Passageiras, apesar de tudo

 

Mesmo enfrentando assédios e preconceito, cresce o número de mulheres brasileiras  que viajam sozinhas, no Brasil e pelo mundo

 

Por Giovanna Costanti (giovannacostanti@gmail.com)

 

“Tenho uma filha que vai se tornar uma mulher. Se tem uma coisa que eu quero deixar para ela, é o exemplo de que ela também pode”

Andreza, de 29 anos, é mãe solo, negra e moradora de uma região periférica no Rio de Janeiro, o Complexo da Maré. Esse perfil, de acordo com as estatísticas, não se encaixa no grosso das mulheres que resolve colocar uma mochila nas costas e desbravar o mundo sozinha. Sua história nos ajuda a entender a profundidade e os recortes do tema “mulheres viajantes”. Na ponta desse iceberg existem questões como as violências e os abusos sexuais aos quais as mulheres, principalmente as “desacompanhadas”, são expostas no espaço público, os olhares tortos direcionados àquelas não munidas de uma companhia masculina e a construção social da mulher que não se aventura fora do espaço privado e doméstico, por exemplo. Mas esse iceberg esconde mais dificuldades. Um olhar interseccional nos ajuda a enxergá-las: ser mãe, ser negra, vir de uma condição socioeconômica desfavorável ou ser mais velha. Todas essas questões tornam o ato de viajar sozinhas ou acompanhadas de outras mulheres, ainda mais desafiador.

Andreza trabalha há mais de dez anos no Instituto Pró-Mundo e coordena o “Mulheres Ao Vento”, um projeto de dança voltado para as mulheres do Complexo da Maré. No ano passado, ela tentou uma bolsa para um intercâmbio no Peru que tinha tudo a ver com o espaço onde ela havia atuado desde os seus 14 anos: trabalhar em uma ONG, com enfoque em gênero. “Eu não ia me inscrever por conta da minha filha, eu fiquei com medo. Como eu ia ficar um mês e meio longe dela?”, conta. Com sorte, Andreza sempre foi contou com uma boa base familiar, assim, a mãe, o namorado e a família paterna de Alice, sua filha, insistiram que ela fosse. “Foi muito difícil, mas também foi muito bom para mim. Entendi várias coisas com esse distanciamento, como essa questão de não se sentir culpada. Com um tempo você passa a entender que criar um filho é um trabalho que, de alguma forma, tem que ser o mais coletivo possível”, diz. Sua própria experiência a mostrou as dificuldades que mães enfrentam ao ocupar esses espaços, afinal ela era a única intercambista mãe em uma instituição que atendia meninas adolescentes e seus filhos, em situação de vulnerabilidade.

Andreza Jorge. (Reprodução/arquivo pessoal)

“Era uma oportunidade que eu não podia perder. Pude crescer profissionalmente e também conhecer outro lugar”, diz Andreza, que, a todo o momento, acrescenta o quanto foi privilegiada. As oportunidades que teve, por sempre estar ligada a ONGs e projetos sociais, ter o apoio de sua mãe e seu irmão e ter frequentado a faculdade, foram diferentes das que fazem parte da realidade de grande parcela das mulheres da Maré. A maioria delas, segundo Andreza, abre mão de muita coisa para cuidar dos filhos: “os graus de escolaridade e de satisfação por realização pessoal acabam ficando muito baixos”, explica.

A maternidade é um dos principais entraves à ocupação dos espaços públicos pelas mulheres no mesmo nível em que é ocupado pelos homens. Ao longo dos séculos, em especial nas sociedades patriarcalistas, foi construída a ideia de que à mulher cabe o âmbito doméstico, ou seja, seu trabalho é cuidar do lar e dos filhos. Há uma grande expectativa a fim de que a mulher abra mão de sua vida pela de sua família. O peso dessa expectativa é muito grande, mesmo assim, a sociedade não poupa esforços ao colocá-la sobre os ombros de uma mãe.

