O objeto, o leitor, o amigo e a arte

Abordagem inovadora de edição desafia mercado e provoca metamorfose da arte impressa

Por Amanda Péchy Duarte (amandapechyduarte@gmail.com)

O Indiebookday é uma data criada pela editora alemã Mairisch, com o intuito de promover a visibilidade de pequenas editoras, chamadas “independentes”. A premissa é que no dia 18 de março deve-se visitar uma livraria, comprar um livro publicado por uma dessas editoras e postar uma foto da capa em redes sociais com a hashtag “#indiebookday”. Em 2017, o evento aconteceu pela primeira vez no Brasil, e parece ter cumprido seu objetivo – principalmente se tomar a mim mesma como parâmetro.

Rossana di Munno é artista plástica e antiga amiga da família. Em 2016, fundou a editora Borogodó e passou a se dedicar integralmente a suas publicações. Eu sabia da existência desse projeto, inclusive acompanhava o processo de edição e os lançamentos de livros através das redes sociais, mas não sabia que era uma das muitas editoras independentes em São Paulo. A expressão só apareceu de fato com o convite de Rossana para o evento no Facebook do Indiebookday Brasil. Não participei, mas a data capturou minha atenção para o universo editorial. Ao longo de um mês, conheci a Lote 42, a Borogodó e a Carambaia, assim como algumas de suas publicações. Até então, meu significado de “editora” emprestava características da Companhia das Letras, da Intrínseca, ou da Record, mas à diversidade desse campo não convêm definições.

A delimitação do que significa ser independente foi um dos primeiros obstáculos na esfera das definições. Não há um consenso envolvendo o termo: nem quantidade de funcionários, valor de investimento, porcentagem de lucro ou número de tiragem o especificam. Os parâmetros são diferentes para cada pessoa, leitores, editores, escritores. Além disso, é preciso entender de quem essas editoras declaram independência. Fabiano Curi, diretor editorial da Carambaia, afirma que não gosta dessa palavra, por não saber de quem independe: “Não uso o termo independente. O que nos diferencia das grandes editoras? Elas estão voltados para o mercado? As editoras pequenas também estão. É possível ter um mercado específico, mas estão todas voltadas para o mercado para se sustentar, para vender livros”.

Rossana brinca, dizendo que “independentes são as editoras mais pobrezinhas”. A artista plástica critica o modo de funcionamento das livrarias, que propõem acordos com despesas que apenas grandes editoras podem bancar. Assim, ela se foca no aspecto alternativo da distribuição para caracterizar a independência: a propagação dos livros é feita através de feiras, bancas, eventos, da internet. Enquanto isso, João Varella, editor da Lote 42, acredita que a bibliodiversidade é o que distingue uma editora como independente: “São aquelas que não têm muito destaque em livrarias, já que o conteúdo é mais arriscado. Os editores independentes fazem isso porque gostam, não para vender”.

Todos concordam, porém, que o termo está desgastado. Mesmo Fabiano sujeita-se ao status, pois é como muitas pessoas enxergam a Carambaia. Independente, ou indie, sua abreviação, tornou-se um vocábulo muito comum para designar o que pertence ao meio alternativo, o que é subversivo, diferente, underground, instigante. O diretor de edição também critica a palavra ligada a música: “Acaba se criando a necessidade de etiquetar qualquer produção artística e cultural, então surgem essas expressões generalizantes”. João afirma que grandes editoras passaram a usar o termo indiscriminadamente, se aproveitando da conotação predominantemente positiva que carrega. A deterioração de “indie” através do uso excessivo também dificulta sua compreensão.

Mesmo após as controvérsias, chamarei “independentes” as pequenas editoras, não por um dos motivos apresentados pelos editores, e também assumindo o risco de contribuir para o desgaste do termo. Meu breve mergulho no universo editorial evidenciou que no âmbito independente há liberdade para publicar. A Pós-modernidade é restritiva, vide a avidez que temos por definir, limitar, e qualquer oportunidade de esquivar-se disso é muito prazerosa. “Total”, “Total” e “Cem por cento” foram as respostas de João, Rossana e Fabiano, respectivamente, quando perguntei sobre a liberdade de escolha dos livros a serem produzidos. Assim, independência se relaciona a autonomia, a ser livre para publicar sobre assuntos e autores desconhecidos ou infames só porque esses assuntos e autores são cativantes. Cada editora obtém um nicho, devido a suas singularidades, que legitima as publicações e sustenta a liberdade de escolha. A Lote 42, a Borogodó e a Carambaia são diferentes e surgiram por motivos diversos, mas a linha editorial de cada uma se define pelo desejo – de publicar, de propagar, de ler, de editar.

