Chá com palhaços

Um encontro em busca do ridículo

Por Raphael Concli (raphconcli@gmail.com)

Saudações amada irmandade!

Que esta mensagem os encontre em plenitude de saúde, paz e alegria!

Com imenso prazer, convidamos a todos para um incrível encontro de aprofundamento em nossos estudos, a partir de uma temática que há muito ansiávamos por desenvolver: e o palhaço, o que é?

Das 14h às 17h30min – Workshop “E o palhaço o que é? ”, facilitado pela querida irmã e palhaça Ana Piu, que, a respeito deste trabalho nos conta:

Serão propostos alguns jogos lúdicos e de confiança com foco no estado de inocência e ingenuidade, desenvolvendo assim a disponibilidade sem defesas, a prontidão de sermos nós mesmos acolhendo o ridículo que existe dentro de nós. O estado de palhaço é o estado de: “EU SOU”. O palhaço é o esvaziar da mente para pensar e agir com o coração. Um dançarino de ações e emoções”.

Das 17h30min às 18h30min – Refeição leve e breve intervalo

Às 18h30min – Ritual “E o palhaço o que é!”, com a Consagração da Sagrada Medicina Ayahuasca.

Estudaremos o arquétipo do palhaço como símbolo tanto da espontaneidade quanto de autoconhecimento de nossa criança interna, de nosso ridículo, de nossa sombra e vulnerabilidade.

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(Foto: Raphael Concli/Jornalismo Júnior)

Foi por certo acaso que este e-mail chegou até mim. Uma amiga mencionou a mensagem numa conversa qualquer, contando que uma conhecida de sua mãe a teria recebido e planejava ir ao inusitado evento: um encontro organizado por uma irmandade espiritual para discutir, na teoria e na prática, o que é ser palhaço regado a chá de ayahuasca.

Como se sabe, palhaços são figuras um tanto controversas no imaginário popular. Não é todo mundo que se convence do caráter alegre e brincalhão do personagem ou que é tocado pela imagem solitária e melancólica de um sujeito que seria, no fundo, solitário, triste, sem lugar no mundo. Pesadelo dos tímidos, monstro para muitas crianças e adultos, o palhaço é uma figura frequentemente vista como assustadora. A realização de um ritual com eles somado à presença de uma bebida conhecida popularmente por seus intensos efeitos alucinógenos soava como roteiro de filme de terror ou esquete do Monthy Python. Foi o bastante para despertar minha curiosidade.

Entrei em contato com os organizadores via e-mail falando de meu interesse jornalístico em comparecer tanto na oficina quanto na celebração com o chá. Ananda Joy respondeu calorosamente às mensagens, mas de partida fui informado de uma condição: para que se preserve o conforto e tranquilidade dos participantes, pede-se que visitantes também participem do ritual “consagrando a Ayahuasca”, mesmo que em dose menor.

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(Foto: Raphael Concli/Jornalismo Júnior)


“Já tive muitos nomes”, diz Ananda Joy ao se apresentar no dia do ritual. Nascido Diógenes Mira, ele logo ganharia o apelido de Johnny, graças a um amigo gago que não conseguia pronunciar seu primeiro nome, mas dizia apenas “djo, djo… Djoni”. Quando tornou-se palhaço, assumiu a alcunha de Johnny Perereco, aproveitando a expressão que seu pai usava para se referir a uma situação financeira difícil. Com o ingresso no universo do tantra, assumiu o nome Ananda, ou Ananda Joy, junção de palavras do sânscrito e do inglês que significam alegria.

Junto com sua esposa Mohini Taila, nascida Adriana Valverde, ambos são os fundadores da Tara Devi Kula, irmandade espiritual cujo nome em sânscrito pode ser traduzido por algo como “família da estrela divina”. Sem fixar-se a qualquer orientação religiosa específica, ou mesmo considerar-se como uma, o grupo toma como fundamento o conjunto de pensamentos de origem indiana chamados tantra, ao qual também se associa a prática da meditação e do yoga. Periodicamente seus membros se reúnem em rituais onde se discutem e vivenciam temas ligados à espiritualidade e busca por autoconhecimento.

