João Paulo Charleaux e o jornalismo como deve ser

Por Rafael Paiva (paivaraffa@gmail.com)

João Paulo Charleaux exerceu inúmeras funções em diferentes entidades ao longo de sua carreira. Atuou como assessor de comunicação da Cruz Vermelha Internacional. Trabalhou para os dois maiores jornais de São Paulo (“Folha de S. Paulo” e “O Estado de S. Paulo”). Coordenou a Comunicação da “Conectas”. Foi consultor da mesma área na “Avaaz”. Colaborou e produziu reportagens para publicações locais (“Carta Capital” e “Le Monde Diplomatique”) e estrangeiras (“Rádio Popular de Milão”, “Radio Nederland”, “Agencia Poonal de Berlim” e “Rádio França Internacional”). Ministrou cursos de informação sobre jornalismo em situações de conflito armado e outras situações de violência organizados pela CICV, Oboré e Abraji. Atualmente, ocupa o cargo de editor de Política, Economia e Internacional no “Nexo Jornal”.

Na entrevista abaixo, o jornalista fala um pouco sobre a sua trajetória profissional e acerca do jornalismo independente. No dia 24 de agosto, ele participará da 3ª Semana da Jornalismo Júnior, em mesa composta por Guilherme Alpendre (Abraji), Marina Amaral (Agência Pública) e Laís Modelli (Caros Amigos, Revista AzMina e BBC Brasil). Na entrevista abaixo, o jornalista fala sobre a sua trajetória e observa que o jornalismo deve resgatar alguns de seus valores primordiais.

J.Press – Entre 2001 e 2008, você atuou como assessor de comunicação da Cruz Vermelha Internacional pro Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai. Afinal, qual é o papel desempenhado por um porta-voz de uma das maiores organizações humanitárias existentes? E nessa sua trajetória, quais foram os momentos mais marcantes que você vivenciou?

João – Formalmente meu cargo era de assessor de comunicação, mas eu estava em um nível em que era autorizado a falar em nome da organização. Então, por exemplo, eu fui ao conflito no sul do Líbano, em Israel, e ia ao “Bom dia, Brasil” dar entrevista, na “CBN”, dentre outros.

Uma coisa que preciso clarificar é que a Cruz Vermelha é composta de três coisas bem diferentes: um braço que cuida de desastres naturais, que se chama “Federação Internacional da Cruz Vermelha”; um braço que cuida de conflito armado, que é o “Comitê Internacional da Cruz Vermelha”, onde eu trabalhava; e, depois, você tem nos países algumas unidades filantrópicas de trabalho humanitário, como a Cruz Vermelha Brasileira, que fazem mil coisas, isto é, recolhem cobertor, prestam primeiros-socorros e outras coisas. Eu trabalhava especificamente nessa área do conflito.

Uma coisa bem desconhecida pelas pessoas é que foi a organização que deu origem à legislação sobre a guerra, ou seja, quais armas eram permitidas, que métodos eram permitidos pela Convenção de Genebra, enfim, mil coisas. E é uma organização que zela por essas normas, do ponto de vista do desenvolvimento dos países em relação a esses temas, da incorporação dessas leis na legislação doméstica, dos manuais de doutrinas de formação militar e tudo mais.

Isso me deu um conhecimento numa área que pouca gente conhece e que é muito quente na cobertura, sobretudo, em internacional. Isso foi o que possibilitou que eu fizesse uma ponte pra redação. Um caminho incomum. Eu fui pro “Estadão” depois.

Foi a organização mais séria em que trabalhei e ela é muito setorizada. Eu trabalhava numa coisa muito específica que era comunicação. E a comunicação nessa ação humanitária é diferente das de empresas e dos governos, ela é muito operacional, ou seja, [a ação consiste em] como você, por intermédio dela, consegue nessas situações (zona conflagrada, guerra, motim, rebelião) obter acesso [pra equipe] às vitimas, de forma segura.

