, e a paz não deu certo por responsabilidade única e exclusiva dos palestinos.

Em entrevista com Rafael Heiber, membro da organização Common Action Forum (CAF), a associação entre o Oriente Médio e a América Latina foi rememorada, em analogia ao discurso da uruguaia Susana Mangana. “São duas regiões que tentam se olhar de algum maneira”, fazendo um paralelo entre as ditaduras dos anos 70 e as recentes lutas por direitos na Primavera Árabe, que “tentaram se inspirar um pouco nas soluções que os países latino-americanos tiveram para o autoritarismo”.

Susana Mangana, professora de estudos árabes e islâmicos (Imagem: Maria Eduarda Nogueira/ Audiovisual/ Jornalismo Júnior)

“Pode ser que a gente esteja perdendo isso na atualidade, mas, de alguma maneira, a América Latina sempre representou uma fonte de inspiração”, enfatizou Rafael. Com todas as manifestações políticas presentes no evento, é possível dizer que a atuação futura do Brasil, em especial, é nebulosa. A diplomacia do país terá seus desafios e deve prezar, acima de tudo, pelo respeito à autodeterminação dos povos.

Ações como a do CAF são importantes para promover um diálogo, em especial na simbólica questão da Palestina, relevante tanto para o mundo árabe como para o restante do globo. “O propósito é montar uma frente de intelectuais, políticos, ativistas que estejam fazendo um trabalho ativo contra os movimentos globais de xenofobia, autoritarismo e injustiça.”

Painel II – Vivendo sob a Ocupação

Em seu segundo painel, o evento se preocupou em abordar a forma como a ocupação dos territórios por Israel tem limitado e alterado a vida de quem lá se encontra. Não apenas pela expulsão e separação de indivíduos, mas pela alteração na vivência diária, que é determinada pelo controle territorial israelense.

O painel foi mediado por Rafael Heiber, co-fundador e Diretor Executivo do Common Action Forum. Uma das questões abordadas em relação à ocupação foi a da disponibilidade de território e recursos. Marcelo Buzetto, pós-doutorando na USP e Coordenador de Relações Internacionais do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) comentou sobre como os camponeses e trabalhadores rurais foram afetados pelos Acordos de Oslo.

Um dos principais apontamentos refere-se à dinâmica de disponibilidade de mercadorias. Os produtos israelenses possuem ampla circulação, em detrimento dos palestinos. Além disso, própria produção é limitada devido à construção da divisão entre os territórios, que impede a livre circulação de pessoas e mercadorias. A água também é uma questão importante, já que seu acesso restrito dificulta o processo de utilização do território.

Soraya Misleh, pesquisadora da USP e descendente de palestinos, deu um depoimento pessoal e atentou para o fracasso dos acordos de Oslo. Comentou a respeito do processo de consolidação do Estado de Israel pelas expulsões e destacou sua história pessoal. Seu pai, aos 13 anos, foi expulso, acompanhado da família, após a destruição de sua aldeia. Além disso, caracterizou o processo como algo sistemático e planejado.

Dia dois

O segundo dia de evento começou de maneira contida. Pouco depois das 14h, horário marcado para início, o auditório no prédio de História da FFLCH contava com diversas cadeiras vazias. Entre os corredores, acadêmicos reuniam-se em conversas sobre o contexto político brasileiro, pronunciamentos da ONU e regras de direito internacional com a mesma naturalidade de quem discute o último capítulo da novela com o vizinho de porta. Na sala, pesquisadores renomados de dentro e fora do país, convidados de peso e estudantes admirados compartilhavam o mesmo espaço – experiência que só uma conferência desse porte é capaz de proporcionar.

O Brasil e o Oriente Médio: O Poder da Sociedade Civil  

A primeira atividade agendada era o lançamento de um livro. Organizado por Álvaro Vasconcelos (Universidade de Coimbra), Arlene Clemesha (FFLCH-USP) e Feliciano Guimarães (IRI-USP), “O Brasil e o Oriente Médio: O Poder da Sociedade Civil” é a compilação de estudos de diversos autores, que busca comparar os processos democráticos no Brasil e Oriente Médio, concentrando seus esforços mais especificamente na questão da Tunísia. A obra está disponível para download gratuito no portal do Instituto de Relações Internacionais.