Andreza conta que as oportunidades no maior complexo de favelas do Rio de Janeiro, de alguma forma, cresceram nos últimos 15 anos, principalmente em relação ao acesso à universidade, o que contribui para que as mulheres comecem a ocupar desde jovens, de fato, os espaços públicos. Mas a Maré é heterogênea e para grande parte das meninas de lá – viajar sozinha como Andreza fez, ainda é um sonho muito distante. “Esse é um caminho muito dado para a galera mais abastada, mesmo. Aqui as pessoas crescem com uma expectativa muito baixa sobre si mesmas”, conta Andreza.

Ela argumenta que, enquanto os jovens de classe média se esforçam para conquistar o sonho de uma viagem, os moradores das periferias já estão se esforçando demais para viver o dia-a-dia. “Aqui, é preciso de muito esforço para fazer a própria realidade acontecer”, diz. Enquanto eu conversava com Andreza pelo telefone, ela teve que parar sua fala mais de duas vezes para se desculpar pelos sons altos de helicópteros. Naquele dia ocorria mais uma operação policial na Maré. Em dias como esse, que não são raros, as escolas fecham e as crianças têm que ficar em casa, privadas do estudo. Andreza conta que o Complexo foi uma das regiões do Rio com menos dias de aula no ano letivo passado. “Quais marcas e cicatrizes isso vai gerando nas crianças?”, indaga.

Andreza ainda cita o recorte racial. Para ela, a experiência de uma mulher branca viajando sozinha não é a mesma que experimenta uma mulher negra. Ela conta que, no começo dos seus 20 anos, viajava bastante dentro do Brasil com as suas amigas, com aquelas “promoções doidas de viagem”, como explica ela, assim conheceu vários estados. Nessas e em outras viagens, Andreza passou por experiências discriminatórias. “Enquanto mulher negra, você percebe que estar em certos espaços já gera nas pessoas uma sensação de incômodo”, explica. Em uma viagem sozinha para um congresso no Ceará, ela e outras mulheres negras vivenciaram cenas de racismo explícito. “Gritavam ofensas enquanto passeávamos pelas ruas”, relembra. “Em outras ocasiões, viajei com meninas de pele mais clara que a minha. Já no aeroporto, percebi uma diferença no tratamento direcionado a mim em relação ao direcionado a elas.”

A questão racial abre espaço para percebermos que há um padrão quanto às mulheres que viajam sozinhas, e que a quebra desse padrão gera estranhamento em espaços de viajantes. Infelizmente, as latino-americanas estão entre as que menos se aventuram pelo mundo afora, por diversos fatores, sendo que os socioeconômicos figuram entre os principais. Além disso, elas ainda enfrentam uma carga muito pesada de estereótipos que perseguem as latinas. Elas são tratadas como mulhes extremamente sensuais, exageradas e desinibidas. Isso influencia no tratamento que recebem de estrangeiros.

Se reconhecer como latino-americana em um ambiente de intercâmbio, onde a maioria das mulheres eram brancas e de países europeus, foi um grande passo para Andreza. “Nós, brasileiros, às vezes nem nos consideramos parte da América Latina. Para mim, uma das coisas mais importantes, foi ter me sentido parte daquele lugar. Eu voltei para o Brasil me considerando latino-americana e com sede de conhecer mais países daqui”, conta ela. Depois da experiência enriquecedora de conhecer a cultura peruana, Andreza já planeja conhecer outros países latino-americanos.

Imagem: Giovanna Jarandilha/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

“Pelo menos uma vez por dia, tem aquela situação que você para e pensa: se eu não fosse mulher, eu não estaria passando por isso”

Quando uma colega de faculdade convidou Maira para dar aulas como voluntária na Índia, ela não pensou duas vezes. Talvez até tenha pensado, mas com 25 anos, uma graduação de Design de Moda e desempregada, ela resolveu correr os riscos. Hoje, um ano e meio depois, está viajando pela Ásia, e não tem data para voltar para casa.

Depois das aulas, Maira, que morava com outras mulheres estrangeiras, resolveu viajar para o sul da Índia, fazendo trabalhos voluntários, como o ensino de artes e inglês para crianças, e trabalhando em hotéis. Às vezes ganha salário e, na maioria das vezes, recebe hospedagem e alimentação em troca do trabalho. Tudo isso ela faz através de uma plataforma online para viajantes. “Aqui eu não tenho ninguém, peguei trem sozinha pela Índia e cheguei em um hostel que eu não conhecia. Com isso tive experiências bem legais, mas experiências esquisitas também”, conta ela.