João Varella conta ter fundado sua editora para escapar da mesmice do mercado editorial brasileiro. O monopólio das grandes editoras faz com que predominem os trade books, livros cujo alvo são o público geral, ou seja, atingem o maior número possível de pessoas. Temas repetidos são abordados de formas semelhantes, os autores da moda publicados passageiramente. A vontade de fuga, a paixão por ler e escrever, o desemprego do amigo e cofundador Thiago Blumenthal: tudo isso calhou para o nascimento da Lote 42.  “Pensamos na Lote como um projeto paralelo, então não tínhamos grandes expectativas, mas ela deu resultados. O primeiro livro que publicamos esgotou bem rápido”, conta João. Além disso, sua experiência como escritor de “Curitibocas” com a esposa, Cecilia Arbolave, também cofundadora, fez com que se aborrecesse com as editoras tradicionais. “Foi difícil conseguir uma editora, e o projeto ficou muito tempo parado até encontrarmos a Coração Brasil. Depois da publicação, demorou para  circular. Só com uma matéria publicada na Carta Capital que o livro ganhou visibilidade”, afirma.

A bibliodiversidade conquistada na Lote 42 se reflete no conjunto de membros da empresa: uma bióloga marinha, dois jornalistas e um mestre em Letras são apenas alguns dos que compõem a editora. João contrata apaixonados: “O único critério é que a pessoa tenha interesse por literatura e ame ler. Só é preciso dedicação e carinho pelo nosso material”. Eles trabalham com autores atuais, no meio de sua produção, que geralmente os encontram através do site e enviam material online. Essa busca do autor pela editora, não o contrário, contribui para a pluralidade de assuntos, e a predominância de escritores provenientes das redes sociais – blogueiros, twitteiros, artistas digitais – faz com que o material tome forma única, uma nova categoria de arte pop dos anos 2000. Há exploração intensa do design gráfico, com uma fusão entre a arte plástica e a literatura. João afirma ter grande influência de diversos movimentos estéticos. Por exemplo, do Fluxus, tendência influenciada pelo Dadaísmo que pretendia inserir a arte no cotidiano, tornando-a acessível por meio de happenings, performances e instalações em diversos campos da arte, e da poesia concreta, voltada para a valorização e incorporação dos aspectos geométricos à arte escrita.

Em 2014, surgiu o projeto de um veículo para venda dos livros. Inicialmente, a ideia era vender apenas os da editora, mas se expandiu para receber diversas produções independentes. A Banca Tatuí é uma antiga banca de jornal adquirida pela Lote 42, reformada para acomodar literatura. É um espaço de encontro e permanência para os visitantes e original em sua proposta: é um dos únicos meios físicos permanentes de venda exclusiva de livros feitos por editoras independentes. “Não nos especializamos em uma área específica. Nosso objetivo com a Banca é ser uma espécie de ‘feira permanente’”, afirma João. No futuro, ele espera poder, talvez, exportar o material que produz na Lote e o que recebe em sua banca.

A Borogodó é uma das editoras que fazem parceria com a Banca Tatuí. Criada em 2016, opera através de uma proposta artesanal e manual de produção. Rossana é a única funcionária fixa: conta com o apoio da amiga e designer Luiza Ruberti para os projetos gráficos, amigos ligados à área de literatura, como Hilda Gil, Fernando di Giovanni e Áurea Rampazzo, para a revisão dos textos, e quanto mais pessoas solícitas, melhor, para a encadernação manual. Mas ela é a editora, e edita o que deseja. É um sistema muito colaborativo, em que os ajudantes são presenteados com os livros finalizados. O modelo da Borogodó é em pequena escala e desafia a lógica apressada do mercado. Sua maior tiragem foi de 150 exemplares, e ao longo de um ano foram produzidos três livros: “Em Casa”, de Paulo Akira, “Ilha do Sumiço” e “Alfaias” volumes 1, 2 e 3, fotolivros da própria Rossana. Além disso, há produções mais plásticas, como panos de prato, aventais de cozinha e fronhas de travesseiro, que conversam com a temática dos livros. A simplicidade é compensada pelo explícito esforço e cuidado: edição pequena, limitada, numerada, encadernação manual, todas coisas que agregam valor. “O livro torna-se quase um objeto, porque há um cuidado muito especial com o projeto gráfico, com as ilustrações, com a tipologia. É um livro-objeto”, afirma Rossana.

