Corumbiara, caso enterrado

Injustiça e incertezas em torno do maior (e mais sangrento) fato histórico pós-ditadura no estado de Rondônia foi assunto para o livro-reportagem do jornalista João Peres, que conversou com a J.Press sobre o processo de apuração

 

Por Luciana Cardoso (lucianacardoso@usp.br)

“O essencial de Corumbiara, caso enterrado é cavocar além das aparências, dos números, da superfície. É romper a dicotomia empobrecedora que tenta a tudo enquadrar: bons e maus, amigos e inimigos”.  

Na orelha do livro, João deixa claro as motivações:  as verdades trazidas no seu livro-reportagem são resultado de uma abordagem transparente,  fora da polarização e de desdobramentos automáticos. Com dois anos de apuração intensa e saindo da polarização política brasileira, João apurou as verdades dos três lados envolvidos no caso: policiais, sem-terra e latifundiários.

Ele, que discutirá o formato no evento Jornalismo Para Quê?, conversou com a J.Press sobre o processo de apuração, a importância do livro-reportagem como formato jornalístico e repercussão pós-lançamento.

 

Entenda o caso

Corumbiara é um município no sul do estado de Rondônia, aproximadamente 700 quilômetros de distância da capital, Porto Velho.  Em 15 de julho de 1995, começou a ocupação na fazenda Santa Elina, com aproximadamente 2.000 assentados. O proprietário entrou com pedido de reintegração de posse dias depois.

 

Distância entre a capital rondonense, Porto Velho, e Corumbiara (Gabriel Andrade/Google Maps)

No dia 8 de agosto, o mandado de reintegração foi expedido, mas os assentados resistiram e tentaram marcar um prazo para renegociação.  Embora a legislação brasileira proíba que reintegrações de posse sejam feitas à noite, na madrugada do dia 9 de agosto, um grupo de 194 policiais  e jagunços invadiram o assentamento a balas. O confronto resultou na morte de nove assentados, dois policiais e um homem não identificado. Algumas versões dizem que o número foi maior.

O caso tomou proporções internacionais pela forma que foi julgado. Os fazendeiros apontados como contratantes da milícia armada que entrou com os policiais sequer foram julgados, tendo as acusações descartadas antes mesmo de qualquer julgamento. A peça usada pelo Ministério Público de Rondônia se baseou quase que exclusivamente na investigação da Polícia Civil.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em relatório de 2004, concluiu que eram necessários maiores esforços para nova investigação. Quatro anos antes, em 2000, os sem-terra Claudemir Gilberto Ramos e Cícero Pereira Leite Neto foram condenados no julgamento do caso. Para Claudemir, a pena foi de 2008 anos de reclusão e Cícero foi condenado a seis anos e dois meses.

“As áreas mais afastadas dos grandes centros econômicos são as áreas mais vulneráveis do ponto de vista dos direitos humanos. Eu podia ter escrito sobre a periferia de São Paulo, por exemplo. Mas bem ou mal, essas áreas ainda têm alguma visibilidade. A questão agrária vinha se mostrando com mais necessidade”, justifica João.

Saiba mais sobre o contexto do caso em reportagem do próprio João, na Rede Brasil Atual. Abaixo, a entrevista completa que ele concedeu à J.Press.

 

Para aprofundar: livro-reportagem como documento de caráter histórico

O livro reportagem se tornou ainda mais importante nessa era tecnológica. A gente poderia achar que tudo agora se resume ao vídeo ou a reportagens na internet, que o jornal impresso está morrendo. Mas ao contrário, acredito que abre um espaço mais importante para esse formato. O livro-reportagem sai desse turbilhão de informações que estamos inseridos no dia-a-dia e se torna um documento de caráter histórico. O livro é o fato em si, ele é diferente da reportagem, que fica solta. Além de ser um formato mais perene, que vai para a estante de alguém, que pode emprestar para outras pessoas lerem. Se eu tivesse feito e jogado na internet, talvez tivesse se perdido entre tantas reportagens. Entendo que, claro, o livro-reportagem tem uma chance menor de ter leitores hoje, porque quem não lia antes lê menos ainda agora. Mas quem já tinha um hábito de ler, tende a se apegar mais a esse formato. Nesse contexto, o livro-reportagem ganha outra dimensão, uma importância muito grande. Por outro lado, acho que nunca se lançou tanto livro, o que afeta a questão da visibilidade e de ser enxergado entre tantos livros. Mas mostra também a relevância desse formato.

