Alguma coisa acontece no meu coração

Por Laila Mouallem (lailaelmouallem@gmail.com)

Ao passar pela catraca do metrô República e seguir para a saída à direita, deparei-me com o mais característico cenário do centro de São Paulo: um fluxo intenso de pessoas caminhava pelas largas calçadas, quase estreitas pela quantidade de comerciantes de rua que as ocupavam. A atmosfera exalava diversidade: os transeuntes andavam rápido ou devagar demais e vestiam-se de roupas que variavam de ternos a peças de roupa rasgadas ― pela moda ou pela vida; os ditos “camelôs” vendiam desde produtos cujas cores e formas geométricas remetiam à cultura africana a bijuterias artesanais feitas de pedras, cascas de coco, penas e linhas coloridas. Chamava a atenção que lado a lado havia comerciantes cujo vestuário fazia referência às estrelas do rock dos anos 70 e aos expoentes do movimento hippie do fim dos anos 60  ― misturando jaquetas de couro e óculos redondos ― e comerciantes com batas coloridas tipicamente africanas. Passei por aquela explosão de cultura observando as edificações até que reparei em uma unidade do McDonald’s adaptada à estética do centro, que ainda guarda traços de antiguidade. Perante essa imagem um tanto irônica, parei para refletir sobre como era o centro 60 anos atrás. Quem ocupava aquelas calçadas? No que consistiam aquelas edificações?

Cheguei, enfim, ao mais poético cruzamento de Sampa: o da Ipiranga com a São João. Virei à direita na famosa esquina e dei poucos passos até chegar ao Palacete dos Artistas. Avenida São João, 613. Não fossem as pesquisas que eu havia feito, o local jamais me despertaria o interesse em entrar. Talvez, no máximo, atentaria meu olhar a sua beleza: a arquitetura é repleta de detalhes em gesso típico de edificações antigas; os portões e as janelas têm um tom verde escuro agradável, enquanto as paredes são de um bege claro, quase branco. Diferentemente das fotos que eu havia antes visto, agora o prédio contava com algumas pichações em preto. De qualquer maneira, parar para notar o edifício é algo que demora a acontecer ― provavelmente por andarmos rápido demais, distantes demais.

O nome dado ao edifício não é mera coincidência: trata-se de 50 apartamentos nos quais moram exclusivamente artistas  ― diretores de teatro, atores, artistas circenses, artesãos, cantores ― associados a entidades como o Sindicato dos Artistas, a Cooperativa Paulista de Teatro, o Balé Stagium e o Movimento Moradia dos Artistas e Técnicos. Anteriormente, o local configurava o Hotel Cineasta, inaugurado nos anos 1950 e frequentado principalmente por artistas da época. O hotel fechou suas portas em 2010 e foi ocupado por membros do Movimento Nacional de Luta pela Moradia no ano seguinte. Somente em 2012 acabou revitalizado no estilo retrofit, que visa a aumentar a vida útil do edifício, preservando o patrimônio histórico. Assim, todo o sistema hidráulico e elétrico foi refeito, a estrutura do prédio foi reforçada e os pisos e paredes foram restaurados na forma original, em mármore e pastilha cerâmica.

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Placa colocada no dia da inauguração do edifício. (Foto: Laila Mouallem/Jornalismo Júnior)

O empreendimento é parte do Programa de Locação Social da Prefeitura de São Paulo, que busca desconstruir a ideia de propriedade privada, permitindo a locação de unidades mantidas com recursos públicos. Os moradores do Palacete dos Artistas são exclusivamente idosos e aposentados, mas muitos ainda estão em atividade, com renda de até três salários mínimos. Pagam uma quantia ínfima de aluguel ― entre 10 e 12% da renda familiar ― e muitos moram sozinhos, podendo permanecer na habitação por tempo indeterminado, apenas renovando o contrato a cada quatro anos. A ideia foi apresentada durante o governo de Marta Suplicy, mas o edifício só foi entregue em 2014, na gestão Haddad. O prefeito, na inauguração, disse ser este “o reencontro da cidade com o seu centro histórico”. “Requalificar o centro não é só reformar prédios. É, sobretudo, um gesto em direção às pessoas.”

Descobrir este prédio em meio à dura poesia concreta do centro despertou a minha curiosidade. O prédio representa a prosa em meio a tudo que o cerca: é pura história. Agendei minha visita para uma terça-feira nublada e fria. Eu, no entanto, estava quente de excitação. Entrei no hall do prédio e me encantei com as paredes de mármore sobre as quais eu havia lido. O lustre ornamentado, ainda da época do Hotel Cineasta, trazia consigo a ideia de palacete, e a placa na parede não me deixava dúvidas de que estava no lugar certo: Palacete dos Artistas. Me deparei com um segurança que comia enquanto falava ao telefone, ao mesmo tempo em que assistia a uma pequena televisão. Ele perguntou meu nome e interfonou para a psicóloga que iria me receber. Primeiro andar, à direita.

