Não se nasce mãe, torna-se

Por Victória Martins (victoria.rmartins19@gmail.com)

Podemos sussurrar aos cantos sobre a conhecida de nossa prima, a irmã daquele ex-namorado ou aquela tia distante. Podemos perceber a dor no fundo dos olhos de uma amiga, sentir reverberar em nós a história da nossa avó ou perceber que nossa vizinha não saiu de casa nos quatro primeiros meses depois de ganhar o bebê. Podemos comentar sobre aquela fofoca que chegou à nós e repassá-la como “uma frescura de quem não sabe se cuidar”. Ou podemos reconhecer todos esses fatores para fortalecer a pauta no espaço público e gritar em alta voz: a depressão pós-parto existe. Ela afeta nossas mães, nossa família, nossas conhecidas e pode ainda, nos atingir. Ela rasga nosso corpo, sangra nossa alma, marca nossa história. E não podemos nos calar.

A depressão pós-parto pode suscitar sintomas muito semelhantes àqueles que surgem em mulheres com transtornos mentais fora do puerpério (o período de quatro meses após o parto), como a ansiedade extrema, a tristeza excessiva, a irritabilidade e a perda de interesse pelas atividades habituais. Porém, conforme explica a psiquiatra e psicanalista Elisa Padovan Camillo, “pensamentos ambíguos em relação ao bebê também podem indicar que algo não vai bem: as mães com DPP podem apresentar desinteresse pelo filho, medo de ficar a sós com ele ou um excesso de intrusão que inibe o descanso adequado da criança”. Todas essas questões podem trazer prejuízos, que variam a depender de fatores como a gravidade da doença, as condições socioeconômicas e o suporte familiar destinado à parturiente, além da forma como cada mulher busca, ou não, ajuda para sua depressão, já que, devido a questões como a diminuição da gravidade de doenças mentais e a vergonha diante desses sentimentos, muitas mães “tentam disfarçar ou ignorar tais sensações”, como levanta Elisa. “Afinal, como poderiam dizer a alguém esse tipo de pensamento, se sempre ouviram dizer que a maternidade é a melhor experiência que uma mulher pode ter?” pontua.

É pensando nisso que pode-se discutir a questão da construção social da maternidade. Até meados de 1700, era comum um distanciamento entre mãe e criança, mas, com o passar dos anos, a sociedade passou a idealizar a mulher-mãe, exigindo dela “uma dedicação ligada a um dom natural e automático para a maternidade,” escreve Elisa em artigo ao Instituto de Psicanálise Lacaniana. E, assim, ao ser passada de geração em geração como instinto feminino, a maternidade, ainda que suscitando significações próprias à cada mulher, pode fazer com que  mulheres provem de “sentimentos contraditórios e angústias que não encontram correspondência nas idealizações culturais.” É então que uma mulher, “mais propensa a desenvolver um transtorno depressivo, pode experimentar um profundo sofrimento, e, eventualmente, chegar a desenvolver a depressão pós-parto,” completa, em mesmo artigo.

É claro, porém, que não pode se pesar apenas sobre o mito da mãe perfeita a ocorrência cada vez maior da depressão pós-parto (que atinge de 12 à 19% das parturientes, segundo levantamentos da literatura nacional): questões como alterações hormonais da gravidez, fatores psicopatológicos prévios e problemas na situação conjugal, socioeconômica ou da própria maternidade também são levantados por Elisa para explicar a doença. Esta construção social, todavia, pode ter grande papel em “colaborar para que uma ambivalência de sentimentos transforme um momento de suposta alegria em um cenário de vazio, tristeza, sensação de culpa e incapacidade,” finaliza em seu artigo.

De qualquer forma, é essencial levantar a necessidade de atenção, tanto da mãe quanto das pessoas próximas, para que a depressão pós-parto não seja subestimada e a ajuda seja buscada o quanto antes. “Essa condição não se trata de uma escolha, mas sim de uma doença que pode acometer qualquer pessoa,” pontua Elisa. “Minimizar os sinais e os sintomas, considerando que tudo pode ficar bem e que, por isso, o tratamento e o atendimento podem ser adiados, trará consequências graves tanto à mãe quanto ao bebê.”

