Educação

Estudantes de medicina e onde habitam

Vestibulandos largam a vida no Brasil para realizar o sonho de se tornarem médicos

Por Renan Sousa (renan.sansou97@usp.br)

Prólogo

Ela estava com a cabeça baixa sentada no banco quando eu cheguei. Disse, rapidamente: “Se eu não passar aqui, vou ter que ir pra Argentina”.

Conexão estabelecida: Argentina – Brasil

Os quatro estudantes se espremiam no pequeno retângulo que era a tela do meu celular. Dois rapazes, duas moças. Pedi que uma delas gravasse o áudio e me mandasse a entrevista assim que terminássemos. Começamos uma entrevista que durou mais de uma hora e meia.

Todos são recém ingressantes em um curso de medicina, e o motivo de estarem espremidos em uma tela de celular é porque estão a dois mil e duzentos e dezoito quilômetros da minha localização – segundo o Google Maps. Tratam-se de estudantes da Universidade de Buenos Aires (UBA), que tem recebido um número crescente de estudantes nos últimos três anos.

Matheus Eduardo dos Santos, 17 anos, é o primeiro a falar. Ele se autodenomina um “calango” (nome de lagarto típico do Centro-Oeste) e empolga-se e gesticula muito ao falar. Conta como foi chegar na universidade e é um dos mais altivos (e ativos) do grupo.

Matheus Eduardo dos Santos. “Eu ainda volto pra terminar umas histórias que deixei incompletas aí” (Imagem: Danilo Rodrigues, Amanda Silva e Giovanna Alves)

Danilo Rodrigues de Assis, 20 anos, é o mais sério, porém muito prestativo. Considera bem as palavras antes de dizê-las e parece sempre estar vasculhando a melhor história para cada pergunta que faço. Deixou aqui no Brasil uma lista de 32 vestibulares realizados e nove listas de espera.

Danilo Rodrigues de Assis. “Meu avô sempre me dizia: você tem que ir atrás dos seus sonhos. Faz dois anos que ele faleceu e eu ainda me lembro dele falando isso” (Imagem: Matheus Eduardo, Amanda Silva e Giovanna Alves)

Amanda Francielle Silva, 20 anos, foi a única que contou que já tinha iniciado uma faculdade. Fez engenharia civil durante três meses, muito mais para agradar o pai. Em 2015, ela firmou contrato com a agência de intercâmbio para iniciar seus estudos, mas acabou indo só esse ano.

Amanda Francielle Silva. “Eu tô aqui faz só um mês. Deixa eu sentir saudades mais pra frente” (Imagem: Danilo Rodrigues, Matheus Eduardo e Giovanna Alves)

Giovanna Alves da Silva, 20 anos, ficou sabendo da possibilidade de se formar no exterior através da mãe, que é enfermeira, e ouviu falar do curso. Apesar de um semblante sério enquanto falávamos, ela resguardava alguns sorrisos para as histórias que viria a me contar. Ela falava um pouco mais ansiosa que os demais, aquilo sempre me deixava mais nervoso. Queria que as coisas fossem perfeitas pra ela.

Giovanna Alves da Silva. “Eu vou vivendo um dia de cada vez aqui” (Imagem: Danilo Rodrigues, Matheus Eduardo e Amanda Silva)

Eu me perguntava se os rostos eram sérios por estarem sendo entrevistados, ou se era requisito da profissão.

Curiosamente, no mesmo dia em que entrevistei esses estudantes, havia tido  minha primeira experiência com reportagem de campo. Fiz minhas primeiras perguntas da carreira, tanto frente a frente quanto em grupo. Apesar de estar com as perguntas em mãos, nos dois casos gaguejei muito.

O que me interessou no motivo destes jovens largarem suas famílias, amigos, rotina e, de certo modo, suas vidas aqui foi a resistência que encontraram para cursar medicina. Apesar do Brasil ser o segundo país com maior quantidade de escolas de medicina no mundo (313 escolas) – perdendo apenas para Índia (381 escolas) e ficando muito acima do terceiro colocado, China (150 escolas) -, quase 58% delas estão na rede particular, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2017.