Entre essas “experiências esquisitas”, ela conta de uma das oportunidades que teve de trabalhar em um hostel. “Fui simpática com o dono, como sempre sou, e ele entendeu de forma errada a minha atitude”, conta. Ela relembra que o homem não sabia ao certo que tipo de trabalho ele procurava, o que bastou para que Maira ficasse insegura. Eles acabaram combinando que ela trabalharia na decoração de outro hostel, do mesmo dono. “Ele veio com um papo de me chamar para jantar dizendo que queria me mostrar a decoração do lugar. Como você diz não? Fica parecendo que você tá negando coisas do trabalho, mas para ele, aquilo não era trabalho. Lá, eu conversei com uma brasileira que já conhecia ele. Ela me recomendou cair fora daquele trabalho. Foi minha primeira experiência ruim”, conta ela.

Depois dessa experiência, infelizmente muitas outras vieram. Maira conta da última delas, quando conversava com europeus e australianos em um hostel. “Eu falava do quanto era raro ver pessoas latinas ou negras fazendo mochilões pela Ásia”. Foi quando um australiano, gerente do lugar, repreendeu uma opinião de Maira, cortando sua fala com um alto “shhhhh”, na frente de todos. “Eu sabia que ele não faria aquilo com nenhuma outra pessoa da mesa. Primeiro, a gente é mulher e segundo a gente é brasileira, e aí vem toda uma questão.”

Maira Gouveia. (Reprodução/arquivo pessoal)

Maira também cita o fato de ser abordada por homens a todo momento nas ruas da Índia e do Sri Lanka. Os tuque tuques, veículos populares que dão carona aos pedestres, oferecem o serviço a todo hora, mas muitas vezes com segundas intenções. No transporte público, ela também conta que tem tido problemas. “Um dia no ônibus eu estava na janela, um cara no meio e uma moça indiana no outro assento. Ele estava com a perna aberta para o meu lado e ficava esbarrando em mim. Eu falei ‘com licença, você pode fechar um pouco sua perna?’, ele continuou me prensando e eu tive que sair”, conta. Em outra ocasião, ela viajava de trem pela primeira vez com uma amiga indiana, que alertou que se Maira quisesse ir no banheiro a noite, ela deveria acordar a amiga, nunca ir sozinha. “Ela falou em um tom que foi o suficiente para que eu entendesse.”

De fato, essas são algumas das experiências constrangedoras e abusivas que o machismo provoca. As mulheres viajantes estão em uma situação mais vulnerável porque carecem da companhia de um homem. É como se, para ser respeitada e estar segura nos espaços públicos, a mulher tivesse que estar sempre acompanhada de uma figura masculina. Essa construção social começou a ser moldada séculos atrás, em especial nas sociedades patriarcalistas, onde as mulheres só podiam andar nas ruas acompanhadas de seus maridos, pais ou irmãos. Além disso, em sociedades nas quais o assédio e a violência contra as mulheres locais já são um problema latente, ser estrangeira é um fator que torna as mulheres ainda mais vulneráveis. E, em algumas culturas, especialmente as mais conservadoras, onde as mulheres locais só tem a primeira experiência sexual após o casamento, as estrangeiras são consideradas um “sexo fácil”. Foi o que explicou Maira.

Ela me conta ainda da história de uma russa e uma egípcia que tiveram grandes problemas por causa do assédio. Elas moravam em uma pequena cidade indiana e andavam à noite pela rua onde uma delas residia. Segundo Maira, nessas cidades, não é comum ver mulheres locais nas ruas após as 18h, ainda mais jovens e vestidas sem burcas ou sares. As meninas foram perseguidas por alguns homens e, mesmo após chegarem desesperadas em casa, continuaram a ser perturbadas por eles, que as gritavam e batiam na porta. Ambas prestaram queixa à polícia, mas de nada adiantou. “As famílias dos caras ficaram desesperadas e começaram a ameaçá-las, falando que não podiam fazer isso e que a culpa era delas, que estavam invadindo o espaço dos locais”, conta. E a polícia?, pergunto. “Falou que não podia fazer nada, que não tinham provas, que não podiam protegê-las e que o melhor era elas irem embora dali.” O fim da história foi literalmente esse. De acordo com Maira, uma das mulheres teve que trocar de cidade e outra voltou ao seu país de origem.

