Como a juventude brasileira encara a crise política

O papel de um dos mais importantes e heterogêneos grupos políticos que enfrenta o maior desafio de sua geração

 

Pedro Gabriel (peedrog98@usp.br) e Wender Starlles (wenderstarlles@usp.br)

Uma parcela da juventude brasileira, concentrada nos grandes centros urbanos, sempre se mostrou muito atuante no cenário político, principalmente em momentos que abarcam forte instabilidade governamental e pressão social. No ano de 1964, com o golpe militar, várias frentes de oposição ao regime surgiram e, foi só questão de tempo até que os estudantes universitários que estavam tendo seus direitos de liberdade cerceados, entrarem como fortes agentes transformadores da situação. Diversos movimentos liderados por jovens foram colocados na ilegalidade, tamanha sua influência e perigo que ofereciam a ditadura. Essa repressão e censura a qual sofreram, talvez, sejam os principais fatores responsáveis pela falta de reconhecimento dada na história a esses grupos na luta a favor da redemocratização do país.

Entretanto, não é necessário recorrer a um passado considerado distante, para lembrar do papel juvenil cumprido na política, já que boa parte da população não conhece de fato a importância desempenhada por essa juventude no regime militar. Basta olhar para a década de 90 quando os Caras Pintadas saíram às ruas e pediram o impeachment do então presidente Fernando Collor, acusado de estar envolvido em diversos esquemas de corrupção. À época, não existiam em âmbito nacional sistemas de comunicação facilitadores do debate. Mesmo assim, diversas mobilizações eclodiram, compondo-se essencialmente da participação da geração X, encarregados de depor Collor do cargo. Mas e hoje, com a difusão do acesso à informação através da internet, como a juventude organizada se posiciona frente à onda de escândalos partidários, polarização da sociedade e questões sociais?  

Com a crise política se intensificando no país, diversos segmentos da sociedade começam a criticar os planos do governo, incluindo, mais uma vez, a juventude nacional. “Estão diminuido os direitos dos jovens, das mulheres, da classe trabalhadora. Cada vez mais vêm nos impedindo de ter inserção na sociedade” comenta Najara Leite, secretária da pasta de relações internacionais da juventude do PT (Partido dos Trabalhadores), e ainda complementa: “provavelmente não vou aposentar, a educação está caindo, saúde também”.

A aprovação do governo de Michel Temer estava, em junho, na casa dos 5%. O atual presidente está no olho do furacão de um dos maiores esquemas de corrupção que o mundo já presenciou. Busca, além disso, aprovar apressadamente uma série de reformas de austeridade impopulares.

Em um país como o Brasil, no qual alguns segmentos sociais sempre influenciaram a política nacional em defesa de seus interesses, esse cenário é o palco perfeito para as manifestações populares. Os grandes atos espalhados em diversas capitais são, muitas vezes, protagonizados por uma nova geração política que enfrenta, talvez, um de seus maiores desafios.

Mas afinal, por que se mobilizar?

“A minha mãe sempre foi uma líder. Foi uma candidata a vereadora pelo PT, então desde a infância eu fui ligada ao movimento partidário e aos movimentos populares.” A história de Najara se relaciona com outros jovens ao redor do país, que conheceram a política por meio de seus pais. Um desses, Guilherme Cortez, presidente municipal do PSOL de Franca: “Eu descobri a política formal pela primeira vez quando eu era criança, observando meus pais acompanharem, observarem essa política macro”.

Luta por democracia nos espaços estudantis. (Créditos: Bruna Caetano)

O ambiente estudantil, tanto o secundarista quanto o universitário, também contribuem para a formação política desses jovens. Atléticas, partidos políticos e o movimento estudantil como um todo exercem grande papel para essa juventude.

Apesar desses ambientes, o cenário político e econômico atual fazem questionar o porquê de participar desses debates. A resposta para isso está na própria pergunta, “Temer vem criando desmontes e mais desmontes, e se ficar do jeito que está e a gente não se apropriar, as coisas vão piorar cada vez mais”, diz Najara sobre suas motivações políticas.

Representante da UEE, Nayara Souza, além de reafirmar essa tese, busca os seus porquês no combate a desigualdades sociais: “Você olha o mundo hoje, e o sistema que está posto traz uma desigualdade inacreditável. Não é à toa que enquanto uns se formam nas melhores universidades, outros atravessam esgotos a céu aberto para chegar em escolas em um sistema educacional que não forma cidadãos, e sim mão-de-obra”.

Guilherme, que tem 19 anos, comenta a sua necessidade de se organizar em projetos coletivos para buscar os seus objetivos na política: “Apenas uma militância individual não seria capaz de promover as mudanças que eu julgava corretas”. Dessa forma, começou a sua jornada política participando de uma corrente de juventude do PSOL, o JUNTOS, que permanece ativo até hoje, apesar de não participar mais do segmento.

