Em temas pela união

Adaptação de espaços temáticos dentro de bibliotecas públicas de São Paulo auxilia na condução dos habitantes para o ambiente cultural da cidade

Por Bruna Diseró (bubslovegood@gmail.com)

A primeira biblioteca pública surgiu no ambiente paulistano em 1925, três anos após a Semana de Arte Moderna. A cidade de São Paulo iniciava sua transformação para o polo nacional de hoje, o que explica a construção de um centro cultural na rua 7 de abril, na região da República. Recebeu o nome de Mário de Andrade, escritor modernista paulistano, em harmonia com sua arquitetura.

Hoje, existem 107 bibliotecas públicas municipais na cidade. Dentre elas, treze ganharam acervos temáticos no período de 2006 a 2015. O projeto foi idealizado por Carlos Augusto Calil, em 2005, inspirado nas construções francesas chamadas “bibliothéques spécilizés”(bibliotecas especializadas, em francês), estruturas que abrigam exclusivamente livros especializados, ao contrário das paulistanas que também possuem livros de temas gerais.

A construção da imagem das bibliotecas temáticas

A princípio, as bibliotecas temáticas foram recebidas com desconfiança pelos visitantes. Em 2008, época da inauguração  da primeira especializada em cinema, a Roberto Santos, localizada no bairro do Ipiranga, alguns rumores atribuíram a reforma bem feita a uma privatização da biblioteca.

Esse episódio sintetiza a imagem negativa que as bibliotecas públicas possuíam devido a anos de precariedade no sistema de atendimento. “Há um déficit imenso de bibliotecários atuam sem nenhum profissional.”, relata um administrador que preferiu não ser identificado. “Atualmente os bibliotecários e coordenadores de bibliotecas são também responsáveis por zeladoria dos espaços, programação cultural, catalogação e ficam sobrecarregados”, diz.

Contudo, a tematização das bibliotecas auxiliou na transformação da impressão desses espaços como meros depósitos de livros escolares. Um dos motivos é sua sincronia com o ambiente em que estão localizadas. Jomar de Jesus Santos, coordenador da biblioteca Belmonte, especializada em Cultura Popular, observa a influência do ambiente na tematização do espaço: “Já existiam algumas atividades locais na comunidade santamarense voltada para a cultura popular. Santo Amaro é um berço da cultura nordestina na cidade.”

Cléo da Silva Lima, coordenador da biblioteca feminista Cora Coralina, diz que a trajetória do patrono também é um fator na escolha do ambiente. “ A própria Cora Coralina também era militante. Não deixou de ser um ícone e uma referência”, afirma.

Outro aspecto apontado para a opção pelo espaço temático é sua tradição, como ocorreu com a biblioteca Hans Christian Andersen, localizada no Tatuapé. Ela já possuía um nicho infantil determinado e especializá-la em livros de contos de fadas foi um processo orgânico.

A cultura popular de Belmonte

Localizada em Santo Amaro, região sul de São Paulo, a biblioteca Belmonte foi construída durante as comemorações de 399 anos do bairro, em 1953. Em 2007, transforma-se em biblioteca temática da Cultura Popular brasileira.

“Além de temática, atende aos diversos públicos em suas instalações, visando servir de espaço de encontro dos diversos escritos e pontos de vistas, para que haja reflexão e produção de conhecimento”, diz Jomar Santos.

Para o coordenador, a cultura popular no país é bastante ampla e sincretiza as diferentes etnias que formaram o povo brasileiro. “Do encontro do branco, do indígena e do negro derivaram diversas manifestações, costumes, crenças, festas, expressões culinárias, artísticas, musicalidade, mitos e lendas que são a identidade do povo brasileiro”, comenta.

O Brasil é caracterizado, no entanto, por sua intensa oralidade. As lendas e os mitos eram repassados costumeiramente por meio de encontros familiares em que um orador contava “causos”. Jomar Santos indica o caráter positivo dessas estórias que, para ele, possuem “um patrimônio cultural inestimável”. Os livros auxiliam, assim, na a durabilidade temporal dessas lendas: “A Literatura traz a preciosa contribuição do registro. Foram realizadas diversas pesquisas e compilações que resultaram numa ampla antologia de contos e lendas.”

O espaço que abriga o acervo de 62000 itens entre livros, cordéis, material audiovisual e revistas também é ponto de manifestações culturais típicas como teatro, repentes e oficinas de xilogravura. O Sarau Sertanejo era o evento mais popular, porém, foi “suspenso por falta de recursos e ajuda de custos para seu realizadores” conta Jomar. As palestras sobre literatura de cordel, hoje, são o enfoque do espaço.

Os contos de fadas de Hans Christian Andersen

Em 1952, nasce a primeira biblioteca pública da região leste no bairro do Tatuapé. Três anos depois, ganha o nome do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, já construindo sua identificação com o público infantil.

