A “geração Z” nas eleições de 2018

A disputa presidencial segundo jovens abaixo dos 30.

Por Renato Navarro (renatonavarro@usp.br) e Jonas Santana (jonasribeirodesantana@usp.br)

O atual cenário no qual se encontra a sociedade brasileira é preocupante: a desconfiança predomina no que toca à classe política, a economia do país vive momento delicado e a taxa de desemprego alcançou 13,3% da população, ou 13,8 milhões de pessoas, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgados em 30 de junho de 2017. Em meio a essa instabilidade, uma parcela da população passa por seu primeiro momento de crise: trata-se da Geração Z.

Formada por pessoas nascidas entre os anos de 1988 e 2010, os membros desse grupo cresceram junto à onda tecnológica e aos avanços socioeconômicos pelos quais o Brasil passou nas três últimas décadas. Pode-se afirmar que eles foram contemporâneos a um país muito mais seguro e sólido, diferentemente daqueles que viveram sob o jugo do regime militar (entre 1964 e 1984) e posteriormente passaram pela fragilidade econômica que assolou o país na época da redemocratização. Acostumados com os longos períodos estáveis, com governos que cumpriram seus mandatos na íntegra e relativo desenvolvimento do país, a Geração Z tem presenciado uma série de transformações. Essas mudanças se dão especialmente devido à insatisfação com a política tradicional, em um processo que teve seu primeiro estopim em junho de 2013 e hoje vive seu momento mais crítico, em que a sucessão de governantes e as relações conturbadas e corrompidas entre os três poderes e o setor privado minam cada vez mais a confiança na classe política.

Em relação às juventudes anteriores, a da Geração Z é mais instruída. Segundo a PNAD 2016 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, promovida pelo IBGE), apenas 8% da população com 15 anos ou mais não é alfabetizada, o que representa uma redução de 4,4 pontos percentuais desde 2001. Seguindo esta linha, de acordo com dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o número de jovens no ensino médio e superior também aumentou nos últimos 15 anos: em 2002, apenas 14,6% de todos os eleitores haviam completado o ensino médio e, desses, apenas 3,2% se formaram no ensino superior. Hoje, 30,4% dos eleitores brasileiros já concluíram o ensino médio e, desses, 7,5% se graduaram.

Outro aspecto interessante é a conectividade e facilidade no acesso à informação que esse grupo dispõe: segundo o PNAD 2015, 30,4% dos donos de celulares tinham entre 15 e 29 anos, o que equivale a 49 milhões de pessoas. Além disso, também segundo o PNAD, 57,8% das residências do país tinham acesso à internet via computador ou celular, totalizando mais de 68 milhões de casas. No mesmo ano, uma pesquisa da TIC Domicílios observou que cerca de 102,1 milhões de brasileiros acima dos 10 anos acessam a internet, equivalente a 57,5% da população.

Em 2016, o TSE divulgou que jovens de 16 a 29 anos correspondem a 27% do eleitorado nacional, cerca de 38 milhões de brasileiros, deixando explícita a grande importância que existe no posicionamento desta geração para a definição dos rumos do país. Com boa formação acadêmica e sempre conectados com o que acontece ao redor do mundo, este grupo conta com informações às quais muita gente não tem acesso. Desta forma, surge a pergunta: como eles, vindos de um contexto mais favorável e teoricamente melhor preparados que as gerações anteriores, se posicionarão neste momento de crise das instituições? Para descobrir, a J.Press conversou com jovens de diferentes posicionamentos para ouvir o que eles esperam das eleições presidenciais de 2018.

Fugindo da tendência

Elaine Mara, de 24 anos, é heterossexual, cristã católica e estudante de jornalismo. Ela é de Cuiabá – MT. Já participou da UJS (União da Juventude Socialista, braço juvenil do PCdoB) na época da adolescência, mas não chegou a se filiar à organização. Mais tarde se filiou ao PSDB, participando da juventude do partido, mas hoje se identifica como independente. Eliane, mesmo sendo cristã, não votará em Jair Bolsonaro (PSC-RJ), candidato conservador que pretende usar o cristianismo como base em seu governo, caso ele se candidate à Presidência da República.