Mas o problema não é o tipo de administração, e sim o custo. A maior mensalidade que pude encontrar, segundo dados do Escolas Médicas do Brasil, foi da Faculdade São Leopoldo Mandic (SLMANDIC), em São Paulo, no valor de R$12.191,00. A segunda mais cara é a Universidade do Oeste Paulista, em Presidente Prudente, R$9.840,00. Se esses valores assustam, pela modesta quantia de R$3.641,24 por mês, é possível ingressar no Centro Universitário UnirG, em Gurupi (TO).

Se a opção é ir para o sistema público, o problema é ainda mais grave. As três principais instituições de ensino do país, segundo diversos rankings universitários pesquisados (Ranking Folha Universitário, o RUF, e a EXAME), apontam a Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade de Campinas (Unicamp) como os melhores centros de ensino. Dos quatro estudantes, apenas Eduardo não prestou vestibular no Brasil, e os demais prestaram mais de uma vez. Em 2018, a relação de candidatos por vaga na Unesp foi de 266,2. Na Fuvest, foram 135,7. A Unicamp chegou a 278,9.

E os problemas não param por aí. Uma vez dentro do curso, é preciso lidar com a falta de recursos. Segundo dados do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), em 2016 o repasse de 9,57% do ICMS (Imposto Sobre Circulação De Mercadorias e Serviços) – que é a porcentagem que financia boa parte da universidade – , foi o menor em sete anos. Como o imposto está atrelado ao consumo, a queda do poder de compra da população diminui o orçamento disponível.

Ao perguntar os motivos que os fizeram escolher por ir para fora, Eduardo me cita mais um. “Existe muita corrupção na UnB, muita compra de vaga. Chega a ter panelinha de filho de deputado”.

Os demais citam os mais diversos motivos. Dentre eles, o fato de a UBA, segundo rankings internacionais, estar entre as melhores faculdades da América Latina. Mas o caso mais curioso foi o que Amanda me contou. Ela sempre teve uma paixão pela Argentina: “Eu aprendi até a dançar tango”. Talvez os demais, por já terem convivido com esse fato há mais tempo, não estranharam. Eu estranhei. Nunca havia conhecido alguém que dançava tango.

Onde estão os negros na Argentina?

Essa é a pergunta que motivou o mestrado de Denise Braz, que defenderá sua dissertação em maio, após uma viagem à Argentina. Ela contou que não foi um trabalho fácil desenvolver, pois, apesar de já existirem pesquisas sobre o tema, a maioria são de homens brancos. Mesmo dentro da Universidade de Buenos Aires, seus próprios professores não estavam acostumados a dar aula para mulheres, principalmente negras, como ela viria a me contar mais tarde: “Em um prédio de cinco andares, eu era a única mulher negra”. No elevador que pegava para a sua sala de aula, no quinto andar, ela chegou a ver uma placa onde se via escrito: “O mundo seria melhor sem judeus, gays e negra [no singular e no feminino]”. Aquele cartaz era para ela.

Sua experiência, tanto como pesquisadora quanto como turista, demonstra que os negros ainda são tratados como exóticos, como ela conta em sua tese: “Na Argentina, as pessoas fenotipicamente negras chamam muita atenção. O corpo negro é um corpo visto como exótico, não apenas no sentido literal da palavra, de ser estrangeiro, mas por parecer um corpo ‘estranho’”. Denise também explicou o porquê disso. Ela conta que o corpo étnica e fisicamente diferente chama atenção, e é hiperssexualizado de tal maneira que a invasão chega até mesmo a aspectos violentos.

Os relatos dos estudantes não são diferentes de Denise. Giovanna já sofreu com isso mesmo antes de sair do Brasil – no embarque. “Fui a penúltima pessoa a entrar no avião. Eu tava chorando por ter que me despedir da minha família. Um homem puxou assunto, ele sabia que eu tinha namorado, e me assediou mais de uma vez. Tentou me beijar mais de uma vez”.

