Por que os alunos pensam em deixar a USP?

Os motivos da evasão estudantil, a pressão enfrentada nos cursos e os questionamentos à qualidade da formação

Por Iolanda Paz (iolanda.rpaz@gmail.com)

Vista muitas vezes como inalcançável, a Universidade de São Paulo – melhor da América Latina em 2016 pelo QS University Rankings –, não raro, é colocada num pedestal. Aquela pequena parcela da população brasileira que a atinge, entretanto, decepciona-se ao encontrar graves problemas estruturais e institucionais. Curiosamente, um total de 20% dos estudantes que passam pela Fuvest, o mais concorrido vestibular do país, abandonam a graduação, segundo dados obtidos através do Serviço de Informação ao Cidadão (SIC-USP).

De acordo com a Pró-Reitoria de Graduação da USP, um vasto estudo sobre a evasão está sendo realizado, mas ainda não há números separados por Unidade de Ensino e Pesquisa. “O anuário estatístico da USP não fornece o dado da evasão”, conta Yara Malki, doutora na área de orientação profissional e evasão pelo Instituto de Psicologia (IP-USP).  Apenas o número de matrículas efetuadas no primeiro semestre e o total de concluintes em determinado ano são disponibilizados. Com essas informações, não é possível distinguir os alunos que evadiram de maneira definitiva daqueles que trancaram a matrícula por um período.  

Como os dados uspianos são fornecidos de maneira incompleta e desorganizada, eles atrapalham a compreensão — e a solução — do problema. A evasão é uma perda social: de profissionais capacitados, de tempo e de recursos financeiros. Ela demorou a ser reconhecida como uma questão séria para as gestões das Instituições de Ensino Superior (IES). “É um fenômeno que nós, empiricamente, percebemos que está crescendo, até porque o acesso à universidade também está, mas não existem dados consolidados da evasão no Brasil”, diz Yara. “O órgão que teria essa responsabilidade é o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP)”, ela aponta.

Pública, a Universidade de São Paulo é mantida principalmente pelas contribuições da população paulista ao governo do estado através do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Quando questionada do custo de cada estudante aos cofres públicos anualmente, a USP afirmou, pelo SIC, não possuir a informação e ser inviável fazer o levantamento. Alegou como razões a especificidade dos cursos – “uso de laboratórios diversos e uso de salas de aulas/laboratórios interunidades”– e o direcionamento individual do aluno à carreira.

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Vista da Praça do Relógio na Universidade de São Paulo. A USP não está imune à evasão: um quinto de seus alunos vão embora. (Foto: Iolanda Paz)

Em 2009, um estudo calculou que cada aluno custava, por ano, R$ 28,7 mil em média, como consta no artigo “Reflexões sobre o nível de evasão e o custo anual per capita das Unidades de Ensino da USP com base no método Inquired Balance Sheet”, apresentado no trigésimo quarto encontro da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Administração (ANPAD). Naquela época, R$ 10,3 mil per capita eram perdidos com a evasão. Hoje, esses valores são estimados em números superiores.

O artigo analisou também a evasão da USP de 1998 a 2008 – levando em conta os alunos da pós-graduação – e encontrou o valor médio de 36%, enquanto a média brasileira era de 22%, segundo o estudo “Evasão no Ensino Superior Brasileiro”, de 2007, do Instituto Lobo para o Desenvolvimento da Educação, da Ciência e da Tecnologia. “É uma realidade que as universidades precisam notar”, pontua a psicóloga Yara. Os prejuízos com a evasão só serão diminuídos quando houver ações para evitá-la; e estudar seriamente o fenômeno não é apenas quantificá-lo, mas destrinchar seus motivos.

Escolha profissional

“Eu acho que existem inclinações [profissionais]. Vocação é uma palavra antiga e forte”, comenta Yara Malki. “Só que mais importante do que a inclinação, ou tão importante quanto, é a tomada de decisão – a escolha”, completa. Por volta dos 17 anos, nem sempre os jovens estão preparados para definir seus projetos de carreira. Muitos ainda não descobriram o que apreciam fazer. Nessa atmosfera de incerteza, a escola, os pais e a ansiedade com o vestibular podem ser obstáculos a uma decisão consciente e pessoal.

