Saúde

Da confiança à cura

A principal parte de uma consulta médica não é só o tratamento: a relação entre médico e paciente pode ser crucial no processo de cura

Por Mariana Cotrim (marirocot12@gmail.com)

Se alguém te perguntasse qual é o seu bem mais precioso, talvez não haveria uma resposta tão imediata. São várias coisas que vêm em mente quando nos questionamos: família, amigos, dinheiro, trabalho… Agora, talvez todos poderiam concordar se falássemos que a saúde pode ser um dos nossos bens mais preciosos. Não seríamos nada sem a nossa saúde. Mas quem, além de nós, a garante?

Desde a antiguidade, os médicos eram presentes na vida das pessoas. Nesse tempo, a medicina era muito relacionada à religião e magia, o médico era visto de maneira sacerdotal e os tratamentos normalmente eram rituais que levavam à cura. Com o passar do tempo, a figura do médico foi gradualmente relacionada à ciência, e a medicina em si tornou-se mais racionalizada. No entanto, um elemento que permaneceu com sua devida importância ao longo do anos foi a relação que é estabelecida entre médico e enfermo.

Na Grécia Antiga, Hipócrates, grande marco da história da Medicina, já pontuava a importância da aproximação entre médico e paciente, dizendo que “é mais importante conhecer a pessoa que tem a doença do que a doença que a pessoa tem.” Essa ideia tornou-se base também na Roma Antiga, com Claudius Galenus. Ele acreditava que o conhecimento médico deveria englobar, além da anatomia e fisiologia, a psicologia e sociologia.

Dando um pulo na história, vamos agora para as ideias de Robert Veatch, professor aposentado da Universidade de Georgetown. Veatch propôs, em 1972, quatro modelos para a relação médico-paciente. O primeiro seria o sacerdotal, em que o paciente é visto como submisso ao médico e este possui a autoridade. O modelo engenheiro seria o oposto do sacerdotal, ou seja, o paciente que tem o poder de decisão e o médico, por sua vez, só passa informações relevantes. No modelo colegial, médico e paciente estão no mesmo patamar, ambos são vistos de forma igualitária. O tipo de relação mais comum seria o contratualista, em que o médico, mantendo sua autoridade, cuida das decisões técnicas com a participação ativa do paciente nessa tomada de decisões. Dessa forma, tal relação se baseia, principalmente, na troca de informações.

Antigamente, era muito comum o termo “médico de família”. É aquele que atendia todos os indivíduos de um núcleo familiar e realmente se envolvia na vida de seus pacientes. Dessa maneira, era construído um laço de confiança muito forte entre médico e família. Aquele era o grande “salvador” para as pessoas. Hoje, com o advento dos planos de saúde, as escolhas ficam mais descentralizadas. Quando temos uma doença, normalmente nos voltamos para o livro de médicos conveniados e escolhemos o que mais nos agrada.

Não há dúvida de que, para os pacientes, há grande relevância na conexão que é estabelecida entre eles e o médico. Luciane Moreno, que possui convênio na Unimed, pensa que essa relação é tudo: “Se o médico não for atencioso, não me ouvir, não me entender, não tem mais conversa.” No Brasil, enfrentamos, ainda, a diferença de atendimentos entre pessoas que possuem convênios e as que têm que utilizar o SUS (Sistema Único de Saúde). Nosso país tem vantagem ao ser um dos únicos que apresentam um sistema de saúde público gratuito, ao qual, teoricamente, todos têm acesso. Mas não é bem assim que acontece.

Para Ana Maria Gerônimo, que vai ao posto de saúde mais próximo de sua casa, é difícil falar de uma relação entre médico e paciente. Ela passou por situações em que nem se consultava com um médico, só passava pelos enfermeiros: “Se não vemos o médico, como que faz?”. Houve um caso em que ela teve que pagar para conseguir uma boa consulta, algo difícil com seu marido desempregado. Situações como essas acontecem todos os dias.