A inspiração para a editora foi a vontade de desengavetar projetos. A primeira gravidez da artista envolveu fertilização artificial, e, inspirada pelo “De Onde Viemos?”, livro infantil sobre os mecanismos de reprodução e nascimento dos bebês, desenvolveu com seu médico um projeto para explicar para crianças o processo in vitro. “Fiquei correndo atrás de editoras, bati na porta desde Companhia das Letras às menores. Fui em várias, várias. Muita gente gostou, principalmente as pequenas, mas o custo da edição desse livro, que era todo em cores, ficava muito caro. No fim não consegui fazer nada e ficou engavetado”, conta Rossana.

Outra tentativa envolveu um fotolivro em colaboração com um fotógrafo argentino, que tirava fotos a partir de listas e coleções, “fotos de coisa nenhuma”: calçadas, interfones, prédios de Buenos Aires. Ele já havia produzido um livro sobre Buenos Aires, Paris, e tinha projetos envolvendo Santiago, Montevidéu e Cuba. Ela propôs, então, que fizessem juntos um sobre São Paulo. As fotografias e a parte gráfica ficaram prontas, o projeto chegou a estender-se ao Rio, mas houve problemas com a parceria de investimento e os custos emperraram a produção do livro. Durante anos as fotos ficaram na gaveta, e a cidade mudou, inviabilizando a ideia inicial. Rossana, então, começou a participar de palestras em feiras de livros que estavam despontando em São Paulo – Feira Plana, Kraft, Miolos -, muitas com João Varella, da Lote 42, que desenvolveu o curso “Pulce: Publique Livros, Crie Editoras”. O contato com pessoas que estavam publicando e produzindo trouxe inspiração para desengavetar e investir em novos projetos.

A proximidade da artista com as publicações faz com que algo dela se imprima, visível. As ilustrações do livro “Em Casa” são escuras porque foram feitas em um ambiente pouco iluminado. Uma reforma e um hóspede em sua casa fizeram com que Rossana se recolhesse ao quarto para desenhar. Ela fechava as duas portas, sentava na cama e ficava com a luz da luminária acesa. Na última ilustração, a reforma havia terminado, mas quando sentou na mesa da iluminada sala, não conseguiu fazer nada, então voltou para a penumbra para concluir a série.

Originalmente, a Borogodó pretendia ser uma editora focada em fotolivros e livros de artistas, mas Rossana decidiu expandir. Fez cursos e oficinas literárias: “O primeiro foi na fundação Ema Klabin, e depois no Museu Lasar Segall. Sentia falta de ter algum domínio sobre a escrita. Foi legal porque acabei ampliando para literatura, a partir do  envolvimento com outras pessoas dessa área”. A escolha dos livros a serem produzidos é feita com apoio dos revisores de texto, que avaliam a qualidade do material que chega à editora, e passa pelo filtro de interesse de Rossana, mas o ponto essencial é que o projeto gráfico ainda não esteja concluído. “Está pronto, leva na gráfica e faz, por que precisa de mim? Não precisa de mim para isso. Eu gosto de pegar a coisa no começo, de ter ideias”, afirma. Muitos dos autores que entram em contato com a Borogodó são encaminhados por Áurea Rampazzo, que dá aulas em uma das oficinas que Rossana frequentou. Contudo, é geralmente da editora que parte a iniciativa de produção: os livros de imagens são de pessoas cujo trabalho conhece e tem vontade de editar. Para ela, seu trabalho tem uma coisa lúdica, uma coisa de diversão, que incita e instiga.

A editora ainda é pequena o suficiente para se encaixar na categoria MEI (Microempreendedor Individual), que é extremamente simples de lidar: paga-se uma taxa de cinquenta reais por mês para sua manutenção. A partir de um certo teto de investimentos atingido, a categoria muda para microempresa, mais dispendiosa. Rossana conta que, em um ano de Borogodó, tudo está se pagando, e brinca que “ainda ganha um troquinho”.