 

Desenterrando o caso ignorado

O livro foi minha matéria menos lida, mas, com certeza, a melhor lida. Superou muito minhas expectativas, porque eu não imaginava que o livro fosse ter tanta repercussão. Na primeira tiragem, em 2015, foram mil exemplares. Em 2017 tivemos a tiragem de mais umas centenas. Tivemos a oportunidade de ir para Rondônia fazer o lançamento, rodamos  o estado de sul a norte durante uns vinte dias, divulgando e conversando com muita gente. A presença do público nos eventos foi muito grande, fazendo com que muitos entrassem em contato com a história  pela primeira vez. Logo no primeiro evento, no Instituto Federal, conversamos com alunos do ensino médio. Foi incrível porque propositalmente o currículo estadual ignora o massacre de Corumbiara. É o principal fato histórico de Rondônia depois da ditadura, ou seja, o principal fato de Rondônia como estado, e o caso não é tratado nas escolas. Fizemos eventos de divulgação nas escolas, driblando esse cerco e isso já valeu muito. Do ponto de vista individual, para meu trabalho como jornalista, foi muito bom  porque, no inconsciente das pessoas, o livro exerce uma característica nobre. O livro traz elementos subjetivos que uma matéria não trabalha.

 

Evento de divulgação do livro no Instituto Federal de Rondônia (arquivo pessoal).

Do livro entrevista para o livro-reportagem

Fazer o livro foi um processo de convencimento. No começo eu achava que não conseguia fazer um livro. Em 2011, como repórter da Rede Brasil Atual, fui entrevistar o Claudemir Ramos, condenado a 2.008 anos de reclusão e, sentindo-se injustiçado, estava foragido. Eu desconhecia o caso e fui pesquisar sobre a história e me deparei com pouco material jornalístico sobre o caso. Não tinha praticamente nada a respeito. Mantive o contato com o Claudemir e surgiu a ideia do livro. A partir da fala dele, foram surgindo algumas lacunas que precisavam ser preenchidas. Dediquei mais tempo e viajei mais vezes para Rondônia entre 2013 e 2015 para conversar com mais envolvidos. Do que era para ser um livro entrevista, saiu um livro-reportagem.  No final, o livro é uma grande reportagem feita com mais tempo e mais esmero.

 

Da formação histórico-geográfica às entrevistas

Para entender o contexto, precisei começar pesquisar sobre a formação histórica do estado de Rondônia, que por sinal é recente. Antes da década de 1980 era território e só a partir de 1982 foi elevado a estado. As pessoas que migraram para Rondônia vieram principalmente do sul e do nordeste do Brasil. Foi uma dificuldade porque tem pouca historiografia sobre o estado. Vi isso como mais um motivo para escrever o livro.

Quando fui a Rondônia pela primeira vez pensei que seria a única, porque tinha o intuito de conversar com algumas pessoas. Fui até o local onde o pai do Claudemir foi morto, lá por  Porto Velho, e fui também até Corumbiara. Conversei com algumas pessoas em Corumbiara, mas foi muito rápido e senti que precisaria voltar outras vezes. No começo, fui com muito medo, porque me disseram que aquela região era complicada e que eu teria que tomar cuidado. Nas primeiras vezes eu fui eu precisei de guias locais. À medida que fui ganhando confiança e percebendo que não era tão perigoso assim, a coisa se tornou mais fácil e fiquei mais independente para investigar, sem ter o direcionamento alheio. No primeiro momento conversei com assentados. Depois conversei com pessoas da área jurídica (promotores, advogados e juiz), jornalistas que cobriram o caso na época do ocorrido e alguns policiais. O senador Valdir Raupp, governador na época do massacre, foi um dos que não quis falar sobre o caso. Depois da coleta de dados, voltei a conversar com o Claudemir e a família dele para confrontar as informações e começar a redação do livro.