Andrea Teixeira, aos 19 anos, está atualmente sem plano de saúde. Quando precisa, recorre ao SUS. Segundo ela, no sistema há sempre médicos bons e ruins e isso também acontece dentro dos convênios. “O grande problema do SUS é não ter médicos e estrutura para comportar uma população tão grande quanto a brasileira.” Quando teve que ir ao hospital de sua cidade, Andrea se assustou com as oito horas que devia esperar só para passar pela triagem. Além da demora, o lugar não conseguia abrigar todas as pessoas que estavam lá: havia idosos que, precisando do atendimento, esperavam pela triagem de pé por não conseguirem lugares para sentar. Nessa situação, o conforto que associamos ao ser atendido por um médico passa a ser inexistente, pois nem na espera obtemos essa qualidade.

É normal relacionar SUS com caos e insuficiência. Quando pensamos em convênios, temos outras impressões: maior conforto, melhor atendimento e rapidez. Neles, você pode escolher, de fato, os médicos com quem se consultará. Esse poder de escolha já pode fazer com que a pessoa se sinta mais confiante em relação ao profissional. Para Kátia Terra, seus quesitos de escolha podem ir desde um médico renomado, até indicações de conhecidos. Luciane sente-se confortável em saber o CRM do médico: se o número é muito recente, isso significa, para ela, que o médico ainda não possui tanta experiência.

O convênio, contudo, não poupa as pessoas de situações ruins com alguns clínicos. Como no SUS, há situações em que os pacientes não são tratados com a atenção e zelo que esperam – e que devem esperar. Lembro-me de que, quando criança, meu médico da época não acreditou na dor que estava sentindo. Isso já foi intenso pra mim naquela época. Dessa forma, a relação entre médico e paciente é colocada à prova e pode ser deteriorada. Tal consequência não seria boa, nem para o médico e muito menos para o paciente, já que uma quebra na relação poderia acarretar problemas graves para o doente.

O fato dessa conexão entre médico e paciente ser importante é de conhecimento para todos. A confiança que a pessoa tem é o que vai ajudá-la no próprio tratamento da doença. Para o Dr. Flávio Ferramola, cardiologista clínico, “50% do tratamento quem faz sou eu, com remédio e com medicação, os outros 50% dependem da relação médico-paciente.” Este deve confiar nas palavras do profissional para que, em sua casa, possa realizar o que foi receitado e aconselhado. Só assim ele conseguirá obter seu bem-estar novamente.

Além disso, uma pessoa, em seu todo, não é composta só pela parte física. Outra seção que a engloba inteiramente é a sua parte psíquica, ou seja, seus sentimentos, emoções, angústias. Para o Dr. Gilson da Silva, especializado em clínica médica, cardiologia clínica e ecocardiografia, “muitas das doenças de um paciente estão ligadas, principalmente, ao emocional.” Para que um indivíduo possa se abrir e expor seus problemas emocionais, além do quadro fisiológico, precisa ter confiança em seu médico.

Exemplo surpreendente é o caso da Síndrome do Pânico, tipo de transtorno mental em que pessoa apresenta constantemente quadros de sensações de morte eminente, taquicardia, crises de hipertensão, entre outros sintomas. Dr. Gilson diz que, se o médico tratar somente as queixas de alguém com essa condição – somente as partes físicas -, não estará, de fato, tratando a doença, uma vez que a parte psíquica permanecerá intacta. Todos os quadros físicos vão continuar a acontecer e o tratamento não será efetivo. A relação entre médico e paciente, dessa forma, não foi tão englobada psiquicamente e nota-se que essa falha ainda prejudica o enfermo.

Algo que não podemos esquecer é que esse paciente também possui uma família. Muitas vezes a conexão deve ir além do doente, até as pessoas que convivem com ele. Dessa maneira, é importante que o especialista saiba, também, como obter a confiança e zelo de pai, mãe, filhos ou netos, para que o processo de cura e tratamento seja até melhor.

Para que haja uma melhor adesão a algum tratamento, comprometimento e envolvimento nos processos de cura, é preciso uma humanização e o acolhimento do paciente. No entanto, lidar com todos esses fatores nem sempre é tão fácil para os médicos. Nely Nucci, doutora em Psicologia pela USP (Universidade de São Paulo), acredita que o maior risco para o profissional da saúde é “afastar-se da realidade de que ele também é um ser humano. Ele possui conhecimento para acolher outro indivíduo, utilizando todo seu saber, todos os recursos disponíveis, porém nem sempre suficientes.”