“Sentimentos de frustração e culpa podem surgir quando a mãe se dá conta de que não está feliz e satisfeita como julgava que estaria ou “deveria” estar,” pontua Elisa. (Fonte: The New York Times)

Catarina*

“Não tinha um problema, nada que eu pudesse falar ‘puxa, você está com razão de estar triste,’” conta Catarina, relembrando sua história. Não havia motivo específico, nada que lhe explicasse o porquê da tristeza profunda que lhe invadiu depois do nascimento de sua segunda filha, Júlia*, mas ela estava lá, em cada momento de desânimo e em cada vontade desesperadora de chorar que sentia. “Eu não queria ver ninguém, não queria muita visita, fiquei muito triste nos primeiros dias,” revela.

Apesar de a depressão pós-parto ser, em uma perspectiva clínica, uma doença que se inicia a partir da primeira semana depois do nascimento, não é raro encontrar casos em que os sintomas aparecem ainda durante a gestação, mas, fortalecem-se com o parto. Assim foi com Catarina: durante a gravidez, já podia precisar uma “pontinha de tristeza, um comecinho”, que foi se intensificando conforme passavam os meses e que culminou no quadro de depressão já na primeira semana depois que Júlia veio ao mundo. “Comecei a sentir uma tristeza, uma vontade de chorar bastante grande logo depois que cheguei em casa com a minha bebê,” conta. Todavia, não podia apontar exatamente a origem desse sentimento, já que não o via como algo sendo relacionado à Júlia, tanto que “trocava, cuidava, beijava, não tinha nada com ela, mas tinha uma tristeza muito grande”.

 

Ainda na primeira semana após o parto, Catarina levou a filha à consulta de acompanhamento com a pediatra. Assim que entrou no consultório, a única coisa que pôde fazer foi chorar, ainda que Júlia estivesse bem de saúde, dentro do peso; à toda pergunta da médica, a resposta vinha acompanhada das lágrimas ininterruptas. A pediatra, experiente, ao ver aquela situação, perguntou se tudo estava bem e se havia algo acontecendo em casa, ao passo em que Catarina, revelando que não sabia a razão para a tristeza profunda que dominava-na, soube assim, por meio da médica de sua bebê, que se encontrava em um quadro de depressão pós-parto.

Foi então que passou a tomar uma medicação, receitada pela pediatra. “Era uma medicação bem levinha e que inclusive aumentava a produção do meu leite,” relata. “Então veio a calhar por dois motivos: eu pude amamentar por mais tempo, já que com a minha primeira filha não tive muito leite, e fiquei melhor”. O remédio, que tomou por cerca de quatro meses, período em que esteve de licença-maternidade, foi primordial para sua recuperação, porém, o retorno ao trabalho e a gradual retomada de suas atividades costumeiras foram ajudas ímpares, pois pode distrair a cabeça e estourar a bolha de tristeza em que se encontrava. Da sua experiência, retira um conselho para quem ainda passa pela depressão pós-parto: “Tenha pensamentos positivos, peça a ajuda de pessoas próximas para ter um tempo para cuidar de você, vá ao médico e se necessário procure a ajuda de um psicólogo” sugere. “Eu sei bem a tristeza que é, mas passa.”

Laura*

Se para Catarina a doença veio junto à sua segunda gestação, com Laura, ao contrário, foi o nascimento de seu primogênito que marcou o ponto de virada de sua depressão. Após muito planejamento, sonhos e tentativas, Laura engravidou e, depois de nove meses tranquilos, deu à luz a Thiago*, que veio ao mundo trazendo muita alegria para ambos os seus pais. Ainda no hospital, contudo, Laura deparou-se com a primeira intercorrência de uma série de questões que seriam marcantes para que caísse em um quadro de depressão pós-parto: a fase inicial de amamentação. “Já foi uma parte difícil, ele não conseguia pegar, eu não tinha muito jeito e o meu marido, pai de primeira viagem, tentando me ajudar mas meio que mais me atrapalhando,” conta. “Sentia que era uma cobrança muito grande sobre mim”. Ainda assim, passaram os dias necessários no hospital e foram para casa.