“Não sei ainda em quem eu vou votar, porque até em 2018 tem muita coisa que vai acontecer ainda. Não voto em Bolsonaro porque não concordo como ele se posiciona. Apesar de eu ser cristã, noto muita hipocrisia nas falas dele e, por esse motivo, ele é um candidato que não me agrada. Acho o Bolsonaro um candidato muito extremo e nesse momento qualquer extremo é ruim. A gente precisa de um presidente que seja capaz de dialogar e governar para grande maioria possível tendo o apoio do congresso principalmente. Antes de pensar em um presidente, penso em uma renovação do nosso congresso. Os nossos senadores precisam ser renovados por aqueles que lutam pela gente. Acho que as pessoas se preocupam muito com as eleições presidenciais sendo que aqui o presidente não tem tanto peso assim de decisão quanto deveria talvez. As pessoas deveriam se preocupar mais com isso.”

 

Erick Ribeiro, de 19 anos, é homossexual, ateu e estudante de publicidade. Ele é de Castanhal – PA. Em 2018 será a primeira vez às urnas, já que nas últimas eleições ele não possuía o título de eleitor. Ele nunca se filiou a um partido e não pretende. Erick é gay, porém, mesmo pertencendo à comunidade LGBT, não apoia a esquerda, cujos setores tendem a defender a causa publicamente.

“A esquerda usa a minoria para chegar ao poder, não liga de verdade para as minorias que defendem, só ligam para seus próprios interesses. São contra a liberdade, mesmo levantando a bandeira delas, você não pode ser a favor da liberdade atacando a liberdade alheia para legitimar a sua. Não votei em 2014, pois não tinha título naquela época. Eu não entendia política naquela época, então se votasse eu ia votar nos candidatos que o grupo social que eu estava ia votar. Eu ainda não saberia em qual candidato votar. A gente estava fudido aquela época igual como estamos agora.”

Insatisfeitos

Em 2014, o número de votos nulos e brancos correspondeu a cerca de 10% dos votos contabilizados. Já o número de abstenção ultrapassou 19%, ambos os dados segundo o TSE. (Créditos: Reprodução)

Vinicius Marciano, de 22 anos, é heterossexual, ateu e estudante de editoração. Ele é de São Paulo – SP. Militante no Território Livre, juventude do partido comunista Movimento da Negação da Negação, Vinicius se considerava social-democrata, até que junho de 2013 o decepcionou. Votaria em um candidato da esquerda que representasse os trabalhadores, o que não ocorre, por isso vota nulo.

“Eu passei pela experiência de junho de 2013, vi toda a multidão na rua, etc. Passei também por esse movimento de que realmente não era só pelos 20 centavos, que tinha algo de errado com a política, vi o Haddad e o Alckmin reprimindo juntos — e isso foi bem chocante pra mim — e bem, já entrei na universidade achando que o PT não é uma saída”, diz. “A gente [Território Livre] vota em candidatos que estejam lá nas eleições para criticar os outros candidatos, como são todos parecidos, e estejam lá para ser a voz dos trabalhadores, tanto que eu votei em Altino [candidato a prefeito pelo PSTU] nas últimas eleições. […] O próprio Bolsonaro e Doria não são flores que se cheirem, mas o Lula tem algo a mais: o controle de movimentos sociais, a CUT (Central Única dos Trabalhadores — que já é conhecida pelo gangsterismo — e o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), que assim como na Venezuela podem ser como tropas dentro dos movimentos sociais para barrar a organização dos trabalhadores. Se a esquerda realmente saísse com um candidato unificado e forte, que fizesse uma oposição real à figura do Lula, eu votaria. Porém, o que tem se desenhado na verdade é mais desesperador, por exemplo o Vamos, que junta setores do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), PSOL, MAIS (Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista), PCB: eles tendem muito pro lado do PT, e eu não votaria numa candidatura que fortaleça ou seja sombra do governo petista, uma linha auxiliar.”

Thiago de Oliveira, de 22 anos, é heterossexual, não possui religião e é estudante de jornalismo. Ele é de Cajamar – SP. Não votará em ninguém pois está desiludido com a política, mas concorda com a importância de pautas abordadas por setores da esquerda.

“Não possuo filiação partidária e não milito por nenhum movimento ou ideologia. Acredito, porém, na necessidade de se reivindicar direitos e entendo o furor por trás de alguns movimentos de esquerda, mas prefiro manter a distância. Ao longo dos anos, a política brasileira se provou falida em todos os setores e os possíveis candidatos à presidência de 2018 são basicamente alguns representantes dos erros cometidos no país – nada menos que os velhos expoentes da imobilidade. Votar em algum deles, a meu ver, seria persistir nos erros. […] Já simpatizei com Lula e o PT, mas alguns conluios com partidos, políticos e empresários de caráter duvidoso botaram em cheque a pouca simpatia que me restava num período em que eu já passava por um processo de desencanto com a política em geral. Aguardo [para 2018] o mesmo circo de sempre, os mesmos candidatos e partidos, os mesmos discursos retrógrados ou pretensamente progressistas.”