O contato com outras culturas pode provocar espanto à primeira vista. Contudo, é sempre importante lembrar que não cabe aos ocidentais julgar os costumes como certos ou errados, isso cabe às mulheres locais, que vivem todo dia aquela cultura. Sobre isso, Maira conta que procurava mapear os costumes do país: “eu geralmente chego com calça jeans e tal e vou vendo o que pode e o que não pode. A cidade onde eu morava é bem conservadora, então eu usava roupas mais comportadas. Dá para ir se adaptando.”

Pergunto se Maira considera que as mulheres viajantes estão em uma situação de vulnerabilidade maior que os homens, ela responde que sim. “Eu percebo que a leveza com que os homens viajam é muito maior”, diz Maira. “Quando se é mulher, você nunca sabe o que é uma gentileza e o que não é. Você tem que andar mil vezes mais alerta.” Dessa forma, ignorar o perigo não é uma escolha — vide as altas taxas de feminicídio que atingem as mulheres viajantes. Acuadas e sem outras opções, as mulheres acabam recorrendo a dicas e técnicas que podem garantir sua proteção. Grupos onde elas trocam experiências e conselhos se espalham cada vez mais pelas redes sociais. “Quando se está sozinha ou sem a companhia de um homem, você já começa a mapear o local, as vendas para onde você pode correr, para quem você pode gritar por socorro. Você vê mulheres e já se sente aliviada”, conta Maira.

 

“As pessoas me perguntam se não penso em arranjar um homem e eu falo que não. Estou muito feliz assim. O mundo agora é meu marido”

Josefa, ou Jô, como gosta de ser chamada, é uma assistente social que criou três filhos, se aposentou e hoje, com 57 anos, resolveu conhecer o mundo acompanhada apenas pelos oito quilos de bagagem que carrega consigo. Ela compartilha suas viagens no página “Morando Onde A Mala Está” e inspira outras mulheres acima faixa etária dos 20 aos 30 anos a viajarem sozinhas. “Não consigo ficar muito tempo parada em um só lugar”, conta ela, que já conheceu dez países na Europa e tem a meta de conhecer outros dez em cada continente. Ela conta que não tem um roteiro definido e vai indo de país para país, sem muitos planos. Quando conversamos, ela contou que estava morando em uma casa de família na Irlanda. “Mas não estou a fim de me estabelecer aqui”, emenda.

Jô Feitosa. (Reprodução/arquivo pessoal)

A vontade de viajar surgiu há muito tempo. Quando pequena, ela morava com a família em Fortaleza, em uma casa próxima a uma estação de trem. Muitas das vezes, seu pai a levava para ver o trem chegando, revelado por seu saudoso som e a fumaça que ele emitia. Jô, ainda criança, gostava de ver todas aqueles passageiros desembarcando, carregando muitas malas e vindos de vários cantos do estado. “Uma vez, me perguntaram o que eu queria ser quando crescesse. E eu respondi que queria ser passageira”, conta ela, nostálgica. Hoje, ela finalmente realiza esse sonho de infância.

Tudo começou quando Jô foi convidada para dar algumas palestras em Portugal sobre seu trabalho no Brasil. Ela atuou por anos no sistema carcerário feminino e, recentemente, havia trabalhado com mulheres transexuais em cárcere. Com as palestras, além de portugueses e brasileiros, ela conheceu pessoas que moravam em outros países europeus, que a ofereceram hospedagem.  

Jô segue o esquema de viagens de baixo custo, um dos mais comuns entre as mulheres que viajam sozinhas hoje em dia. Para manter esse tipo de viagem, ela já trabalhou até de babá para filhos de brasileiros, e onde ela não tinha contato com ninguém, tentava hospedagem em casas de família ou hosteis de quarto compartilhado. “No começo foi mais difícil, mas hoje eu não tenho mais medo. Fui conhecendo as pessoas no caminho e elas foram me ajudando, parece até que foi combinado, mas não foi”, conta ela.

