Especial

De que maneira funciona o sistema político na Rússia?

Em um país que já passou pelo czarismo e comunismo, o presidencialismo se manifesta de maneiras peculiares

Por Caroline Aragaki (carolinearagaki@usp.br) e Letícia Camargo (camargoleticia@usp.br)

Como Putin se tornou um líder popular

Desde que assumiu a presidência da Rússia em 2000, Vladimir Putin tem conquistado apoio em larga escala tanto da população local quanto da comunidade internacional. Tal fato é comprovado pela sua reeleição que ocorreu em março do presente ano (2018) e somou somou 50 milhões de votos, representando 76% do total. Mas, afinal, a que se deve essa popularidade?

A transição entre a desintegração da União Soviética (URSS) nos anos 90 e a formação da Federação Russa deixaram profundas cicatrizes na população, como a queda de 50% do Produto Interno Bruto (PIB), diminuição da perspectiva de vida média e a escassez de alimentos, que ocasionaram um prolongado período de crises econômica e política.

Esse período de transição durou cerca de 9 anos e permitiu que Putin, ao assumir pela primeira vez a presidência do país, tomasse medidas que de imediato refletiram a maior estabilidade econômica que o povo russo poderia presenciar. Maria Raquel Freire explica que, internamente, o presidente pôs em prática um conjunto de políticas associadas ao aumento do preço do petróleo nos mercados internacionais na década de 2000 que permitiram a consolidação do crescimento econômico e iniciaram a cultivação de grande apoio interno.

Do ponto de vista externo, a principal ferramenta do governo foi e continua sendo o discurso de grande potência e imagem de um país forte. Para a comunidade internacional, Putin faz questão de se mostrar sempre como um líder, retomando algumas características pertencentes da URSS como o nacionalismo e o protecionismo exacerbado, expondo a imagem de uma Grande Rússia”, que tem lhe garantido um crescente reconhecimento internacional.

Aliada a estes fatores, há ainda a influência midiática. Os suportes de maior alcance, principalmente televisão e rádio, tendem a direcionar a informação e assumem caráter partidário, fornecendo apoio especial ao Partido Rússia Unida e Putin. Quando não tendenciosa, a mídia é direcionada a fazer uma boa imagem do governo e, sobretudo, do presidente.

Os meios de comunicação russos, apesar de contarem com moderada liberdade de imprensa, foram restringidos e censurados em assuntos que fizessem referência ao governo logo após os três primeiros meses de mandato do presidente. Desde o último mandato de Putin na presidência, foram registrados maiores limites em termos de censura e controle, não podendo dizer que é uma área totalmente livre, nem totalmente controlada, conta a professora. Isso se deve principalmente à vontade de Putin de manter sua imagem e apoio popular, sem ceder às mídias a divulgação de opiniões contrárias ao seu governo, coagindo-as a apoiar o partido e as decisões tomadas pelo presidente.

Com essas medidas, Putin construiu ao longo de seus quatro mandatos uma imagem inabalável de um respeitado líder e político, considerado por milhões de russos o único capaz de transformar o país em uma grande potência, inflamada com nacionalismo e poderio militar herdados da URSS. De acordo com um dos chefes de gabinete do Kremlin, e na visão de grande parte da população, “sem Putin, não existe Rússia”.

Sistema político: República Federativa semipresidencialista

República advém do latim Res Publica, “coisa pública”, aquilo que diz respeito ao interesse público. Nesta forma de governo, o chefe de Estado deve ser escolhido a partir do voto popular e apresenta tempo de mandato fixo.

No caso da Rússia, a eleição é feita através do voto livre, popular, direto, universal e secreto. O sistema é de lista fechada, em que os eleitores só votam em partidos, e não em candidatos. Cada partido apresenta previamente a lista de candidatos com o número correspondente ao círculo eleitoral, e o número de eleitos é proporcional ao número de votos que o partido obteve.

O caráter de federação consiste no fato de que o país apresenta um presidente, mas está dividido em estados que possuem certo nível de autonomia governativa. A Federação russa é dividida em 83 distritos.

Semipresidencialismo é um sistema de governo que mescla características entre presidencialismo e parlamentarismo. Do primeiro, herda-se o fato de que o presidente é eleito a partir de voto popular. Do segundo, a divisão do poder Executivo entre presidente (chefe de Estado) e primeiro ministro (chefe de governo) – mas é dito que a Constituição privilegia o poder do presidente.