Você pode dizer “poxa, mas o Brasil não tem guerra, né?”. Então, não tem, mas eu trabalhei com os militares que estavam indo para o Haiti, fiz formação do Batalhão de Caçapava. As Forças Armadas têm um trabalho permanente de formação e você faz difusões ali, dizendo “olha, a Cruz Vermelha é isso, funciona desse jeito, então se vocês tiverem um prisioneiro um cara vai visitar pra fazer isso e aquilo etc.”. Permanentemente, tem também um trabalho de bastidor. Era isso o que eu fazia. Normalmente, numa situação de tranquilidade.

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João Paulo Charleaux. (Foto: Acervo pessoal)

Mas eu tive experiências em situações menos tranquilas, só que sempre aqui na América Latina. Auxiliei algumas ações na Colômbia, que tem um conflito de cinquenta anos, no Peru, numa situação pós-Sendero, na Bolívia e na Venezuela.

Eu nunca chefiei nada disso, mas sempre trabalhei com a parte da comunicação nessas situações. Então, era tudo muito impressionante porque você estava fazendo uma comunicação real e concreta pra um objetivo muito tangível, que era algo que me fazia falta no jornalismo – no qual você ficava ali “papagaiando coisas” e tanto faz, não é?!. Ali [CICV], não. Ou a gente encontrava um ministro e dali sairia uma situação frutífera que permitiria mandar um caminhão pra tal lugar ou aquelas pessoas estariam perdidas.

J.Press – Como foi essa transição da Cruz Vermelha para uma grande redação como o “Estadão”?

João – Foi um choque. Eu tinha uma grande experiência numa determinada área. Mas o trabalho na redação é tão diverso do que eu achava que era. Você tem que se virar com tantas coisas mundanas, do tipo, fechar uma página, fazer um fluxo dentro de um certo horário, de mexer com assuntos que você não tem a menor ideia mas que você tem que dar cambalhota pra sair uma nota.

Eu tinha uma fantasia de um trabalho mais inspirado, com mais reflexão, que nunca foi o caso. Eu demorei pra me adaptar. Depois de um tempo, eu me tornei um diretor-assistente e tinha uma função de fechamento. Eu penei. Foi uma experiência difícil, mas que, no fim, funcionou.

Foi uma das coisas mais incríveis que fiz na profissão porque me deu uma certa resistência para as intempéries do jornalismo. Além disso, me deu empregabilidade e um trabalho acaba puxando o outro.

J.Press – Você já sofreu algum tipo de censura?

João – Tem vários filtros que te limitam. O menos presente no cotidiano é esse que no período da faculdade a gente imagina que tem (do jornal pressionando). Os mais presentes no cotidiano são os colegas, o editor, o dia-a-dia. Tem o chamado contato físico.

Eu não nego que exista uma orientação “x” do jornal. É um jornal que tem uma visão de mundo clara. Isso está presente e você não vai querer inventar a roda lá dentro.

Mas o que eu posso dizer é que eu nunca assinei uma matéria que contenha coisas que eu acho que sejam nocivas, inverídicas ou pouco apuradas. Outra coisa que eu posso dizer com tranquilidade é que eu sempre escrevi da mesma forma em todos os lugares que trabalhei. Não em termos de linguagem, pois cada local tem o seu, mas quanto a conteúdo, sim. Em termos de assunto, eu nunca tive problema.

O que não dá é pra fazer extravagância. Você dá alguns sinais de que não aceita algumas coisas e que você causa problemas em algumas situações que se apresentam. Eu também acho que os jornais têm um jeito de direcionar pautas para certas pessoas. Eu, como editor do “Nexo”, faço isso. Agora, você pode fazer isso por razão ideológica, por razão prática ou pela razão “x”. A função dos editores é justamente distribuir o trabalho e fazer com que o fluxo ande de acordo com as capacidades de cada um.

Então esses filtros existem em quaisquer lugares onde você trabalha. Inclusive nos lugares onde as pessoas pensam que não tem.