“Eu não sabia o que eu queria fazer: foi uma escolha mais no desespero”, revela Mariana Rudzinski, ex-estudante de Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). “No primeiro dia de aula do terceiro ano, os professores começam a perguntar e você pensa ‘o que eu vou fazer da minha vida?’. Uma semana depois, eu estava obcecada em descobrir”, ela conta.

O cenário ideal, para a psicóloga, é aquele no qual o estudante se encontra na primeira profissão. “É possível desistir e recomeçar, mas é trabalhoso”, ela diz. “Nenhum projeto profissional está pronto, o jovem precisa estar ativamente contribuindo para desenvolvê-lo”. Por outro lado, não deve encarar suas escolhas como uma obrigação para que acerte, pois a pressão posta sobre si mesmo apenas atrapalharia o processo. “Se você não está seguro para escolher, pare e pense, faça uma orientação profissional ou se informe”, recomenda.

Segundo Yara, há uma tendência do jovem em ser mais imaturo hoje. Grande parte dos alunos que frequentam universidades públicas de qualidade, como a USP, são de classe média. “Eles são criados numa redoma, muito protegidos por uma série de fatores: redução do número de filhos, violência urbana, entre outros”, ela diz. Acredita que estiveram menos expostos a situações em que tinham de tomar decisões individualmente, mas vê a escolha profissional como necessária aos 17 anos: não é possível adiá-la.

A falta de uma reflexão maior em torno da carreira e uma escolha trivial podem explicar a evasão. “Os jovens estão escolhendo profissão na impulsividade, usando tentativa e erro, como se faz na tecnologia com os gadgets”, diz Yara. Ex- aluno da Escola Politécnica e agora estudante da Letras, Victor Moraes costumava dizer a seus colegas que havia “caído” na Poli. “Sabia muito pouco [sobre engenharia]: sequer conhecia a grade dos cursos ou havia conversado com alguém que estivesse cursando”, conta. Pelo SIC-USP, a Escola Politécnica informou que a taxa média oficial de evasão foi de 3,89% para o período de 2010 a 2015.

“Você está no Ensino Médio, é bom em exatas e pensa: ‘ah, vou para Engenharia’”, diz Matheus Evangelista, que fez vestibular novamente para Psicologia um ano após ingressar na Poli. “Era só o fluxo natural das coisas”, explica Breno Deolindo, ex-aluno do curso de Química. “Minha matéria preferida no colegial e eu não tinha a menor ideia do que fazer se não fosse isso”, ele prossegue. “Só que, quando eu percebi que estava errado, eu fiquei muito mal: ‘o que eu vou fazer da vida?’.”

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“Será que não devo continuar? Será que eu estou fazendo certo?” – Breno se questionava, porque acreditava já ter perdido dois anos de sua vida. (Arte: Fredy Alexandrakis)

O conflito com a escolha está cada vez mais comum, comenta Yara, mas ela não aconselha agir por impulso e abandonar o curso. Para a psicóloga, os estudantes também não devem prolongar uma situação ruim sem fazer algo. “Era insustentável…”, relata Breno. “Meu pai simplesmente não aceitou: ‘Você não vai sair, vai se formar em Química’.”  A interferência dos pais pode ocorrer tanto na decisão de evadir quanto na escolha da profissão.

Victor Moraes conta que seu interesse por Letras vinha desde o colegial, mas foi deplorado por seus genitores quando o expressou. Seu pai, segundo ele, tentava persuadi-lo a seguir seus passos: a Engenharia. “Expunha como eu, com meu bom desempenho em exatas, poderia ter sucesso nessa área – de prestígio e boa remuneração”, diz Victor.  “Falava que não me apoiaria financeiramente se eu escolhesse o curso de Letras e que, no fim das contas, eu não conseguiria me virar sozinho”. Hoje, Victor trabalha, porque o pai parou de contribuir com alimentação e transporte.