Cabe lembrar que a Constituição russa, principalmente quando comparada à brasileira, é muito pequena e pouco detalhada. Enquanto nossa Constituição apresenta 245 artigos, a da Rússia possui apenas 90. Há informações, como o modo com que governadores e presidentes devem ser eleitos, que ficam em leis externas a ela, facilitando alterações no modo de governo. Vicente Ferraro Júnior, pesquisador do Laboratório de Estudos da Ásia (LEA-USP) e especialista em Política Russa e Espaço Pós-Soviético, complementa: “A falta de questões estruturais na própria Constituição de 1993, o sistema de lista fechada e a alta popularidade do Putin possibilitaram com que ele centralizasse o sistema partidário a partir de reformas que tornaram um grande impacto nos conflitos político entre os três poderes.”

Do partido único ao pluripartidarismo

O regime do czar Nicolau II estava em crise desde 1905 com a derrota da Rússia na guerra russo-japonesa pela posse da Manchúria e se enfraqueceu ainda mais com a participação da nação na I Guerra Mundial iniciada em 1914, que ocasiona grandes perdas humanas e materiais. Constantes crises de fome, superexploração de trabalhadores rurais e urbanos e falta de condições financeiras para manter soldados na guerra foram estopim para a Revolução Russa.

Liderada pela ala moderada, denominada menchevique (minoria) do Partido Social-democrata Russo, a Revolução de 1917 depôs Nicolau II e substituiu a Monarquia pela República Parlamentarista. Foram formados os Sovietes, conselhos de operários, camponeses e soldados, que aumentam a influência da ala radical denominada bolchevique (maioria).

Como o governo menchevique insistia na participação russa na I Guerra Mundial, perdeu apoio popular. Em outubro de 1917, o líder bolchevique Vladimir Lênin liderou uma insurreição que transformou a ala bolchevique no Partido Comunista. Depois disso, instalou-se um governo revolucionário que retirou a Rússia da guerra.

A nova política distribuía terras aos camponeses e transferia o controle das indústrias  para representantes de operários. O domínio total sobre o país, entretanto, foi alcançado após quatro anos de guerra civil em que o Exército Vermelho, liderado por Leon Trotsky, enfrentou várias forças de oposição como mencheviques, czaristas, Forças Armadas de potências estrangeiras e nacionalistas de etnias não russas.

Em 1922 foi criada a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS, que reunia os territórios antes pertencentes ao Império russo e se transformaram em uma federação sob supremacia da Rússia.

Após morte de Vladimir Lênin, em 1924, ocorreu uma luta pelo poder entre Leon Trotsky, líder do Comitê Militar Revolucionário na revolução de outubro de 1917, e Joseph Stálin, secretário-geral do Partido Comunista. O primeiro acreditava que o ideário da revolução deveria ser propagado a outros países desde o então momento, enquanto o segundo preferia centralizar o governo em questões internas da Rússia para primeiro promover o “socialismo em um só país”, e apenas depois internacionalizar o movimento.

Líderes bolcheviques optaram pelas propostas de Stálin, que assumiu o poder em 1924 e transformou a política num monopólio do Partido Comunista da União Soviética. Intensificando o caráter autoritário e repressivo de governo, a ditadura estava implantada com base no partido único e no culto à personalidade de Stálin, o stalinismo – que perdura até 1953, ano de sua morte.

A União Soviética teve grande crescimento ao longo dos anos. Por ser um país com bases comunistas, não foi muito influenciada pela Crise de 1929, que abalou profundamente muitos países capitalistas. Na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), foi uma das grandes vencedoras, junto aos Estados Unidos. Após derrotarem a Alemanha, estes dois países começaram a disputar a hegemonia política que dividiu o mundo entre as ideologias de comunismo e capitalismo: a Guerra Fria, com início em 1945.

O conflito polarizou o mundo durante décadas. A partir da década de 1980, entretanto, a União Soviética já se mostrou desgastada, com bens de consumo e estrutura política sucateados. O planejamento econômico, pilar do governo socialista, gerou estagnação em vez de crescimento. Preocupando-se em cumprir as metas estabelecidas, os grandes investimentos se destinavam à indústria bélica e, assim, houve grande déficit social.

Em 1985, Mikhail Gorbachev subiu ao poder e implantou medidas para tentar revitalizar o sistema: Perestroika (reestruturação econômica) e Glasnost (abertura política), que não foram suficientes. No auge da crise a população se revoltou, pedindo democracia e o fim do comunismo. Progressivamente, os países foram deixando de integrar a União Soviética. No ano de 1989, ocorreu a queda do Muro de Berlim, símbolo da Guerra Fria.