Para a coordenadora da biblioteca, Elisangela Alves Silva, as crianças continuam recebendo a literatura com curiosidade, pois “são muito curiosas seja pelos livros, pelos tablets ou qualquer outro dispositivo de informação”, diz. Segundo ela, esse universo pode ser bem recebido pelas crianças: “Mediada com carinho por um professor, pais ou avós, a leitura é também um ato de amor e entretenimento”. 

O universo mágico dos contos de fada vive nas paredes da biblioteca Hans Christian Andersen.

A coordenadora apresenta a importância deste nicho literário para a formação do caráter nos primeiros anos de vida, pois, em sua opinião, os contos de fadas auxiliam o leitor a lidar com emoções mais sombrias, tais como o medo, a inveja e a rivalidade. “As histórias iniciadas com  ‘era uma vez’ e finalizadas com ‘viveram felizes para sempre’ dão esperança”, afirma. Apesar do nome da biblioteca homenagear um escritor estrangeiro, Elisangela aponta escritores nacionais importantes para a construção literária do gênero, “Monteiro Lobato, Ziraldo, Ilan Brenman e mesmo Maurício de Sousa podem ser considerados produtores de contos de fadas”.

A produção cultural da biblioteca vai além dos livros, contando também com  teatros infanto-juvenis, circos, oficinas e curso de contação de histórias.

A temática feminista de Cora Coralina

Inaugurada em 1966 e ganhando uma sala com temática feminista em 2015, a biblioteca Cora Coralina teve um aumento do público feminino após essa transformação. O seu pioneirismo na disponibilização do espaço aos domingos, desde 2009 a biblioteca abre nestes dias, motivou a prefeitura de São Paulo a criar o projeto “Biblioteca Viva” que amplia os horários e dias de funcionamento para todos os outros ambientes. De acordo com o coordenador da biblioteca Cora Coralina, Cléo Lima, essas medidas contribuíram para atrair um número maior de público aos espaços literários pelas atividades aos finais de semana.

A biblioteca, localizada no bairro de Guaianazes, tornou-se, segundo o coordenador, uma “referência cultural para a comunidade, para os usuários e para as pessoas que não a frequentam”.

A biblioteca Cora Coralina reúne não só livros, mas mulheres envoltas na temática feminista.

A construção da sala temática contou com participação dos moradores, já que “é um espaço que foi criado pelas mulheres daqui do bairro. O projeto aconteceu em nível de gabinete e chegou à biblioteca por meio de participação popular”, conta Cleo Lima.

Antes da inauguração da sala, a artista plástica Biba Rigo foi contratada e convidou a população para participar da construção estética do lugar, auxiliando na grafitagem do muro com palavras-chave do movimento feminista. Houve também uma oficina de autorretrato das moradoras e outra de xilogravura eos resultados dessas atividades são encontrados na sala feminista. “A sala temática é o retrato desse conjunto de ideias e de ações”, relata o coordenador.

Em sua opinião, as mulheres, hoje em dia, possuem diversos meios de comunicação para divulgarem e fortalecerem o movimento, sendo que a literatura pode ser um deles. A música e o teatro são artes que também devem ser usadas, bem como ferramentas contemporâneas das mídias sociais e a tecnologia da informação. O jornalismo, para Cléo, é apontado como um recurso importante também.

Ane, estudante de biblioteconomia de 29 anos que visitava o acervo feminista, aponta o seu interesse por uma biblioteca com essa temática. “As mulheres da periferia se sentem um pouquinho mais representadas”, diz. Ele acredita que a localização da sala temática próxima a entrada da biblioteca é um ponto positivo, mas, mesmo com um acervo grande de livros escritos por mulheres e para mulheres, a estudante afirma ser triste haver ainda poucos livros com essas características no Brasil.

Espaços em aberto

As bibliotecas temáticas auxiliaram a população não só por facilitar o acesso a livros específicos, mas também por agregar mais pessoas em um ambiente cultural múltiplo e diversificado.

Na biblioteca Alceu Amoroso Lima em Pinheiros, especializada em poesia, há oficinas de leitura dramática, escrita e literatura, além de saraus. No Tatuapé, a biblioteca Cassiano Ricardo possui temática musical:  o espaço  oferece cursos de linguagem e expressão musical, bem como shows de música popular.

A temática cinematográfica da biblioteca Roberto Santos, no Ipiranga, abre espaço para cursos nessa área e sessões de filmes infantis e adultos. Na Lapa, a biblioteca com tema científico, Mário Schenberg, ministra cursos de xadrez. O RPG fica por conta da biblioteca Viriato Corrêa, na Vila Mariana. A preocupação na divulgação cultural está presente em todas as treze bibliotecas temáticas e convidam os paulistanos a buscarem outros meios de entretenimento que estejam fora do círculo shopping-televisão comum ao cotidiano da cidade.

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