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Quanto custa se sentir bonita?

“Mais da metade das mulheres sente-se mal por não conseguir fazer um procedimento estético a que estão acostumadas. O custo financeiro é alto. E o emocional?”

Por Fernanda Teles (fernanda.teles@usp.br)

Todo dia a mesma coisa. Acordo, me olho no espelho e não gosto do que vejo. Mas tudo bem, vamos dar um desconto. Fiquei fazendo trabalho até tarde, dormi mal, meu cabelo está todo bagunçado. Então, me arrumo, estou pronta para ir para a faculdade. Me olho novamente no espelho na esperança da minha opinião ter mudado em alguns minutos. Nada, eu ainda não gosto do que vejo. O cabelo tem muito frizz, não está na cor e nem no comprimento que eu gostaria. Minha bochecha é enorme, por que não poderia ser menor? E o nariz, então? A pior parte, o que eu mais queria poder mudar. Meu sorriso é feio, poderia ser um pouco mais certinho, meus dentes poderiam ser mais brancos. Usei aparelho por tantos anos pra isso? Aliás, por que eu não entro em uma academia? Eu estou precisando. Minha bunda já foi maior, minha perna já teve menos celulite, já fui bem mais magra. 

Saio de casa. Por que eu não sou bonita quanto aquela moça? Fico mal, talvez até eu me ocupar com algo da faculdade, talvez pelo resto do dia. Só estou precisando de um elogio. Mas ele não vem, ele nunca vem. Por que viria? “Mas ela é linda, né?”. “Olha que mulher maravilhosa”. Mas nunca para mim. Tudo bem.

Mas hoje é sexta e tem dias que eu só quero cuidar de mim. Só quero ter um tempo para mim. Tomo um banho gostoso, lavo meu cabelo, hidrato, seco, faço chapinha. A depilação está em dia, as unhas estão feitas, a sobrancelha ainda está boa. Hmmm, talvez seja bom dar uns retoques. Cadê minha pinça? Passo maquiagem. Fico pelo menos 30 minutos escolhendo a roupa. Não posso esquecer o brinco. Depois de umas duas horas (ou mais), eu tô pronta. É, acho que agora está melhor. É, até que eu sou bonita.

Grande parte das mulheres se sentem ou já se sentiram em algum momento da vida pressionadas a seguir determinado padrão, comumente composto pelo combo: depilação e sobrancelha feitas, unhas pintadas, cabelo liso e corpo magro (mas não muito definido para não ficar tão masculino). No entanto, quanto custa estar dentro desse “padrão de beleza”?

Bruna Carvalho, de 19 anos, é estudante de jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Passa boa parte do dia fazendo tarefas da faculdade e nem sempre consegue ir no salão devido à correria do dia a dia. Mas sempre arranja um tempinho para fazer a própria unha, por exemplo. “É um momento que eu tiro para mim, que eu estou me cuidando, prestando atenção em mim, ficando em paz”, comenta. Mas o gasto principal de Bruna está relacionado a seu cabelo, que é alisado. Naturalmente cacheado, hoje ela gasta cerca de R$200 por mês em produtos para cuidar da saúde dos fios, e o orçamento fica maior ainda quando ela precisa dar um pulinho no salão para fazer a manutenção. O custo financeiro é alto. E o emocional?

A estudante não é diferente de boa parte das mulheres. Quando não dá para fazer algum procedimento, seja por dinheiro ou tempo, ela acaba se sentindo mal. “Se minha sobrancelha não está feita, por exemplo, vou olhar para minha cara e falar: ‘Bruna, você precisa fazer essa sobrancelha urgente’”. A partir de uma pesquisa realizada pela reportagem da J.Press com mais de 600 mulheres, descobrimos 34,8% delas sentem-se  um pouco mal por não conseguir fazer algum procedimento estético a que estão acostumadas — enquanto 20% não se incomodam e 18% se sentem bastante incomodadas.

Quando os processos se tornam mais invasivos

            Muitas mulheres optam pela cirurgia plástica na tentativa de se sentirem bem com o próprio corpo. As irmãs Rosângela e Rosemeire Carriço, atualmente com 46 e 49 anos, respectivamente, resolveram encarar a “faca” visando se sentirem melhor na frente do espelho. No mesmo dia, uma após a outra, ambas entraram no centro cirúrgico para colocar prótese de silicone nas mamas e fazer uma abdominoplastia, que retira o excesso de gordura e de pele do abdômen. O custo total? R$15.000 para cada uma das irmãs.

Rosemeire foi a primeira. Estava animada para a cirurgia e não parava de pensar nela desde que tinha emagrecido 24 quilos. Ela tinha 43 anos na época. Para ela, a cirurgia foi tranquila e a recuperação também, as poucas dores que sentia eram solucionadas com Dorflex. O único problema era não poder mexer os braços e o abdômen por alguns dias. Resolveu voltar para a mesa de cirurgia alguns meses depois porque não tinha ficado bem como ela queria. No final, o resultado estava conforme suas expectativas. Cicatriz? Ficou, mas bem de leve. Nada que incomode ou dê para ver facilmente. O resultado foi tão bom que, se a condição financeira deixasse, faria diversas outras operações. “Se eu tivesse dinheiro eu faria tanta coisa que você não faz nem ideia. Faria o rosto, faria os braços, um monte de coisas”, comenta.

Para Rosemeire, toda mulher tem sua vaidade própria e, para ela, fazer a cirurgia foi uma forma de mudar algo que ela queria muito. “Acho que cirurgia plástica por estética é, nada mais, nada menos do que algo para a mulher se sentir melhor, porque alguma coisa a incomoda”, opina.

