Cultura

Sol nascente e tropical

Nipo-brasileiros miscigenados contam como é pertencer a dois mundos diferentes.

Por Júlia Mayumi (juliamayumi@usp.br)

Em 1908, o navio japonês Kasato Maru desembarcou 781 imigrantes — os primeiros de um grupo que formaria a maior comunidade japonesa fora do Japão, com cerca de 1,5 milhão de pessoas. Trabalhando principalmente nas fazendas de São Paulo e Paraná, suas passagens eram subsidiadas pelo governo brasileiro, que buscava substituir a mão-de-obra dos negros libertos. Vigorava naquele momento a ideia de que era necessário embranquecer a população brasileira, e por isso incentivou-se a migração de europeus e japoneses — que, apesar de não serem brancos, ainda assim tinham pele clara.

A comunidade começou a crescer e se desenvolver até a época da Segunda Guerra Mundial, quando tornou-se proibido utilizar idiomas oriundos de países do Eixo, bem como praticar suas tradições. Dessa forma, a comunidade japonesa sofreu diversas repressões, tendo seus bens confiscados e chegando a ser expulsa de Santos em 1943. Com o fim da Segunda Guerra, as relações entre os dois países vão se pacificando, e as primeiras empresas japonesas chegam em 1953.

Aos poucos, os japoneses começam a se integrar e se destacar no Brasil. Política, comunicações, engenharia e muitas outras áreas passaram a ter nomes como Yamashiro, Onaga, Mabe e Yassuda em suas listas de influências. Marília Bonas, coordenadora do Museu da Resistência, destaca o papel dos nikkeis na luta contra o golpe de 1964: “Foram nove presos, oito deles dados como desaparecidos. É um número impressionante, considerando o tamanho da comunidade no período; muitos vinham do interior para militar contra a ditadura e se engajavam na luta armada no limite”.

A formação dos lares birraciais

“Ana Carolina Guedes, 19 anos. Foto cedida pela fonte.”

As miscigenações entre membros da colônia japonesa e pessoas de outras etnias são mais comuns a partir do final da década de 80, e os casais interraciais, de início, sofriam com o preconceito por parte de suas famílias. “Quando meus pais estavam namorando, meus avós não aprovavam o meu pai porque ele era ‘gaijin’”, conta Ana Carolina Guedes, de 19 anos, estudante de História. “Gaijin” é a abreviação de “gaikokujin”, um termo pejorativo para “estrangeiro”. Isso se devia ao fato de a comunidade japonesa ser bastante fechada. Além da dificuldade em se misturar devido à aparência muito distinta e às barreiras linguísticas, a própria cultura japonesa tem a família como instituição de grande importância. “Os japoneses têm grande ligação com a ancestralidade, com a tradição. Para manter isso, a comunidade acaba sendo mais fechada”, explica Marília Bonas.

Ayumi Domingues, 21 anos, estudante de Psicologia, conta que uma tia-avó, japonesa, não simpatizava com ela e sua irmã por serem miscigenadas. “Ela nunca nos tratou como merecedoras do respeito dela; era sempre ‘lá vem as mestiças’, como se fôssemos uma coisa.”

Muitas famílias birraciais optaram por não perpetuar as tradições nipônicas. “O meu contato era quando eu ia à casa da batian e do jiichan, era algo mais distante mesmo.”, conta Hideo Fujino, 22 anos, estudante de Relações Internacionais, comentando as visitas à casa dos avós. Na casa de Ana Carolina era semelhante: “minha mãe se afastou um pouco da cultura japonesa, ela não propagava nenhum aspecto propositalmente. Eu tinha o mesmo acesso que qualquer criança brasileira tem”. Marília Bonas explica que os descendentes de imigrantes muitas vezes deixam de lado alguns aspectos de suas origens: “A primeira geração é muito grata ao Brasil; a segunda geração é de brasileiros que já não têm necessariamente essa identificação com a origem dos pais, e a terceira geração romantiza esse processo”.