J.Press – Já que você citou o “Nexo”, o que esse veículo pretende? Quais são as metas a médio e longo prazo?

João – Eu não respondo pelo “Nexo”. A rigor eu sou um empregado, como em todos os lugares onde trabalhei. Mas o que eu percebo é que isso coincide com a minha visão das coisas. Acho que é um jornal que quer ser jornal. Não quer ser alternativo, não quer se surpreendente, quer ser apenas um jornal. É roubar leitor da “Folha”, do “Estado” e do “Globo” e ser um jornal.

Quer que as pessoas assinem e vejam utilidade nele, se sintam respeitadas como gente inteligente que pode tirar suas próprias conclusões, que precisa de informação com contexto pra poder pensar o mundo. [Um jornal] com menos opinião e mais substância.14081422_649724858534221_326089871_n-300x300

O que eu vejo é que o “Nexo” quer fazer jornalismo. Não quer renovar a “rebimboca”, não quer dar voz pra setores, nada disso. Quer vender assinatura, ser lido e fazer o que todo jornal quer fazer.

O “Nexo” não tem mágica. Não tem um financiador oculto, não tem um fundo, não tem nada. É uma aposta num modelo de negócio que vai ter que funcionar. É isso. Não tem segredo. E vai depender do quanto ele se fizer útil pro leitor. Se as pessoas acharem que vale pagar uma quantia pra ter acesso ao conteúdo, elas irão pagar. É uma aposta.

J.Press – Você já foi correspondente, editor, enviado especial, analista, porta-voz da Cruz Vermelha Internacional, coordenador na Conectas, consultor de comunicação e por aí vai. Você almeja alguma coisa nova no Jornalismo?

João – Na real, eu não gosto muito de trabalhar. Acho muito difícil. Então eu nunca fico almejando coisas no trabalho, porque eu tento não acreditar que eu vou ter que trabalhar todo dia por muito tempo. É muito difícil. Parece brincadeira dizer, mas as pessoas de fora pensam que é um passeio. Pra mim é muito difícil.

Pra falar que eu não tenho sonho algum, eu queria fazer as minhas coisas em paz. É um nível de sonho assim: “O que a gente quer está claro, o que você sabe fazer é isso, então nós vamos te dar um certo dinheiro e um certo tempo pra você simplesmente fazer isso”. E isso não existe.

J.Press – Durante o debate promovido pela Jornalismo Júnior em relação ao Jornalismo dito independente, quais pautas você pretende abordar em seus discursos?

João – Acho que falar do jornalismo como tal. Acho que falta um pouco restituir esse significado do jornalismo como tal. Não como jornalismo “vírgula alguma coisa”, independente ou o que quer que seja. Voltar a falar do jornalismo como uma atividade profissional que tem um compromisso intransigente com alguns princípios que são ancestrais na área como a veracidade, a acuidade, a relevância, a imparcialidade, a utilidade, a cotidianidade, sabe?

Acho que voltar a atenção dos estudantes para princípios básicos da profissão que devem estar presentes em qualquer atividade que se empreenda nesse campo e que antecede qualquer pronome ou adjetivo que se queira colocar junto com a palavra jornalismo.

Não é negar o espaço pro debate a respeito da propriedade de meios ou do que quer que seja. Mas simplesmente cobrar a dedicação de uma parte da atenção das pessoas pra um núcleo duro da atividade que é intransigente em relação a sua própria existência, ou seja, ele deve estar ali seja onde for. Esse é o núcleo duro que me interessa. Pra além do que possa existir de debate sobre ideologia, propriedade de meios ou qualquer outro aspecto. Mas eu pretendo chamar a atenção para as características do exercício do ofício, que eu acho que acabam ficando em segundo plano e que tem a ver com a garantia da qualidade final da informação que se entrega.

No fundo é fazer jornalismo do jeito como deve ser. É isso.

 

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