Votos decididos

Ciro Gomes

Ciro Gomes (PDT) já governou o Ceará e é pré-candidato à Presidência da República prometendo ser uma das alternativas para os eleitores que simpatizam com a esquerda e se desencantaram com o PT. (Créditos: Reprodução)

Vanessa Tuane, de 28 anos é heterossexual, não possui religião e professora de geografia. Ela é de Recife –  PE. Até o momento, pretende votar em Ciro Gomes e teme o discurso de ódio que pode envolver as eleições de 2018.
Vanessa tem a intenção de votar em Ciro Gomes, político do PDT, e aponta como principal motivo de sua preferência a redemocratização da economia e distribuição de renda, defendidas pelo pré-candidato. Apesar de discordâncias pontuais, ela alega que “dentro das opções atuais mesmo sem concordância plena ainda sim é a minha atual opção”. Antiga simpatizante do Partido dos Trabalhadores, Vanessa projeta um 2018 preocupante:Medo, muito medo. No geral, vejo discurso de ódio ganhando visibilidade.”

Jair Bolsonaro

Jair Bolsonaro (PSC) é pré-candidato à Presidência da República e vem aumentando sua popularidade tendo como base discursos de extrema-direita (Créditos: Igo Estrela/Ed. Globo)

Heitor, de 21 anos é heterossexual, cristão católico e estudante de letras. Ele é de São Paulo – SP. Apesar de não simpatizar com nenhum partido em especial, pretende votar em Jair Bolsonaro principalmente por concordar com seu aspecto moral e discordar muito do restante dos candidatos.

Sobre os pontos em que concorda com o candidato: “Primeiro, segurança pública. Por exemplo, mais flexibilização no porte de armas, nesse sentido. Talvez mais liberdade às escolas, os pais terem mais voz na escola, terem direito ou uma garantia de que os filhos estejam aprendendo, pelo menos no campo moral, o que os pais querem”. Segundo Heitor, “ele parece agir muito por instinto, mas parece bem honesto, moralmente falando, e também em questão da corrupção. Talvez ele não esteja tão preparado, talvez no campo de economia ele não domine o assunto como deveria dominar”. Sua opção por Bolsonaro se deu “primeiro porque provavelmente só haverá ele. Digamos que ano que vem sejam ele, o Lula, o Ciro Gomes e o Doria. Do Lula não preciso falar nada. Do Ciro Gomes também não, digamos que o Ciro Gomes é como um Lula. E o Doria primeiro porque disse que não sairia de São Paulo. Mesmo se ele fosse o melhor de todos eu não votaria nele porque ele chegou com essa questão de que seria administrador, falou ‘vou ficar só em São Paulo mesmo, vou fazer os quatro anos’ , então se ele se candidatar ano que vem ele não vai cumprir os quatro anos, apenas dois. Só por isso eu já não votaria nele. A Marina Silva [REDE-AC], eu não tenho nada em comum com ela, e os outros não têm chance de ganhar, acho.”

João Dória

Atual prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB) é o nome mais cotado para a candidatura à Presidência da República do seu partido e promete representar uma direita mais liberal. (Imagem: Reprodução)

Juliana de Sousa, de 18 anos, é heterossexual, deísta e estudante de direito. Ela é Brasília – DF. Nunca se filiou a algum partido. Votará em João Doria e rejeita Lula.

“Minha intenção é de votar em Doria porque eu acredito que o Brasil precisa de um gestor, não de um demagogo. Gente iletrada e aproveitadora afundou o país e deixou do jeito que está. Antes minha intenção de voto era nula/branco. Se ele se candidatar mesmo, até esse momento meu voto é dele. Na minha visão, com certeza vai ter um segundo turno, porque até onde eu sei, as pessoas estão divergindo muito sobre em quem vão votar. Eu posso estar bastante errada, mas acho que infelizmente um dos candidatos do segundo turno será o Lula.”

Lula

O ex-presidente Lula (PT), após o processo de impeachment de sua sucessora Dilma Rousseff, é o nome que mais se destaca nos que simpatizam com ideologias de esquerda. (Imagem: Reprodução)

Lucas Santana, de 26 anos, é homossexual, cristão protestante e jornalista. Ele é de Vinhedo – SP. Eleitor de Lula e filiado ao PT, acredita que, neste momento de crise, o ex-presidente agregará setores interessados no desenvolvimento nacional, crescimento econômico, distribuição da renda e responderá ao golpe de 2016.

