Sociedade

Em um relacionamento sério com a internet

De que maneira as redes sociais influenciam o modo como as pessoas interagem e amam?

Por Mariah Lollato

 

“Ela me ligou
Naquela tarde vazia
E me valeu o dia”
Tarde Vazia – IRA! (1986)

 

Eduardo e Mônica trocaram telefone
Depois telefonaram e decidiram se encontrar
O Eduardo sugeriu uma lanchonete
Mas a Mônica queria ver o filme do Godard”
Eduardo e Mônica – Legião Urbana (1990)

 

Eram outros tempos. Para que duas pessoas se encontrassem, precisavam combinar pessoalmente. Nada de WhatsApp. Para se falarem, apenas usando um telefone fixo ou pelo orelhão. A primeira rede telefônica chegou ao Brasil em 1877 e foi instalada no Rio de Janeiro, ligando o Palácio da Quinta da Boa Vista às residências dos Ministros do Imperador. Já o primeiro “orelhão” – mesmo que só tenha recebido esse apelido décadas depois, quando se popularizou em São Paulo e no Rio de Janeiro – chegou em 1935. Vinte e sete anos mais tarde, é criado o Código Brasileiro de Telecomunicações e começa a fase institucionalizada da telefonia no Brasil.

Oséias Souza, de 51 anos, conheceu a segunda namorada aos 20. Ele conta que os dois trabalhavam, mas se falavam todos os dias por telefone: “Nem que fosse em uma conversa rápida, nós nos falávamos.” Ambos estudavam na Universidade de São Paulo (USP) quando se conheceram, ele de manhã e ela à noite. No último ano, Oséias transferiu o curso para o período noturno. Passaram a fazer companhia um para o outro na volta de ônibus para casa, o encanto foi mútuo e logo o namoro começou. Moravam na Zona Norte e, até certo ponto, seus caminhos eram parecidos. Mais tarde seriam ainda mais, pois acabaram por se casar.

Regina Sant’Ana, hoje com 53 anos, conta que, na adolescência, ela e as amigas costumavam marcar, por telefone ou durante as aulas, programas para o final de semana. Gostavam muito de ir ao cinema. Combinavam o horário, depois passavam uma na casa da outra para irem juntas. Ela se lembra da primeira vez que o fez, quando foi assistir a versão original de “King Kong (1933): “O cinema estava lotado, é uma das melhores memórias que eu tenho.” Adorava também ir a “bailinhos” com seus amigos. “Nós combinávamos no sábado, em alguma das casas. Colocávamos a nossa vitrolinha – era disco de vinil – e íamos dançar. ”

Roberto Castro, de 58 anos, diz que sempre sabia onde encontrar os amigos quando era mais jovem: “Antigamente, tínhamos um point. Ou era um trailer, ou era uma praça, ou era uma esquina de rua.” Para avisar os pais, só pessoalmente, antes de sair de casa. O que ele mais gostava de fazer era jogar bola na rua. Jogava futebol, basquete e conta que dava até para montar rede de vôlei. Com 16 anos, começou a ir aos bailes dos clubes, que aconteciam de domingo. Saía de casa, conversava com os amigos e dançavam juntos. Depois, faziam companhia uns aos outros na volta para casa.

Os telefones celulares começam a ser vendidos em 1983. No país, a tecnologia só chega sete anos depois, no Rio de Janeiro, mas sua difusão caminha a passos lentos. Regina ainda se lembra do primeiro aparelho que comprou, já em 2000: “Era grande, pesado e tinha botões grandes. Era um ‘tijolão’”. Em 1992 surge o FAX. Três anos mais tarde, a internet comercial chega ao Brasil.

Essa mesma geração que cresceu ouvindo Os Paralamas do Sucesso, Cazuza, Titãs, Tim Maia, Michael Jackson, Madonna, The Police, Bon Jovi, The Cure, Metallica e AC/DC, na infância brincava de bolinha de gude, empinar pipa, gato mia, corre cotia, passa anel, telefone sem fio, elástico de pé, amarelinha, pular corda e peão.

Talvez fossem tempos mais calmos.

