Sociedade

O dia de ser, e de se orgulhar

Impressões sobre o evento da 22ª edição da Parada LGBT.

Por Mariana Cotrim (marirocot12@usp.br) e Sofia Aguiar (sofia.aguiar@usp.br)

Desde cedo, São Paulo avisa que o dia 03 de junho não seria um dia comum. Já às 9h da manhã, o metrô estava mais colorido e bonito. Pessoas animadas, incrivelmente arrumadas e maquiadas entravam nos vagões com uma mensagem subentendida: hoje é dia de ser e de sentir.

Todos se dirigiam à estação Trianon-Masp, na Avenida Paulista, onde às 10h iniciaria a 22ª edição da Parada do Orgulho LGBTI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais). O tema deste ano vai além da conquista de direitos sociais pelo movimento. O tema do evento era “Poder para LGBTI+, Nosso Voto, Nossa Voz”, relacionado ao ano de eleição e aos candidatos comprometidos com tal pauta. A questão não é só social. A questão é política. Essa luta é explícita na Parada.

O objetivo do evento é celebrar e dar notoriedade às questões da orientação sexual e identidade de gênero. Muitas vezes entendidos como sinônimos, tais conceitos abordam, principalmente, a questão de ser. Orientação sexual refere-se a quais gêneros a pessoa se sente atraída – seja romântica, física e/ou emocionalmente, como homossexual, bissexual e heterossexual. Identidade de gênero diz respeito a como a pessoa se identifica, seja do gênero feminino ou masculino.

A agitação na Avenida Paulista já era bem audível na saída do metrô. Ao colocar os pés no local do evento, o cenário era caótico, mas não de uma maneira ruim. O coração de uma das cidades mais importantes do Brasil, país extremamente conservador, deixava de ser aquele lugar cinza e monótono para dar espaço às cores que caracterizam o movimento LGBTI+.  As pessoas não estavam andando apressadas e alheias ao mundo, como costumamos ver na avenida, mas estavam em conjunto, lutando pelos direitos de um importante grupo.

As ruas, lotadas, lembravam o carnaval: todos os tipos de pessoas presentes, desde jovens com seus 15, 16 anos, até idosos, paravam para ver os trios elétricos. Havia uma multidão de homens e mulheres fantasiados e, principalmente, o sentimento de união e fraternidade entre as pessoas. As demonstrações de apoio não se limitavam à avenida: era possível ver vários prédios comerciais, antes marcados só pelo concreto, agora com a bandeira do movimento, além dos apartamentos com moradores que colocavam em suas janelas qualquer símbolo de apoio. Em muitas, além da clássica bandeira de arco-íris, era possível ver a bandeira nacional. O movimento não era apenas para as pessoas que estavam lá. Era para o Brasil.

Prédios durante a Parada LGBTI+ (Imagem: Sofia Aguiar)

A Avenida Paulista nunca foi tão acolhedora: diversidade era a palavra que ecoava na mente a cada minuto que se sucedia. Notoriedade e aceitação. Foi o que Santiago Rodrigues, com apenas 17 anos, sentiu. Ele teve um difícil processo para se aceitar como homem transsexual. Vindo de família extremamente religiosa, passou por muitas situações em que duvidava de seus sentimentos e sentia-se errado quanto sua identidade de gênero. A Parada, desse modo, passa a ser importante para ele: “É muito interessante conseguir ver pessoas que são como a gente para termos, primeiro, um processo de aceitação mais rápido e, segundo, para evitarmos a violência”.

Essa palavra, “violência”, pelo menos no momento da parada, deixou de ser um aspecto alarmante: naquele espaço, havia lugar para qualquer pessoa: “esse evento é o que mais dá coragem de me assumir e me aceitar.” Palavras de Franciele, psicóloga bissexual que estava no local, como tantas outras pessoas, para apoiar a causa, que também era sua. Ela não foi a única. Pela primeira vez, Pablo, heterossexual, decidiu ir à Parada LGBTI+ e, para ele, estar naquele lugar pela causa e para apoiá-la beneficia a desconstrução do preconceito que o movimento enfrenta no país.