“Por militar no movimento de juventude do PT [JPT, do qual faz parte desde 2015], defendo quase que integralmente a visão de Lula de distribuição de renda entre as camadas mais vulneráveis da sociedade por meio de programas sociais, geração de emprego, aumento da renda, investimentos em educação e outras áreas de interesse do povo e do Brasil como nação. Além disso, tenho total acordo com a visão de Lula de que o Brasil é um país que deva ter importância internacional, que seja soberano, com um Estado forte, indústria forte, entre outros pontos.” Lucas aponta algumas diferenças de pensamento: “Lula tem um perfil muito conciliador, ou seja, ele acredita que todos os setores da sociedade podem convergir para permitir um governo aos moldes do que fez entre 2003 e 2010. Mesmo com o golpe de 2016, a traição do PMDB e da forte pressão de setores da elite pela queda de Dilma, ele segue acreditando que é possível conciliar a sociedade.[…] Acredito que ele deveria ter uma postura mais à esquerda, criticando esses setores, evitando alianças com esses mesmos atores.” Ele também explica que os discursos com os quais se identificava antes “se mostraram muito vazios nas experiências políticas do PSOL e da Marina Silva”. “Minha preferência pelo PT se deu em muito pelo governo Lula, sua capacidade de fazer um governo que mudou a cara do país. Dilma deu continuidade e até aprofundou essas mudanças. Hoje já não consigo enxergar nenhuma outra força política no país que tenha conexão com o povo mais pobre e com os trabalhadores em geral que não seja o PT.”

Marcelo Freixo | Chico Alencar

Marcelo Freixo e Chico Alencar, ambos do PSOL, prometem ser outra opção aos que simpatizam com a esquerda. (Créditos: Reprodução)

Milena Gomes, de 28 anos, é heterossexual, cristã católica, geógrafa e mestranda em desenvolvimento e meio ambiente. Ela é de Recife – PE.  Integrante do PSOL, que ainda não tem um candidato definido, afirma que votará em um dos possíveis candidatos do partido. Milena afirma se espantar “com a incoerência petista”.

Eu tenho 28 anos, então eu vi o que o PT era, o que se esperava dele, o que ele foi… Ainda entendo que quanto governo foi uma coisa e quando partido, foi outra. Reconheço a importância, mas exceto as transformações — que hoje vejo — foram frágeis na nossa realidade social, o caminho todo se perdeu.                        

Pra mim, o exemplo mais forte é usar a militância do MST e colocar no ministério da agricultura a Kátia Abreu. Uma ruralista. Impossível. A própria coligação PT/PMDB é qualquer coisa de bizarra. Tem que ter um lado. Com o PMDB não é com o povo.” [Sobre o que espera para 2018]: “Uma polarização ainda maior que em 2014, mas com esperanças de que se enxergue uma opção para além desta mesma que falei anteriormente. Que não se contentem com um meio termo, ele não tem funcionado.”

Marina Silva

Marina Silva (REDE) nas eleições de 2014 conseguiu 21% dos votos válidos, ficando em terceiro lugar à Presidência da República e pode ser uma alternativa para quem não se enquadra em ideologias de esquerda ou de direita. (Créditos: Reprodução/Twitter)

Rodrigo Gabriel, de 21 anos, é bissexual, espírita kardecista e estudante de engenharia química. Ele é de Natal – RN. É filiado à Rede desde sua fundação, quando tinha 18 anos, por ter sido o primeiro partido que o contemplou plenamente. Defende que a Rede se trata de uma ferramenta política, não uma instituição rígida que segue dogmas partidários. Ele votará na possível candidata à Presidência da República Marina Silva, embora faça parte de duas minorias que contrapõem os posicionamentos pessoais da política.

Rodrigo afirma que “apesar da Marina Silva ser religiosa, seguidora da Assembleia de Deus, ela representa um elo entre religião e movimentos progressistas”. Ele também explica que, dentro da Rede, não há nenhuma espécie de divisão ou corrente conservadora ou segregacionista — “a liberdade religiosa está garantida em seu próprio estatuto, o que permite o convívio multireligioso”. Segundo Rodrigo, nas eleições de 2014 a candidata foi exageradamente atacada por alterações em seu programa de governo no que compete ao casamento homoafetivo, mas outras outras, como no que tratava da energia nuclear, acabou passando batido. Isso se deu pelo fato de, desde 2010, Marina estar sendo atacada pelos maiores candidatos, que dispõem de mais recursos, horário eleitoral e adesão. Apesar disso, Marina e o REDE continuam prezando a qualidade de suas pautas, ao contrário do que fazem aqueles que se passam por salvadores da pátria sem apresentar debate qualificado.

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