Cultura

Lugar de mulher também é na Line-up

O cenário brasileiro de música eletrônica não abriga tantas mulheres como gostaríamos. Por qual razão temos essa escassez?

Por Mariana Cotrim (marirocot12@gmail.com)

Não se pode negar que a música eletrônica adentrou o cenário musical brasileiro com muita força e foi recebida de forma cordial entre os grupos de jovens – e até de adultos. Hoje, há um grande número de festivais no Brasil próprios para tal estilo, além daqueles que possuem uma variedade de gêneros musicais e apostam na popularidade da eletrônica em suas programações, como o Lollapalooza. A lista de DJs, internacionais ou nacionais, que se apresentam nesses shows é algo infinito, mas, ao olhar para ela, percebe-se uma coisa em comum: a escassez de personalidades femininas. Surge então uma dúvida um tanto frequente quando se trata do assunto: existe grande representação de mulheres no cenário eletrônico do Brasil?

O surgimento da música eletrônica no país é mais antigo do que parece. Villa-Lobos foi um dos pioneiros a criar músicas com fita magnética (uma mídia de armazenamento) e fazer ajustes do tipo regravar, cortar, esticar ou diminuir uma melodia, que eram o princípio desse som. Ao longo dos anos, os equipamentos se modernizaram até chegar aos sintetizadores (instrumento musical) e, com eles, os estilos também se aperfeiçoaram até os dias de hoje, que contam com grande variedade de ramificações: house, techno, trance, entre outros.

No início desse cenário, a figura do DJ era muito obscura – alguns DJs não tinham noção de que eram, de fato, DJs – e não havia clareza sobre tal profissão, o que dificultava a inserção, tanto de homens quanto de mulheres, no meio. Contudo, era muito mais raro encontrar meninas em cabines, tocando em clubes e baladas, pois não se pensava que aquele lugar também podia ser parte do universo feminino. Dessa forma, surge a ideia de que essa profissão é mais voltada para o público masculino.

Houve um breve momento no cenário eletrônico em que a questão estética era muito mais valorizada que o som. Além de sua discotecagem, muitos DJs eram considerados bem-sucedidos pelo seu carisma, abrindo margem para a beleza física. Como consequência, as poucas mulheres que eram contratadas por donos de casas noturnas estavam lá especialmente pela questão visual e até pelo status do local, deixando a preocupação artística em segundo plano. Ainda assim, algumas DJs conseguiram obter destaque, como Sonia Abreu, que teve seu ápice na década de 70 e é reconhecida como uma das primeiras mulheres com o título de DJ no Brasil.

De modo geral, os movimentos feministas dessa época também fizeram com que moças atingissem um maior espaço na cultura, mesmo que diminuto em comparação ao masculino. Outro ponto foi que, a partir dos anos 2000, houve uma mudança no mercado da música eletrônica, quando o DJ deixa de ser alguém preso a um só clube para poder circular em outros. Essa transformação fez com que sejam vistos de forma mais artística, proporcionando mais liberdade, inclusive aos talentos femininos.

Liberdade ilusória. Quando perguntamos a um fã de música eletrônica quais são seus DJs favoritos, raramente ouvimos o nome de uma mulher. Paula Chalup, DJ e produtora de São Paulo, teve seu primeiro contato com a música eletrônica ao ouvir o DJ Mau Mau em um dos clubes paulistanos pioneiros no gênero, o Sra. Krawitz. Com a ajuda de seu amigo e sem uma pretensão de seguir esse caminho, a DJ passou a tocar profissionalmente.

Para ela, existe um monopólio masculino na música eletrônica e as mulheres não têm espaço. Mas por que isso acontece? Como a própria Paula diz, esse cenário tornou-se um meio muito competitivo: “hoje em dia você tem que ser dj, ser produtor, fazer sua música, estar envolvido nos eventos, estar envolvida com a cena. Não só tocar. Então tudo isso faz com que fique mais concorrido”.

Entretanto, para Felippe Senne, sócio-fundador e A&R (responsável pela pesquisa de talentos e desenvolvimento artístico dos músicos) do HUB Music Group, “ainda parece um tabu as mulheres serem produtoras musicais.” Ele acredita que ver uma mulher DJ é algo totalmente superado, muitas mulheres já realizam as mixagens de músicas; o problema é que poucas estão criando melodias, apenas 5% do total de produtores musicais. Desse modo, a quantidade de mulheres valorizadas nesse universo é realmente mais baixa, causando discrepância, já que desde o início, homens sempre foram os maiores representantes do estilo, tornando mais fácil sua adaptação no mercado atual.