Jô se vira sem falar inglês, mas diz que está aprendendo e que é possível viajar sem dominar o idioma. “Estou indo aos poucos, vou guardando umas palavras-chave, observando o meu redor, lendo as placas”, explica. A duração mínima dos cursos de idioma – seis meses – e o alto preço deles não agradaram. Então ela resolver fazer aulas com uma professora particular na Irlanda. “Nem sempre ficamos só com aula, às vezes saímos, vamos num pub e treinamos a conversação”, conta ela, animada.

Ela confirma que há um padrão quanto às mulheres que viajam sozinhas ou acompanhadas de outras. Por ter mais de 50 anos e deixar o cabelo branco, sem pintar, ela se destaca em meio às outras mochileiras. “Eu sou negra e eu carrego pouca roupa comigo nas viagens, minhas roupas são simples, então viajando lá no Brasil eu me sentia incomodada com as pessoas olhando pra mim. Aqui eu não senti isso ainda”, revela. Na Europa, Jô conta que não encontrou muitas mulheres de sua idade ou mais velhas viajando sozinhas e que as pessoas se surpreendem por ela estar sem nenhuma companhia. “Por meu cabelo ser branco, ajuda bastante no espanto. As pessoas acabam meio que querendo me proteger por causa da idade”, diz ela. Às tantas tentativas de ajuda, Jô responde: “Minha vida só está começando agora! Tudo o que eu fiz foi trabalhar, agora estou começando a aprender a me divertir.”

Ela defende que as pessoas devem tratar com mais atenção a questão das viajantes com mais de 50 anos, que estão expostas aos mesmos machismos que outras mulheres mais novas, mas muitas vezes essas situações não são reconhecidas. Como exemplo disso, ela narra a vez que se perdeu em uma viagem em Curitiba e foi assediada ao pedir informação em um hotel. Segundo ela, outra dificuldade desse grupo de mulheres é lidar com os padrões que a sociedade as impõe, como pintar os cabelos brancos. Não segui-los, muitas vezes, faz com esse grupo passe por situações vexatórias e desconfortáveis em suas viagens.

Essas mulheres são de uma geração que foi criada de forma muito diferente das gerações mais novas e por isso muitas acreditam que elas mesmas realmente precisam ser protegidas e que é necessária a companhia masculina para sair e conhecer o mundo. “Os espaços públicos têm que ser abertos também para as mulheres com mais de 50 anos”, afirma ela. “Nós precisamos sair de casa e abandonar essa história de que a gente é o centro do lar. Viajando, a gente começa a fazer tanta coisa que antes parecia difícil e vê que, na verdade, não é nada demais. É uma oportunidade para abrir a mente”, conclui.

 

“Viajar sozinha é uma questão de autoconhecimento e de amor próprio. Você aprende a se bastar e a apreciar sua própria companhia”

“Minha primeira viagem sozinha foi um desafio logo de cara: eu tinha 19 anos e fui para a Turquia”, conta Thaís, que hoje tem 24 anos e estuda jornalismo em Portugal. Ela ganhou uma bolsa na Turquia enquanto cursava faculdade de publicidade no Brasil e decidiu que antes iria viajar sozinha pelo interior do país. Depois disso, Thaís entrou em outra aventura: viajar sozinha pela América do Sul. Nessa viagem, pegou caronas, fez couchsurfing, ficou em hotéis, tudo para manter a viagem com o menor custo possível.

Thaís conta que, apesar de ter feito viagens que parecem arriscadas, ela sabe que, por ser mulher, infelizmente tem que tomar cuidados extras. “Alguns homens nos enxergam como o sexo mais frágil e, por causa disso, como alvo mais fácil”, comenta.  Ela cita alguns desses cuidados que toma, como não chegar tarde nos destinos, tirar foto das placas dos carros nos quais pega carona e enviar para pessoas de confiança, checar se o destino é seguro para uma mulher sozinha e até dormir perto de seguranças em rodoviárias. “Mas a minha maior preocupação era saber na casa de quem eu ia ficar. Isso é uma das coisas mais perigosas e já tive muitas situações chatas com isso”, conta ela.