“Na minha pesquisa, foram poucos a declarar que os pais influenciavam. Agora, os que falaram, estavam realmente oprimidos”, conta Yara. “Quando os pais fizeram pressão, foi forte”. A psicóloga atende no Núcleo de Orientação Profissional (NOP) da USP, que recebe o aluno uspiano em crise com o curso. Ela desenvolveu seu doutorado com base em 115 fichas de triagem de 2007 a 2012, concluindo que há muitos motivos para a evasão. “A pessoa fica tão confusa que ela nem entende por que não está gostando [do curso]. São muitos fatores, não tem uma [única] causa”, ela diz. “Há motivos sociais, pedagógicos, de escolha profissional, institucionais, emocionais…”. Mas, afinal, onde a Universidade de São Paulo está falhando?

Conservadorismo institucional

Vincent Tinto – PhD em Sociologia e em Educação pela Universidade de Chicago – acredita que a integração do aluno com a IES é essencial tanto para a permanência quanto para a qualidade do ensino oferecido. O papel da universidade, na visão dele, é construir uma comunidade educacional onde o estudante sinta que tenha apoio e consiga envolver-se ativamente no aprendizado.

“O ambiente do IQ-USP [Instituto de Química] era terrível, eu não me sentia confortável lá: uma disputa de ego constante, um lugar feio e você tratado pelo seu número USP”, conta Breno Deolindo, que evadiu do curso de Química no final de 2014. “Ir para a aula era algo completamente mecânico, que eu não sentia a menor vontade de fazer.” No período de 2010 a 2015, a evasão no instituto foi de 26% em média, segundo dados fornecidos pelo SIC-USP.

Como Breno, outros estudantes são afetados pela ausência de incentivos, o que ocorre quando as unidades não conseguem criar a comunidade educacional. A carência de suporte é, em parte, responsabilidade dos professores. Vincent critica a falta de exigência de formação didático-pedagógica dos docentes universitários em geral. “Os professores de nossas IES são os únicos do jardim de infância para cima que não foram treinados para ensinar”, afirma sobre o cenário norte-americano, tendo respaldo no brasileiro.

Numa realidade em que muitos dos docentes são contratados pelas pesquisas que ministram, a USP carece de professores preocupados com a formação de seus alunos. Jaqueline Coccia, aluna do IQ, entretanto, reconhece não se poder generalizar: “Há professores bons, que estão a fim de ensinar, mas muitos são contratados pelas pesquisas e não pelo jeito que dão aula”. Por serem patrocinados, trazem dinheiro e visibilidade ao instituto. “Então, na balança, quem ganha? Os alunos ou o patrocínio?”, ela questiona.

Matheus Evangelista recorda que um dos lemas da Poli [Escola Politécnica] era “nada de paternalismo”. “Você entra lá e tem que se virar. É mais os alunos que ajudam uns aos outros: é difícil professor dar suporte”. Segundo Jaqueline, é recorrente alguns docentes assumirem posturas como “por que você está me perguntando?” quando os estudantes procuram sanar dúvidas.

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Cartaz colado no piso do museu da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU). (Foto: Iolanda Paz)

“Já saí chorando de sala de aula”, conta a estudante. Certa vez, ao questionar um professor sobre o passo da conta na lousa, ele teria gargalhado e lhe respondido: “Você tem certeza que deveria estar aqui, no cálculo III? Isso é coisa de cálculo I… Você não deveria estar na minha matéria”. Situações de humilhação e constrangimento acontecem nos institutos. “Aqui você reclama de um professor e os professores riem da sua cara, além de te marcarem”, diz Jaqueline. “São muito conservadores: a voz dos alunos é sempre ignorada”, completa Breno Deolindo.

Pressão: questões psicológicas

“Pensei várias vezes [em sair do curso]; é bem comum, inclusive”, revela Jaqueline. Nem sempre os estudantes evadem, mas isso não significa que nunca consideraram a ideia. São barrados, em muitas ocasiões, pela certeza do alto valor de um diploma uspiano. Para tê-lo, ignoram até as inclinações profissionais e o bem-estar. Permanecem em razão da legitimação social fornecida por estudarem na Universidade de São Paulo. “O aluno da USP sofre para abrir mão da vaga, porque ele suou bastante para conseguir” – Yara Malki resume o conflito relacionado a abandonar uma universidade pública de qualidade.