Há diversas áreas da medicina em que lidamos somente com o sofrimento. Talvez a que mais nos assusta é a Oncologia, ramo que lida com tumores e cânceres. Por vezes, trabalhar com uma doença tão grave e imprevisível não é ruim só para os pacientes, mas também para os especialistas. De acordo com o Dr. Eduardo Oliveira, radioterapeuta, quando um médico não consegue curar uma doença tão grave ou ajudar de toda a forma que gostaria, é difícil lidar com todo o sofrimento. “Você está filtrando aquela população com sofrimento, então começa a enxergar um mundo, talvez mais difícil, mais complicado.” O médico até afirma que, quando entrou na área oncológica, pensou em largar sua profissão, tamanho o sofrimento que presenciava e, consequentemente, sentia.

Ele não é o único. Paula Campos trabalha em outra parte da oncologia, a oncohematologia, que lida, na maior parte das vezes, com tromboses, leucemias e linfomas. Ela já cansou de chegar em casa e chorar depois de um dia intenso de trabalho. Para ajudar nesse quesito, fez uma pós-graduação em Cuidados Paliativos. Essa área “propõe aspectos técnicos de lidar com várias fases do doente terminal, o controle da dor, controle da náusea, parte psicológica, como dar más notícias.” Segundo a doutora, “quando você domina um pouco melhor a técnica, aprende a sofrer menos com isso.”

É no início da prática médica que começam as ilusões. Vários deles entram em um hospital com a expectativa de que vão salvar todos. Após os quatro primeiros anos de teoria, estudantes de medicina passam a realizar na prática o que aprenderam. Esses são os internos. Eles passam dois anos pelas principais clínicas: médica, cirúrgica, ginecológica, obstetrícia, psiquiátrica e medicina da família. Por fim, realizam uma prova para concorrer à residência. Dr. Gilson também é preceptor desses alunos e diz que muitos não têm noção do que vem pela frente.

Algo comum na ciência médica é se deparar com o dilema entre fazer de tudo para salvar o paciente ou parar o tratamento, priorizando a qualidade de vida. Médicos experientes sofrem com isso. Para o Dr. Eduardo, “mais difícil que não curar o paciente é você falar: ‘eu não posso nem fazer seu tratamento.’”

Os alunos que acabaram de começar suas práticas médicas têm um choque ao perceber que, muitas vezes, para dar uma qualidade de vida a alguém, ele não precisa necessariamente enchê-lo de exames e maneiras de salvá-lo. Dr Gilson diz que “você só vai aprender isso com o tempo.”

Outro fator importante é, como sempre, a formação psíquica do aluno. Segundo o preceptor, “há uns que sabem, estão preparados e amadurecidos para exercer a função de médico. Mas há colegas que entram num sofrimento.” A pressão que começa logo no início do curso faz com que esse aluno sinta-se menos preparado para apurar tantas informações e situações que ocorrem quando ele está em exercício de sua profissão. Muitos passam a usar drogas para se confortar, levando a outro patamar da profissão médica: a depressão e o suicídio, que foram pautas para muitas discussões nos últimos anos.

Aprender a amparar o paciente vem com o tempo, segundo Dr. Gilson (Imagem: Mariana Arrudas/Comunicação Visual)

Há outra discussão um tanto polêmica quando o assunto é medicina: a especialização. Na residência, o médico deve escolher dentre as várias especialidades para seguir sua carreira: cardiologia, neurologia, oncologia. A controvérsia está no fato de que muitos especialistas dizem que essa segmentação em áreas faz com que o médico deixe de ver o paciente como um todo. Para outros, a especialização em uma área é muito importante por um motivo simples: a medicina está sempre passando por mudanças e evoluindo. Todos os dias são descobertas novas tecnologias, formas de tratamento, modalidades e técnicas. Logicamente, um médico não consegue acompanhar essa imensidão de mudanças em todas as áreas.