Em nove anos de atividades, diversos assuntos já foram abordados: sexualidade; vocação e talentos; alegria; medo; fofoca; sonhos lúcidos. Faculdades paranormais; aborto; HIV; eutanásia; além de temas mais propriamente espirituais como leituras de textos sagrados do Zen, Sufismo e Cristianismo; totemismo; anjo da guarda e mantras, em algumas destas ocasiões ocasiões em que se realiza o consumo conta-se com a presença da ayahuasca.

Produzida a partir do cipó Banistriopsis caapi e de folhas do arbusto Psychotria viridis, o consumo da ayahuasca – a trepadeira dos mortos, como podemos traduzir o nome de origem quíchua – data de tempos pré-colombianos por comunidades indígenas da região amazônica. Conhecida por seus efeitos psicoativos, a bebida é lembrada por muitos em razão de seu uso por grupos religiosos como a União do Vegetal e o Santo Daime, alguns dos tradicionais grupos religiosos ayahuasqueiros do Brasil, ao lado de outros como Alto Santo, Cefluris e Barquinha.

A presença da ayahuasca, porém, tem se disseminado entre diferentes grupos urbanos, não necessariamente associados a estas comunidades religiosas. Estes cenários muito diversos implicam também em formas particulares de se consumir e conceber o significado do chá. No caso da Tara Devi Kula e dos rituais que realiza, a bebida insere-se num contexto informado por elementos do pensamento e espiritualidade orientais ligados ao tantra e é compreendida como uma forma de medicina, veículo de uma investigação espiritual e psíquica.  

Considerando os contextos e as formas de seu uso – e não apenas seus efeitos de alteração de consciência e percepção –, a ayahuasca não é vista por seus diversos pesquisadores e consumidores como uma droga alucinógena que se consome de modo recreativo, à maneira do LSD, por exemplo. A bebida é antes tida como um “enteógeno”: aquilo que produz um estado de inspiração para fins religiosos ou espirituais (ou, caso se queira uma etimologia de bar, algo que leva a uma divindade interior).

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(Foto: Raphael Concli/Jornalismo Júnior)

O espaço Guanabara localiza-se em bairro do mesmo nome em Campinas, mas o clima especialmente frio daquele sábado de inverno em nada lembrava a região carioca.

Comento com o segurança que vim para… uma oficina de palhaços. É ali mesmo. O local não é uma chácara, ou um grande jardim, como eu esperava,  mas um imóvel grande com espaços variados usado para os mais diferentes eventos, de festas de 15 anos a palestras da Polishop. No momento em que chego, pouco antes do começo da oficina, ocorre um curso de MBA em cosmetologia dermatofuncional aplicada e estética, o que explica o fluxo de mulheres bem vestidas para salas mais ao fundo. Creio que elas não sabem do ritual dos palhaços.

Aos poucos começam a aparecer pessoas no salão. Além de mim e Ananda, Ivan é um dos primeiros a chegar. De altura modesta e barrigudinho, usando um par de sandálias Croc e camiseta com listras horizontais, sua figura ali parece a de um palhaço à paisana. Ele inicia com muito interesse uma conversa com uma moça de cabelo castanho curto, olhos de um verde muito vivo e um nariz pendurado no pescoço. Explica a ela que está ali em busca do guia interior do palhaço, conta de suas experiências de aprendizado sobre o personagem e reflete que, “se você está no palhaço, você não está no controle”.

A mulher ouve mais do que fala, e quando o faz nota-se claro sotaque português. Ela é Ana Piu, condutora da oficina. Nascida em Lisboa, Ana formou-se em Artes Cênicas na Europa, onde exerceu a profissão por alguns anos a partir de 1995. Ao entrar para a ONG Operação Nariz Vermelho em Portugal, em 2003, começou a desenvolver a linguagem do palhaço em contextos hospitalares. Em 2012, veio em definitivo para o Brasil com suas duas filhas para cursar o mestrado em antropologia social pela Unicamp, onde desenvolveu um estudo sobre a intervenção de palhaços em asilos.

Diante das considerações de Ivan, Ana começa uma breve reflexão sobre o palhaço. Para ela, o palhaço é um estado semi-meditativo que nos dá a capacidade de significar o mundo. Mas ela não considera este como um momento de descontrole. Segundo diz, é preciso tomar o palhaço como um cavalo, do qual somos o cavaleiro. Se perdermos o controle, ele dispara. Se muito rígidos, ele não anda. “É uma sensibilidade que não se aprende, se afina”, o que pode ser trabalhoso pois, como ela nos lembra, “não há aula de alma”.

