Que venham as transformações

Fotojornalista do Estado de S. Paulo e do coletivo Mamana, Gabriela Biló discute os novos rumos da profissão

Por Taís Ilhéu (taisilheusouza@gmail.com)

As profundas mudanças sociais e políticas dos últimos anos abalaram a maneira de se fazer comunicação em qualquer lugar do mundo. Junto a elas, acrescentam-se novas tecnologias que surgem a todo instante — e então nos damos conta de que a maneira de fazer jornalismo nunca mais será a mesma.

Para o fotojornalismo, segmento que tem especial contato com as ruas e o trabalho de campo, essas alterações são ainda mais evidentes. São negativas, se envolvem o fotojornalista num ambiente de intolerância e violência; mas também positivas, se retratam e transmitem anseios, dificuldades e até mesmo contradições das lutas sociais.

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Gabriela Biló (Foto: Acervo pessoal)

A Jornalismo Júnior conversou com Gabriela Biló, fotojornalista do Estado de S.Paulo e integrante do coletivo Mamana, que pauta a atuação das mulheres na área da fotografia. Entre as coberturas por um dos maiores veículos de imprensa do Brasil e o engajamento na luta feminista, Gabriela é também um retrato da nova geração que se reinventa na comunicação. Ela estará na décima Semana de Fotojornalismo no dia 25 de novembro, na mesa que debaterá as transformações sofridas pelas profissão na última década.

Por que e quando você decidiu fazer jornalismo por meio da fotografia?

É uma questão de identificação mesmo, que eu percebi na faculdade. Eu fiz jornalismo na PUC e em algum momento percebi que trocava com os meus colegas… Enquanto eu fazia os trabalhos fotográficos deles, eles faziam os meus textos — e foi assim que percebi que gostava muito de fotografia. Durante a faculdade, eu experienciei muito, fiz muitas coisas dentro do jornalismo. Então, depois de experimentar muito, eu vi que era o que mais gostava da área. E no fotojornalismo tem também uma coisa que não vejo mais no repórter, que é o fato de você estar sempre em campo, acompanhando o que acontece. Você não está dentro de uma editoria, acompanhando um assunto só — e é isso que eu gosto.

No atual cenário político e social, marcado principalmente pela intolerância, qual o maior entrave na atuação do fotojornalista?

Na cobertura de manifestações, você não é visto como profissional, e sim como representante do veículo. Isso acaba atrapalhando um pouco o trabalho. Nós não somos representantes do veículo — você está ali fazendo seu trabalho. Eu costumo dizer que nós fotografamos para nós mesmos, o veículo que é nosso cliente. A minha forma de fotografar não muda de acordo com o veículo em que estou. Eu acredito que quando você está fotografando, seu posicionamento não deve influenciar: o importante é o que você está fazendo.

Por que você decidiu fazer parte do Coletivo Mamana?

O coletivo tinha sido criado há umas duas semanas, e eu vi que era uma bandeira minha fazia um tempo já essa coisa da representação das mulheres na fotografia. Só que era algo mais no boca a boca, não era algo em que eu tivesse um ativismo mais especial. Foi quando eu vi o que as meninas fizeram e gostei da ideia, já que esse é um ambiente tão machista e elas tiveram essa sacada. Então eu pensei que tinha bastante coisa para contribuir, e foi isso. O objetivo é muito claro, então foi fácil andar para frente… O coletivo cresceu muito rápido. Já estamos fazendo exposições, dando entrevistas. Foi muito rápido, acho que era uma demanda, um espaço que precisava ser ocupado.

Você já encontrou alguma dificuldade no seu campo de trabalho por ser mulher?

Ah, muitas. Tem muito machismo no meio, desde assédio até preconceito. Tem muita descredibilidade, as pessoas duvidam muito de você o tempo todo. Os grandes feitos são sempre assimilados ao gênero, em alguma vantagem que você teria conseguido por ser mulher e nunca é devido ao seu trabalho. Eu digo que, às vezes, temos que fazer um trabalho duas vezes melhor para provarmos que somos tão boas quanto, sabe?  Fora os assédios quando estamos trabalhando,\… É claro que quando tem mulheres juntos é muito mais tranquilo, você se sente mais confortável.

Já há alguns anos fala-se de uma crise no jornalismo. Para você, o fotojornalismo está incluso nisto ou a dinamicidade dele permite que escape?

Eu não acho que esta crise exista. O que existe é uma transformação. Acredito que o jornalismo e o fotojornalismo estão se transformando, se reinventando. Essa coisa da crise é mais para quem está preso aos velhos moldes, é só uma questão de se reinventar. O que o jornalismo está demandando, que é um choque, talvez, é que os leitores querem informações mais aprofundadas, não só notícias. Notícias todo mundo consegue online, em quinze minutos — e o nosso jornalismo ainda está correndo atrás da notícia. Precisamos de algo mais profundo, e isso é mais complicado de se obter. As redações precisam se adaptar, e elas continuam a fazer um jornalismo cada vez mais raso e rápido. Este modelo é que está fadado a acabar.

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