Contudo, os estudantes têm críticas aos métodos de avaliação e à forte pressão que existem dentro dos institutos. “Mesmo quem continua lá [no IQ] fala que sempre pensa em desistir, porque não é normal virar noite estudando, chegar na prova e tirar dois; não é normal se formar em sete anos, pedindo nota para professor”, conta Breno Deolindo.

Alunos da USP sofrem com cargas horárias pesadas e provas “que não medem o conhecimento, mas querem desafiá-los”, como define Jaqueline. “Já fiz muitas provas que tirei notas altíssimas e, se você me perguntar, não vou saber nada [da matéria]”, ela diz. As avaliações trazem questionamentos à qualidade dos profissionais formados: “A prova está lá só para ver se você gravou uma informação e consegue passar para o papel. Eu não entendi e fui aprovada”.

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As próprias estruturas dos cursos, muitas vezes, não são debatidas e atualizadas, o que traz mais um questionamento à qualidade da formação. (Foto: Iolanda Paz)

Como “um método de sobrevivência” a esse tipo de avaliação, Matheus diz que a cola é muito disseminada na Poli. “O objetivo é ruim: é passar, e não aprender”, pondera. Em julho, pela primeira vez, um esquema de fraude por meio de grupo no WhatsApp foi descoberto. As colas estavam acontecendo em duas provas aplicadas ao primeiro ano de Engenharia, envolvendo mais de 200 alunos. O diretor da unidade, José Roberto Piqueira, afirmou que os estudantes terão a prova zerada e responderão por processos administrativos nos casos comprovados.

“O incrível era ver os alunos concordarem com tudo isso”, diz Victor Moraes. “Era ver a média da sala ser 3, e os alunos falarem que a culpa era deles, que não estudaram o suficiente.” Para Jaqueline, se a maioria da sala não tirou nota azul em uma prova, a culpa não é dos alunos. O problema está no professor. Ela conta também que alguns docentes dão recompensas a quem vai bem. Exemplificou com o caso de um que nomeou os estudantes que tinham tirado as notas mais altas, dando-lhes chocolate. “Os professores criam todo um ambiente de competição”, ela diz. “Não é saudável, não é [um sentimento de] ‘eu vou melhorar junto com aquela pessoa’ e sim, ‘eu vou melhorar enquanto aquela pessoa estiver no chão’.”

Não raro, o ambiente de rivalidade e a forte pressão enfrentada levam ao desenvolvimento de problemas psicológicos. Breno conta que tinha muitas crises de ansiedade e stress: “Nunca fui diagnosticado, mas imagino que estive em depressão”. Segundo Matheus, desabafos no Facebook são frequentes. “Gente falando que não aguenta mais e está tomando remédios. Eu saí antes de isso acontecer”, ele completa.

A saúde mental foi colocada em questão por uma movimentação de alunos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), que, de acordo com o SIC-USP, teve evasão de 8% em média entre 2010 e 2015. No mês de maio, um grupo de amigos colou cartazes pelos corredores com relatos pessoais de situações aflitivas. Fotos foram postadas no Facebook e a repercussão foi muito grande. A página FAU nãoénormal foi então criada para, segundo os administradores, dar voz a todos que se identificaram e quisessem compartilhar experiências.

Os relatos são reais e levam a hashtag “não é normal” como mote: “tantos alunos serem diagnosticados com doenças psicológicas durante o curso”, “torcer para que algo ruim te aconteça e te force a pausar as tarefas da faculdade”, “começar a se subestimar e se sentir incapaz até mesmo de responder à questão mais simples” e “pensar em desistir da faculdade por causa de um professor” são alguns exemplos.

Também estão incluídas críticas à estrutura curricular e ao plano pedagógico. A carga horária da FAU, segundo os gestores da página, é de 56h semanais – o que equivale a aproximadamente 11h por dia. Além de estressante, ela impede que os alunos tenham tempo para um emprego e para atividades acadêmicas e pessoais.