O estilo da Carambaia contrasta com o da Borogodó. As edições são super trabalhadas, com design intrincado e acabamento industrial. Apesar do processo de produção dos livros ser lento – cada um leva aproximadamente um ano para ser feito -, são lançados em torno de dez anualmente. A equipe fixa é enxuta: Fabiano Curi é o diretor editorial, Graziella Beting é editora, Renata Minami é encarregada da comunicação, Lílian Périgo da administração e Ana Ligia Martins é estagiária, fazendo assistência editorial e administrativa. A assessora de imprensa e a produtora gráfica não são exclusivas da editora, mas são praticamente fixas, e há uma gama enorme de revisores, tradutores e designers, que são contratados por projeto. Não segue o modelo de linha de produção. “Para nós, cada livro é um projeto único, então não repetimos o modelo. Quando entramos em contato com um designer, alguém experiente no mercado editorial, apenas passamos o texto e a pauta, não falamos absolutamente nada do que queremos. Ele que apresenta o projeto, que normalmente é fantástico. Depois, vemos o custo. Entra, então, a parte da produtora gráfica, que faz o contato com a gráfica”, diz Fabiano. O processo de tradução também tem certa liberdade, já que muitas vezes fica a critério do tradutor decidir que obra do autor escolhido pela editora será trabalhada.

A Coleção João do Rio tem quatro capas diferentes. “Viagem com um Burro pelas Cevenas”, de Robert Louis Stevenson, tem capa feita de um material que simula o pelo do burro. “Corações Cicatrizados”, de Max Blecher, é sobre um homem que sofre de tuberculose óssea, então o livro começa no sentido vertical e, no momento em que ele coloca um gesso e permanece deitado, o sentido muda para a horizontal. “Jaqueta Branca”, de Herman Melville, tem mil capas diferentes, feitas com cianotipia (blueprint), que imitam a água do mar. “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, tem desenhos de pontos turísticos do Rio de Janeiro – Pão de Açúcar e Arcos da Lapa – no corte da frente (ou miolo) do livro, que aparecem apenas quando curvadas todas as páginas. “Salões de Paris”, de Marcel Proust, tem páginas com bordas douradas, muito comum em livros antigos. “O Dicionário do Diabo”, de Ambrose Bierce, é feito todo com páginas negras, em negativo. Cada livro é diferente, mas todos têm o Cólofon (do grego colophon, topo, fim): explica o projeto gráfico para o leitor, que acaba conhecendo as intenções. “Nada é gratuito”, afirma Fabiano. “Tudo tem um porquê do design. Tem uma lógica por trás da produção de cada livro”.

Há três categorias de livros que foram produzidos pela Carambaia: obras secundárias ou pouco conhecidas de autores consagrados, obras óbvias de autores óbvios, mas que vão se diferenciar das edições oferecidas pelo mercado, e obras há muito tempo fora de catálogo de autores conhecidos. Um dos principais critérios é o escritor: Fabiano trabalha apenas com autores em domínio público, mortos há mais de setenta anos. “Foi um foco que encontramos”, diz, “até porque tem uma questão de custo, mas, principalmente, porque ainda há muitas obras já existentes a serem publicadas. É um trabalho de pesquisa de obras: comprar livros em outros idiomas, ler, ver se é interessante, descobrir material”. O editor valoriza o prazer da descoberta que acompanha a produção de seus livros, e procura sempre surpreender seus leitores de alguma forma.

A Carambaia surgiu dos estudos de literatura de Fabiano durante o doutorado. Jornalista de formação, abandonou o jornal para seguir carreira acadêmica, e entrou em contato com obras interessantes de autores consagrados não muito conhecidos no Brasil, que nunca tinham sido publicados, ou publicados há muito tempo. O livro sempre foi sua paixão como leitor, mas definir uma área de atuação editorial, um nicho de autores, consolidou seu desejo de publicar. Agora, possui um plano de cinco a sete anos para que a editora seja autossuficiente e não dependa mais de seus recursos próprios, provenientes de negócios paralelos. O editor preza pelo espaço online, tanto site, onde é feita a maior parte das vendas, quanto redes sociais, nas quais, com apoio das mídias tradicionais (jornais e revistas) é realizada a propaganda dos livros.

Curiosamente, o nome da editora, assim como Fabiano, desafia o mundo das definições: “É uma junção de duas palavras, uma homenagem a uma turma muito antiga de amigos, de quase 30 anos atrás. Tem dois amigos que têm casas muito próximas no interior de São Paulo, e o nome das casas são ‘Carambó’ e ‘Marambaia’. Quando íamos para lá, as crianças falavam ‘Vamos para Carambaia!’, então foi uma forma de homenagem, mas não significa nada”.