Depois dos primeiros 15 dias de vida de Thiago, Laura percebeu que o olho de seu filho lacrimejava mais que o normal e, levando-no ao pediatra, recebeu a notícia que o bebê estava com conjuntivite. “Tudo que era relacionado a ele eu ficava muito aflita. Na ocasião não percebia, mas hoje vejo que eu maximizava muita coisa,” explica. Logo, passou a se culpar, apesar de a médica afirmar que muito provavelmente a doença era devida ao vírus estar em alguém que visitou Thiago na maternidade, ou no próprio prédio em que o filho nasceu. “Aquilo me consumia,” conta. Para além da preocupação com o filho, outro fator determinante fora o sentimento de que estava, a todo momento, sendo avaliada enquanto mãe. “Senti um peso muito grande em casa. Hoje, não sei te dizer se era eu quem me cobrava muito ou se eram as pessoas que me cobravam”.

Com o fim do episódio da conjuntivite, Thiago começou a ter cólicas. “Aquilo para mim foi terrível, foram os piores meses da minha vida, de verdade,” revela. Laura fazia tudo o que estava ao seu alcance para ajudar seu filho: medicava, fazia massagem, dava banho, colocava bolsa de água quente, levava ao pediatra. Mas, tal como ocorre com muitos bebês, a cólica, um desdobramento do processo de formação da flora intestinal e uma ocorrência normal na primeira infância, continuou presente. Ouvir seu filho chorar e vê-lo sem dormir por causa da dor constituiu um  enorme peso para Laura. Não obstante, seu marido trabalhava durante a madrugada, deixando-a sozinha no período mais crítico das dores de Thiago. “Eu chorava bastante, por vezes eu pensava ‘meu Deus, meu filho deve ter alguma doença e eu, que sou inexperiente, mãe de primeira viagem, sem saber nada, não estou conseguindo identificar o que ele tem’,” conta. Ela se culpava, e, insegura, se cobrava em questão ao que os outros pensariam dela enquanto mãe caso algo acontecesse com seu filho.

“Não podia ouvir o choro dele, eu me desesperava,” conta. “Parece que não queria que as pessoas ouvissem meu filho chorar, porque elas iam falar ‘Que mãe é você? Coitada dessa criança…’”. Esse sentimento rendeu-lhe algumas experiências, tal como quando, na primeira saída em público com Thiago, quando o bebê já completava cerca de quatro meses, foi ao shopping, acompanhada do marido e de seus pais e, na praça de alimentação, ao mínimo sinal de choro, levantou da mesa, deixando todos lá, e levou o filho para o estacionamento, pois não podia aceitar que ele chorasse no meio de todos os presentes.

Um dia, esgotada, ligou para sua mãe e desabafou acerca do fato de não estar suportando mais a situação em que se encontrava, pois não sabia mais o que fazer. Sua mãe pediu férias do trabalho e, durante os trinta dias em que ficou afastada, começou a ajudar Laura com Thiago. Chegava cedo, preparava o café da manhã e, depois que Laura amamentava, levava Thiago para o quarto dele, onde dava banho, o trocava e ficava com ele durante os períodos em que ele não estava sendo amamentado. Além disso, cuidava da casa, posto que o marido de Laura sempre lhe cobrou muito os cuidados com a residência, porque “na cabeça dele, eu só era mãe, e eu tinha que me virar, fazer as coisas que eu tinha para fazer, porque a mãe dele fazia”.

Foi durante este período que Laura primeiro ouviu que podia estar passando por um quadro de depressão pós-parto, sendo assim avisada por sua mãe. Não era uma novidade completa, contudo, já que na primeira semana após o nascimento de Thiago, havia ouvido de seu médico, na consulta de retirada dos pontos, que estava muito agitada, algo incomum para sua personalidade. Porém, na menção do médico de lhe receitar um remédio, Laura respondera que não queria, pois estaria, apenas, empolgada com o bebê recém-nascido.