Thaís Stein. (Reprodução/arquivo pessoal)

Em uma dessas situações, seu anfitrião a acolheu com segundas intenções, ele chegou a dar em cima dela diversas vezes. Thaís não tinha tranquilidade nem ao tomar banho, quando ele ficava batendo na porta do banheiro. “Depois ele admitiu que, quando me viu no perfil do couchsurfing, ele sabia que tinha que flertar comigo. Me senti muito mal de estar na casa dele”, conta ela. Depois do episódio, Thaís não deixou mais de perguntar para outras mulheres se elas tinham se sentido bem com o anfitrião antes de confirmar a hospedagem. “Essa linha de comunicação entre mulheres ajuda bastante a gente”, acrescenta.

Tal comunicação muitas vezes é feita pela internet, que, segundo Thaís, tem sido um meio muito importante para mostrar para outras mulheres que é possível viajar sozinha. Por isso, recentemente, ela começou a escrever um blog para contar sobre as suas viagens. Dessa forma, ela diz que poderá servir de inspiração, assim como outras mulheres serviram para ela. “No Marrocos, conheci mais de uma mulher viajando sozinha, entre elas uma chinesa de 45 anos, que estavam se virando muito bem”, relembra. No Chile, um perrengue inesperado fez com que ela ficasse sem cartão e com pouquíssimo dinheiro, a alternativa foi recorrer às caronas. A inspiração e a coragem para tal vieram de uma mulher que Thaís conheceu pela internet. Ela viajou a Europa inteira usando a técnica clássica: ir para a estrada, fazer uma placa com o nome do próximo destino e esperar. “Eu só aceitei pegar carona porque escutei dessa menina. Ela é baixinha, loirinha, parece uma boneca. Todo mundo fala que essa é a pessoa mais frágil do mundo e olha o feito dela! Por que eu não conseguiria também?”. Thaís emenda explicando que a coragem de uma, logo contagia a outra, e assim as mulheres viajantes formam essa rede de inspiração.

Ela ainda conta do desgaste emocional de se viajar sozinha – ir para um lugar isolado no meio da viagem e começar a chorar não é algo incomum. Mudar de cidade periodicamente, fazer percursos exaustivos, estar longe da família e de amigos e ter que lidar com as preocupações decorrentes de ser uma mulher viajando sem uma companhia masculina pode ser algo muito exaustivo. “A gente fica muito sentimental quando viaja sozinho. Lembro que, na Bolívia, fui conversar com a minha mãe por telefone e ela falou que tinha vendido a nossa casa no Brasil e se mudado. Eu comecei a chorar absurdamente”, conta, rindo, enquanto relembra. Ao mesmo tempo, ela diz que toda essa carga simbólica que uma viajante leva nos ombros pode ajudá-la a crescer como pessoa. “Isso te deixa tão mais forte para encarar o mundo, que toda vez que eu volto de uma viagem sozinha sinto que cresci”, completa Thaís.

Apesar de todo o medo enfrentado pela mulheres viajantes, Thaís não deixa de citar os pontos positivos de conhecer o mundo com uma mochila nas costas. Ela diz que defende a ideia de que viajar sozinha não é, de fato, ficar sozinha. Isso porque, segundo ela, quando se viaja desacompanhada, as barreiras para conhecer outras pessoas são bem menores. Ao ir com alguém, as pessoas tendem a ficar mais fechadas para conhecer os outros e tentar novos roteiros.

Na Bolívia, por exemplo, ela conta que conheceu um garoto da Alemanha quando dividiu com ele um táxi saindo da rodoviária às três horas da madrugada. Disso, surgiu uma amizade. Eles se aproximaram e acabaram viajando juntos por quinze dias. Ela explica que episódios como esse, quando pessoas na mesma condição de viajantes solo se aproximam e embarcam em viagens juntos, é muito comum. Na maioria das vezes, eles se conhecem em hostéis ou se identificam visualmente. “Com algumas pessoas eu ainda falo com muita frequência, com outras a gente não se fala mais, mas aí do nada acontece uma coisa que a pessoa lembra de mim e vem falar comigo e vice-versa. Você acaba criando ligações muito fortes. Quando você está sozinho, você está mais aberto ao mundo”, diz Thaís.