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Os administradores da FAU nãoénormal relatam ausência de mesas, cadeiras e material específico para os projetos desenvolvidos no curso. (Foto: Iolanda Paz)

“Os calouros já estão falando que não suportam essa universidade”, conta Jaqueline. “Não é para acontecer isso…” Acredita que deveriam estar deslumbrados por terem entrado na USP no curso do qual gostam. “Cinco meses passam e estão em crise, porque não conseguem lidar”, ela diz. “Mesmo que você aguente pressão; estude 6h por dia – fora as aulas que são de período integral –; leia o livro inteiro; faça todos os exercícios e a prova; você não consegue lidar com isso por quatro, cinco anos”, completa.  

Soluções e permanência

Mariana Rudzinski acredita que uma melhor estruturação dos cursos é necessária. Ela conta que, na Letras, as grades são muito abertas e os alunos têm de fazer diversas optativas. Surgem problemas por haver muitos estudantes e o oferecimento de vagas ser baixo. Existem optativas, como afirma Mariana, que abrem apenas 30 vagas, isso quando suas turmas são abertas. Em 2014, havia aproximadamente 9.000 alunos de graduação no curso ao todo, segundo o anuário estatístico da USP. “Um caos: um monte de gente fazendo requerimento [de matrícula] e os professores sem poder aceitar, porque não cabe nas salas”, ela relata. “Às vezes, para as pessoas conseguirem assistir à aula, elas têm que colocar a carteira no corredor.”

Letras é a graduação que menos recebe verba da reitoria e não há professores suficientes, porque as contratações não acompanham a necessidade. “Você se forma em 4 ou 5 anos? Não, por isso as pessoas jubilam, ou elas saem”, diz Mariana. De acordo com o SIC-USP, a FFLCH – unidade que mantém o curso – teve 34% de média de evasão no período de 2000 a 2015. “Eu estava odiando o curso, não conseguia criar vínculo com as pessoas, não gostava das aulas e sabia que eu não ia me formar nunca. Sabe… isso faz com que você se desmotive totalmente”, resume.

Para Yara Malki, há vários fatores que podem segurar um aluno no curso. O professor, por exemplo, poderia ser “uma âncora”. “Há universidades – nas minhas pesquisas eu constatei – que estão desenvolvendo projetos de o docente ser uma espécie de mentor,  ou um aluno veterano ser um tutor”, aconselhando os calouros e ajudando nas adaptações ao ensino superior.

“Agora no IQ, pelo o que eu estou acompanhando”, conta Breno, “estão saindo alguns professores e entrando um pessoal mais novo, que consegue se identificar com os alunos, porque eles já tiveram aula com os docentes antigos e pensam: ‘Não vou ser igual’.” Ele comenta também que a grade mudou para quem ingressou a partir de 2014: “está um pouco mais didática e flexível… menos pragmática”.

Alguns professores, segundo Jaqueline, procuraram o Centro Acadêmico da Química dispostos a ajudar. Ela é membro do CA, que tem o dado de 18% de evasão no instituto – valor abaixo do oficial fornecido pelo SIC-USP. “São quase 20 pessoas [por turma]. Desses 20, será que eles realmente não eram bons?”, ela diz. “Ninguém conseguiria mantê-los aqui?” Docentes preocupados com a evasão, buscando quantificar os problemas da unidade, propuseram um questionário, conta Jaqueline. O levantamento ainda estava em processo de realização quando a reportagem foi escrita.

Levantar níveis de satisfação e estabelecer programas acadêmicos de integração e recuperação de alunos novos são essenciais para se diminuir a evasão, segundo o estudo “Panorama da evasão no ensino superior brasileiro: aspectos gerais das causas e soluções”. Rafael Kenji, aluno da Escola Politécnica, conta que muitos ingressantes da Poli não têm base para continuar o curso e acabam desistindo. “Passar no vestibular é fácil: só decorar os macetes! Difícil é ter base teórica”, ele diz.

“As IES deveriam considerar seriamente o estabelecimento de programas especiais para os novos alunos, atendendo às suas necessidades específicas”, acredita Vincent Tinto. “É preciso trabalhar para que nenhum estudante comece as aulas tão atrasado, em relação aos demais, que sua integração no programa acadêmico regular seja impossível.”

