A cor que a mídia não vê

Por Mirella Cordeiro (milucordeiro94@gmail.com)

Duas mulheres negras, batalhadoras e empoderadas. Talvez Jéssica Moreira — co-fundadora do coletivo Nós, Mulheres da Periferia — e Valéria Almeida, jornalista do Profissão Repórter, nem se vejam dessa maneira, mas são exemplos para outras. O desejo de fazer a voz das pessoas serem ouvidas, de desafiar os limites impostos às mulheres da periferia e de humanizar os dados as levaram ao jornalismo.

O trabalho de Jéssica Moreira e outras mulheres que participam do coletivo é de dar voz às mulheres periféricas para que elas protagonizem sua visibilidade. Não adianta [a essas mulheres] aparecer na mídia para falar sobre a violência do bairro, ela diz. Elas também têm histórias para contar, sonhos para realizar e identidades — mas ninguém, a não ser elas mesmas, pode definir quais são. Valéria Almeida, que se incomoda com o silêncio da mídia em relação a alguns assuntos, realiza um trabalho semelhante ao contar histórias no Profissão Repórter.

Ambas estarão presentes na 3ª Semana da Jornalismo Júnior — que, nesta edição, leva o tema “Reinventando o Jornalismo”. Jéssica, no dia 23 de agosto, integrará a mesa “A mulher no Jornalismo”, que contará ainda com Nana Soares (Estadão), Clara Brownie (Capitolina) e Stephanie Noelle (Petiscos e blog Chez Noelle). Já Valéria, no dia 25, conversará sobre minorias em pauta com Diego Iraheta (HuffPost Brasil), Jessica Tauane (Canal das Bee) e Maria Rita Casagrande (Blogueiras Negras). Nesta entrevista, a J.Press perguntou a elas sobre o trabalho, as mulheres negras e a visibilidade na mídia.

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Jéssica Moreira. (Foto: Acervo pessoal)

J.Press — Jéssica, como surgiu o coletivo Nós, Mulheres da Periferia?

Jéssica — O Nós, Mulheres da Periferia nasceu em 2014, mas a gente começou um pouco antes, no Blog Mural — hoje, Agência Mural, da Folha de S. Paulo. Todas nós [éramos] jornalistas periféricas. Jornalistas que falavam dos seus bairros, correspondentes comunitárias. Em 2012, nossa editora nos convidou pra escrever um artigo, pra [seção de] Tendências/Debates, e falou pra gente descrever um pouco dessas questões que permeavam a vida da mulher periférica — tanto os desafios quanto as potencialidades que há nas periferias da cidade de São Paulo. Lembro que a gente assinou o artigo como “Jéssica, 22 anos, correspondente de Perus” e muitas meninas começaram a assinar da mesma maneira no Facebook. A gente falou — “Nossa, o artigo teve eco! Chegou nas meninas que moram nas periferias”. Depois de um tempo, uns amigos iam para uns saraus e diziam que as pessoas liam o artigo.

Então a gente começou a pensar quão importante seria ter um espaço para voltar esse olhar para a mulher periférica e, principalmente, para essa questão de quebrar com alguns estereótipos. Claro, pensar os desafios, pensar os dados, pensar as dificuldades que as mulheres da periferia ainda vivem, pensar a questão da saúde, da educação, de como essa mulher vem lutando no decorrer dos tempos — como que ela é a liderança nessas periferias, inclusive —, mas também mostrar a delicadeza. Não digo delicadeza no sentido do feminino. Mas como essa mulher enfrenta isso? Ela enfrenta sendo muito criativa, trabalhando pra caramba. As mulheres da periferia são muitas, são diversas; então, por que não falar dos sonhos dessas mulheres? Por que não falar de uma maneira poética, mas que traga também todas essas questões e dificuldades? O Nós surgiu muito nesse sentido — de a gente contar agora ao nosso modo.

J.Press — E você, Valéria? Como chegou à TV?

Valéria — Eu comecei a fotografar dentro da faculdade. Quando saí, dizia: “Vou ser fotógrafa”. E aí fui parar na Carta Capital. Trabalhei lá por quatro anos, como assistente de fotografia, fotógrafa e produtora editoricitação-1al.

Sempre achei que eu jamais estaria na TV. Afinal, quantos negros são repórteres, apresentadores? Quantos apresentam programa pra falar de beleza, de moda?

Mas recebi um convite super inesperado. Uma repórter que me conhecia da Carta me ligou e falou que tinha me indicado para trabalhar com videorreportagem com o Caco Barcellos, porque eu entendia de fotografia… Eu não sabia nada de televisão, mas, mesmo assim, ele queria conversar comigo. O programa era com quem estava começando na TV.

Daí eu fui e a gente conversou sobre o que eu já tinha feito de trabalho, sobre o meu TCC (minha história foi sobre o MST no Vale do Paraíba). No final da entrevista, eu falei pro Caco — “Não sei se vocês vão gostar do meu trabalho, se também vou gostar de trabalhar na TV, mas, se for bom pros dois lados… Eu vou precisar mudar o meu cabelo?”. Ele perguntou: “O que isso significa pra você?”. E eu falei que, se eu tivesse que começar me corrompendo,  preferia continuar do jeito que estava. Era a minha regra. Porque demorei muito tempo pra conseguir me olhar no espelho e falar — “OK, eu vou escutar tudo o que tiver que escutar, mas vou me manter firme”. Eu não mudaria por causa de um trabalho. E daí eu entrei, passei pelos testes e fiquei.