A mesa de lançamento foi composta por Vasconcelos e Guimarães, além de Bruno Brasil, que colaborou com um artigo do livro. Guimarães apresentou o projeto de maneira breve, ressaltando a ausência do tema na literatura nacional – principal incentivo para a produção. As linhas de pesquisa do professor do IRI não se aprofundam em Oriente Médio, mas ele destacou diversas vezes a importância de construir e fortalecer essa vertente de estudos dentro da USP, que concentra cerca de 30% dos pós-graduandos do país.

Ex-diretor do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia (EUISS) e do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais (IEEI) de Lisboa, e atual pesquisador associado da Arab Reform Initiative, Vasconcelos discorreu sobre a mudança de significado que o livro tomou com os últimos acontecimentos da política brasileira. Inicialmente, o Brasil seria um exemplo de democracia para os países árabes que passaram por momentos turbulentos a partir da primavera. A primavera árabe ficou conhecida como uma série de revoltas no Oriente Médio em 2011, a partir do Egito, em busca de soberania popular, mas que culminaram em profundos conflitos na região.

Nesse contexto, a democracia brasileira, que passou por uma redemocratização após o período da Ditadura Militar, era tida como um exemplo. A ascensão da extrema direita, sob a figura de Jair Bolsonaro, e seu discurso anti-democrático nas eleições de 2018, entretanto, mudaram esse cenário. Nas palavras de Vasconcelos, “o que dizíamos no livro sobre Brasil como exemplo da democracia hoje seria sobre como as democracias terminam.” A turbulência política do país, inclusive, forçou uma mudança no nome do livro, que antes focava nos conflitos à luz da democracia brasileira. Segundo o pesquisador, “o que resta entre o Brasil e o Oriente Médio é a atuação de suas sociedades civis”, e portanto, o título não poderia ser mais apropriado para o momento.

Bruno Brasil, pesquisador do IRI e colaborador do projeto, apresentou seu artigo de maneira direta. O acadêmico mostrou por meio de dados e gráficos como se distribuem as pesquisas sobre a temática do Oriente Médio no país, com destaque avassalador para a USP. Segundo ele, a maior parte das pesquisas se concentra em Israel. O motivo disso, no entanto, segue nebuloso. Para ele e Guimarães, pode ter relação com o fato da comunidade judaica estar fortemente presente nas universidades, assim como pelos interesses econômicos atrelados à Israel. Contudo, as justificativas são suposições, sem base empírica.

De maneira geral, o painel fluiu de maneira tranquila e interessante. Com um forte viés político, as falas foram permeadas de críticas ao atual cenário do país, trazendo o tema do livro para mais perto da plateia. Talvez por esse motivo, a compreensão não foi um problema. Para aqueles que não entendiam o português, a tradução simultânea parece ter funcionado bem, tornando o evento acessível e inclusivo.

Painel III – Oslo e a negação da Lei Internacional

A segunda mesa do dia contou com nomes importantes a nível mundial e apresentou um conteúdo mais denso, focado no direito internacional. Daud Abdullah, diretor do Middle East Monitor (MEMO) e pesquisador do Centro Palestino de Retorno (com sede em Londres), trouxe para a discussão a questão do retorno dos palestinos para suas casas. As falas de Abdullah enfatizaram a questão da repatriação. Segundo o pesquisador, “a repatriação sempre foi o guia para a resolução de conflitos, e na Palestina isso nem foi considerado.” O direito de retorno é assegurado pela Declaração dos Direitos Humanos, e de acordo com Abdullah, a situação como os refugiados deixaram seus lares é irrelevante, tendo eles o direito legal de retornar a eles.

Outro nome de peso foi Karen K. Abuzayd. É comissária pro bono na Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a República Árabe da Síria, que busca apurar condutas indevidas dos envolvidos no conflito e efeitos da guerra na população civil. Também mestre em Estudos Islâmicos, mudou-se para Gaza em 2000 como vice da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA), tornando-se Comissária Geral posteriormente.

No foco do conflito, Abuzayad falou de forma emocionada sobre a situação da população e a ineficácia das resoluções. Em suas palavras, “25 anos depois, os acordos de Oslo estão mortos, serviram apenas para reforçar os interesses israelenses. Os palestinos ainda vivem em um apartheid.” Visivelmente abalada, a acadêmica foi a voz do sofrimento humano no evento, colocando questões burocráticas e legais em segundo plano, e tocando os presentes com o seu depoimento.