Em meio a conversa, uma moça acompanhada de sua filha pequena aparece. É participante da irmandade espiritual, e alegra-se muito ao ver Ana e Ananda, mas desculpa-se por não ficar hoje no ritual. “Conheci o Patati Patatá ao vivo. E foi traumático”, diz. Pondera que seria preciso todo um processo terapêutico para que ela superasse seu medo de palhaços, o que torna inviável sua presença nos trabalhos de hoje. Deseja-nos sucesso e vai embora.

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(Foto: Raphael Concli/Jornalismo Júnior)

São poucos os que chegam para a oficina. Além de Ana Piu, Ananda e Mohini, há sete outras pessoas. Eu, até o momento de a oficina se iniciar, considero-me de fora, mas logo sou convidado a me juntar às atividades. O argumento de que sou um observador só reforça aos demais a necessidade de que eu participe.

Na roda de apresentações, fica claro que, além de Ana, Mohini e Ananda, os demais não são palhaços de formação. Todos estão ali pela busca do palhaço enquanto modo de ser, enquanto um tipo de comportamento e relação com o mundo. Um dos rapazes, Tomás, estuda artes cênicas, o que se torna visível a partir de seus movimentos amplos e desenvoltura corporal, seja para pular ou para dar um abraço – prática que será frequente no resto do dia junto com as saudações de gratidão. Mas mesmo ele está mais interessado no palhaço enquanto ideia – e na sua associação com o ritual do chá – do que em busca de técnicas performáticas ou gags novas. Assim como eu e Ivan, ele é um visitante no grupo e está ali pela primeira vez.

Como uma dinâmica de grupo, a Oficina se compõe de diversas atividades interativas que envolvem interagir, por vezes de modo um tanto íntimo, com completos desconhecidos. Jogos de pega-pega, luta de cócoras, caminhada às cegas e até uma atividade onde deveríamos ficar tocando o rosto de outra pessoa deitada e de olhos fechados e emitir algum som que representasse aquela cara à sua frente. Aos poucos a ocasião produz uma cumplicidade entre os participantes.

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(Foto: Raphael Concli/Jornalismo Júnior)

Mas e o palhaço, onde está? Começo a pensar se iremos realmente chegar a este tema ou se já deveríamos estar com ele em mente. Até que, após mais algumas atividades que envolvem olhares, rodopios e abraços, chega o momento. Numa espécie de jogo de dança das cadeiras, onde temos de evitar que Ana Piu se sente na única vazia, aquele responsável a cada rodada pela derrota do grupo acaba premiado: recebe um nariz vermelho para então assumir um palhaço. Cada um faz uma pausa antes de vestir a menor máscara de todo o teatro enquanto os outros tornam-se público. Silêncio total. É um momento grave.

Carol é a primeira. Sorri instantaneamente ao colocar o nariz, mas não sabe bem o que fazer. “Cante uma canção infantil”, pede Ana Piu, e Carol escolhe o clássico “comer, comer”. Com o nervosismo, a música não sai exatamente afinada e ecoa no salão vazio. Aos poucos Carol sente-se mais à vontade com a cantoria e continua fixamente nos mesmos versos, como num condicionamento psicológico, cantando cada vez mais alto. É recebida com entusiasmo por todos, até por ser a primeira a ir para o palco. Ao terminar, senta-se em sua cadeira e desata a chorar. Precisará sair da sala daqui a algum tempo, pois o choro não irá parar.

A emoção de Carol torna-se um alvo para a performance de Tomás. Com algo em torno de um metro e oitenta de altura, magro, e com farto cabelo ruivo, o rapaz lembra o personagem salsicha do desenho Scooby Doo, como ele mesmo nos diz. Aliás, salsicha serve como excelente nome para seu palhaço. Ele também sorri com o nariz e olha em volta. Ana pede que observe atentamente cada um, que nos sinta. Percebo que estou precisamente diante do momento em que o palhaço cria aquele olhar que aterroriza tanta gente, a visada que vem antes do fatal “oi, amiguinho”.