Em junho de 1991, Boris Iéltsin assumiu a presidência russa. Em dezembro deste mesmo ano a União Soviética chegou ao seu fim, com o desmembramento político em 15 repúblicas. Na Rússia, o retorno ao multipartidarismo se deu de uma maneira muito complexa, visto que a transição foi dual: não apenas política, mas também econômica. A partir dessas mudanças, novas elites ascenderam e começaram a disputar economicamente com as antigas. Em outras repúblicas, foi comum a proibição do Partido Comunista, mas na Rússia este continuou como um dos maiores dentro do Congresso.

No início da década de 90, a política foi marcada por um antagonismo em que o presidente Boris Iéltsin planejava uma terapia de choque de caráter reformador, enquanto o Congresso Soviete Supremo era conservador e dominado pelo Partido Comunista. Em outubro de 1993, porém, as tensões se intensificaram a ponto de um tentar destituir o outro. Assim, ambos (presidente e Congresso) formularam versões para a criação da nova Constituição, mas a que prevaleceu foi a de Iéltsin. “O poder Executivo sempre foi mais forte [que o Legislativo], pois tem o controle do próprio Exército”, diz Vicente Ferraro Júnior. Assim, definido pela Constituição de dezembro de 1993, o sistema político russo se baseia em uma República Federativa Semipresidencialista com divisão entre poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Os três poderes

O poder Executivo é dividido entre as figuras do presidente e do primeiro ministro. O primeiro-ministro, nomeado pelo presidente e com aprovação da Duma, é o chefe do governo, e determina as orientações fundamentais da atividade pública. É responsável pela ordem pública, luta contra a criminalidade e elaboração do orçamento federal.

O presidente, chefe de Estado do governo, é responsável por determinar as orientações fundamentais quanto a política interna e externa, assumindo poderes significativos. Das suas competências fazem parte a nomeação do primeiro ministro, desde que tenha aprovação da Duma (câmara baixa do Parlamento) e o comando da doutrina militar, nomeando e atribuindo funções ao Alto Comando das Forças Armadas. Além disso, o cargo possui a possibilidade de declarar estado de emergência em caso de necessidade, demitir o gabinete e dissolver a Duma.

É importante ressaltar que o presidente só pode ser destituído do cargo pelo Conselho da Federação (a câmara alta do Parlamento) através de acusação apresentada pela Duma de Estado, de elevada traição ou de uma outra infração grave – que deve ser confirmada por parecer do Supremo Tribunal e após consulta do Tribunal Constitucional sobre o procedimento realizado para a acusação.

O poder Legislativo é bicameral, ou seja, a Assembleia da Rússia apresenta duas casas para representar o povo no poder Legislativo: a Duma, câmara baixa, e o Conselho de Federação, câmara alta do parlamento russo. Comparando com o Brasil, a Duma se assemelha à Câmara dos Deputados, e o Conselho de Federação ao Senado. Ambas as casas funcionam juntas para rever vetos e para votar projetos de lei.

Em russo, a palavra Dumat significa “pensar”. Esta câmara baixa é composta por 450 deputados, eleitos diretamente pelo povo, para um mandato de 5 anos e é responsável por avaliar os projetos de lei (inclusive os do Conselho de Federação) antes de qualquer mudança ou aprovação da câmara alta ou do Executivo.

O Conselho de Federação foi criado com a Constituição Russa de 1993 e possui 166 membros que atuam como a voz das entidades regionais. Diferentemente da Duma, o Conselho é composto por membros representantes das diferentes divisões administrativas na Rússia e se inserem no poder por meio de concurso público. Com atribuições próprias, o Conselho tem as possibilidades de afastar o presidente por meio de processo de impeachment semelhante ao do Brasil, e permitir ou não o uso das Forças Armadas fora do território russo.

O poder Judiciário é representado por três instituições: Tribunal Constitucional, Supremo Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal de Arbitragem. Os juízes de todos são nomeados pelo Conselho da Federação (câmara alta) sob proposta do Presidente da Federação da Rússia. O sistema jurídico da Rússia atual ainda apresenta muitas características da estrutura soviética, pois a maioria dos funcionários foi treinada pelos comunistas, mas há uma luta para construir um estado de direito que inclua o conceito de direito à propriedade e direitos civis.