Compuseram a mesa ainda o professor de direito internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Salem Nasser, e Yoslan Silverio, professor adjunto da Universidade de Havana. Nasser focou sua narrativa em assuntos atuais. Para ele, a morte do jornalista dentro da embaixada da Arábia Saudita pode interferir de maneira significativa no contexto geopolítico e nos próximos passos em relação ao oriente médio, já que o país é aliado dos EUA e peça fundamental para o Plano de Acerto geral que Donald Trump pretende fazer na região. O pesquisador destacou ainda a falta de um órgão que faça cumprir as decisões internacionais. Segundo ele, por tratar-se de acordos entre estados soberanos, não importa o que a ONU ou a corte internacional defina, o cumprimento das resoluções fica por conta da vontade e diplomacia dos envolvidos. Já Silverio discorreu sobre as relações entre Cuba e Oriente Médio, revelando o histórico de apoio da ilha em relação à causa palestina.

Etnicamente diverso, o painel trouxe visões plurais sobre a questão. Falas em inglês, português e espanhol foram ouvidas, fazendo jus ao globalismo intrínseco ao direito internacional e aos conflitos dessa magnitude. A experiência cultural e acadêmica agregada é marcante para qualquer estudante que tenha experienciado a mesa.

Críticas políticas e o papel da imprensa

A atual situação política brasileira não passou batido. A questão da democracia permeou todo o evento, com falas em defesa dos direitos humanos e contra discursos autoritários. Paulo Sérgio Pinheiro, atual presidente da Comissão Independente Internacional de Investigação para a Síria e ex-coordenador da Comissão Nacional da Verdade, fez um discurso fortemente politizado sobre a necessidade da defesa das instituições democráticas. Para ele, a vitória de Bolsonaro e a implementação das mudanças diplomáticas que propõe, como a retirada da embaixada da Palestina de Brasília por não reconhecê-la como nação independente, representará a destruição da influência e relação de diplomacia de longa data que o Brasil mantém com o Oriente Médio. A fala de Pinheiro vai de encontro com a de Vasconcelos. Segundo ele, “não há ninguém na Europa, seja de esquerda, seja de direita, ou mesmo de extrema direita, que acredite que Bolsonaro possa trazer avanços para a diplomacia Brasileira.”

Outro ponto muito levantado foi o papel da imprensa nesse cenário. Salem Nasser teceu críticas à forma com que os veículos de comunicação cobrem a questão da palestina. A partir de Tel Aviv, Israel, a narrativa ignora os confrontos diários e desvia o foco da questão. O exemplo utilizado por Nasser foi o de uma matéria sobre a vida noturna de Tel Aviv, publicada na manhã seguinte a um ataque a Gaza na Folha de São Paulo que sequer fora mencionado no jornal. Pinheiro, por sua, vez alertou para a importância da imprensa no Brasil. Segundo ele, é provável que os próximos anos seguirão com governo e mídia alinhados na mesma narrativa, sendo necessário senso crítico e resistência.

Painel IV – O Futuro de Oslo: Paz ou Apartheid na Palestina

No segundo painel do dia 23, a discussão dirigiu-se para a debater o “futuro de Oslo”, ou seja, as perspectivas para o conflito após, segundo os presentes, o fracasso dos acordos. Alvaro Vasconcelos destacou a necessidade de apoio para possibilitar o avanço das conquistas de direitos dos palestinos, abordando âmbitos estaduais e civis. Em explicação, comentou sobre as relações entre Europa, Estados Unidos e a questão palestina.

Em um EUA de Trump, que se posiciona em favor da extrema direita europeia e que potencializa questões que afetam diretamente a Europa, como as do Oriente Médio, Vasconcelos comenta a necessidade de países anti-Trump, não alinhados à extrema direita, formarem uma coligação de oposição, colocando a questão Palestina em sua agenda. “Mas que agenda? Qual é essa agenda, hoje?” questionou ele próprio. No pós-Oslo, Vasconcelos aponta que a ideia dos dois estados não pode ser abandonada, mesmo que não represente uma solução efetivamente palpável – não a partir do princípio da sua consolidação em si, mas da ideia de que hoje existe apenas um. Estado esse marcado pelo apartheid, em que uma parcela da população tem seus direitos limitados.