Tomás prefere assumir um tipo silencioso de palhaço, o sujeito carente e acolhedor que tem como jogo a postura afetiva. Dito em termos mais concretos, seu palhaço é do tipo que dá abraços. “Procure quem precisa de você”, diz Ana. Ele logo chega em Carol e demora-se no abraço. Parece comovido com ela também e a integra a sua performance, colocando a moça em cena mais uma vez.

E assim a cada nova apresentação surge um novo palhaço. Ana Piu diz a todos para buscarem um olhar próprio e tornarem a própria condição, seja de constrangimento, de dúvida, de tensão, o motivo da performance.  E cada palhaço se constrói a partir de algo muito simples, como o próprio ajeitar de roupas do rapaz que pensava o que fazer no palco, ou o riso nervoso e incontrolável de outro ao colocar o nariz. Na minha vez, fico tão vermelho quanto a própria máscara. Muitas ideias vem à mente, mas nada que consiga se concretizar enquanto olho a todos já em cena. “Você é um palhaço investigador. Veio observar as pessoas”, diz Ana Piu. É claro, como pude esquecer?

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(Foto: Raphael Concli/Jornalismo Júnior)

Terminada a oficina, aproveitamos o intervalo para comer mandiocas cozidas na pressão, temperadas com sal orégano e zatar. Nada mais. Aos poucos, mais pessoas chegam. São os frequentadores regulares da irmandade que vieram para o ritual com a ayahuasca, todos com mochilas e apetrechos para dormir. Os novatos, como eu, são recebidos com alegria. Todos perguntam se já consumi o chá alguma vez e tem alguma espécie de dica tranquilizante para dar. Falar sobre a ayahuasca é praticamente inevitável.

A noite já caiu e o frio não dá trégua. Uma grande roda de colchonetes, cobertas e sacos de dormir começa a se formar. De maneira descontraída, cada um começa a se preparar para o evento em seu pequeno acampamento. Há camas invejáveis, bem arrumadas, cheias de cobertor, com colchonete duplo. Noto frascos de essências aromáticas e pedras com outro pessoal. Um rapaz pega bolas da mochila e começa a jogar malabares.

Mohini e Ananda tomam seus lugares próximos à parede do fundo do salão. Junto está a pequena Cristal, filha do casal. Em frente a eles, uma mesa baixa sustenta um notebook conectado a uma caixa de som e uma fileira e velas coloridas. Com as lâmpadas apagadas, elas são ao longo do ritual a única fonte de luz dentro do salão, além da fraca iluminação laranja que vem dos postes na rua. O casal saúda a todos e apresenta os novatos, comentando sobre minha condição de jornalista, da qual não é possível escapar.

O evento contará com momentos precisos. Haverá uma introdução em que ouviremos músicas africanas e se servirá a primeira dose da ayahuasca. Também teremos música pernambucana, jazz e temas circenses à medida que o ritual se desenrole e a segunda dose da bebida seja servida aos que quiserem. Para o estudo de hoje sobre palhaços, será feita a leitura de um ensaio e um poema por Mohinií e Ananda, mas todos que quiserem contribuir com qualquer produção a respeito também poderão.

Algumas instruções mais práticas e operacionais se mostram necessárias nesta introdução. Pede-se que as “limpezas do tipo vômito” sejam realizadas na grama do jardim externo ou nos vasos sanitários dos banheiros do salão, mas com cuidado de que seja nos vasos mesmo. Aos que precisarem ir ao jardim, pede-se especial cuidado com a porta de vidro do salão, recém trocada, mas agora um tanto instável e barulhenta: “Eu sei que, com a consciência expandida, pode ser que ninguém lembre disso, mas vai que você lembra? A porta antes era silenciosa, quase um buda encarnado. Agora, ela está mais Iansã”, diz Mohini.

As músicas africanas começam a tocar e logo a primeira rodada do chá é servida. A dose corresponde a um copinho de café, daqueles de plástico. Tomo metade. O líquido é marrom escuro, muito amargo, mas com certa acidez. É um gosto que nunca senti. Diante de toda a circunstância que ali envolve a bebida, lembro das histórias que já ouvi daqueles que a tomaram e do significado que eu sei que ela tem, mas que no fundo desconheço. Penso que aquele gosto vai realmente me levar a algum outro lugar.