Entrei no elevador e reparei nas barras de segurança já vistas nas paredes do corredor do hall. Acessibilidade. O edifício foi totalmente adaptado para moradores com necessidades especiais. Em cada andar, há dois apartamentos com barras de apoio e espaços amplos, para melhor circulação e segurança. Essas modificações vão além de uma simples adaptação estrutural: é parte da tentativa de modificar o descaso com o qual se tratam os idosos, propiciando aos que têm necessidades diversas um cotidiano mais confortável e digno.

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Fachada do Palacete dos Artistas. (Foto: Laila Mouallem/Jornalismo Júnior)

Cheguei à sala 17: Plantão Social e Grupo de Apoio. Era um lugar espaçoso, cheio de detalhes e trabalhos artísticos. Atrás da pequena mesa de madeira da psicóloga, que aparece por lá uma ou duas vezes por semana, havia duas pinturas compridas ― que ocupavam quase todo o pé direito da sala ― feitas em um tipo de tecido (ou seria papel?), uma com colagens de flores de papel e outra com as bordas recortadas num padrão curvilíneo. Descobri, depois, que as obras haviam sido feitas pelos moradores; a sala toda havia sido decorada por eles. Isso me fez apreciar ainda mais a estante ao lado, com diversos livros e uma reprodução de Guernica, do Picasso, apoiada na parte de cima. A psicóloga que me acompanharia durante visita, por fim, interfonou para alguns moradores e me surpreendeu: iríamos a um dos apartamentos.

Tocamos a campainha do apartamento das irmãs argentinas Griselda e Délia Romero, ambas trapezistas. Entrei no apartamento e fui recebida com um abraço caloroso de cada uma. A sensação que tinha era a de entrar em um outro universo: o cheiro me parecia o de incenso, o sofá e a cadeira ao seu lado eram cobertos por tecidos coloridos; todo o conjunto visual que compunha o cenário remetia a cor. O apartamento era pequeno, o que aumentava a sensação de acolhimento e aconchego ― entro pela sala e à minha esquerda há uma pequena cozinha. Mais tarde, percebi que à minha direita estava o quarto, onde elas haviam deixado seu cãozinho de três pernas, Pingo, durante a entrevista. As irmãs eram de uma família tradicional de circo. São a terceira geração ― e o trapézio continua até hoje entre os familiares.

“Cada país tem sua regra. Então, você tem que se adaptar à regras, aos costumes. Não o país a você”, disse Délia. Viajaram muito: Alemanha, Hungria, Japão, Rússia, América Latina, América Central, Estados Unidos. As viagens ocorriam por meio de companhias que contratavam os artistas, que eram de diversas nacionalidades. Como continuavam os estudos nos países a que iam, aprendiam novos idiomas tanto na escola quanto no circo. Viajar com o circo é fazer turismo sem pagar nada, elas dizem; ao mesmo tempo, o trabalho é intenso. “Tem que estar no sangue para você se adaptar. Não é tudo luzes, paetê. Há uma vida normal fora do circo”, dizem, contando que há vezes em que o trailer quebra na estrada, outras em que os artistas têm que lidar com o frio, o calor e outras adversidades. Nas palavras de Griselda, “tem aquelas épocas em que você perde tudo, só fica a roupa do corpo, pelos temporais que te arrastam”. Uma vez, estavam em Curitiba, com o circo Casino de Sevilla, e havia sido anunciado no rádio que se aproximava um ciclone vindo da Argentina. A defesa civil fora ao circo avisá-los, mas havia artistas que não acreditavam que era verdade. Começaram a remover as pessoas dali e, após a última ser convencida, nada ficou do circo. Nem as roupas foram salvas. Segundo elas, o lugar se chama Alto do Capanema, onde hoje fica um estádio de futebol.

Apesar dos contratempos, Griselda e Délia sentem falta da vida de circo. “A gente já nasceu nisso”, falam. Graças à profissão, as irmãs conheceram o Brasil de ponta a ponta ― e já faz 50 anos que estão aqui. Antes, moravam na Alemanha e tinham planos de lá permanecer; mas, em uma viagem para o Brasil com uma companhia alemã, resolveram ficar, pois o pai queria estar perto de seu país natal quando falecesse. Foi o que aconteceu: seu pai faleceu no Brasil e, depois disso, elas pararam de viajar com o circo. Decidiram viver em seu trailer, em um terreno para artistas circenses na Serra da Cantareira ― local distante demais do trabalho de Délia, que ficava na Av. Paulista. A mudança para o Palacete dos Artistas, nesse sentido, foi uma grande ajuda, por mais que a sua importância vá além de sua localização: as irmãs gostam muito de morar no edifício e se divertem nas festas do condomínio, assistindo às apresentações dos outros moradores. “Aqui você não se sente só. Qualquer coisa que a gente precisa a gente recorre a elas [às psicólogas], aos vizinhos. Mesmo o vizinho daqui, quando vai viajar, vem e avisa que vai sair. Quando ele chega, avisa também”, conta Griselda. Deixei o apartamento e recebi mais abraços, além de um “volte quando quiser”. Aqui você não se sente só.