Novamente, não quis aceitar. “Eu não aceitei, e falei que não queria mais esse assunto”. Afinal, com a presença da mãe, a ajuda, a conversa e o apoio que recebia no período, começava a se sentir melhor. De todo modo, ao fim dos trinta dias em que pôde descansar e melhorar o estado de sua cabeça, sua mãe voltou ao trabalho, e ela percebeu que a sensação que tinha dentro dela continuou presente. “Foram meses muito difíceis,” relembra. “Eu ficava assim, esperando pelo próximo mês e, olhando as fotos na retrospectiva do aniversário de 1 ano, comecei a relembrar tudo pelo que havia passado naqueles meses, tudo o que eu senti e eu pensava ‘meu Deus, eu não aproveitei meu filho’”.

Como não aceitou a possibilidade de estar passando por um quadro de depressão pós-parto, Laura nunca procurou ajuda médica. Aos poucos, com a redução gradual das cólicas de Thiago, quando este completava cerca de sete meses, foi se recuperando. Foi apenas três anos depois, com o nascimento de seu segundo filho e se sentindo bem mais segura que, olhando em retrospecto, percebeu que, realmente, havia acontecido alguma coisa com ela que não era normal. “No caso do Thiago, eu me deixei levar por esse monte de interferência [em relação ao seu papel de mãe], não quis aceitar e eu não me ajudei,” afirma. “Porque eu pensava ‘se esse é o momento mais feliz da minha vida, então eu não posso estar com depressão, não vou tomar um remédio para depressão’. Talvez se eu tivesse parado, escutado minha mãe, talvez se eu tivesse me deixado ajudar, mas eu não aceitei e foi bem difícil”. E completa, “hoje acho que sim, que eu passei por alguma coisa leve, no sentido patológico da coisa. Pra mim foi um monte de sofrimento, mas passou”.

Alice*

Diferentemente do que aconteceu com Laura, cujos sentimentos em relação à maternidade partiram do nascimento de Thiago, a história de Alice é marcada por acontecimentos anteriores ao parto, mas que foram decisivos para a construção de sua mentalidade nos meses iniciais de vida de seu pequeno Guilherme*. Conforme anteriormente mencionado, a existência de um histórico de depressão pode ser, segundo a psiquiatra e psicanalista Elisa Padovan Camillo, um dos possíveis precursores para o início da doença no pós-parto. E assim aconteceu com Alice.

Mesmo tomando seu anticoncepcional regularmente, Alice, aos dezoito anos, descobriu que esperava por um filho. “Não estava preparada,” conta. Apenas esse fato já poderia ter sido suficiente para colocá-la em uma espiral depressiva, todavia, somado à sua sensação de incapacidade, Alice vivia um relacionamento conturbado e abusivo com o pai de Guilherme. “Ele começou falando que eu ia ficar gorda, com o corpo todo acabado, que eu não ia ser mais a mesma pessoa; isso quando estávamos sozinhos, porque na frente dos outros ele era o pai perfeito,” relembra. “E foi indo, até que ele falou que eu estava muito obcecada, muito chata e me largou”. Alice tinha vergonha de ser mãe solteira e, com a separação, sua situação se agravou, posto que o sentimento de inabilidade de ser mãe, quanto mais sozinha e desempregada, somado ao medo de não ter o apoio de sua família, exerceram grande peso sobre sua sanidade mental. “Aquela barriga para mim era um estorvo, eu odiava o fato de ter que carregar uma criança no meu corpo, destruindo, mudando tudo o que tinha dentro de mim,” conta.