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Vista da moradia estudantil no campus do Butantã do interior do bloco B. (Foto: Iolanda Paz)

Além das nivelações acadêmicas, programas de assistência socioeconômica que visem à permanência estudantil são de extrema importância. A Universidade de São Paulo possui o Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), administrado pela Superintendência de Assistência Social (SAS). Em 2014, foram disponibilizadas 2.703 vagas de moradia estudantil para alunos de graduação e pós-graduação – contabilizando todos os campi da USP – e concedidas 2.938 bolsas de auxílio moradia (R$ 400 por mês), segundo dados do anuário estatístico.

De acordo com o edital de 2016, “o programa tem como objetivo promover condições para que o estudante mantenha e amplie suas atividades na academia visando a concluir o curso ao qual está vinculado, reduzindo a evasão e contribuindo para a formação acadêmica integral”. Entretanto, muitos alunos não conseguem a assistência e não têm condições financeiras de continuar o curso.

“Quando eu entrei aqui, eu não sabia como iria me virar na universidade. Eu vim de escola pública e sou de Ibiúna. Meu pai é agricultor e minha mãe é doméstica”, diz Haline Floriano, estudante de Relações Públicas e moradora do CRUSP, o Conjunto Residencial da USP. Ela relatou sua dificuldade em conseguir uma vaga na moradia estudantil.

Segundo ela, assistentes sociais analisam a distância da casa do aluno até a USP e documentos, como comprovantes de renda e escolaridade, definindo uma pontuação para cada um, mas os critérios específicos não são esclarecidos. Ela conta também que conseguiu organizar os papéis a tempo – levando-os na SAS no dia da matrícula –, apenas porque tinha sido informada dos benefícios por um amigo que já estudava na USP.  “Quem sai de escola pública, muitas vezes, nem sabe que tem esses auxílios. Tem amigos meus que nem tentaram, porque não sabiam”, completa.

O nome da estudante, contudo, não saiu na primeira lista de convocados para a vaga oficial no CRUSP. Desesperada, Haline foi conversar com sua assistente social: “Ela falou que não havia o que mudar na minha pontuação e que provavelmente não conseguiria a vaga”. Recorda ainda que os assistentes sociais tentavam convencer os estudantes a aceitarem o auxílio de 400 reais e desistirem da residência estudantil. “Como eu vou morar perto daqui [USP] com 400 reais? Não tem condições”, afirma.

O nome dela também não estava na segunda lista. “A última possibilidade era entrar com recurso: escrevi uma carta na qual expliquei que desistiria caso não conseguisse a vaga”, conta Haline. “Não dá para ver a minha casa pelo Google Maps, porque ele só chega até onde tem asfalto – em Cotia. Tirei fotos e anexei à carta, para que conseguissem ter ideia de como era”, completa.

“Tive sorte porque meu nome saiu na última chamada. Minha pontuação foi de 115 para 149, só que nada tinha mudado. Era tudo o que eu havia falado desde o início e foi essa complicação…”, desabafa. Além disso, a estudante ficou sem o auxílio-livro, porque ele foi disponibilizado antes de sair os resultados dos recursos. “Com a nova pontuação, eu teria direito”, diz.  

Depois da complicação em conseguir sua vaga, Haline acredita ser necessário que a SAS faça um mapeamento sistemático do CRUSP, constatando quem está morando no local e quais apartamentos estão realmente disponíveis. Para ela, as vagas são muito limitadas e não há uma fiscalização adequada: “Tem muitos casos irregulares, até de pessoas que já deveriam ter saído, e quem realmente precisa acaba não conseguindo”.

Outro problema está na demora em conceder as bolsas e alocar os alunos nas vagas do CRUSP. Muitos ficam vulneráveis enquanto não conseguem os auxílios e acabam por evadir. “Tem que ficar em cima da SAS”, afirma Haline. “Ela [reitoria] quer, desde a Fuvest, que a gente [alunos com dificuldades socioeconômicas] não permaneça. Eu tinha muito a ideia de que o mais difícil era o vestibular, mas não é: é manter-se aqui.”

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