Mulheres: da tomada do espaço público às viagens solo

Thaís Carneiro é historiadora formada na Universidade de São Paulo e tem estudado a ocupação do espaço público pelas mulheres, principalmente no que tange às viajantes. Ela conta que desde o século IV já existem relatos de mulheres que viajavam desacompanhadas de homens. Isso virá a acontecer com mais força apenas no século XIX, mas, segundo ela, mesmo nessa época, havia o entendimento de que aquilo não era comum, de que elas estavam transgredindo a ordem social vigente. “Para que se encaixassem, dentro daquilo que era esperado delas, elas reforçavam a retórica da domesticidade”, explica Thaís.

Foi moldada uma construção social que ditava que as mulheres deveriam ocupar apenas o espaço privado, se dedicando ao meio doméstico. Todo tipo de viagem que uma mulher fizesse teria que ser justificada como uma necessidade intransponível e seu objetivo deveria estar voltado, de alguma forma, para o bem das pessoas à sua volta. Por isso, viagens a lazer ou com o objetivo de realizar seus estudos, por exemplo, não eram aceitas socialmente. “Tinha que ter um objetivo claro e que não fosse tão somente revertido para a mulher. Seja porque elas iriam fazer trabalhos em hospitais e em asilos, seja porque elas estavam buscando algum tratamento de saúde para um familiar”, explica Thaís. A mulher, desse forma, tem sempre que abdicar de suas vontades próprias em prol de alguém. Faz parte da lógica machista de que toda a mulher nasce com um instinto materno.

Para Thaís, a ocupação dos espaços públicos começa a se dar, de fato, por meio das ondas do movimento feminista. Contudo, antes disso, há um marco importante que mostra a vontade e a insistência das mulheres em se fazer presentes nos espaços públicos. É a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, escrito pela francesa Olympe de Gouges, em resposta à tão famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. A Declaração foi considerada uma afronta, mesmo para a França revolucionária, e Olympe foi condenada à guilhotina. “Nesses momentos, tivemos uma apatia e um silenciamento da sociedade em relação às nossas demandas. Esses focos de resistência são abafados de acordo com o fluir da história.”

Na primeira onda do feminismo, caracterizada pelo movimento sufragista, há um pedido de ocupação do espaço público. Mas essa demanda só vai se concretizar com a segunda onda, entre os anos 1960 e 1970. Segundo Thaís, as mulheres dessa época são consideradas transgressoras, isso porque não havia o reconhecimento de que aquele espaços – das ruas, das fábricas, dos meios de transporte – pode ser um espaço delas também, e que a sua ocupação é legítima. “Acho que o não reconhecimento desse espaço como seu e o medo são os dois pontos cruciais para dificultar essa ocupação”, acrescenta.

Mesmo depois dos avanços trazidos pelas anteriores ondas do movimento feminista, as mulheres ainda passam por situações que fazem o passado parecer ontem. Thaís afirma que ainda hoje, o fato das mulheres irem viajar sozinhas ou juntas é considerado algo problemático por uma expressiva parcela da sociedade. “Há toda uma questão de legitimar a sua viagem e legitimar a sua força enquanto viajante, no sentido de que você está bem protegida, de que você não está fazendo nenhuma loucura”, comenta a historiadora.

Ela cita o caso das turistas argentinas de 21 e 22 anos que foram mortas no Equador em março do ano passado após a tentativa de abuso sexual por dois homens. As taxas de feminicídio de viajantes são consideravelmente altas, principalmente em países onde essa taxa já é alta entre as mulheres locais e onde prevalece lógicas machistas e negligência em garantir a segurança da mulher no espaço público. Contudo, a sociedade ainda vê isso como consequência da irresponsabilidade ou da imprudência das próprias mulheres. “A grande imprensa apontou que elas teriam se deixado vulneráveis. É a retórica da culpabilização da vítima”, explica Thaís. Segundo ela, isso fez crescer em blogs, site e até grandes jornais dicas para mulheres viajantes. Os textos alertam para tudo: não use roupas “insinuantes”, não saia durante a noite, não saia muito de manhã, não confie em estranhos e nem fale com eles, não aceite caronas, comida ou hospedagem, não chame atenção, não ande sozinha ou vá para festas, a lista de proibições é grande. Na internet, uma pesquisa por dicas para homens viajantes mostra resultados escassos. Recomenda-se, ao máximo, o cuidado com assaltos.