 

“A verdade tem pelo menos três lados”

Na época de escrever o livro (2013-2015), o cenário político brasileiro estava muito polarizado especialmente entre PT-PSDB ou petista e anti-petistas. Essa polarização refletia também que as pessoas não vissem outras versões das histórias. No campo jornalístico, essa polarização também estava nos empobrecendo, fazendo necessário que buscássemos sair para fazer um jornalismo fora dessa polarização. Foi necessário se afastar desses pólos para buscar um jornalismo que refletisse um pouco mais a complexidade das situações. Isso significa entender que houveram erros dos três lados: latifundiários, sem-terra e policiais. Porém, é necessário também, entender que cada um teve um peso diferente nessa história. Não podemos pensar que a história é complexa demais e nos basearmos sobre desdobramentos automáticos.

Eu consegui conversar com poucos policiais. Depois de publicar o livro, os PM’s entrevistados foram os mais gratos e me disseram “Você tratou a coisa como ela foi. Você não ficou inventando coisas a favor de ninguém”. Do lado dos sem-terra, houve quem gostasse muito e também houve quem desgostasse absurdamente. Justamente pelo fato de que as pessoas estão esperando um jornalismo que abrace uma causa ou outra e que seja totalmente favorável a elas. As pessoas às vezes não estão preparadas para lidar com a própria complexidade delas. Quando se viram ali retratadas nem como heróis e nem como vilãs, ficaram bastante aborrecidas.

João Peres, em evento de discussão do livro (arquivo pessoal).

“As imagens completam o que falta no texto”

Eu o Gerardo Lazzari  já trabalhávamos juntos na Rede Brasil Atual. Ele particularmente sempre foi um fotógrafo que eu admirei muito o trabalho e o olhar que tem sobre os fatos. Eu nunca interferi no trabalho do fotógrafo, pois acredito que não há hierarquia nessa relação repórter-fotógrafo. Quando eu finalizei o texto e ele me enviou as fotos, elas refletiam bem o que tinha no texto. O Gerardo tem um olhar sensível e as imagens completaram o que faltava no texto. As fotos ajudam as pessoas entenderem o contexto que apenas lendo o texto não dá para compreender.

 

Pressão e ameaças

Eu não sofri pressão de forma direta. Ameaça velada tive de um assessor do Valdir Raupp (governador de Rondônia na época. Atualmente, Raupp é senador da bancada do governo e investigado na Lava Jato). Uma das situações mais tensas se deu na Fazenda Santa Elina, porque nessa década houve a demarcação do Incra, que dividiu as terras ao meio entre dois grupos de sem-terra, sendo um mais revolucionário e outro mais reformista. Com essa divisão, essas pessoas que se odeiam estão convivendo sem nenhuma presença do Estado.

A Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia é conhecida por ter uma mão mais firme com a imprensa. Eu tentei conversar com eles, sempre com muito cuidado, e eles não aceitaram conversar diretamente e se propuseram apenas a responder algumas perguntas por email, por isso não tenho relatos aprofundados sobre eles. Eles são hoje o grupo que tem a narrativa mais forte em relação ao massacre de Corumbiara, mais do que os outros sem-terra e do que a dos policiais. E quando chegou uma narrativa diferente da deles, eles ficaram muito aborrecidos.  Depois do lançamento do livro, quando fomos divulgar em Rondônia, tiveram algumas situações desagradáveis. Não havia uma pressão da violência física, mas havia uma violência verbal por parte deles em muitos eventos. Particularmente no último evento, em Porto Velho, foi muito desagradável.

 

João Peres é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). É autor de Corumbiara, caso enterrado (Editora Elefante, 2015), único livro-reportagem sobre o massacre ocorrido em 1995 em Rondônia. Foi vencedor do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo 2015 na categoria Reportagem e finalista do Prêmio Jabuti 2016, além de ter recebido menção honrosa no Prêmio Anamatra de Direitos Humanos 2016. Foi editor e repórter da Rede Brasil Atual entre abril de 2009 e novembro de 2014, após passagens pelas rádios Jovem Pan AM e BandNews FM. Cobriu eleições, consultas populares e momentos de crise no Brasil, na Argentina, na Venezuela, na Colômbia e na Bolívia.

 

Gerardo Lazzari iniciou seu percurso na fotografia jornalística em 1992, enquanto cursava a Faculdade de Jornalismo de La Plata, na Argentina. De lá para cá, trabalhou como repórter fotográfico para diferentes veículos de imprensa da Argentina e do Brasil. Nessa trajetória, registrou inúmeros eventos de relevância jornalística e reportagens de cunho documental.

 

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