Segundo Daniel Vitorello, psicanalista e doutor em psicologia clínica pela USP, as redes sociais, a internet e outros aspectos da contemporaneidade têm a capacidade de mudar a maneira como as pessoas se relacionam com o tempo e o espaço. Ele explica que o filósofo Immanuel Kant define o tempo e o espaço como “formas a priori de sensibilidade”. São noções internas que os indivíduos têm a respeito do mundo e servem para que possam organizá-lo. Além dessas noções, existem também manifestações externas que este mundo atira a eles, e na junção dessas duas esferas, se forma o que conhecem por realidade.

No mundo virtual, a velocidade com que as informações são buscadas, acessadas, compartilhadas, e a rápida variação de seus formatos – vídeo, imagem, som, escrito – fazem com que a percepção interna de tempo se altere. As pessoas passam a sentir como se tudo estivesse mais “rápido”. Já a possibilidade de acessar dados de diferentes lugares, em diferentes lugares, de assistir a cenas que não aconteceram perto delas e de ter contato com pessoas distantes faz com que tenham a sensação de que os espaços são menores e de que tudo está mais próximo. Isso se reflete na maneira como “estão sempre correndo”, diz. Sentem que tudo tem que acontecer de maneira rápida e instantânea. Como se, nas palavras do psicanalista, tivessem que “comer rápido, para voltar a trabalhar rápido, para ir rápido para o happy hour, para acordar cedo no outro dia.”

As redes sociais surgem como meio facilitador da comunicação, mas também como ferramenta de viver vertiginosamente (Imagem: Lígia Castro/ Comunicação Visual)

Além disso, segundo Vitorello, o medo do desamparo e de não ser amado é algo intrínseco à existência humana. Devido a esse medo, as pessoas sentem uma necessidade constante de checar suas redes sociais, para garantir que não estejam  perdendo nada. Isso pode gerar ansiedade. Na opinião do especialista, as redes sociais são uma porta de entrada para tudo que se passa ao redor de um indivíduo e é como se ele tivesse que se assegurar de que “não está acontecendo uma festa no mundo e só ele não foi convidado”. Assim, o psicanalista afirma que as pessoas passam o tempo todo a olhar se alguma mensagem chegou, se têm algum email novo, o que está acontecendo no Facebook, onde todos estão e se receberam alguma notícia pela qual esperavam.

Soma-se a isso, ainda, a questão de que a conexão constante as impede de estar de fato sozinhas. Esses momentos de solitude, contudo, são algo necessário para que se tornem seres humanos emocionalmente mais saudáveis. É durante esses períodos que os indivíduos refletem, criam, pensam e entram em contato consigo mesmos, se  reorganizando internamente. Daniel Vitorello afirma que “o ócio pode ser criativo, pode ser um momento de mudança na vida, de transformação interna.”

Antes de existir a voz, existia o silêncio

É também nesse ambiente que, de maneira contraditória, surgem vozes que não teriam espaço nos meios de comunicação convencionais, acostumados a adotar o ponto de vista branco, masculino e heterossexual. Neste contexto, a internet se constitui como um ambiente democrático e independente – ao menos em comparação com os veículos tradicionais -, onde pode-se construir o próprio conteúdo sem grandes custos, com a possibilidade de que ele seja visto por milhões de pessoas.

As produtoras de conteúdo digital, e mulheres negras, Nátali Nery, Ana Paula Xongani, Xan Ravelli, Gabi Oliveira, Sá Ollebar e Aline Custódio são exemplos disso. Em seus canais no YouTube, falam sobre temas como apropriação cultural, racismo, beleza, autoestima e empoderamento. Na apresentação de sua página, Sá Ollebar afirma existir um apagamento das mulheres negras nas principais mídias, que precisa ser combatido: “Para nós, que pensamos em construir um mundo mais representativo, é importante que todo negro se posicione – cada qual com a sua forma. Eu tenho uma câmera, um espaço e algo que ninguém pode me tirar: meu conhecimento”.

Aline Custódio, dona do canal Preta Aline Custódio, diz que começou por acaso. “Sempre gostei de maquiagens e sentia falta de produtoras de conteúdo para pele negra. Eu gosto de cores e não achava pessoas que falassem de maquiagem colorida para nós, era como se não pudéssemos usar.” Conversando com suas seguidoras, ela nota que formam uma corrente: “uma inspira a outra sem saber”.