A grande tendência, por parte da imprensa, em fazer tais tipos de publicações mostra que o machismo é tratado como um problema da mulher, não da sociedade como um todo. “Mesmo que elas [as turistas argentinas] não tivessem tomado todas essas precauções, nada assegura que não seriam vítimas de violência”, afirma Thaís. “Essa questão vai muito além da a ideia da mulher como objeto de desejo sexual dos homens. A violência e o assédio estão ligados a uma relação assimétrica de poder.”

O incômodo com a cobertura da morte das mochileiras argentinas, no começo do ano passado, fez com que Thaís criasse um projeto como estratégia de resistência e espaço de fala a essas mulheres. Inicialmente, a historiadora criou um blog, o “Mulheres Viajantes”, no qual contava experiências próprias, mas com o passar do tempo, ela começou a publicar relatos de outras mulheres. Assim surgiu um projeto ainda maior. O ímpeto de coletar cada vez mais relatos fez com que nascesse o “Mulheres Viajantes Vai Às Ruas”. A ideia era combinar encontros com mulheres que queriam contar sua história, a fim de criar um banco de dados no blog. O projeto deu tão certo que acabou culminando em grandes rodas de conversa, coordenadas por Thaís, na quais as mulheres compartilham, umas com as outras, suas experiências como viajantes. Os encontros já aconteceram em São Paulo, Rio de Janeiro e, mais recentemente, em Curitiba.

“As meninas falam menos em casos específicos, mas falam muito do medo. Além disso, falam dos machismos. Se não é o cara insinuando algo contigo, a ideia é que esse homem assume o papel de protetor, ele faz questão de te cuidar”, conta Thaís. Ela também explica o aumento de mulheres que resolvem viajar sozinhas, com as amigas ou até mesmo com os filhos, nos últimos anos. A falta de companhia é um dos principais fatores, assim como uma mudança abrupta na vida, a busca por oportunidades de estudo ou trabalho e a necessidade de mudança de ares. Para ela, esse aumento também pode ser explicado pela força dos movimentos de empoderamento feminino, que têm fortalecido as mulheres e permitido que enxerguem novas possibilidades fora do que era entendido como o papel tradicional da mulher.

“A sociedade não nos trata como normais porque estamos, de fato, rompendo o que se entende por normalidade em relação ao comportamento de uma mulher. Esse é um processo lento e algumas vezes doloroso, mas acredito que está cada vez mais fortalecido e se dando de forma coletiva”, conclui.

As viajantes solo em números

Em março deste ano, o Ministério do Turismo do Brasil revelou que 17,8% das mulheres que pretendiam viajar nos meses seguintes pretendiam fazê-lo sozinhas. Pode não parecer, mas o número é alto se comparado com estimativas passadas. A pesquisa ainda revelou que houve um crescimento da participação das mulheres brasileiras no mercado de viagens e como turistas que decidem seus próprios destinos.

Infográfico: Giovanna Costanti / J.Press

Esses avanços devem-se, entre outros fatores, ao aumento da escolaridade e da participação no mercado de trabalho, o que fazem com que, em 10 anos, a quantidade de lares chefiados por mulheres tenha aumentado 67%, chegando a 39,8% do total. Contudo, as viajantes que colocam o Brasil na lista de cinco países com mais mulheres que viajam por conta própria, corresponde a uma pequena parcela da população feminina, que tem condições e acesso às viagens solo. Assim, antes de se exaltar os avanços, é preciso perceber a heterogeneidade da população feminina brasileira.

No último mês, 386 mulheres participantes de grupos de redes sociais relacionados a viagens, couchsurfing, mochilões e caronas, e que já haviam tido alguma experiência viajando sozinhas ou com amigas responderam um formulário online sobre o tema elaborado pela J. Press. Você confere acima um perfil dessas mulheres e números que exemplificam como o machismo influencia o seu direito de ir e vir.

 

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