Ainda não são só 20 centavos

“Junho de 2013 rompeu com o estado de apatia que vivíamos desde o começo do governo do PT”, comenta Guilherme sobre as Jornadas de Junho de 2013. As manifestações daquele ano foram o estopim de uma série de movimentos populares que viriam nos anos seguintes. “ Poucas pessoas que eu conheço que atuam hoje na política da juventude não tiveram qualquer influência de junho de 2013, que impulsionou muita gente”, complementa.

O maior movimento popular dos últimos 20 anos foi um marco na história brasileira. Não só pelo seu tamanho, mas também pelo seu legado para os brasileiros. “De lá para cá se estabeleceu um diálogo cada vez maior com o governo para conseguir avançar nas pautas educacionais e sociais”, comenta Nayara sobre a influência desse movimento.

“A jornada não foi só em junho, ela foi quase dois, três anos para a frente de muita luta e muita rua”, complementa a representante da UEE de São Paulo. A geração que atua nos movimentos de juventude hoje foi impactada por esse movimento em diversas maneiras. “Junho de 2013 foi uma iniciativa de luta por direitos sociais, pela qualidade de vida, uma luta de indignação contra a situação política”, diz Guilherme.“Apresentou para a gente toda essa possibilidade de retomar as ruas e não acreditar que a nossa vida só pode ser mudada de 2 em 2 anos com as eleições, mas sim que temos um poder real de transformação e intervenção política, junho de 2013 produziu muito do que a gente é.”

    “Essas manifestações trouxeram um legado muito positivo, como a explosão de greves, manifestações, ocupações que tivemos a partir desse ano e que se não fosse por isso não teria acontecido”, defende Guilherme, que ainda traz exemplos como a greve dos metroviários em São Paulo, dos garis no Rio de Janeiro, ocupações de escolas em 2015 também em São Paulo.

    Najara analisa como foram os movimentos: “Durante o processo as pessoas usaram as manifestações, o Vem pra Rua para  fins políticos, inclusive da direita, e a juventude de esquerda também participou, pontuou e levantou suas bandeiras”.  Além disso, comenta uma incoerência desses movimentos, que “exigiam mais espaço de poder, mas ao mesmo tempo não compreendiam a lógica de como isso é construído, e anularam as ferramentas que servem para reivindicar tudo isso, que são os partidos, os movimentos populares, as organizações estudantis.”

Entretanto, também diz como a juventude buscou se portar depois desses movimentos: “A gente está nesse processo para a juventude começar a descobrir os caminhos, e pegar gosto por discutir a política. E não é discutir se é esse ou aquele partido, é participar dos conselhos municipais, das sessões na câmara dos vereadores, saber quais os decretos que o prefeito está despachando. Aquela juventude queria estar naqueles espaços mas anulando todas as ferramentas para isso, então agora a gente está em um processo de formação, que as pessoas precisam descobrir qual a sua função social”.

As eleições do ano seguinte

Talvez o começo da atual crise política date o dia seguinte ao resultado das eleições. A reeleição da presidenta Dilma Rousseff em 2014 levou a uma forte ofensiva da oposição que culminaria com o seu processo de impeachment ao final de 2016. “É o início de uma crise política no Brasil, as ideias são muito polarizadas, e a eleição foi muito acirrada.     Um cenário de muita disputa de opinião”,  diz Nayara sobre o cenário do ano das últimas eleições presidenciais.

“2014 teve muitos resquícios do Vem pra Rua de 2013, e foi um alerta para que as pessoas tivessem a percepção do que foi a política e como ela funciona. Mas muitas dessas e o oligopólio da mídia canalizaram esse querer saber mais para o questionamento e as acusações do que um apontamento de que a sociedade também faz parte dessa construção política, que ela pode opinar, e que a política não é politicagem”, comenta Najara, que já fazia parte da juventude do partido nessa época. Discursa ainda sobre o pós-eleições, e os movimentos da oposição contra o resultado das urnas: “as empresas, da mídia e das pessoas que detém um poder fizeram um movimento para desmoralizar o partido e toda a esquerda”.

Guilherme faz críticas ao projeto do governo de Dilma, que propunha, em sua opinião, uma política de conciliação de classes, que seria incompatível: “o modelo petista, ainda que tivesse aquela retórica de unidade contra o retrocesso maior, não representava uma alternativa real para a classe trabalhadora e para a juventude”. Comenta também o seu apoio, à epóca, da candidata pelo seu partido, e os caminhos que seguiria depois de junho de 2013. “Na época eu endossava a campanha da Luciana Genro, porque achava que ela era a candidata que melhor expressava esse projeto, mas ainda assim a gente reconhecia que não era a campanha de ninguém da esquerda socialista que ia desencadear a mudança que a gente buscava, mas sim a manifestação popular.”