O Tribunal Constitucional  é um órgão judicial de controle constitucional formado por 15 juízes. Este pode se pronunciar sobre a legitimidade de ações feitas pelo presidente e pela Duma, defendendo as principais liberdades e direitos presentes na Constituição de 1993 da Federação russa. O Supremo Tribunal de Justiça assegura a supervisão judicial sobre as atividades dos tribunais de competência geral. Assim, trata-se de um órgão de justiça superior que aborda materiais como civil, criminal e administrativa.  Por fim, o Supremo Tribunal de Arbitragem é responsável por resolver controvérsias econômicas. Realiza, em conjunto com as formas processuais federais de supervisão judicial, sobre as suas atividades e fornece explicações sobre a prática judicial.

O poder Executivo se divide entre presidente e primeiro ministro, o Legislativo entre a Duma e o Conselho da Federação, e o Judiciário entre Tribunal Constitucional, Supremo Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal de Arbitragem (Imagem: Mariangela Castro)

Revezamento de presidência

Nas eleições 2008, o então primeiro ministro Dmitri Medvedev se tornou presidente da Rússia e nomeou o então presidente Vladimir Putin como primeiro ministro deste mandato, que perdura até o ano de 2012. Essa aparente alternância é resultado do acordo dentro da Constituição russa de que o presidente tem limite de dois mandatos consecutivos.

Vale pontuar que no primeiro ano de mandato de Medvedev, em outubro de 2008, foi aprovada uma emenda constitucional que amplia o mandato presidencial de quatro para seis anos. A mudança foi proposta pelo então presidente e começa a valer a partir das próximas eleições, que aconteceriam em 2012. Na época, Putin era primeiro ministro e se dizia favorável ao mandato mais longo para que o governante tivesse mais tempo de realizar seus projetos. O mandato original, de quatro anos, instituído na Constituição russa de 1993 foi inspirado no modelo constitucional dos Estados Unidos. Os legisladores atuais, entretanto, afirmam que essa alteração condiz com o tamanho e a complexidade da Rússia.

Para Maria Raquel Freire, professora da Universidade de Coimbra e autora do livro A Rússia de Putin: Vetores Estruturantes de Política Externa, “o regresso de Putin em 2012 à presidência demonstra a sua vontade em continuar um processo que havia iniciado em 2000, após a retirada de Yeltsin.” Completa ao dizer que a orientação política de Medvedev é mais liberal, enquanto a de Putin é mais conservadora. Essa alternância, em suas palavras, “tem permitido estabilidade política de governação na Rússia dado o entendimento que ambos conseguiram definir para a colaboração entre presidente e primeiro ministro.”

Partidos políticos

A existência de partidos políticos na Rússia se iniciou tardiamente: somente no século XX, o regime czarista de Nicolau II legalizou a organização de participações partidárias na política do país. O czar, incapaz de controlar as revoltas populares da Revolução de 1905, acabou forçado a convocar uma Duma na qual foram registrados os primeiros partidos políticos oficiais.

Entre os partidos originados dessa revolução, foram criados três partidos de oposição que ganharam destaque. O primeiro se chamava Partido Socialista-revolucionário (PSR), formado por camponeses e profissionais liberais, como médicos, agrônomos e funcionários públicos, que atuavam no campo. Havia também o Partido Operário Socialdemocrata Russo (POSDR), criado em 1898 sob a inspiração de ideias marxistas que, posteriormente, dividiu-se em duas correntes antagônicas: os bolcheviques (maioria) e os mencheviques (minoria). O último era o Partido Constitucional Democrata, cujos membros eram chamados de kadets devido à sigla do partido em língua russa, KD, que apoiava a burguesia liberal e lutava por uma reforma política que implantasse uma democracia nos moldes ocidentais.  

Com o decorrer dos anos e com o auxílio da Constituição Russa de 1993, o país conta com eleições livres e competitivas, chegando a ter mais de 100 partidos diferentes. Atualmente, existem quatro partidos principais que compõem a Duma: o Partido Comunista, com 42 assentos; o Partido Liberal Democrata, com 39 assentos e o Partido Rússia Justa, com 23 assentos. Já o Partido Rússia Unida é o que conta com o maior número de vagas da Duma, com 342 cadeiras ocupadas. É o maior partido político da Rússia hoje, do qual faz parte o atual presidente Vladimir Putin.