Ainda durante a gravidez, Alice relembra que “ao mesmo tempo em que eu estava tranquila, feliz, sorrindo, de repente, eu gritava e começava a agredir as pessoas, não só verbal, mas fisicamente também”. Assim, após um episódio traumático, foi levada, por seus pais (que lhe apoiaram durante toda a gravidez e o período posterior), à uma psicóloga, ocasião em que foi diagnosticada com Transtorno Bipolar e passou a tomar Rivotril – um dos tranquilizantes tarja preta mais vendidos do mercado, muito utilizado no tratamento de ansiedade e outras patologias mentais. Todavia, o remédio a fazia ficar a maior parte do tempo dormindo, mas, quando estava sem suas doses, não se sentia bem. “Um pouco antes do nascimento do meu filho, resolvi parar de tomar esse remédio, porque decidi que não precisava mais, que isso ia acabar me matando,” explica. “Depois disso, resolvi tomar remédio natural. Não adiantava muito, mas eu preferia ficar o mais ansiosa, o mais nervosa possível, a  depender dessas drogas o tempo todo”.

Passaram-se os nove meses e Guilherme nasceu, após um parto sem complicações. “No dia que ele nasceu, eu estava legal, super animada, pensei ‘me recuperei’, ” conta. “Só que então veio a pior parte”. No dia que saiu do hospital, Alice já passou por uma briga com o pai de Guilherme que muito lhe afetou: como o filho não parecia com o pai, após o confronto, este declarou que o bebê não era filho dele, mas sim de outro homem. Nos três primeiros dias da vida de Guilherme, Alice desenvolveu uma espécie de superproteção: não deixava ninguém além dela pegá-lo no colo. Porém, após isso, o problema com o pai do bebê atingiu-na e ela começou a pensar que, se ele não aceitava seu filho, ela também não tinha a obrigação de aceitar, o que, portanto, se desdobrou em um sentimento de rejeição poderoso.

“Quando foi mais ou menos no quarto dia, comecei a não querer chegar perto dele de jeito nenhum,” relembra. Alice, assim, parou de querer amamentar seu filho. Guilherme chorava a noite inteira de fome, mas, para ela, o processo de amamentação assemelhava-lhe a uma tortura, e ficar perto de seu filho era doloroso. “Era como se eu não tivesse mais sentimento, se não tivesse mais coração, aquela criança para mim não era nada”, revela. Em decorrência, a mãe de Alice passou a alimentar Guilherme com fórmulas infantis, já que nem mesmo a mamadeira ela queria dar para o bebê, além do fato de, eventualmente, seu leite ter secado. “Mal pegava o Guilherme, só pegava de tanto os outros encherem o saco. Eu não queria aquele bebê”.

Certo dia, Alice e sua mãe levaram Guilherme ao posto de saúde, para uma consulta de rotina. O bebê começou a chorar de fome, e sua mãe, retirando a mamadeira da bolsa, insistia para que Alice desse de mamar ao filho, ao passo em que ela negava veementemente. Porém, uma assistente social observava a interação e logo percebeu que algo não estava certo. Assim, chamou uma psicóloga para conversar com Alice. Esta, contudo, lhe disse que não poderia receitar nenhum remédio, visto que, ainda que Guilherme mamasse muito raramente na mãe, mais doses de calmante poderiam afetar seu desenvolvimento e saúde. Ela propôs, assim, que Alice se distanciasse um pouco daquele ambiente, que encontrasse um tempo para si e algo para distrair a mente.

Foi então que, 45 dias após o parto, Alice conseguiu um emprego de atendente em uma das franquias do restaurante Subway. Trabalhando lá, adquiriu responsabilidades, que acabaram incentivando um sentimento de cuidado, confiança e capacidade em relação à maternidade e à Guilherme. “Foi aí que vi que eu era capaz, porque eu me achava muito impotente para cuidar dessa criança. Foram inúmeras as vezes em que tentei me matar por me sentir culpada por não ser uma boa mãe”. Depois de seis meses sem conseguir conviver com seu filho, sentindo ódio dele, conta, pôde, enfim, se sentir totalmente curada.

Atualmente, Guilherme tem quatro anos e meio, e, apesar de Alice afirmar que hoje sua relação com o filho é “a mais perfeita possível” e que faz o que pode para ele, ela ainda lembra com detalhes de como a pior parte de todo o processo foi ser muito julgada por sua família e pelo pai de seu filho, que muito diminuíram sua palavra e seus sentimentos. Isso, claro, com exceção de seus pais, que sempre lhe apoiaram, aconselharam e cuidaram dela e de Guilherme. “Agora sim eu me sinto mãe, antes eu não sentia amor,” conta. “Hoje, quando me lembro disso, me dá uma tristeza tão grande. E então penso ‘se eu deixar essa tristeza tomar conta de mim, vai se agravar um outro quadro de depressão, e isso não quero mais, porque eu preciso cuidar dele’”. Assim, Alice segue.

