Além do lápis e sulfite

Ameaçada na grade curricular obrigatória, arte pode ajudar a desenvolver alunos mais tolerantes e críticos.

Por Pedro Gabriel (peedrog98@usp.br)

O novo modelo de ensino médio pretendido pelo governo federal altera diversos aspectos com relação a grade curricular, entre eles, retira o ensino de artes nas escolas. “A arte é um dos eixos principais da formação do ser humano, o educando desenvolve habilidades, percepções de espaço de tempo, de cor, de significado” , comenta Priscila de Fátima, professora da matéria.

A presença da disciplina nas escolas pode proporcionar muitos benefícios para a sociedade, como a aceitação de diferenças e a formação do pensamento crítico. Valéria Weckelmann, diretora de um colégio particular na zona Sul de São Paulo, o Colégio’s Marquês de Monte Alegre, diz que “a arte é mais profunda, complexa,  e desenvolve o senso de observação”; ao comentar sobre a influência artística na formação de opinião.

Entretanto, o ensino de diversas modalidades de arte no Brasil, não apenas plásticas mas em todas as suas configurações, não é tratado de maneira correta. A própria arquitetura das escolas públicas do país não é pensada de modo a permitir o desenvolvimento de atividades heterodoxas. “O espaço da escola não foi planejado para isso”, diz Rômulo Araújo, diretor da escola municipal de educação infantil (EMEI) Josemaria Escrivá Bem-aventurado, na região do Sacomã, zona sul de São Paulo.

Apesar disso, as escolas buscam maneiras de superar essas dificuldades e proporcionar um conteúdo interessante para os alunos. Isso porque existe uma importância pedagógica no ensino de artes que não é reconhecida pela sociedade. “É possível determinar, mais ou menos, como os alunos estão na alfabetização pelo desenho, por exemplo” comenta ainda Rômulo, que também é professor de arte e leciona para crianças no primeiro ano do ensino fundamental.

Afinal, por que estudar arte?

O ensino de diferentes linguagens, obrigatório ou não, traz inúmeros benefícios à sociedade e aos alunos. A representante do instituto Arte na Escola, Roseli Alves, afirma que é uma área importante do conhecimento, por permitir à criança o “exercício de sua liberdade”.

Além disso, a matéria pode contribuir com diversos aspectos pedagógicos para os alunos. “Há a relação de conhecimentos de história, com literatura. A arte é uma expressão humana, e, como tal, ela é uma representação do pensamento”, diz Valéria Weckelmann.

“A alfabetização na educação infantil também se dá pela brincadeira, na qual a criança se expressa. Se você for fazer uma peça de teatro, a criança não está brincando?”, comenta Eglê Fontes Guimarães, coordenadora pedagógica da EMEI Josemaria Escrivá Bem-aventurado.

Os professores, a escola e as suas adaptações para o ensino

“Estou aqui há 12 anos e notei o número de professores que não tem formação em arte no Brasil”, comenta Roseli Alves, coordenadora geral do instituto Arte na Escola. A associação trabalha com a produção de material para escolas e busca ampliar o repertório cultural de professores no Brasil inteiro.

O instituto Arte na Escola premia professores que inovam no ensino de arte no país inteiro. (Foto: Pedro Gabriel)

Ela conta ainda que em Roraima, pouco mais de uma década atrás, existiam apenas 12 professores formados na matéria para o estado todo. “Como um médico pode construir uma ponte? Como um dentista pode cuidar do meu coração? Como é que um professor de arte, pode dar aula de arte, se ele não passou por um curso de arte?”.

A instituição não é a única a contribuir para a formação de professores para essa disciplina. Algumas escolas buscam alternativas para superar as dificuldades econômicas e levar em frente suas iniciativas. A EMEI de Rômulo, por exemplo, iniciou este ano um Projeto Especial de Ação (PEA) com os professores da escola para desenvolver as aulas de arte. A escola busca inovar no ensino por meio de discussões e prática de trabalhos como pinturas e peças teatrais.

“O nosso PEA é discutir como acontece além do papel e do lápis”, comenta Eglê Fontes. Tanto o Projeto Especial da EMEI quanto o trabalho do instituto buscam diversificar o ensino de arte, encarando-o como único. Ou seja, não se dá com o aluno sentado na carteira, usando apenas um tipo de material. “As crianças adoram produzir coletivamente, se respeitando nesses momentos. Elas querem escolher o que produzir, a arte é um espaço de liberdade”, adiciona Roseli Alves.

O ensino de arte nas escolas exige uma formação não apenas teórica, mas prática do conteúdo, além de uma estrutura para tais atividades. O colégio de Valéria, pedagoga formada pela PUC-SP, investiu em espaços e em profissionais para diversificar seu currículo. A diretora ainda comenta que: “Depois que o colégio passou a adotar esse caminho mais caro para as atividades de arte, eu nunca mais tive um aluno que tentou fugir da aula”.

 O papel da cultura na aceitação das diferenças

É de conhecimento público o problema do bullying nas escolas de todo o país. Isso ocorre devido a uma certa intolerância de diferenças na sociedade que se reflete no convívio das crianças. O ensino democrático de cultura e produção artística nas escolas pode proporcionar um melhor ambiente escolar, menos opressivo e mais educador.

“No mundo da arte, ele [o aluno] vai ver que o ser humano não é igual, existe uma diversidade de opiniões e temos que debater mas respeitar o outro, sem embate”, diz Roseli. Ela ainda fala sobre a importância de exaltar as individualidades dos alunos, e a facilidade de fazer isso por meio da arte: “a arte é o espaço da inclusão e não de formatar o mundo”.

Por experiências pessoais, Rômulo Araújo, também professor de artes, concorda com a ideia, e ainda comenta sobre esse processo de conscientização contra os estereótipos. “Você vai trazendo questões dentro da aula de artes para que eles percebam as diferenças”. Roseli afirma que o ensino de arte não deve ser o único responsável no combate às intolerâncias existentes na sociedade, mas que pode sim ajudar a criar uma sociedade mais solidária.

A arte como formadora de opinião

“Quando a criança está experimentando ela está inteiramente presente naquele momento. Esse prazer acaba se perdendo na escola em geral” comenta Eglê sobre a importância do ensino de arte “além do lápis e do papel”.

Roseli, sobre o processo de desenvolvimento de uma cultura imagética, diz: “quando eu vejo a imagem por si só, ela fala. E sei como ela é construída, como em propagandas. Como cidadã, vou saber me posicionar e criticar”. As imagens de revistas, jornais e publicidade trazem mensagens que devem ser compreendidas que questionadas.

 “É importante ser militante na causa da arte no Brasil”, afirma Roseli.  Segundo Roseli, “é um desrespeito, um absurdo, uma afronta e uma opressão” o fim da obrigatoriedade de arte na grade escolar.

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