Embora a abertura partidária tenha sido teoricamente consagrada após o fim do Partido Único, desde o primeiro mandato de Putin em 2000, o número de partidos caiu drasticamente. Isso se deve ao temor do presidente em relação à ascensão de outros partidos políticos. Por isso, ele tem dificultado por meio de processos judiciais a candidatura de novos políticos.

Há democracia na Rússia?

Após quase 70 anos de comunismo, há 26 anos a Rússia busca a construção de uma democracia em seu território. O país enfrentou uma transição gigantesca não somente política, mas também nos âmbitos econômico e social, visando estabelecer uma economia de mercado e instituir um regime democrático aos moldes do Ocidente.

Com a dissolução da União Soviética, os países agregados deram início a movimentos separatistas que comprometeram a estrutura estatal e a própria integridade da Federação Russa. Para os russos, os primeiros anos de transição para a democracia foram associados ao caos e à anarquia.

Embora o sistema democrático esteja implementado há anos, a população ainda não tem uma ideia concreta do que seja democracia. Uma pesquisa feita pela Fundação de Opinião Pública (FOM) divulgou um estudo que mostra que um terço dos russos não conseguem definir a palavra democracia. Hoje, se tem uma visão rasa do que a palavra realmente significa, muitas vezes sendo associada meramente à liberdade. Porém, um país livre nem sempre é democrático, pois liberdade pode por vezes ser confundida com libertinagem. O real sentido de democracia está na participação da sociedade civil nas decisões do Estado.

Em exemplo disso, a doutora em Ciências Sociais Olga Kristanóvskaia recorda que um dos períodos mais dramáticos da história russa, o governo de Boris Iéltsin, é tido pela população como um dos momentos mais democráticos: “Na época, a liberdade se transformava em caos, o que colocou muita gente contra a democracia. As pessoas se viram confrontadas com um Estado debilitado e concluíram que não precisavam de desordem.”

Não é certo dizer que na Rússia a democracia é nula, mas também não é plena. No campo político, conferimos uma democracia quando falamos sobre Vladimir Putin: o presidente foi reeleito pela quarta vez com mais de 70% de aprovação popular, como afirma Vicente Ferraro Júnior, pesquisador do Laboratório de Estudos da Ásia (LEA-USP) e especialista em Política Russa e Espaço Pós-Soviético, o que representa, de fato, participação política.

Não se pode deixar de lado, porém, os campos cultural, educacional e econômico. Em tudo deve haver democracia. Por isso, é considerável dizer que a Rússia está em um processo de formação democrática, e que ainda faltam degraus para subir, como afirma um dos maiores protagonistas da história da Rússia, Mikhail Gorbachev, em entrevista à BBC Brasil em 2011: “Ainda temos cinco ou seis anos à frente para fazer essa modernização de forma significativa.”

Política externa no mandato de Putin

Tratando-se da política externa da Rússia, o presidente Vladimir Putin tomou medidas muito significativas que trouxeram novamente o país ao centro do mundo. Dentre elas, a anexação da Crimeia e as intervenções na Síria são as mais comentadas e polêmicas dos últimos anos.

A Crimeia é um uma entidade política semiautônoma da Ucrânia, localizada em uma península no Sul do país. Porém, é campo de muitos conflitos por ser de grande interesse econômico tanto para Rússia quanto para Ucrânia, em decorrência da rota estratégica que a península representa entre o Mar Negro e o Mar Azov.

A tensão que acarretou na anexação da Crimeia se iniciou em 2013, quando o então presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovych, comunicou que havia recusado um acordo de livre comércio com a União Europeia para priorizar suas relações comerciais com a Rússia. Em resposta a esse comunicado, grupos de opositores ao governo, majoritariamente ucranianos, foram às ruas protestar contra a decisão do presidente, o que resultou em revoltas e manifestantes mortos.

As regiões leste e sul, as mais povoadas do país, possuíam muitos habitantes russos que se opuseram às manifestações a favor da União Europeia. Dentre essas regiões, a Crimeia foi a que vivenciou os maiores níveis de tensão política. O parlamento da Crimeia foi tomado por um comando pró-Rússia, o qual aprovou a autonomia da península e posterior anexação à Rússia.

No dia 16 de março de 2014, apesar de forte oposição da Organização das Nações Unidas (ONU), foi votado um referendo popular na Crimeia que decidiu sua separação da Ucrânia e anexação à Rússia, opção que venceu com mais de 95% dos votos. Estados Unidos e União Europeia nunca reconheceram essa votação como legítima e afirmaram fraude. Após o referendo, o governo russo anunciou que consideraria a Crimeia como parte de seu território e, ao assinar o tratado, o presidente Putin fez um pronunciamento no qual disse: “A Crimeia sempre foi parte da Rússia nos corações e mentes das pessoas.

Já a intervenção na Síria se dá até os dias atuais e teve seu início em 2015, quando Bashar al-Assad pediu ajuda da Rússia que, apesar de relutante, entrou para o conflito em prol da aliança formada há muitos anos com a Síria.

Além de sua amizade com o território sírio, a Rússia permanece intervindo na guerra civil com a justificativa de estar lutando contra o terrorismo – em especial contra o Estado Islâmico (EI), já que as medidas tomadas até o momento pelos Estados Unidos não obtiveram grandes resultados. À parte isso, o presidente Vladimir Putin deseja inserir a Rússia no centro geopolítico do mundo, buscando reafirmar o país como uma grande potência. O país quer mostrar que pode ter um papel decisivo na resolução do conflito sírio e aumentar seu peso na comunidade internacional.

Desde que a Rússia interveio no conflito, as forças sírias ganharam terrenos: a retomada da cidade de Aleppo é a vitória mais significativa até o momento, além da retomada de Palmira. É graças à Rússia que o líder Bashar al-Assad ainda está sob o comando da Síria, já que o país é um apoiador do regime do presidente.

Em contrapartida, a intervenção na zona de conflito tem causado problemas para a Rússia. As ações contra o EI e outros grupos rebeldes colocaram o país em risco de atentados. No dia 27 de dezembro de 2017, aconteceu uma explosão dentro de um supermercado em São Petersburgo, que deixou 13 pessoas feridas. Segundo Putin, o que ocorreu foi um ato de terrorismo. A Rússia é composta por cerca de 12% de muçulmanos, que vivem em regiões como Daguestão e Chechênia. Ambas são separatistas, por isso os ataques russos contra o EI no Oriente Médio podem acarretar em ações do movimento.

Esses dois acontecimentos retratam as tentativas de Putin ao decorrer de seus mandatos em remontar os princípios da URSS, como o forte nacionalismo, e fazer com que a Rússia seja vista como uma grande potência e interventora mundial.

Como irão se suceder os próximos seis anos de mandato de Putin?

No dia 18 de março de 2018, Vladimir Putin foi reeleito ao quarto mandato na presidência da Rússia e permanecerá no governo até 2024, totalizando 19 anos como presidente do país. Segundo um porta-voz da agência russa Interfax: “A porcentagem [76,6% dos votos] fala por si só. É o mandato que Putin precisa para tomar decisões no futuro, e ele tem muitas a fazer”.

Uma pesquisa realizada pelo Centro Levada, organização de pesquisa sociológica independente russa, denota que os desejos para o próximo mandato são liderados pelo aumento de salários e aposentadorias (39%), seguido de saúde e educação acessíveis (25%), desenvolvimento econômico, estabilidade da moeda e dependência dos preços de petróleo. Em seu discurso de posse, Vladimir Putin declarou que encara os próximos seis anos com um colossal sentido de responsabilidade, e afirmou servir à pátria como objetivo de sua vida.

O quarto mandato de Putin dará sentido de continuidade, porém deverá atentar-se a economia interna do país, que, segundo o especialista russo Manfred Hildermeier, irá se complicar. Isso é resultado das duras sanções movidas pelos Estados Unidos relacionadas a utilização de armas químicas, além de fazer com que a Rússia pare de dar cobertura ao aliado Bashar al-Assad. A política interna terá um papel crucial no próximo mandato de Putin, que deverá contornar a situação com os EUA.

Esse será o seu último mandato na presidência, uma vez que não poderá mais se candidatar. É um dos líderes com maior tempo de mandato: irá superar os 22 anos do czar Nicolau II, ficando atrás somente de Stálin, com 30 anos de governo. Surge aí o questionamento de quem será seu sucessor.

Para Vicente Ferraro Júnior, esse será definitivamente seu último mandato, mas não há uma certeza de quem virá em seguida. A visão que se tem é que a Rússia carece de alguém à altura para assumir o lugar de Putin, embora nada seja dito sobre o assunto. O que a Rússia vivenciará após os seis anos do quarto e último mandato de Putin é um mistério: Putin encontrará uma forma de ser novamente presidente? Estará moldando secretamente um sucessor?

J.Press
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