É a partir daí que se torna necessária a especialização: um médico pode estar a par de tudo que acontece em seu domínio, para dar o melhor tipo de atendimento ao seu paciente. Isso não significa que ele tenha que deixar de tratar uma pessoa em seu todo. Como mencionado antes, a parte psíquica, muitas vezes, tem ligação direta com alguma doença. Dr. Eduardo pensa que, “o médico nunca deve se esquecer de que, apesar de ser um especialista ou um subespecialista, antes de mais nada, se formou clínico.Tem que enxergar o paciente como um todo além de enxergá-lo na sua especialidade.”

Para que a relação entre médico e paciente seja a melhor possível, o profissional deve possuir, ao mesmo tempo, uma visão segmentada e um olhar humanizado, para enxergar o paciente como um ser único e com uma história de vida. Isso, segundo a Dra. Nely Nucci, pode ser difícil. A psicóloga possui uma opinião interessante que diz respeito ao próprio médico: “acredito que há maior risco no não envolvimento, pois esse distanciamento pode sinalizar o medo de fracassar, a não aceitação do sofrimento e da morte, a excessiva responsabilização creditando a si mesmo o poder sobre a doença e a morte.” Depreende-se, então, que é preciso tomar cuidado com o nível de atenção que será dado ao paciente, não pelo enfermo, mas também pela saúde psicológica do profissional.

A internet é uma barreira na relação médico-paciente?

Atualmente, é quase impossível pensar em viver separado da internet. Se precisamos de qualquer informação, o primeiro lugar em que procuramos é a web. Isso acontece até quando precisamos de um diagnóstico ou até tratamento. É muito comum procurar no Google “Como tratar sintomas de uma gripe” ou pesquisar sobre alguma doença que acha que tem. Entre os pacientes, essas pesquisas são mais comuns do que parecem ser. A dúvida é: será que o advento da internet dificulta uma relação satisfatória entre médico e paciente?

Andrea Teixeira diz que consulta muito a rede e apoia esse ato, por ser benéfico até para quem busca. De acordo com ela, isso instiga as pessoas a quererem saber mais. O paciente, ao pesquisar em sites confiáveis, pode ter uma mínima noção do que ele tem e até questionar o médico para retirar todas as suas dúvidas. Por outro lado, a prática pode afetar um pouco a confiança no profissional, porque “você vai esperando uma coisa e ouve outra.” Isso pode deixar o paciente confuso.

Para o Dr. Gilson, “se há uma relação de muita confiança entre o médico e o paciente, dificilmente ele vai procurar [informações] no Google, porque confia naquilo que o médico está falando.” Se não há confiança, a pessoa usa essa ferramenta como segunda opção e, muitas vezes, acaba encontrando coisas que nem sempre estão corretas. É com isso que ela tem que tomar cuidado.

Já o Dr. Flávio Ferramola acredita que tal ferramenta atrapalha essa relação. “O paciente, às vezes, quando tem o diagnóstico, já vai pesquisar lá no Google e chega aqui previamente com as opiniões formadas. Aí você tem que provar pra ele que o que está escrito lá não é tão real quanto ele estava pensando.” Na internet, podemos encontrar diagnósticos que são mais graves do que realmente temos. É por isso que ela não é totalmente confiável.

A Dra. Paula já sugere a seus pacientes um site que ela, particularmente, gosta e acha confiável: ABRALE (Associação Brasileira de Leucemia e Linfoma). Lá, podemos encontrar opiniões de especialistas renomados que as famílias procuram. Para ela, é o melhor lugar para se obter segundas opiniões a respeito de tratamentos, já que é um conjunto de pessoas que passam pelas mesmas preocupações e, por vezes, possuem o mesmo questionamento.

Percebe-se, então, que na internet podemos encontrar informações que são confiáveis e corretas e aquelas que não possuem tanto fundamento. Para não cair em uma armadilha, a relação e confiança no médico é de grande relevância no processo, seja consultando a internet, seja com a família envolvida, seja sozinho. O que importa é essa relação, que fundamentará todo o tratamento e até, muitas vezes, a cura.

J.Press
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