As singularidades de cada uma dessas editoras, e de todas as outras, são exatamente o que possibilita que prosperem no mercado. Quando iniciei essa pesquisa, esse fato me deixava perplexa. Elas são discretas e, novamente tomando-me como parâmetro, já que antes de 2017 não havia reparado fenômeno das independentes, são desconhecidas por muitos. Contudo, a partir do momento em que essa barreira de desatenção é superada, quer através da distribuição alternativa, quer através da propaganda, cria-se um nicho de leitores devotos, interessados diretamente pelo distinto perfil de produção – até porque as editoras independentes tendem a ser bem honestas em relação a seus programas. “Acredito que, para boa parte das editoras semelhantes à Carambaia, a ideia é conseguir um bom livro para um público específico, entender muito bem o que lhe apetece. Conseguimos funcionar nas franjas, a periferia é nosso grande cenário”, diz Fabiano. “A partir das feiras e eventos, é possível perceber um público. Percebe-se gente interessada, curiosa, querendo ver novos livros, novos autores, novos projetos. Tem muito a se trabalhar fora do eixo das grandes editoras, da lógica das grandes quantidades”.

Digo “fenômeno das independentes” porque houve um crescimento substancial no número dessas editoras nos últimos anos, principalmente a partir de 2012. Isso vai contra a corrente, já que o mercado livreiro brasileiro mostrou retração de mais de 12% em 2015, de acordo com estudos da Fipe, apoiada pelo Snel (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) e CBL (Câmara Brasileira do Livro), que cobrem 70% das editoras brasileiras. Contudo, não existe nenhum estudo oficial exclusivamente a respeito do mercado independente, só é possível inferir. “Nos últimos anos, a Lote não sentiu a recessão que outras editoras sentiram”, diz João Varella. “Os sinais mostram que o mercado editorial independente está crescendo, como o aumento impressionante da quantidade de feiras independentes no Brasil”. Já Fabiano afirma que editoras independentes sempre surgiram, mas só agora vingam: “Tem vários elementos que facilitam a sobrevivência das pequenas editoras, mas a questão fundamental é a queda do custo de produção do livro. Hoje, é possível produzir livros extremamente baratos com uma qualidade boa, fora do modelo tradicional de gráfica. Além disso, a possibilidade de divulgação através de redes sociais ajuda bastante”.

Comportamento do Número de Editoras Independentes em São Paulo de 1987 a 2016. (Amanda Péchy/ Comunicação Visual)

Rossana di Munno acredita que as editoras independentes estão conseguindo ganhar um espaço interessante: “Estão chegando com uma outra proposta, com outra maneira de enxergar o livro”. Ela olha para a situação atual como uma inversão da pirâmide: quem estava por baixo, agora está por cima, e vice-e-versa. Contudo, admite que, para a real consolidação do mercado independente, seria preciso ter muito mais leitores, o que não é o caso do nosso país, pelo menos por enquanto.“As grandes editoras têm muitos autores traduzidos para várias línguas, então, ao contrário das pequenas, possuem o recurso da exportação”.

As editoras tradicionais, além disso, não possuem uma dependência intrínseca da quantidade de leitores que existe no país, por efeito de dois aspectos essenciais: o esquema dos trade books, já mencionado, e a produção em larga escala, que permite acordos astronômicos com as livrarias de rede, que facilitam imensamente a distribuição. Basicamente, as livrarias ficam com 50% do preço de capa do livro, e o resto vai  para a editora. “Quanto mais exemplares se tem de um livro, mais barato o preço unitário fica, o que torna o acordo interessante. O preço unitário alto torna o modelo insustentável em escala pequena. A Carambaia não oferece esse acordo dos 50% para nenhuma livraria, porque estaríamos pagando para ele estar lá. Fazemos um modelo de um desconto menor, pelo qual poucas livrarias se interessam. Acabamos atraindo aquelas  que acreditam que nossa qualidade gráfica e editorial trazem prestígio”.

Márcio Sno é escritor e especializa-se em fanzines (neologismo do inglês, que junta as palavras “fan”, fã, em português, e “magazine”, revista, usado para se referir a textos curtos voltados para um assunto específico, e produzidos para seus fãs) e zines (textos curtos autorais, não voltados para fãs). Geralmente publica seus livros por conta própria e nunca teve experiência com uma grande editora, mas enfatiza que não é seu sonho. Márcio consegue supor quais seriam suas desvantagens: “Talvez as pessoas que trabalham nesse meio nem sintam isso, mas a minha impressão é de que estão submetidas a um olhar comercial, mais frio e impositivo. Há, sem dúvida, maior visibilidade e circulação do material, além, talvez, de um retorno financeiro mais substancial. Mas estou feliz de ver meus livros circulando como estão, as pessoas lendo meu trabalho”. Seu livro “O Universo Paralelo dos Zines”, produzido pela independente TimoZINE e referência sobre o assunto, faz parte da coleção da Banca Tatuí.