Os paralelos são tão correlatos que, em determinado ponto da pesquisa, Denise escreve: “Algumas perguntas são bem invasivas, nada inocentes, nos tiram do sério. Separei as duas mais comuns. A primeira: ‘De onde você é?’. Esta pergunta não nasce da curiosidade simplesmente, ela nasce do mito equivocado de que não existem negros argentinos: portanto, aqueles que aqui estão são todos estrangeiros.” A outra pergunta a qual Denise se refere é de quanto cobravam pelo programa – sem nem ao menos saber se a pessoa trabalhava no ramo sexual. Ela conta de coisas que considera bizarras, como gente batendo o ombro, cuspindo em sua direção. Nas demais situações, são preconceitos mais velados, como pensar que ela, por ser mulher e negra, não é uma pesquisadora, e sim uma empregada, acompanhante ou prostituta.

Mas Denise me dá um toque de esperança. “A raça negra é guerreira, ela é (sic) foda. Se pegar alguma coisa pra fazer, vai fazer bem. O negro tem que ser muitas vezes melhor”. Ela me conta da perseguição em todos os espaços, a pressão que o negro tem de se destacar. E isso, para ela, causa estresse físico e intelectual. Buscar emprego, então, para ela é o fim. “É muita tensão. Todo contexto te diz que você não é dali, desde a faculdade, até o alto emprego”.

Giovanna, por outro lado, conta de uma vez que foi em uma balada com os amigos e, novamente, a trataram como exótica. “Na balada, eu sentia as pessoas puxando meu cabelo, tocando meu cabelo, por ser black [black power].”

Os meninos não passam tão distantes dessa situação. “O que mais cê escuta é: argentino é racista, argentino é racista”, batendo o punho na palma enquanto repete “racista”. “Até parece que eles nunca viram um negro na vida”, enfatiza Danilo. Diversas vezes, contam em tom zombeteiro, que as meninas não tinham o menor pudor com eles na balada. Danilo já teve a camiseta quase arrancada e Eduardo fora beijado à força várias vezes.

Eles arrumam uma espécie de explicação para isso: “[Quando você é negro] acham que você é ator, jogador, famoso”, diz Eduardo, que não foi, até agora, discriminado pela cor. “No Brasil existe muito mais racismo que aqui”. Danilo discorda. “Mudei de país e nada muda. O negro sempre vai ser visto de maneira diferente. Todo mundo se espanta: o negro é médico, o negro é biomédico. Todo mundo vai olhar, e falar ‘Nossa, você é negro e fez uma faculdade’”. Um negro nunca é apenas médico, ou biomédico. É sempre negro médico, negro biomédico. “Nunca é uma coisa sozinha”.

Essa frase dele me chocou um pouco na hora e, transcrevê-la, me fez pensar ainda mais. Ficou ecoando: “Mudei de país e nada muda. O negro sempre vai ser visto de maneira diferente”.

O trauma

“A questão negra e a questão LGBT se resumem a uma palavra: trauma”, diz Giovanna.

A Argentina é um dos países mais seguros da América Latina. A cidade de Buenos Aires registrou uma taxa de 6 homicídios para cada 100 mil habitantes no ano de 2016, bem diferente de São Paulo, com 9,5 por 100 mil habitantes – lembrando que a população da Grande São Paulo é muito maior. Mesmo assim, Eduardo, Danilo e Giovanna relatam que sentem medo de saírem sozinhos sem a identidade. A primeira vez que foram sair em grupo para correr em um parque próximo à universidade, Danilo levou o RG e pediu para Giovanna carregá-lo.

Eduardo faz um adendo sobre a polícia: “No Brasil os policiais andam armados, fardados. Aquilo representa força, opressão. Aqui não. Os policiais andam de camiseta, gola polo, sapato. Isso não te remete à repressão. Me remete a uma maior segurança”.