Vasconcelos vê como necessária uma aliança global em apoio à causa palestina associada à ideia de Estado em que se lute pelos direitos palestinos. Não necessariamente pautados pela ideia de um ou dois governos, mas pela ideia de estado no qual o viés seja reivindicatório.

Outra abordagem, trazida por Afif Safieh, diplomata palestino, tratou das relações históricas de opressão de seu povo, principalmente da construção opressiva dos locais colonizados e a sucessiva negação da causa palestina.

Primeiro, a negação de sua “mera existência física”, segundo Safieh. A Palestina seria “uma terra sem povo para um povo sem terra”, frase amplamente disseminada no início do século XX no momento de colonização sionista no território. Ou seja, a negação de que a terra já seria ocupada historicamente e que haveria, de fato, uma presença ali.

Destaca, também, a negação dos seus direitos nacionais e individuais. Por último, até hoje, Safieh aponta o não reconhecimento da injustiça. Constantemente, palestinos devem ouvir a banalização e trivialização de seu sofrimento.

Safieh foi incisivo na ideia de que a história não está decidida. A Nakba (catástrofe de 1948) não seria um “momento congelado na história, mas um processo contínuo”. São exemplos o contexto atual de conflito em Gaza, a demolição de casas em Jerusalém oriental, ou a realocação de 80% da população palestina da Síria. Em relação a Oslo, disse que, após 25 anos do início do processo de paz, não houve retirada de ocupação, e sim sua expansão pelo “crescimento elástico” de assentamentos israelenses ilegais. Haveria um impasse diplomático de desconsideração das reivindicações palestinas pelo Estado israelense devido a implicações territoriais.

Azzam Tamimi é um acadêmico palestino-britânico, enquanto Miko Peled é um judeu israelense. Em seus depoimentos, ambos trouxeram a questão do racismo como algo essencial na configuração da sociedade israelense e no desenvolvimento do conflito após 48.

Tamimi aponta para a impossibilidade de instauração de paz, tranquilidade e estabilidade enquanto o fator racista não fosse abordado. Relata Oslo como um episódio “escandaloso”, em que, segundo ele, não seria possível negociar paz enquanto um dos lados considera o outro inferior.

Peled iniciou sua fala destacando sua vivência como jovem israelense: privilegiado, estudou em uma escola em que predominavam brancos europeus, em um bairro bom. Enquanto frequentava uma escola boa, a “alguns quarteirões”, outras crianças, também israelenses, mas de descendência árabe, viviam em piores condições.

A tentativa de integração entre ambas escolas, que relatou como falida, e a presença do relato sobre sua infância durante sua fala, serviram para apontar novamente a segregação como um aspecto fundamental do conflito. Como resultado da consolidação e da configuração de Israel, Peled aponta para um Estado de “ideologia racista, pautado pela limpeza étnica”. Alinhando-se na abordagem internacional da questão, Peled apontou para o movimento de boicote como uma das principais saídas.

Boycott, Divestment and Sanctions (BDS), como é conhecido em inglês, o movimento refere-se uma série de medidas que pretendem desincentivar a participação e o relacionamento internacional com Israel, seja pelo corte de relacionamentos diplomáticos, sações internacionais, diminuição ou retirada de investimentos e a não presença de artistas de outros países em seu território. Segundo Peled, essa é uma das principais formas de proporcionar uma outra saída para o status quo atual.

Membros dos painéis III e IV (Imagem: Daniel Medina/ Audiovisual/ Jornalismo Júnior)

Ao todo, os painéis serviram como uma forma de evidenciar o que foi o processo de Oslo e de situar o contexto atual do conflito, permeando uma discussão ampla a respeito das diferentes esferas da problemática. Além disso, o posicionamento da discussão ficou evidente em diversos momentos e destacou a visão de uma parcela relevante da comunidade acadêmica, militante e diplomática internacional a respeito da situação. Não foi necessariamente pautado pela parcialidade, mas pela evidenciação dos fatos através de uma perspectiva menos ocidentalizada, com depoimentos e posicionamentos dos oprimidos.

J.Press
A Agência J.Press de Reportagens é um espaço destinado à publicação e divulgação de matérias com abordagens inovadoras. Vinculada à empresa Jornalismo Júnior, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a agência busca novas formas de explorar assuntos de interesse público por meio do jornalismo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *