Cultura Sociedade

Paralisado

A mão já tremia há algum tempo e ele sabia que o futuro era inevitável

Por Bruno Nossig (brunonossig@gmail.com)

É bom comer bolo. Tarefa simples, prazerosa e fácil. Às vezes, não precisa usar a faca. É só usar o garfo e pronto. Está na sua boca. Mas, sentado nessa mesa, tudo parece mais difícil. Não é o simples fato de olhar para a direita. Me incomoda e causa uma certa agonia. Tudo que envolve a cena mexe comigo. Fico olhando para o bolo com cobertura de chocolate e não me mexo.

O silêncio. Sim. É Isso. Esse é o maior incômodo. O fato de olhar para o lado e não sair nenhuma palavra. Não que ele não tente. Às vezes abre a boca, mas não fala nada. Só levanta o queixo e abre a boca. Movimento simples, curto, mas extremamente doloroso. Penso que deve doer nele também. Deve ter agonia de não conseguir falar. Não sei se ele ainda pensa nessas coisas. Não sei qual é o nível de seu fluxo racional ou se ainda lhe resta alguma forma de razão.

As sessões de fonoaudiologia já largou faz tempo. Não adianta mais insistir. No começo fazia sentido, ele tinha dificuldade de falar, mas falava. Daquele jeito usual dele. Olhava nos meus olhos, me cumprimentava e dizia: “E aí, malandro!”.

Sempre odiei essa expressão. Aprontava, mas nada que me tornasse um verdadeiro malandro. Talvez fosse o jeito que ele tinha de se aproximar de mim. Nunca fomos muito próximos. Ele não foi um homem de muitas palavras, era mais quieto, calmo, na dele. Eu, uma criança elétrica, claramente o irritava. Não fazia de propósito, mas o fazia. Obviamente, disso ele tirava que eu era malandro. Na década de 30, talvez, uma criança de seis anos não pudesse fazer o que eu fazia e, então, em sua concepção, aquele comportamento era típico de um futuro malandro.

Continuo olhando para o meu bolo. Talvez ele perceba algo de errado em mim. Normalmente, eu acabo tudo em uma só garfada. Mas hoje não terminei. Ele deve ter notado que existe algo estranho. A boca continua se mexendo sem emitir um som, mas os olhos azuis falam. Simples e sinceros, emitem uma mensagem que não compreendo.

Talvez a culpa seja minha por não entender a mensagem. Quem sabe se tivéssemos uma relação diferente saberia o que ele me diz. Minha vó entende tudo sem ele precisar falar. A mensagem caminha para ela como se ele ainda falasse. “Ai, agora está com sede.” “Nossa, tá com fome hoje.” “Bem, abre a boca pra tomar remédio.” “Santo do céu, olha como é teimoso.”

Às vezes, não sei o que dói mais, ver ele nesse estado ou ela se matando para cuidar dele. Outro dia. Outro dia não, já faz um ano. Enquanto ela dava banho nele, ele teve diarreia. Ela limpou tudo sozinha. Mas, quando contou a história para mim, agia como se ele tivesse feito de propósito. Como se fosse uma decisão racional. Como se ele quisesse aprontar.

Ela o trata como se ele ainda fosse o mesmo de sempre. Como se tivesse as mesma qualidades que tinha quando se encontraram pela primeira vez. Como se fosse o mesmo com quem casou, teve filhos e netos. Como se ele ainda conseguisse ler e entender Einstein. Como se ele ainda conseguisse desenhar uma linha de metrô ou trem. Como se ele possuísse todas as suas capacidades mentais e racionais. Como se a doença não o afetasse.

Para mim ele não é o mesmo. Não existe um certo e errado nesse tipo de análise. Minha avó não está errada por enxergá-lo da mesma forma que o via antes, é só um simples sentimento.

Só que o meu é um pouco mais pessimista. A falta de conexão entre eu e ele, o nível de degradação que a doença lhe provocou, o fato de não falar mais nada; tudo isso provoca em mim o sentimento de que ele não é o mesmo. De que alguma coisa na essência de sua personalidade mudou.

Apesar de tudo, os olhos azuis ainda brilham; brilham muito, se destacam do resto do corpo. Aquele azul cintilante, que atrai. Que faz você parar para observar a cor. Parar para observar o contorno da pupila até chegar no azul brilhante da íris.

Olhos que falam, que brigam, que discutem, que se emocionam, que se irritam. Mas, normalmente, olhos calmos. Olhos que permanecem humanos, que me mostraram que ele ainda está aqui. Os olhos que ele sempre teve. Olhos que sempre brilharam. Pelo menos alguma coisa nele ainda é a mesma.

Continuo olhando para meu bolo. Ele continua abrindo e fechando a boca. Talvez ele queira falar. Dizer alguma coisa. Insistir com seu bordão tradicional. “E aí, malandro!”.

Cumprimentei-o hoje. Mas ele só mexeu a boca, não falou nada. Deve ser isso. Deve estar querendo falar comigo, pois sente que não falou. Sente que precisa introduzir-se ou iniciar a conversa ou simplesmente abrir a boca e falar. Mas não fala.