DJ Devochka em Show. Imagem: Sigma F

Outro problema a ser enfrentado é o machismo, afinal, o Brasil é um país machista. Isso faz com que exista uma mentalidade de que as mulheres têm que se impor para ganhar o respeito e o espaço que merecem. “Os caras sempre vão nos subestimar. Todos os dias temos que provar as coisas no meio profissional”, diz a DJ e produtora Ké Fernandes, mais conhecida por Groove Delight. Desde criança ela sonhava em trabalhar com música, mas foi aos 13 anos que decidiu seguir uma carreira como DJ. Seu interesse foi despertado ao ver as mixagens do DJ Marky, também em um clube paulistano.

Há muitas DJs que passaram por algum tipo de situação machista em seu trabalho: dúvidas em relação ao seu talento, homens que acham estranho elas não usarem seu corpo para chegar em algum lugar ou até diferenças de cachê recebido em festivais. Segundo Groove Delight, ela mesma teve que enfrentar preconceitos com seu estilo por não dançar para a plateia ou mostrar os seios.

Essa cultura enraizada e, por muitas vezes, vista como normal, obriga mulheres a ter que provar sua capacidade e talentos para garantir sua posição. Contudo, há as que acham que, mesmo com esse problema, a diferença entre mulheres e homens no mundo eletrônico não é tão preocupante quanto parece.

É o que acredita Devochka, DJ e produtora natural de Minas Gerais. Entre empréstimos e aulas em vídeos do Youtube, ela conseguiu impressionar um grupo de eventos em Belo Horizonte e levar sua música para outras partes do país. A DJ defende que é recente a maior proporção que o estilo ocupou nos diferentes espaços, por isso, há ainda muitos novos talentos para crescerem no mercado, inclusive mulheres que, segundo ela, podem contar com a ajuda daquelas que já estão consagradas.

De acordo com André Motta, responsável pela unidade brasileira da AIMEC (Academia Internacional de Música Eletrônica), houve um grande aumento de meninas nas turmas de DJ e produção musical: “a gente tinha salas puramente masculinas, depois passamos a ter uma ou duas meninas numa sala de DJ. Hoje, já aconteceram casos de termos turmas com mais mulheres do que homens.” Isso prova que há grandes chances de contarmos com mais DJs e produtoras nesse cenário. Não quer dizer, no entanto, que a situação atual de mulheres esteja totalmente normalizada quanto ao seu espaço na música eletrônica.

Pelo contrário, é difícil ver em festivais uma programação com muitas mulheres – elas são minoria. Em um dos mais famosos, o Tomorrowland Brasil, a contagem de artistas do gênero feminino é preocupante: na primeira edição, dos 205 artistas, somente 15 eram mulheres e, na segunda, com o total de 155 artistas, apenas 5. Esse padrão não é raro e muitas vezes até pior, há grandes shows que sequer colocam DJs femininas em suas lines: na line up da XXXPERIENCE 2015, foram confirmados 49 artistas, todos homens.

Nota-se, então, que a presença de mulheres nesse meio ainda não pode ser algo normalizado,já que é muito pequena sua parcela nas programações de shows em comparação com DJs masculinos. Além disso, as poucas mulheres que vemos nas cabines podem não surtir um efeito de representatividade para os homens: muitos as veem como DJs apenas, não como mulheres que estão impondo sua posição na música. Para as meninas que iniciam suas carreiras, no entanto, uma mulher tocando em um festival mundialmente famoso fortalece essa representatividade e dá esperança para elas. A própria Devochka diz que teve como inspiração Groove Delight: “eu vi ela produzindo e falei: ‘Caramba, eu também posso produzir, então vou começar a fazer isso.’”

Mesmo que muitos pensem que a discrepância entre gêneros no cenário eletrônico não deve ser motivo de preocupação, é preciso, ainda, refletir sobre a importância que as mulheres têm nesse meio para outras. Perceberemos que é preciso, de fato, mais espaço para que representantes femininas mostrem suas tracks, contemplem e façam crescer a música eletrônica brasileira. Esse cenário pode se tornar um espaço que possa garantir o fortalecimento feminino frente ao machismo que as mulheres ainda sofrem nas ruas. A arte sempre servirá como forma de resistência.

J.Press
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