A distribuição de produções independentes ocorre predominantemente online. Isso traz facilidades, como a possibilidade de vender para todo Brasil e de analisar o público alvo, devido aos dados inerentes à compra. Além disso, é possível conversar, mandar mensagens, discutir em redes sociais, o que aproxima o editor de seu leitor. Contudo, a carência de meios físicos de distribuição pode ser impactante, considerando-se o conceito de “livro-objeto” proposto por Rossana. As feiras de livros são essenciais, permitindo a comunhão do leitor com o livro, e com o editor desse livro, no momento da compra. A nova relação leitor-livro proposta pelas pequenas editoras prescinde o contato físico, o olhar, mexer, folhear, sentir. “O prazer de entrar em um espaço literário, de olhar coisa por coisa, de curtir aquilo, é de extrema importância, principalmente nesse nicho das editoras independentes. As publicações surpreendem. Os livros são tão bem pensados no projeto gráfico que uma foto da capa no site não vai transmitir a mesma coisa”, diz Rossana. Seus livros são comercializados na Banca Tatuí, no The MIX Bazar, em Campinas, e na PhD Galeria. Ela alimenta o desejo de um dia transformar o espaço de sua casa em uma livraria de produções independentes, além de talvez criar um site, seguindo o exemplo de João Varella. Para ele, o espaço físico e o online têm igual importância, já que um alimenta o outro: o site leva à Banca Tatuí, e a banca ao site.

Fabiano ressalta a transformação das relações que as pequenas editoras proporcionam: “Tem muitas pessoas que conhecemos pelo nome. Conseguimos dar uma atenção maior para o leitor, fazemos uma coisa muito mais próxima, algo interessante no mundo de hoje, em que o consumo é tão frio, tão coletivo. As pessoas se sentem queridas.” Na Carambaia, os livros são embalados com um bilhete dentro e  numerados à mão, então só uma pessoa pode ter aquele determinado exemplar. “Parece bobagem, mas isso é tremendamente valorizado, porque ocorre uma humanização do processo de consumo. Em um evento, é possível ver quem está comprando seu livro, e quem cuida da banca é, muitas vezes, o dono da editora. Dá para conversar, trocar informações, falar sobre literatura… Isso é muito legal”. Ele acredita que o modelo das grandes livrarias está morrendo. A causa é a despersonalização do atendimento, a frieza e a ascensão de sites de venda, como a Amazon, que tomam o público dos grandes descontos, dos best-sellers. As grandes livrarias tornaram-se lojas de bens de entretenimento: computadores, brinquedos, CD’s, videogame. O livro perde-se entre essa enxurrada de artigos. Fabiano afirma que, concomitantemente, livrarias menores estão ressurgindo, em um movimento semelhante ao das pequenas editoras: se conhece o dono da livraria e livreiro, permitindo o surgimento de relações colaborativas.

As editoras independentes e o universo no qual estão inseridas emanam uma aura de solidariedade. O clima não é de competição, mas de união de forças, como se a vitória de um fosse a vitória de todos. Antes de começarem os socialistas a masturbação ao som da vitória sobre o capitalismo, é preciso lembrar que essas editoras seguem uma lógica de mercado, ainda que uma lógica diferente de mercado. A ausência de competição se dá aos nichos, aqueles desenvolvidos a partir das singularidades de cada editora. Não há uma luta por nichos alheios, porque as intenções se diferenciam, e todos estão ainda tentando se estabelecer no mercado e procurando leitores. As pequenas editoras fizeram a proeza de parir um capitalismo menos mesquinho e uma lógica mercadológica colaborativa, por mais que esses filhos pareçam oxímoros. O mais impressionante é que a tendência aparente dessa movimentação é o crescimento: aumento do número de editoras, ampliação dos canais de venda e difusão de feiras de livros.

O que está acontecendo é uma ressignificação das relações. O livro é objeto, se desfetichizando. O cliente é leitor, se desreificando. O editor é amigo, se desmistificando. A edição é arte, se desencarcerando.  Não sei o que esperava no início da pesquisa, mas não era descobrir que uma nova abordagem da literatura pudesse transformar o modo como as pessoas tratam-se e às coisas. As editoras abrem uma brecha no modelo pós-moderno ao combater significados, pois na ressignificação, dessignificam. O fenômeno independente é um belo exemplo de progresso não-utópico, e é motivo de admiração.

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