Tristeza, desânimo e medo são todos sentimentos que podem surgir durante um quadro de depressão pós-parto. (Fonte: Georgia Wilde Illustration)

Olívia*

“Medo, muito medo mesmo, medo talvez porque minha infância também tenha sido muito difícil,” explica Olívia, quando perguntada sobre o que sentiu no momento em que viu sua filha, Luiza*, pela primeira vez. Medo este que não foi infundado de maneira alguma: assim como com Alice, cujas experiências na gestação foram críticas para o estabelecimento da depressão pós-parto, o passado de Olívia também proporcionou um terreno propício para o desenvolvimento de um quadro da doença no período após o nascimento de sua filha.

Para ela, todavia, alguns dos momentos mais relevantes para o desenrolar de sua depressão remontam a uma infância um tanto turbulenta. “Acho que tenho minha depressão desde criança, mas ela se agravou na gravidez e depois que ganhei [o bebê] ficou pior ainda,” resume. Filha de pais separados, desde muito cedo presenciou brigas entre seus progenitores, pontuadas de agressões, em ambos os lados. Além disso, quando tinha em torno de 9 anos, foi passar uma temporada na casa de sua bisavó, onde foi abusada por um primo adotivo que estava de visita, e ficou até os quinze anos em silêncio. Ao falar, não acreditaram nela.

Ademais, o período gestacional também foi significativo para a vida de Olívia: quando engravidou, ainda muito jovem, aos 17 anos, vivia um relacionamento difícil com seu marido, bem mais velho e já pai de uma outra menina. Ele, ao saber da gestação, ofendeu-a, xingou-a e apenas posteriormente aceitou que eles esperavam por uma filha. “Só que foram nove meses estressantes, ele fazia coisas que me machucavam,” conta. “Ele não me dava dinheiro para o enxoval, mas esbanjava em carro e roupa nova, e vivia jogando na minha cara que eu engravidei porque eu quis”.

Influenciada por todas essas questões, aquele medo que Olívia sentira nos primeiros momentos com Luiza logo se transformaram em uma superproteção intensa e um ódio frio voltado à todos aqueles que estavam por perto de sua filha. “Eu não conseguia olhar ou ficar perto de ninguém, não conseguia comer, a minha única preocupação era com a Luiza,” conta. “E mesmo ela nascendo saudável, enorme, eu só pensava nela, pensava que alguma coisa ia acontecer.”

Ainda no hospital, Olívia pensava que as médicas e enfermeiras fariam mal à Luiza, que a roubariam, e assim, não conseguia dormir. Preocupada, pedia para que a equipe do hospital tirasse sua filha do berço e a colocasse para dormir junto à ela em sua maca. “Foi horrível esse sentimento que não saia de dentro de mim,” revela. Mas, passaram-se os dias de internação e ela levou a bebê para casa. Lá chegando, notou que haviam muitas pessoas esperando pela nova mãe e recém-nascida; mas, ao contrário de se sentir acolhida por aqueles que vinham visitá-la, Olívia irritou-se com a presença de todos em sua residência. “Nesse momento eu surtei, comecei a berrar, mandei todo mundo embora, disse que queria ficar sozinha,” conta. “Não sei por que motivo eu tive essa reação”. Toda essa sensação guardada em si também voltou-se para seu marido: dele sentia nojo, incapacidade de se manter próxima; e logo, eles se separaram, e ele saiu da casa em que moravam juntos. “Quando me separei do pai da Luiza, me enxerguei sozinha no mundo,” declara.