“Hideo Fujino, 22 anos. Foto cedida pela fonte.”

As uniões de famílias amarelas e famílias brancas costumam trazer estranhamentos, principalmente da parte nipônica, mas as dificuldades aumentam quando se trata da inserção de pessoas negras nesses espaços. Devido a diversos fatores históricos, a comunidade japonesa tem o racismo como elemento presente em seu discurso, de maneira geral. É muito difícil que uma família tradicional japonesa aceite negros em seus círculos sociais. Isso acaba trazendo muitas dificuldades para pessoas que são fruto desses relacionamentos, isto é, afro-asiáticas.

Camila Yuri, 20 anos, estuda Ciências Sociais, é filha de pai negro e mãe amarela, e relata que durante muito tempo não reconhecia sua identidade birracial por querer ser “normal” —- e isso, em um Brasil preconceituoso, significa ser branco. “O mais próximo disso era ser só amarela, então era isso que eu lutava pra ser.” Camila passou por um conflituoso processo de desconstrução para então se perceber como uma pessoa negra e amarela, mas ressalta: “Ser afro-asiático é estar numa posição de instabilidade contínua; eu tenho privilégios que pessoas só negras não tem, mas muitas vezes sou lida como negra”.

A maior parte dessas pessoas miscigenadas é vista na sociedade como “japonesa”. “Sou tão brasileira quanto meus amigos, e a minha aparência não nega isso”, defende Ana Carolina. Ela acredita que entre mestiços a percepção social é mais complicada: “A gente acaba demorando muito para ter uma autoconsciência de como as pessoas nos veem”.

“Camila Yuri, 20 anos. Foto cedida pela fonte.”

Ser lido como japonês faz com que esses mestiços passem por diversas situações desagradáveis. “As pessoas supõem que eu tenho um conhecimento incrível sobre a Ásia. Muitas vezes acham que eu não sei falar português e começam a falar umas palavras em japonês aleatórias”, conta Ayumi. “Já vi pessoas que ficavam menosprezando as coisas que eu fazia e tinham a ver com a cultura japonesa. Por exemplo: ‘Porque, em vez de ir nesse festival, você não vai ao shopping?’”, lembra Gabriel Kodo, 20 anos, estudante de Direito. “A velha piada do pinto pequeno foi algo recorrente”, afirma Hideo.

“Quando é um descendente de brancos europeus, você é tratado como brasileiro, mas quando você é descendente de asiáticos, você é tratado pelo seu outro país”, pontua Gabriel Akira, 19 anos, estudante. “Me chamar de japonês enquanto você chama outras pessoas que têm a mesma situação, porém são descendentes de europeus, de brasileiros é um problema, porque as pessoas não me entendem como um conterrâneo, sou visto como uma pessoa de fora e isso me incomoda.”

Marília Bonas explica: “Há uma grande dificuldade em entender as múltiplas culturas que formam o Brasil; só cabe no enquadramento do que é ser brasileiro se você for italiano, português ou espanhol. Qualquer latino ou asiático, mesmo sendo de terceira ou quarta geração, acaba sofrendo
o efeito dessa estrutura mais preconceituosa.”

Estereótipos e representatividade: nipo-brasileiros na mídia

A população amarela brasileira soma cerca de 1% do total. O número de nipo-brasileiros é ainda menos significativo, porém existente. Para tentar mudar a ideia de que eles são “japoneses”, alguns estão ocupando a internet, a música e a televisão, trazendo mais cores a espaços tão brancos.

Na internet, três amigos paulistanos criaram em 2016 o canal do YouTube Yo Ban Boo, para trazer a vida dos asiáticos em geral para as telas de celulares e notebooks. Entre os vídeos mais populares, que acumulam mais de 20 mil visualizações, estão “Coisas que mestiços de asiáticos sempre ouvem” e “Situações que mestiços de asiáticos já passaram”. Um dos temas mais levantados pelos criadores do canal é o yellowface, prática recorrente nos produtos hollywoodianos e que se caracteriza pelo uso de atores brancos em papéis que deveriam ser ocupados por pessoas amarelas.