O trauma não é só quanto a questão racial. Amanda, que se assume bissexual, também sofre sua parcela de preconceito. “Ser bissexual é um agravante. Já tomei umas encaradas por causa disso. Se você assume numa festa pros amigos que é bi, homo, ou gay, [no Brasil] é possível que você fique sozinho [na balada]. Aqui, fazem uma ou outra piadinha sem graça, mas é questão de se acostumarem”.

A Argentina é considerada um dos países da América Latina onde os direitos aos LGBT+ são mais respeitados e garantidos. A própria cidade de Buenos Aires vende o chamado “turismo LGBT+”, com uma programação fixa de casas e bares. “[Os argentinos] respeitam, são bem tranquilos”, ela diz.

Bye bye Brasil

Dos quatro, apenas Eduardo e Giovanna disseram que pretendem voltar para o Brasil. “Tenho que terminar algumas histórias que deixei para trás aí’, ele disse. “Mas ainda não posso responder à pergunta”. Houve um denominador comum a todas as respostas: as saudades de casa, da família. Amanda fala de maneira saudosa: “Tenho saudades de acordar com meu pai fazendo café”.

Curiosamente, nas considerações finais, Danilo levanta uma questão: a limpeza na hora de comer. “É triste”, afirma. “No Brasil, é sujou, lavou. Aqui é sujou, usou mais três, quatro vezes, lavou.” Eduardo concorda. “O Brasil é mais organizado com a comida. A gente é mais chato. Brasileiro gosta de panela areada”. Ele também atenta para a questão da alimentação: “Aqui a alimentação é melhor, tem muita frutaria, a salsicha dos caras não tem corante. Mas a gente é mais organizado na comida.”

Eduardo, sempre relacionando as perguntas à questão negra, também volta ao assunto nesse ponto. “Eu sou sincero. Negro se dá melhor com negro. Desculpa, Amanda, mas é verdade”. Todos riem. “A gente entende melhor um ao outro. Eu entendo o que aconteceu com a Giovanna. A gente carrega essa herança, essa cultura”.

A maioria das falas finais dos entrevistados foram beijos para mães, pais, “amigas” íntimas. Muitos tons de saudades e suas cores variadas. Giovanna. Ela me mandou dez minutos de áudio de considerações finais.

“A entrevista foi muito boa, coração. Acho que a matéria vai ficar bem legal. Os dias são meio difíceis aqui, sem você, sem meus amigos e minha família. Tô tentando viver um dia de cada vez. As coisas que eu tô passando aqui vão valer a pena quando eu voltar. Mas a gente vai passar por isso juntos. Eu agarrei a oportunidade que você disse pra eu agarrar e eu tô me esforçando pra fazer valer a pena tudo isso. Tô com saudades, não esquece de comer alguma coisa agora, você deve estar cansado. Vê se não bebe demais. Te amo.”

“Cuidado, benzinho / não beba demais/ se guarde para mim / a ausência é um sofrimento / e se tiver um momento / me escreva um carinho”. Coloco para ouvir e fico com aquele momento de saudades. Fecho o Word no notebook e me sirvo uma taça de vinho. Fim de um dia de entrevistas.

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One thought on “Estudantes de medicina e onde habitam”

  1. “A cidade de Buenos Aires registrou uma taxa de 6 homicídios para cada 100 mil habitantes no ano de 2016, bem diferente de São Paulo, com 9,5 por 100 mil habitantes – lembrando que a população da Grande São Paulo é muito maior. ”

    Correção: essa taxa aí já considera a diferença de população das cidades.
    É a cada 100 mil habitantes, ou seja, é proporcional ao tamanho de cada.
    São Paulo e Buenos Aires têm taxas de homicídios parecidas, com São Paulo sendo levemente maior.
    Com a diferença que em Buenos Aires os dados não são confiáveis, como diversas ONGs já mostraram.

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