Rosangela entrou logo depois do fim da cirurgia de sua irmã. Mesmo médico, mesmas mãos e quase a mesma genética. Mas estava com medo. “Eu fico com pavor, entro em pânico. Só de ir no médico, já fico apavorada”, diz. Mesmo assim, resolveu encarar a plástica, tudo para poder se livrar daquela gordurinha na barriga que a incomodava desde a sua gravidez. O silicone não era lá um desejo antigo, aliás, nunca foi um desejo. Mas o médico a convenceu. “Ele disse: ‘Vai ficar com a barriga bonita e o seio assim? Aí depois você vai ficar insatisfeita e querer voltar aqui para fazer.’” Já que ia entrar na sala cirúrgica uma vez, então já era bom que fosse para fazer tudo. O procedimento? Um sucesso. Sem nenhum problema, poucas dores, tudo do jeito que queria. Nem precisaria voltar para a mesa cirúrgica para fazer ajustes, como aconteceu com sua irmã.

Dois anos se passaram. Um dia estava no trabalho e começou a sentir dores no seio. Resolveu então ir ao banheiro e olhar no espelho o que estava acontecendo. “Meu peito parecia uma pimenta de tão vermelho que estava”. Então, foi direto para o médico, que receitou antibiótico e deu injeções para inflamação. Ficou tudo bem. No entanto, 20 dias depois a dor voltou — e ela repetiu o procedimento. Mais 20 dias se passaram, e tudo de novo. O médico detectou, então, uma rejeição da prótese no seio direito. Ele deu para Rosângela a opção de tirar apenas a prótese desse seio, para depois colocar de novo, mas ela quis tirar de vez. Contra sua vontade, mas não tendo outra opção, voltou para o centro cirúrgico e, até hoje, nunca colocou de novo — nem pretende.

Ela ficou chateada na época, mas apesar disso, não ficou brava com o médico. “Talvez eu ficasse brava se eu tivesse ido só para fazer o seio, porque eu estaria passando por tudo isso para algo que nunca me incomodou muito”, comenta. Na verdade, a cirurgia para ela foi algo muito positivo, no final das contas. “A cirurgia interferiu no meu humor, eu mudei completamente. Eu não ia na praia, que hoje é a minha maior diversão, e se eu ia, eu ficava de roupa, não tirava. A cirurgia da barriga mudou o jeito de eu levar a vida. Eu mudei
como pessoa”, conclui.

Quando os padrões interferem na vida sexual

            Rosangela e Rosemeire são apenas duas entre milhões de brasileiros que encaram a mesa cirúrgica para fazer uma plástica. Só em 2015, segundo uma pesquisa da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica e Estética, foram realizadas 1.224.300 no país, sendo a lipoaspiração e o implante de silicone as mais procuradas.

Entretanto, são várias as possibilidades de intervenção, que vão muito além de aumentar as mamas, diminuir a barriguinha ou empinar o nariz. Manuela*, aos 18 anos, encarou uma cirurgia diferente — e que tem sua procura crescendo nos últimos anos. Ela fez uma ninfoplastia, também conhecida como labioplastia, e que consiste na diminuição dos pequenos lábios vaginais. “Eu só pensei em fazer a cirurgia porque eu me conhecia muito. Eu já me masturbava, já sabia o que era prazer sexual. Só que, por eu já ter essa visão mais à frente, tive contato muito mais rápido com a mídia pornográfica. Eu conheci o sexo por lá e essa mídia transforma nossa cabeça. Lá tem mulheres com a vagina que é considerada bonita, clara, pequena, com tudo dentro, e aquilo foi me consumindo um pouco”, diz.

Com 15 anos, começou a namorar e ter as suas primeiras relações sexuais, e aí veio a insegurança. Ela tinha medo do garoto achar sua vulva estranha por ter os lábios pequenos um pouco maiores do que era considerado “normal e bonito” pela sociedade. “Eu tinha medo de fazer algumas coisas, era muito triste porque eu não ficava confortável comigo mesma”. Então, esperou até os 18 anos e resolveu encarar a cirurgia. O preço? R$ 3.000.

Atualmente, graças à cirurgia, Manuela se sente mais confortável com o próprio corpo e até consegue se ver como uma mulher bonita e segura, que aceita seu corpo. “Talvez se eu não tivesse feito a cirurgia, eu estaria hoje muito mais travada para ter uma relação com meninos”, comenta. Mas ao mesmo tempo, esse assunto ainda é um pouco difícil e complexo para ela. “Por mais que eu soubesse que isso era uma construção machista, eu não conseguia desconstruir a minha mente e isso me fazia muito mal. E até hoje me faz um pouco mal”.

Apesar de hoje perceber a pressão que há em cima das mulheres para que elas estejam dentro do padrão, ela não se arrepende do que fez. “Hoje penso que é errado se mutilar, fazer uma cirurgia por conta de uma construção machista, só que ao mesmo tempo na minha cabeça eu não sabia trabalhar para passar por cima disso. Então, hoje, eu não me arrependo porque eu me aceito e porque eu busco me relacionar com homens que não pensem e não liguem para isso.” E ainda completa: “Eu falar disso é uma forma de ajudar outras meninas, que estão começando a ter esse pensamento que eu tive muito precoce. Eu sempre tento passar para os outros dessa forma. A pessoa é do jeito que ela é e você tem que gostar desse jeito. Pau também é assim: tem pau torto, escuro, pequeno, grande. E por que é a mulher que tem que se submeter a isso?”.

 

*Manuela é apenas um nome fictício para contar uma história real, preservando a identidade da fonte.

J.Press
A Agência J.Press de Reportagens é um espaço destinado à publicação e divulgação de matérias com abordagens inovadoras. Vinculada à empresa Jornalismo Júnior, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a agência busca novas formas de explorar assuntos de interesse público por meio do jornalismo.

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