Na ponta da mesa a cadeira já não é a mesma. Mudou faz tempo. Antes era uma cadeira comum, igual às outras. Comum, de fato, nunca foi. A cadeira dele sempre representou uma certa autoridade que tinha de ser respeitada. Era o homem da família, homem da casa – herança de sua geração antiga. Agora, a mudança da cadeira faz o lugar perder o valor que representava. O que antes era autoridade, agora já aparenta ser fragilidade. Não há alternativa. Ele tem de sentar nessa nova cadeira.

No começo foi um grande incômodo convencê-lo de que ele precisava dela. Se fosse comigo agiria da mesma forma. Não que eu e ele sejamos muito similares. Simplesmente acho uma decisão natural, a todos os seres humanos, manter seu direito de andar.

Lembro quando ele começou a ter dificuldade. Estava ele com minha vó na escada rolante do shopping quando sua perna bambeou. Causou um tumulto. Impediu a passagem de todo mundo.

No dia seguinte o seu rosto era de completa derrota. A mão já tremia há algum tempo e ele sabia que o futuro era inevitável. Talvez pensasse que não conseguiria mais controlar seu corpo. Talvez pensasse que no futuro só iria permanecer estático. Que iria tentar se movimentar, mas seu corpo seria uma simples forma e não responderia. Talvez pensasse em tudo que teria de renunciar, em todos os simples movimentos do dia-a-dia. Talvez pensasse que não conseguiria beber água, comer, tomar banho. Que teria que renunciar o seu direito de andar. Mas, pelo menos naquela época, eu sabia que ele ainda pensava.

Acho que comecei a desconfiar do seu pensamento no dia que ele pegou a bengala e saiu de casa. A minha avó foi avisada que ele estava na portaria e queria sair para comprar um remédio. Quando chegou para buscá-lo ele dizia que sua mãe tinha lhe pedido para ir às compras. Ele precisava sair, não queria levar outra bronca por desobedecer sua mãe. Minha avó o levou de volta para casa, e ele permaneceu, por um breve período de tempo, furioso, já que a mãe dele o daria uma grande bronca. “Ela vai gritar comigo, Rosa. Ela vai gritar comigo”.

Depois, esqueceu do que havia se sucedido.

Talvez tenha desconfiado no dia em que tive de cuidar dele porque minha avó iria ao supermercado. Ele permaneceu boa parte do tempo lendo o jornal. Lendo o jornal não, porque eu leio o jornal, como normalmente as pessoas fazem. Ele analisava meticulosamente todas as reportagens, para tirar tudo do que lia. De cada frase. De cada ponto. De cada palavra.

Depois de duas horas nessa atividade, ele resolveu que tinha que trabalhar. Pegar seu compasso. Desenhar uma linha de trem. Pegar a calculadora para calcular alguma coisa relacionada às luzes. Ficava vagando pela sala e pelo quarto em busca dos objetos. Das suas antigas planilhas, dos seus antigos trabalhos.

Mas ele não sabia que pensava em algo que se deu há três anos. Que já não trabalhava mais. Esqueceu-se da minha presença. Só importava aquela última linha de trem. A última linha que tinha ajudado a projetar.

Os olhos continuam brilhando. A boca continua abrindo e fechando, num ritual que me incomoda. Talvez ele não queira falar. Talvez, queira dar um grito. Berrar, pedir que alguém o ajude, que o salve. Que o tire de seu corpo, que o cure. Para que ele possa andar, correr, falar, conversar, estudar, desenhar, ler, comer. Para que ele possa fazer alguma coisa diferente de permanecer sentado em sua cadeira, olhando para um bolo e esperando que alguém chegue e lhe alimente. Algo diferente de abrir e fechar a boca. Só quer fazer alguma coisa. Algo que destaque sua humanidade, para que não dependa do brilho dos seus olhos azuis.

Ainda estamos na mesa. Eu olhando para o meu bolo, observando a calda escorrer e ocupar o prato lentamente. Vendo a calda dominar o prato.

Ele esperando minha avó aparecer, para lhe ajudar a comer o seu pedaço de bolo. Na ponta da íris os olhos ainda brilham. A boca já não abre e fecha mais, o movimento parou.

A calda ocupa todo o prato. O bolo permanece intacto, fofo e bonito. A sala permanece silenciosa e quieta. Ele cansou de movimentar sua boca.

Será que lembra de mim? Será que sabe quem sou? Será que lembra dos momentos que me chamou de “malandro”? Será que lembra que se irritava comigo quando eu decidia correr pela sala?  

Disso tudo, eu já não sei.

Só sei que seu olhos azuis ainda brilham. Só sei que estamos aqui na mesa, sentados cada qual em sua cadeira. Cada um, olhando para o seu pedaço de bolo. Vendo a calda escorrer lentamente. Em pleno silêncio.  Quietos, como estátuas. Simplesmente paralisados.

J.Press
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