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Griselda e Délia, respectivamente. (Foto: Laila Mouallem/Jornalismo Júnior)

De volta à sala 17, Valeria Satriano desceu para conversar comigo. Sua voz doce, alta e clara logo tomou conta do ambiente e mais uma vez me senti acolhida com o abraço que iniciava a nossa conversa. Valeria começou a fazer teatro em 1970 e continua na área até hoje. São 46 anos de uma vida muito boa na profissão ― mesmo que o teatro possa ser ingrato financeiramente. “Às vezes você faz uma peça, você recebe bem, depois você passa seis meses, um ano desempregado, gastando tudo o que você ganhou”, disse ela, evidenciando a importância do Palacete dos Artistas nesse sentido. “Para mim, esse prédio foi maravilhoso.”

Ela diz fazer qualquer coisa na profissão: “Dirijo, escrevo, monto cenário, faço figurino… A gente acaba fazendo isso, né? Porque ou você tem uma super produção ou você ama a arte, você ama o que faz e vai à luta por ela.” Porém, diz que sua vida profissional deu “quase uma virada” quando, após dar aulas e trabalhar com oficinas culturais, ela começou a prestar serviços à Febem, hoje Fundação Casa, e se envolveu demais. Foram 15 anos de idas e vindas na instituição.

Na última vez que voltou, em 2000, Valeria teve a ideia de juntar as diversas atividades que ocorriam lá ― como circo, teatro e dança ― e fazer um espetáculo. Montou, então, Dom Quixote. As músicas eram de danças populares brasileiras, como maracatu e ciranda. Ela conta que fizeram diversas apresentações, mas tiveram que reduzir o elenco de 150 para 40 meninos, porque “era impossível”. “Cada vez que ia sair da Febem tinha que ir helicóptero. E os meninos tiravam sarro, diziam ― ‘olha, nós estamos indo de batedor pra lá’, porque a polícia ia na frente, ia atrás”, contou. Segundo Valeria, eles até mesmo chegaram a ser convidados para se apresentarem no Festival de Cadiz, na Espanha. Porém, para ela, isso não seria positivo: “Primeiro, porque ia mais funcionário que menino. Depois, eles vão para a Espanha, fazem o festival e voltam para a Febem? Sabe, eu comecei a achar que isso era uma bobagem”.

Os meninos foram saindo da Febem e, então, junto a Valeria, resolveram montar uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), que hoje é o Instituto Religare ― o nome, no sentido de “restabelecer contato, se religar consigo, com o Universo” ― para a reinserção social e cultural de jovens egressos. Atualmente, o projeto é tocado pelos meninos, tendo seu próprio presidente participado de Dom Quixote. Valeria ainda conta, com orgulho, que “o Dom Quixote passou a ter outro significado, assim, muito legal na vida deles, que é o cara que luta pela justiça, sabe? Foi muito legal”.

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Porta de um dos apartamentos (ou seriam camarins?) do edifício. (Foto: Laila Mouallem/Jornalismo Júnior)

“Eu encontrei uma família aqui dentro, porque são pessoas que eu conhecia aí da minha profissão”, diz ela sobre o Palacete dos Artistas. Quando teve pneumonia, sua vizinha fazia suas refeições todos os dias e outro vizinho a levava diariamente para tomar remédios. Ela diz que espera que isso aumente ainda mais, já que há alguns moradores que não interagem tanto. Para isso, outros têm o intuito de promover cine clubes, além das leituras de textos e dos saraus que já realizam. Uma biblioteca também está sendo montada. Ao falar do poético cruzamento em que mora ― o da Ipiranga com a São João ―, Valeria cita uma brincadeira que há entre alguns moradores, sobre a janela em que Caetano Veloso teria escrito “Sampa”. Valeria garante, rindo, que foi da sua: “Isso daqui era um hotel antes, o Hotel Cineasta, e o Caetano se hospedava aqui. Isso é uma informação segura. Aí quando ele escreveu Sampa foi da minha janela”. Ela se considera uma pessoa muito feliz morando no Palacete dos Artistas e, ao dizer que já morou em muitos lugares no centro da cidade, completa: “Agora eu moro na esquina onde alguma coisa acontece… Pode ser no meu coração”.

Nem tudo são flores no centro de São Paulo: há miséria, desamparo, violência. Porém, da feia fumaça que sobe apagando as estrelas, eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços ― estes, compilados no Palacete dos Artistas. Passar uma tarde foi muito pouco para o tanto que há para ouvir por entre portas e corredores. Deixei o prédio com a curiosidade ainda mais aguçada: a história e a arte transbordam as janelas.

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