Na música, o rapper Yannick Hara, 33 anos, afro-asiático, canta sobre o universo pop japonês. Seu primeiro álbum foi lançado este ano e é baseado no mangá Afro-samurai, que conta a história verídica de um africano que torna-se um samurai no Japão feudal. “Eu não sou africano, mas o afro-samurai me representava”, diz Yannick. Ele conta que foi difícil encontrar espaço no rap, por ser um ambiente “muito conservador”; ao mesmo tempo, em eventos sobre mangás e animes a recepção também não era boa, pois as pessoas não gostavam do estilo musical.

Ao final, o músico conseguiu conquistar fãs: “O cara que gosta de rap mas também lê mangá, e não podia falar disso na rodinha do rap, agora ele pode. Da mesma forma, tem gente que curte anime e começou a escutar rap por causa do afro-samurai”. Sobre sua vivência pessoal, Yannick conta que seus pais sempre se esforçaram para que ele e os irmãos tivessem contato com ambas as culturas. “Frequentamos um grupo escoteiro japonês e fazíamos aulas de capoeira.” Ele comenta que houve certo preconceito por parte da família amarela em relação à parte negra, mas aos poucos foram se acostumando.

No cinema, Leo Matsuda foi primeiro brasileiro a dirigir um curta-metragem na Disney. Trabalho Interno (Inner Workings, 2017) trata, segundo ele, de sua origem nipo-brasileira. Tem esse lado meu [japonês] que é bem lógico e disciplinado, mas também tem o meu lado brasileiro, que gosta de festa, de carnaval… Então minha vida é um conflito constante. Qual falará mais alto, o lado japonês ou o lado brasileiro?”, explica ele, em entrevista para a versão em DVD.

Na televisão, Ana Hikari, 21 anos, interpreta Tina em Malhação – Viva a Diferença. Na novela, a personagem repete várias vezes que não gosta de ser chamada de “japa” — algo compartilhado pela maioria dos nipo-brasileiros, inclusive pela própria atriz que, desde pequena, se incomodava com os estereótipos. “Quando eu chegava com coisas que não eram dentro do ‘esperado’ elas ficavam chocadas ou não davam credibilidade.” Ela conta que nunca teve muito contato com a cultura japonesa, da parte materna: “Eu ia uma vez ou outra na Liberdade mas mais como uma pessoa que assiste, que observa — não me sentia pertencente àquilo”.

Ser lida como nipônica sem se identificar dessa forma trazia muita preocupação: “Rola essa coisa de tentar se auto-afirmar o tempo inteiro; eu ficava insegura porque eu tinha que mostrar que eu era mais que esse estereótipo.” Ana acredita que a representatividade é essencial para que as pessoas se sintam confortáveis para serem o que desejarem; ela comenta que, quando criança, achava que não conseguiria ser atriz por não ver pessoas como ela nos programas. “É importante para mostrar que podemos ocupar vários espaços, inclusive o espaço da TV e da beleza. A mídia impõe um certo padrão, e quando estamos à margem, nos sentimos em crise com nossa aparência.”

Assim como todos os que foram entrevistados desta reportagem e muitos outros que não foram, Ana se considera brasileira, “eu nasci aqui”, e sintetiza: “O Brasil tem muitas caras, inclusive a minha. Eu acho que ser brasileiro é se sentir parte desse lugar, que pode ser muitas coisas inclusive você”.

J.Press
A Agência J.Press de Reportagens é um espaço destinado à publicação e divulgação de matérias com abordagens inovadoras. Vinculada à empresa Jornalismo Júnior, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a agência busca novas formas de explorar assuntos de interesse público por meio do jornalismo.

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