No primeiro ano de vida da Luiza, conta que “não conseguia dormir, pensava que ela podia morrer a qualquer momento”, e quando dormia sonhava que o mundo estava acabando. Não obstante, sentia sufocamento e falta de ar. “Antes de ser mãe, sempre fui uma pessoa muito fria, muito durona e quando a minha filha nasceu, acho que tudo isso mudou,” explica. “Fiquei muito mais sensível, chorava à toa, sentia muito medo, nojo e ódio das pessoas, não conseguia olhar na cara de ninguém”.

Olívia não foi diagnosticada com depressão à época do pós-parto. Foi com o tempo que sentiu o sono se regular e a melhora acontecer. Mas, foi apenas cinco anos depois, após uma conversa com a irmã, que percebeu que algo ainda a atormentava. “Não conseguia sair com a Luiza para fora de casa, nem mesmo para levá-la na escola. E foi em 2016, quando a minha irmã me deu um toque, que eu decidi procurar um médico,” explica. “Mas acho que eu já tinha melhorado bastante”. Foi, então, que começou a tomar um antidepressivo. Esse remédio, porém, lhe dava sono em demasia e lhe deixava cansada a ponto de não conseguir fazer nada. Assim, decidiu cortá-los e tomou o estudo como um método para ocupar a mente e “focar em dar uma estrutura melhor para a Luiza”.

Quando olha para trás e relembra a fase do pós-parto, Olívia não sabe dizer se deveria ou não ter procurado um psiquiatra, visto que não sabia o “procedimento certo que deveria ter feito”, mas acredita que foi a falta de informação a responsável por não ter procurado ajuda à época. “Quando estamos passando por isso, nós achamos que são coisas normais que acontecem quando a gente se torna mãe,” finaliza. E adiciona, com a voz forte, revelando sua convicção, “só que não é. Não é”.

Helena*

“Eu tive uma gravidez complicada,” começa Helena, recontando sua história. De fato, alguns acontecimentos marcaram o período gestacional, tornando-no mais difícil. Primeiro, mesmo sendo casada, não havia planejado engravidar: queria muito ser mãe e estava muito feliz mas, assim como ocorrera com Olívia, seu marido, que já tinha uma filha de outro relacionamento, não estava aberto a ser pai novamente. Não obstante, foi colocada de licença em torno dos cinco meses de gravidez, pois, além do período trazer a ameaça da gripe suína, Aurora*, sua bebê, foi diagnosticada com baixo peso, e precisava ser monitorada para que os médicos acompanhassem seu crescimento. “Foi um período difícil de várias formas – tanto financeiramente, porque eu não estava recebendo por hora, quanto psicologicamente,” revela. “Passei essa gravidez praticamente sozinha, com apoio apenas da minha mãe”.

Apesar dos pesares da gestação, Aurora nasceu saudável. Todavia, Helena, que já não se sentia bem, mesmo não sabendo o porque, sofreu outro baque: dias depois de ir com sua filha para casa, Aurora teve de ser levada de volta ao hospital, com suspeita de infecção. “Daí para a frente, foi tudo um pouco confuso,” relembra. “Tenho impressão que só começou, sem saber pontuar exatamente quando, mas certamente após o nascimento dela”. Helena não se sentia apta, pensava-se como uma péssima mãe e, por conta disso, ao mesmo tempo em que queria estar com sua filha, lembra de desejar que ela pertencesse à outra pessoa, pois acreditava que Aurora não merecia estar com ela. Influenciada por esse sentimento, só conseguia levantar da cama para ir ao trabalho, com uma tristeza sem igual e em um desequilíbrio emocional muito forte. “Eu tinha muita vontade de desaparecer, literalmente. Não tinha forças para acabar com a minha vida, mas também não as tinha para continuar com ela,” conta. “Vivia em um modo automático, toda atividade demandava um esforço sobrehumano. Tenho poucas lembranças da minha filha nessa época porque parece que foi tudo um furacão”.

