Política

Ausência, generalidades e a vontade de mudança

Organizado por 11 entidades de representação estudantil de nove faculdades da cidade, debate reúne candidatos ao governo do estado São Paulo

Por Breno Queiroz (breno.rqueiroz@gmail.com) e João Pedro Malar (joaopedromalar@gmail.com)

À noite, no teatro de grande significado histórico da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), o TUCA, jovens se aglomeravam para presenciar o debate dos candidatos ao governo de São Paulo. Alguns ternos e saltos altos voltando do trabalho, outras camisetas e calças jeans que faltaram a aula.

Perdizes está acostumada com o trânsito na Rua Monte Alegre no horário dos espetáculos, mas para um evento político, a quantidade de pessoas disputando espaço na calçada era incomum. Talvez, por conta do sentimento de urgência que vem a todo brasileiro de quatro em quatro anos; com certeza, por conta das panfletagens dos militantes que faziam os passantes desviarem as suas rotas e ocupar todo espaço disponível.

O evento foi marcado pela ausência dos três candidatos favoritos para a eleição: João Doria (PSDB), Paulo Skaf (MDB)  e Márcio França (PSB). Doria e Skaf deram justificativas mais genéricas e de difícil aceitação: conflito de agenda. França, atual governador do estado, atribuiu sua ausência à uma rebelião em um presídio em Taubaté, demandando sua presença no lugar. No final, era tudo conflito de agenda. De qualquer maneira, o debate foi prejudicado pelo não comparecimento dos políticos, que também perderam um interessante espaço de campanha para um público cada vez mais importante no processo eleitoral: os jovens.

No geral, o debate se caracterizou pela falta de propostas concretas, e um grande número de críticas ao PSDB, que governa São Paulo a 24 anos. As críticas foram bastante contundentes, mas a falta de Doria, que representa o partido criticado, impediu que elas fossem contestadas, algo que estenderia o debate e teria uma contribuição muito maior para o público do que a desaprovação por parte dos outros candidatos.

Os temas debatidos eram bastante precisos em relação à realidade do estado. Tiveram destaque a questão da crise hídrica em São Paulo e os aspectos econômicos do estado, em especial o controle das contas e possíveis reformas tributárias e da previdência (a nível estadual). Também foram debatidos temas das áreas de saúde e educação, como permanência estudantil, hospitais universitários e situação do Sistema Único de Saúde (SUS). O evento também não evitou temas polêmicos, discutindo questões como cotas raciais, desmilitarização da Polícia Militar e o programa Escola Sem Partido.

As respostas dos candidatos foram, majoritariamente, previsíveis e bastante gerais, o que gerou uma sensação de despreparo. O candidato Cláudio Aguiar (PMN) se mostrou estranhamente variável: hora concordava com os candidatos mais à esquerda, hora concordava com o candidato mais à direita, deixando uma impressão de falta de lógica em seu programa de governo.

Já Rogério Chequer (NOVO) até deu respostas interessantes a cotas raciais — posicionando-se como favorável enquanto as diferenças socioeconômicas entre negros e brancos existirem — e programas de transferência de renda a nível estadual — também sendo favorável. A plateia, porém, apenas reagiu de forma mais enfática às suas falas quando confirmaram opiniões esperadas do candidato, em especial quando se colocou contrário à desmilitarização da PM e a favor do Escola Sem Partido. As reações, interrompendo a fala do candidato e causando uma confusão no teatro, são até esperadas em eventos políticos, mas desnecessárias, e em nada contribuem para o debate. Chequer também insistiu em um discurso de crítica à velha política, se colocando como uma renovação.

Já no âmbito da esquerda e centro-esquerda, o candidato Luiz Marinho (PT) se destacou pela falta de carisma, além de uma pequena gafe em uma de suas respostas: criticou o Escola Sem Partido, e na síntese disse se disse a favor. “A favor de tomar partido”, reparou depois da reação da plateia. Ele também buscou citar a figura do ex-presidente Lula, uma estratégia muito utilizada por candidatos do seu partido para atrair mais votos. A plateia também foi um importante aliado do ex-prefeito de São Bernardo, apoiando e aplaudindo praticamente todas as suas falas, incluindo as de pouquíssimo conteúdo e, até, sentido. Da sua fala, se destacaram uma proposta interessante na área de transporte, com uma expansão das malhas dos modais atuais, e uma promessa de mais autoridade por parte dele, caso eleito governador, em relação ao combate ao crime.

Marcelo Cândido (PDT) foi uma surpresa. Com uma candidatura de última hora, criada para que Ciro Gomes, candidato à presidência do mesmo partido, tivesse um palanque no estado, seria justo esperar um grande despreparo por parte do ex-prefeito de Suzano, mas isso não ocorreu. As respostas do candidato mantiveram-se no mesmo nível dos outros, e Cândido teve um carisma maior que a maioria de seus adversários. Mesmo assim, suas propostas mantiveram o grau de generalidade dos outros convidados. Dois pontos se destacaram na fala do pedetista: uma política de transporte com investimentos no ferroviário e hidroviário, e um foco muito grande à simbologia da possibilidade de São Paulo ter o seu primeiro governador negro, extremamente importante e significativo.

Mas o grande destaque da noite foi Lisete Arelaro (PSOL). A professora demonstrou um grande carisma e bom humor, e em vários momentos quebrou a atmosfera cansativa do debate. Arelaro teve um apoio significativo da plateia, que se manifestou de forma enfática após a maioria das falas da candidata, em especial quando se posicionou a favor da liberalização das drogas como uma forma de combate ao PCC e defendeu o Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (HU-USP), que havia sido criticado anteriormente por Rogério Chequer. A candidata também destacou a importância representativa da sua candidatura. Assim como Cândido é o único candidato negro ao governo, Arelaro é a única candidata mulher.

O debate também contou com um momento midiático, quando o candidato Cláudio Aguiar tirou do bolso do paletó um saco de ração, e disse que queria presenteá-lo para o candidato João Doria, em uma clara alusão, crítica, à proposta de distribuição de farinata nas escolas da cidade de São Paulo. Foi difícil até para a jornalista Regiane Oliveira, que mediava o debate, segurar a risada.

Os melhores momentos do debate vieram com o embate de ideologias diferentes. Como Rogério Chequer era o único representante de um partido mais à direita no espectro político, era apenas quando ele perguntava ou respondia perguntas feitas pelos outros três candidatos da esquerda que esses momentos ocorriam. Isso representou, também, mais um motivo para lamentar a ausência dos três candidatos já citados, que enriqueceriam o debate com a apresentação de pontos ideológicos distintos dos da esquerda. No geral, quando um candidato da esquerda se dirigia a outro, pouca novidade surgia.

O contexto geral dessas eleições parece ser a necessidade de mudança, expressa nas falas de alguns candidatos, como Marcelo Cândido (PDT): “É preciso resgatar a política como instrumento de mudança.” Fora do TUCA, em rodinhas como é de costume, alguns jovens dividiam suas impressões sobre o debate, e ao que tudo indica, nada mudou. “Agora eu sei em quem não votar.” disse a estudante Bianca Quartiero, reclamando também dos extremismos na plateia, que impediram algumas falas. O anseio é por políticos novos, mas a expressão do público continua sendo passiva, à espera de pelo menos um debate com falas diferentes.

Link para a transmissão ao vivo do debate: https://www.facebook.com/universidadevaiasurnas/videos/429826980757600/?t=9

J.Press
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