Bandeiras se agitam na 22ª Parada LGBT (Imagem: Sofia Aguiar)

 

Não é de hoje que se nota a onda de atos LGBTfóbicos que ocorrem no Brasil. Muitos morrem pelo simples fato de serem transsexuais ou homossexuais. Esses indivíduos saem de suas casas todos os dias com medo de se tornarem mais uma vítima, mais um dado estatístico que resulta da violência que sofrem aqui. Não há dúvida de que o Brasil é um país em que ainda está incrustada a ideia de que não há diferentes identidades de gênero. Esse pensamento, tão apoiado por grupos conservadores, é o que mostra a importância de um evento desses no país. A Parada LGBTI+ conseguiu encher uma das principais avenidas de São Paulo e mostrar que esse movimento tem força na sociedade brasileira. No dia, o Brasil não parecia ser tão conservador como é de fato. Para Cristiano, homossexual também presente no local, “é importante saber que a gente não é minoria.”

“Por que ser racista, sexista, homofóbico, transfóbico ou xenofóbico quando você pode simplesmente ficar calado?” (Imagem: Sofia Aguiar)

 

As apresentações traziam mais ainda a sensação de união e de diversão. Com a presença de 18 trios, dentre eles apresentações de Pabllo Vittar, Anitta, Preta Gil, Lia Clark, April Carrión (de RuPaul’s Drag Race) e Mulher Pepita. Não havia um segundo sem música, ou um segundo de repressão. Mas, como qualquer festa, violações ocorriam e a sensação de desconforto superava, muitas vezes, a questão do respeito, tão reiterada e buscada pelo evento. A Parada LGBTI+ não estava imune às problemáticas sociais, como furtos e assédio. Talvez seja pelo fato de abranger um público que não estava ali necessariamente pela causa, e sim pela festa. Ou, simplesmente, pela ideia restrita de que, na Parada, o respeito era só pelas questões de gênero. O respeito é e deve ser, em primeiro lugar, uma questão humana.

Quando as apresentações começaram, as danças soltas na avenida deram lugar ao empurra-empurra para assistir às atrações. Mas era diferente. As pessoas eram levadas, inconscientemente, pela multidão. Anitta não desapontou e seu trio, seguido pelo da Pabllo Vittar, fizeram ferver a Parada. O frio e a garoa paulistana foram completamente esquecidos.

A animação era excepcional, mas a causa não era desconsiderada entre as cantoras, que sempre relembravam o porquê do evento. Não esquecer do preconceito e não esquecer, principalmente, da luta contra ele – já que, em momentos de entusiasmo, o preconceito parece mínimo. Diego Faria, homossexual de 32 anos, admite ser fácil o esquecimento da causa durante as apresentações e pela excitação do dia “Para muitos, isso aqui é só festa, só desvio de dinheiro. Não veem que tem uma luta por trás disso. É uma festa de respeito, e de divulgação de princípios”, disse.

Discursos nessa linha inundaram a festa. Um dos mais emocionantes e comentados foi o da viúva da vereadora carioca de Marielle Franco, Mônica Benício, feito durante a abertura oficial da Parada, ao meio-dia. “Isso aqui é um ato de resistência. O Brasil é um dos países que mais mata a sua população LGBT. E a gente não pode assumir isso, deixar que isso continue desta maneira”, disse, relembrando o símbolo de luta, em tantos sentidos, que sua esposa, assassinada em abril, deixou no país.

Pela abordagem das eleições, o evento trouxe a mensagem que, além do respeito, direitos devem ser buscados através dos candidatos no ano de 2018. É sobre ter representatividade, tanto na forma de políticos quanto na forma de leis. O voto, como significado da participação do povo na política nacional, deveria ser capaz de representar todos. O trio das Artistas da Noite contou com a presença do vereador de São Paulo, Eduardo Suplicy, que relembra tal consciência política por “eleger pessoas que saibam respeitar a diversidade humana”.