Aurora já tinha onze meses quando Helena ouviu pela primeira vez que podia estar em um quadro de depressão pós-parto; antes disso, todos ao seu redor, com exceção de sua mãe, acreditavam que ela passava por uma situação normal, e que suas reclamações eram fruto de uma frescura de “menina mimada”. Um dia, no trabalho, uma colega que, assim como ela, dava aulas, e terminava o curso de psicologia, viu-na chorando copiosamente e, após uma longa conversa, sugeriu que procurasse uma psicóloga. Além dessa amiga, um aluno particular, que era psicoterapeuta, também explicou-lhe a depressão pós-parto e confirmou a importância de ela procurar um especialista.

Assim, foi à psiquiatra e ao psicólogo do seu plano de saúde. “Foi péssimo. Mal a psiquiatra me ouviu e já me medicou com amitriptilina,” explica. Já o psicólogo disponibilizou apenas 30 minutos de consulta, a cada três meses. “Na primeira sessão, ele chegou 10 minutos atrasado e tirou 5 para fazer a minha ficha”. Helena abandonou o psicólogo, não tendo, à época, condições de pagar por um profissional no regime particular; contudo, continuou o tratamento com a psiquiatra por um ano, tomando, por todo o período, o antidepressivo receitado.

“O tratamento foi lento, mas gradativamente fui me sentindo melhor. Realmente acho que, ao final, estava muito melhor,” afirma. Contudo, apesar de após finalizar o tratamento e receber alta, acredita que hoje, sete anos depois, ainda não está completamente curada. E conta que, após passar por uma experiência desagradável no último ano, sente que um gatilho foi reativado, fazendo ressurgir todos os sentimentos que marcaram-na após o nascimento de Aurora. Desta vez, com mais apoio da família, retornou a uma psiquiatra, com quem faz acompanhamentos mensais, e voltou a tomar medicamentos. Quando perguntada sobre a diferença entre o que sentiu no pós-parto e o que passou no ano anterior, ela é categórica: “Minha filha na depressão pós-parto era o motivo da tristeza e hoje ela é a razão de eu querer um mundo melhor,” afirma. “Aurora hoje me dá forças para prosseguir”.

Cecília*

Diferentemente de Helena, cuja gestação foi pontuada de problemas, a primeira coisa que Cecília diz quando começa a dividir comigo sua história é que teve “uma gravidez maravilhosa.” De fato, assim foi: muito esperada e planejada, tanto por ela quanto por seu marido. “Descobri que estava grávida no dia 4 de Novembro de 1999, e foi a maior alegria. Queria demais essa gravidez,” conta.  

Passaram-se os nove meses em plena tranquilidade; foi apenas em 20 de Junho de 2000, o dia em que seu pequeno Diego* veio ao mundo, que o ponto de virada em sua depressão pós-parto se estabeleceu: seu filho estava sentado dentro de seu ventre, e o nascimento foi marcado por dores intensas, que lhe acompanharam nos dias de internação e permaneceram até a saída do hospital. “Acho que foi por isso que eu fiquei com uma depressão,” revela. Com o passar dos dias, desenvolveu sentimentos de rejeição para com Diego: não queria pegá-lo no colo, carregá-lo, ou mesmo olhar para ele quando ele chorava. Perdeu a vontade de fazer suas atividades cotidianas, e não desejava comer, se arrumar ou sair. E, além de todas essas questões, ainda teve que lidar com o fato de ver seu leite secando. “Era muito triste isso”.

Cecília nunca chegou a buscar ajuda psiquiátrica e, por conseguinte, nunca tomou medicação. Todavia, explica, dependeu extremamente do apoio da família, com quem sempre pôde contar, em especial, de sua mãe, que, mulher de muita fé, rezava por Cecília, pedindo para que a filha não permanecesse do jeito em que, na época, se encontrava. Não obstante, era ainda a pessoa com quem Cecília mais conversava e de quem ouvia mais conselhos, estruturando-se como uma base sólida de apoio da filha. Neste passo, aos poucos recuperou-se da doença e, em três semanas, já podia dizer que a depressão ficara em seu passado. “Até que foi rápido, graças a Deus,” alegra-se. E finaliza: “mas é engraçado: era uma coisa que eu queria tanto na minha vida e depois eu fui deixando de lado. Foi complicado.”

* Nomes fictícios

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