Espero, mas nada me acontece nos primeiros instantes. Aos poucos aqueles com calças mais largas começam a sair de seus colchões e dançar no centro da roda ao som da percussão. Dançam com desenvoltura, como quem conhece os ritmos ou frequenta rodas de jongo. Outros começam a rir. Ivan, mesmo com passos tímidos, longe do ritmo dos outros, levanta-se e começa a dançar no seu canto. Tomás, o ruivo, imita um passarinho tal como o que ouve numa das músicas. Saca em seguida uma pequena flauta e passa a tocá-la. Quando chega o momento da segunda dose, que é voluntária, decido tomar um pouco mais. É por volta deste momento que Mohinií percorre a roda com Cristal, que carrega uma cesta de narizes vermelhos, dando um para cada pessoa.

Não consigo saber se as atitudes que vejo já se devem aos efeitos do chá, mas certamente são ocasionadas pelo ritual que o envolve. Imagino que seja possível avaliar o momento da ação da N-dimetiltriptamina (princípio ativo da bebida) no organismo, considerando sua concentração ingerida e a velocidade de processamento do organismo. Mas estes dados e nomes não importam aqui e não bastariam como forma de medida dos efeitos, já que as fronteiras químicas e biológicas são atravessadas pela experiência social que se dá ali.

No limbo do pós-ingestão e pré-efeitos, a única coisa que me vem à mente dos relatos que já ouvi sobre a ayahuasca é que em algum momento a força – o estado em que a bebida age sobre nós – virá. E quando ela chegar, eu saberei. Procuro evitar qualquer expectativa em relação ao que possa ocorrer, ainda que seja difícil. Todo relato de uma experiência produz em quem a ouve, mas não a viveu, alguma expectativa, tanto sobre a própria narrativa como em relação a nós mesmos, sobre como seria para nós viver aquilo que outro conta.

O uso de substâncias alteradoras – ou, no caso, expansoras de consciência – possui todo um imaginário criado pelos mais diversos relatos, sejam literários, cinematográficos ou mesmo orais, os quais ouvimos de pessoas próximas que passam por estas experiências. Não à toa a palavra “viagem” é usada para descrevê-las: saímos do lugar de onde sempre estamos para passar um tempo em outro, onde sentiremos outras coisas, romperemos com nossa rotina cotidiana de afazeres e percepções. Quem conta uma viagem quase sempre o faz com animação, mesmo quando fala do que houve de ruim. Mas o que há de mais verdadeiro entre o termo “viagem” e seu uso para descrever a expansão de consciência é que o relato não substitui a experiência própria, e ao ser contado diz tanto (ou mais) sobre quem foi do que sobre o próprio local.

Aquilo que se acessa, este “lugar para onde se vai” é radicalmente subjetivo, ainda que o mecanismo bioquímico em questão seja um só. A própria expressão “expansão de consciência” é bastante frágil para se expressar o que está em jogo.  Ela é um nome, um conjunto de palavras, que assim como todo relato tenta capturar com a linguagem verbal e assim partilhar aquilo que beira o incomunicável. No meu caso, as associações, sensações e percepções alcançadas com esta expansão não são aquelas através das quais constituí a linguagem que conheço ou as memórias que tenho, o que torna a tarefa de traduzi-las ainda mais improvável – mesmo que com a consciência expandida eu me veja diante de diversas memórias e tente me valer da linguagem o tempo todo para apreender o estado em que estou.

E afinal a força vem. Estamos ainda apenas ouvindo as músicas, quando começo a dizer para mim mesmo que “algo está acontecendo”. Sentado em meu saco de dormir e tremendo de frio olho minhas mãos e me mexo devagar como que me testando, ainda com dificuldade de aceitar que aquilo possa estar mesmo ocorrendo. Ora, se estou mesmo na força, como posso colocar em dúvida com tanta clareza e intensidade se estou nela mesmo?

Por um momento acho que esquecerei os palhaços, que ainda não voltei a ver. Mas é por causa deles que estou ali. Que todos estão. Onde estão os palhaços? Estou ali para observar, para contar aquilo. Tenho que anotar. Não quero. Não consigo. Por que registrar tudo? O que é preciso registrar? Não, não é possível contar isso. Nada mais está claro, ao menos não de maneira que eu consiga dizer.