A juventude, a crise e o governo Temer

Em consenso, as juventudes entrevistadas repudiam o atual presidente. Suas medidas não possuem adesão popular e são muito criticadas não apenas pela parcela mais jovem da população. “Aqui no estado de São Paulo, há dois anos atrás, a gente discutia como o governo do estado andava na contramão das políticas nacionais, e hoje a gente vê essas políticas se alinharem. É o mesmo projeto em três instâncias que movem o que será do povo nas próximas décadas, e dentro desse projeto estão as reformas trabalhista e previdenciária, que colocam o patamar da juventude no mercado de trabalho muito preocupante”, afirma Nayara, ao ser questionada sobre o atual cenário político.

“São reformas que excluem a perspectiva da juventude, e massacram a qualidade de vida do trabalhador que já está nesse mercado. É colocar a dignidade do povo no limbo”, complementa a representante da organização estudantil. Além disso, faz questionamentos à respeito da PEC-55 responsável por estabelecer um teto de gastos públicos pelas próximas duas décadas, limitando investimentos em áreas vitais da funcionalidade social: “Como que fica a pesquisa acadêmica? A produção de tecnologia? O investimento na educação, inclusive da democratização desses meios de comunicação?”.

Guilherme faz quórum a essas críticas: “O governo Temer é o agente político que promove na esfera estatal um projeto agressivo de reduzir os direitos da população, sem ligar para as taxas de aprovação do povo”. Além disso, ainda diz que “a terceirização irrestrita, a PEC dos gastos públicos e a reforma trabalhista são projetos de austeridade sem precedentes e extremamente radicais que prejudicam a vida dos trabalhadores e da juventude”.

A juventude brasileira está disposta a lutar por uma sociedade mais igualitária. (Créditos: Bruna Caetano)

“As pessoas não tem noção do impacto que esse governo Temer está causando e vai causar”, fala Najara à respeito desse contexto, além de criticar o atual governo tucano do estado. “O metrô é um absurdo, tem pessoas que ficam 2 horas para chegar em seus lugares, quando vê no final do mês ficou mais de 48 horas no transporte público. A mobilidade urbana é péssima”.

Entretanto, os atuais partidos que determinam os caminhos do poder público não são os únicos criticados nesse cenário. “O PT tem um peso político e social extremamente ostensivo no nosso país, e a partir do golpe assume uma retórica de que é necessário retomar o que era bom antigamente”. Najara ainda ressalta que é importante se ater à contradição do partido, já que em vários episódios verificou-se a manutenção de erros do seu passado político, como por exemplo a caravana de Lula pelo nordeste ao dividir  palco com membros do PMDB.

Essa não é a única ressalva de Guilherme, que também comenta a posição do partido em algumas tentativas de greves gerais: “ainda que o PT faça um discurso combativo, a gente vê que na verdade ele não mobiliza toda as suas forças para as ações que poderiam de fato por um fim nesse governo”. Procura, ainda, uma razão para isso, que seria “o interesse do setor majoritário do partido seria que o governo continuasse se desgraçando com a opinião pública, para que a população confronte o projeto apocalíptico e o que pode representar o governo do PT nas eleições que ocorrerão regularmente”.

O daqui para frente e as eleições de 2018

O ano que vem será marcado pelas eleições presidenciais para o mandato de 2019 até 2022. Em meio a todo esse cenário, pesquisas já apontam quais são os primeiros rumos que essa corrida parece tomar. Entretanto, Guilherme afirma: “A conjuntura política está muito agitada para declararmos que já dá para saber quem vai vencer, muita coisa pode acontecer.”

“O papel é ser a juventude que vai protagonizar o enfrentamento do golpe, e  também de ser essa ponte de diálogo com a juventude, com os movimentos populares para sintonizarmos o diálogo e enfrentar esse desmonte”, é o que responde Najara sobre o papel da sua secretaria nos próximos anos, sucedendo de como fazer isso: “Não é criar um exército da militância da juventude petista. A gente está numa fase de abrir diálogo, e usar a cultura e comunicação como ferramentas de formação e transformação social, para criarmos juntos um projeto para a realidade dessa juventude”.

Quando questionada sobre 2018, fala com convicção: “Lula presidente. Eu quero votar nele, votar no 13, nos nossos candidatos à deputado, a minha expectativa é ampliar a representatividade da classe trabalhadora nos espaços que estarão em disputa”.

“De dois anos para cá a luta vem se reinventando, e o posso dar como exemplo, que foi duas semanas atrás ocupando a principal câmara de vereadores do país contra o pacote de privatização da cidade de São Paulo, então é nessa pegada que a juventude vem, daqui para frente para o próximo período, é muita rua e muita luta”, comenta Nayara sobre como a UEE vai se comportar para o futuro próximo. Guilherme reafirma a importância desses movimentos, “a gente tem que apostar em coisas imediatas no momento. A Reforma da Previdência pode ser aprovada se não houver nenhum movimento contrário, e assim para a reforma política e a privatização de órgãos públicos que o governo anunciou”. 

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