Victor Schauer é homossexual e acha essencial abordar a pauta sem restrição apenas ao meio social. Admite o otimismo em relação às eleições, devido à discussão do tema pelo movimento, e espera “que venha mais forte do que nas últimas eleições, quando tivemos uma candidata a presidente, Luciana Genro, que reiterava os direitos que o público LGBT precisa. Espero que venham pessoas com as mesmas ideias que ela, ou até melhores.” E finaliza: “e vejam que propostas voltadas ao público LGBT não são privilégios, são direitos.”

Gabriela é simpatizante ao evento e ressalta a falta de representatividade no governo. Disse que se mobiliza em relação a isso. Ela levou seu amigo Pablo, também simpatizante, e, ambos em sua primeira vez, sentiram a força das pessoas. Afirmaram não entender como “evoluímos como pessoas mas, ao mesmo tempo, persistirem ideais do passado. Vivemos tanta intolerância que é ridículo.”

Apesar do tema, o fervor da festa frequentemente fez com que ele ficasse em segundo plano. Com uma temática política e que exige o engajamento, este era mínimo e restrito aos poucos discursos feitos no trio e às propagandas e cartazes pela avenida. A luta era de aceitação, mas não, necessariamente, lembravam da aceitação política. Com um vazio ideológico, o evento muitas vezes se reduziu à festa, música e bebidas

É só estando lá que se sente o significado de representatividade e dá vida ao lema “a união faz a força”. Pela televisão, com imagens de helicópteros sobrevoando a Avenida Paulista, torna-se impossível sentir o fervor do momento, a força do coletivo e a importância da causa. O distanciamento na cobertura também estabelece um distanciamento pessoal perante ao evento, às pessoas e ao preconceito. Estar lá é entender a grandiosidade da manifestação e da voz de vários. A união paralisa e ganha notabilidade. “A homofobia sempre existiu, assim como gays e lésbicas. E não está mais na hora de esconder isso”, declarou Bárbara Camargo, lésbica, de 23 anos.

Como toda festa de grande porte, há sempre os aspectos que deixam a desejar. O número de pessoas passando mal, apesar de grande, pode ser considerado regular para um evento como a Parada. Contudo, não foi o esperado pela a frota de bombeiros no local. O “vão” do MASP estava fechado para que eles pudessem cuidar das pessoas que não estavam se sentindo bem, mas muitas não receberam a devida atenção por conta do número reduzido dos funcionários. Ao invés disso, receberam a grosseria dos guardas que cuidavam desesperadamente do local. Em um momento de agitação, foi preciso que a cantora Pabllo Vittar gritasse do seu trio elétrico para que as pessoas parassem de se empurrar de forma tão abrupta.

Com a passagem de todos os trios elétricos, a festa deixava de ser tão idealizada. O rastro de lixo e sujeira nos fazia voltar à realidade e o entusiasmo das pessoas perdia espaço para uma embriaguez, em grande parte, descontrolada. Nada que não fosse esperado de um grande evento. Mas ainda assim, desconfortável.

À medida que os trios iam sumindo pela Rua da Consolação em direção à Praça Roosevelt, as pessoas voltavam à Avenida, que estava sendo ocupada pelas apresentações. O cansaço começou a aparecer, mas a alegria não ia embora. Era como a sensação de dever cumprido, mostrando como aquele dia, de tanto significado, tinha valido a pena. Expectativas tinham sido superadas. Carros de limpeza entraram em cena, sinalizando uma ordem, mas não necessariamente o fim da Parada. E, enquanto os carrinhos arrastavam a sujeira à espera de uma segunda-feira rotineira, as pessoas se dissipavam pela cidade de São Paulo, à espera de representatividade e possibilidade de chance nas eleições de 2018. Contentes e ansiosos.

As cores da parada contrastavam com o cinza do céu e do concreto (Imagem: Sofia Aguiar)
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