J.Press — Vocês sofreram algum tipo de dificuldade na carreira por serem mulheres e negras?

Jéssica Eu costumo trazer o exemplo de uma amiga: o avô dela já tava na Poli da USP enquanto o meu tava arando terra; a mãe, também na USP, enquanto a minha foi doméstica. E eu e ela estamos aqui agora. É claro que, ainda, é sempre uma cobrança muito grande. “Eu tenho que fazer intercâmbio, eu tenho que fazer mestrado, eu tenho que fazer doutorado” — e parece que isso nunca chega, que eu nunca sou boa o suficiente pra falar ou pra discutir qualquer tema, porque sempre vai ter alguém, geralmente branco, classe média, que vai falar melhor do que eu. Essas questões sempre vão aparecendo e tomando conta.

Valéria — Por anos em que eu tentei [trabalhar em] um lugar. Enquanto fazia prova, eu passava, mas, no processo final da seleção, eu nunca servia. Tem um exemplo que ficou muito marcado: em Santos,  fiz um teste pra uma TV e uma pessoa me disse — “Nossa, você leva muito jeito, mas posso te dar uma sugestão? Deixa teu cabelo crescer e alisa. Porque a gente tem procurado negros, mas acho que, visualmente, você vai ficar melhor”.

Hoje, quando eu olho para as meninas, com cabelo crespo, que passam por mim e falam — “Meu cabelo é igual ao seu!”, eu acho incrível. Quando eu era criança, eu adorava o meu cabelo e passava o tempo inteiro alisando para não ser a piada da escola.

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Valéria Almeida. (Foto: Acervo pessoal)

J.Press — Há um problema, no Brasil, de representação das mulheres negras na mídia, por exemplo. Por que vocês acham que isso acontece?

Jéssica — Acho que o contexto — tanto social, quanto histórico — é sempre importante de pensar quando a gente vai falar das pautas sociais. Porque aí a gente vai trazer o histórico das populações negras mesmo. Quando a gente tem o fim da escravidão — que fim de escravidão foi esse? Foi um fim real? Depois tem toda essa história de que os negros saem desse centro e vão pras favelas, os morros. E aí você tem a construção dessa cidade que, pensando em São Paulo, não foi preparada para boa parte da população. Você afasta essas pessoas e começa a fazer um apartheid novo, agora com pessoas que se dizem livres, mas que não estão livres, porque alguns direitos não foram resguardados para que elas também fossem contempladas. Então eu acho que trazer o contexto histórico é sempre muito importante quando a gente fala de Brasil.

Valéria — A população negra é a maior parte do país, é mais de 50%. Mas a gente é minoria nas universidades, a gente é maioria nos presídios; a gente é minoria nas grandes empresas, mas a gente é maioria nos subempregos. Então quando a gente fala das minorias, e eu acho que o que me motiva a falar das pautas sociais é isto: a gente tem que trazer uma reflexão sobre o entorno, a origem disso. De que minoria que a gente tá falando? É uma minoria que só existe em alguns lugares, porque, na verdade, foi criada por uma parte da população opressora. A gente citação-2precisa olhar pro pano de fundo.

Quando as pessoas vêm me dizer de meritocracia… Acho que ninguém deveria passar por todas as dificuldades que eu passei, e tenho certeza que tem gente que passa por piores, simplesmente para conseguir estudar. Ter acesso à educação é um direito. Quando você olha pra sala de direito [o curso], quantos negros tem lá? É uma faculdade pública, mas  que não adere às cotas, que não dá acesso e cujo o vestibular é extremamente difícil. E daí, quando você pega a maioria da população negra estudando em escola públicas, sucateadas, que passa o tempo inteiro em greve — com todo o valor que tem a briga dos professores por salários melhores — , você vem dizer que esse cara não fez por merecer?

J.Press — O que vocês diriam para as mulheres negras que enfrentam essa invisibilidade na sociedade e que lutam contra a desigualdade racial e de gênero?

Valéria — As pessoas dizem pra mim — “Você é muito forte, você vai passar por essa”. Ei, eu só queria de vez em quando poder sentar e chorar numa boa, entendeu? Eu sou uma mulher forte? Ah, eu sei… Eu sou mesmo, porque a nossa trajetória, a nossa história faz com que a gente seja. Não existe outra alternativa. Você nasceu uma mulher, negra, na favela… Meu bem, ou você é forte, ou você é forte. Minha vó dizia pra mim: “Boca é de couro, estica mas não rasga”. Tipo — “Chora, filha! Mas aguenta, levanta!”.

Então, abriu uma porta? Permitiu entrar? Ocupe! Porque outro vai ver, outro vai se sentir representado, outro vai se sentir inspirado e assim vai. A luta vai ser fácil? Ah, não vai mesmo! Mas que a gente batalhe nessa luta de todos os dias e que a gente use a comunicação, que a gente consiga usar os caminhos, os meios que existem para esclarecer a todos.

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