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(Foto: Raphael Concli/Jornalismo Júnior)

Choro descontroladamente e meu nariz (o meu mesmo) escorre em bicas. Infinitos pensamentos e sensações surgem ao mesmo tempo. Parece que estou diante de um emaranhado de entendimentos sobre tantas coisas que já me passaram pela cabeça, mas não consigo registrar nada além deste fato e da própria preocupação com a possibilidade do registro. O observador e o participante em mim parecem entrar em choque, algo que sinto até fisicamente. É um conflito perturbador. A caneta se torna uma espécie de funil por onde tento sem sucesso dar vazão a tudo que se passa em mim. As anotações no caderno vão ficando cada vez mais tortas e metalinguísticas.

Uma nova leva de músicas e sons nos conduz a uma outra etapa do ritual. Uma voz grave e rouca convida ao relaxamento e à entrega com uma batida eletrônica envolvente de fundo, algo como um eletrodisco psicodélico. Olho ao meu redor e tento dizer pra mim mesmo o que vejo e onde estou: é um salão gelado no meio da cidade, iluminado por velas. Agora uma criança imita um leão e é perseguida por uma moça. Um casal envolto em cobertas vai ao jardim, onde algumas pessoas vomitam. Outros dançam no centro da roda. Um rapaz toca flauta. Outro joga malabares. Ana Piu dorme. Outros se chacoalham sob as cobertas. Quase todos vestem narizes vermelhos. Tudo me parece muito normal e me encanta. Dou risada ao imaginar algúem vindo de fora, entrando ali e se deparando com tudo aquilo.

Ananda e Mohini iniciam em seguida um número de palhaços sem se preocuparem com a existência de um público. Na performance, ela dança enquanto ele faz o papel de um obcecado que a deseja e persegue. Ele tenta se aproximar a todo instante, mas é repelido, até que ela tira um lenço de suas roupas e o coloca esticado no chão. “Não passe desta linha!”, ela indica, sem falar. O palhaço empurra discretamente o pano para cada vez mais perto até sair correndo atrás dela de quatro por toda a roda, arrastando com as mãos o limite que os separa. Todos riem muito.

Com muito esforço consigo me juntar aos outros perto do computador quando somos chamados para a discussão dos textos. O casal lê um longo ensaio sobre o palhaço, e em seguida um poema, “por onde anda o palhaço?”.

Sei que a alteração na minha sensibilidade e a circunstância em que estou fazem com que eu me comova muito com as leituras e as performances. Ouço as palavras e as percebo não só pelo seu significado, mas especialmente como sons. É como se estes dois aspectos se intensificassem muito, produzindo a impressão de que estou numa espécie de delírio reflexivo que é agradável, ainda que angustiante. Por um momento deixo de me importar se conseguirei trazer algo de volta de tudo aquilo. Diante de tudo o que está ao meu redor, sinto que estou numa espécie de espetáculo.

Começo a encontrar no palhaço algo além de um personagem, de uma pessoa fantasiada. A ideia de palhaço é a de uma performance que faz do ridículo uma forma de vida, de resistência e de refúgio. Não à toa ele é melancólico. O palhaço é alguém que faz da piada uma necessidade: como não consegue fugir do mundo, ela é sua forma de adaptar-se a ele. As oposições clichês do personagem aparecem agora como contradições vivas. Consigo vê-las em meu comportamento e, afinal, encontrar o que há de palhaço em mim.

Há um palhaço em mim. A ideia simples, que soa como piada ou ofensa, agora me toma com uma elaboração que soa reveladora. Aos poucos percebo, junto a isso, a quantidade de pressupostos com os quais cheguei àquele evento: sabia que queria narrar o bizarro e fui simplesmente procurar o que já queria contar. Ainda que o fizesse com respeito, imaginei que sustentaria uma certa distância de tudo. Mas à medida que o limite entre o observador o participante se desfez em meio a palhaços e chá, noto que o respeito não é uma postura isenta de juízos de valor preconceituosos. E à medida que a ayahuasca se dilui em mim, noto que minha busca pelo ridículo deu certo.

 

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