Em outra esfera, ainda, Oséias conta que é dono de uma loja de aparelhos auditivos. Ele começou do zero e não tinha nenhum contato. Sem a internet teria sido impossível iniciar o projeto. No “boca a boca”, ele diz, não teria conseguido clientes. Para começar, ele precisaria de algum tipo de associação com hospitais ou médicos, algo muito difícil de se conseguir quando não se é do ramo. Mas, segundo ele, “hoje você pode começar do nada”. Diz: “através da internet, do Facebook e do Google, consigo captar clientes”.

Ao contrário do comércio físico, em que é necessário um alto investimento inicial em infraestrutura, equipamentos, mobília, funcionários – além dos impostos -, o comércio eletrônico permite vendas, produção e lucro de dentro de casa. Isso abre espaço para que pequenos investidores, que no sistema tradicional seriam engolidos pelos de maior capital, empreendam e se tornem parte da economia.

Voe por todo mar e volte aqui

Oséias conta também que, há anos, se divorciou de sua primeira mulher. Por essa razão, não mora mais com os dois filhos mais velhos. Eles vivem com a mãe, em outro bairro de São Paulo. Tentam se encontrar ao menos uma vez na semana, mas nem sempre conseguem. Apesar disso, se falam praticamente todos os dias através da internet e continuam ainda muito próximos.

De uma geração diferente, Isabela Ono, de 18 anos, e Guilherme Lançoni, de 19, estudaram juntos no Ensino Fundamental. Apesar disso, eram de turmas diferentes e não costumavam se encontrar. Ele gostava mais de sair com seu grupo e ela de estudar. Só chegaram a se conhecer de verdade no primeiro ano do Ensino Médio, quando caíram na mesma sala. Se tornaram muito amigos e mais tarde se apaixonaram. Hoje, Isabela mora em Botucatu, e Guilherme, nos Estados Unidos. Vão fazer quatro anos de namoro.

Somente seis meses antes da partida, os dois ficaram sabendo que Guilherme iria se mudar. Ele conseguiu, por meio do futebol, uma bolsa para estudar em uma faculdade dos Estados Unidos. Apesar da distância, não quiseram terminar o relacionamento. Os primeiros seis meses foram mais fáceis. Isabela já estava acostumada com sua rotina no Brasil e Guilherme estava em temporada de jogos. Hoje, Guilherme mora fora do país há um ano e eles pensam em se mudar para mesma cidade quando se formarem.

Os dois mantêm contato por WhatsApp e ligações de vídeo, e se encontram no Brasil durante as férias. Isabela conta: “Encontramos o amor na ligação do FaceTime. Naquelas duas, três semanas que ele passa aqui, quando podemos nos ver todos os dias. Não é como se já soubéssemos de tudo na vida ou já tivéssemos descoberto tudo o que temos para descobrir. Mas eu sei que o que eu sinto por ele é amor.”

O psicólogo Daniel Vitorello afirma que proximidade física não significa proximidade subjetiva. Da mesma maneira, distância física não significa distância subjetiva. Há uma obra do pintor surrealista René Magritte chamada “Os Amantes” (1928), em que duas pessoas aparecem se beijando enquanto têm panos sobre suas cabeças. Não conseguem se ver. É como se estivessem próximas, mas não se conhecessem verdadeiramente. A pintura mostra que relacionamentos não se baseiam em distâncias físicas. E sobre os relacionamentos à distância, Vitorello afirma: “as pessoas se amam, amam igualmente”.

Se as redes sociais existissem, Roberto Castro talvez não tivesse jogado bola na rua. A surpresa de uma ligação no meio da tarde nunca teria sido sentida e amarelinha não seria uma brincadeira tão popular. Se as redes sociais não existissem, pessoas LGBT+, negras e mulheres continuariam sendo silenciadas pela mídia e Oséias não teria sua loja de aparelhos auditivos. Guilherme e Isabela não teriam planos de passar juntos muitos anos mais.

Pode ser fácil olhar para o passado com saudosismo. É um tempo distante. É mais simples romantizar algo quando não se faz parte daquilo. Vistas de longe, as imperfeições de um objeto são escondidas. Mas todos os momentos, assim como todas as situações a que somos submetidos, abrem caminho para diversos entendimentos. E assim, na junção dessas facetas, se constrói a realidade.

J.Press
A Agência J.Press de Reportagens é um espaço destinado à publicação e divulgação de matérias com abordagens inovadoras. Vinculada à empresa Jornalismo Júnior, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a agência busca novas formas de explorar assuntos de interesse público por meio do jornalismo.

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