Variando variedades

Por Raphael Concli (raphconcli@gmail.com)

Chaleira, cortador de legumes, lacrador de sacolas, etiquetador de preço, pote para lanche da dupla de palhaços Patati Patatá, varal de calcinha, ralador em forma de maçã, facas de cozinha, fura côco, colheres, fio para alinhamento de construções, adaptador de tomada, webcam, porta carimbos, relógio infantil, jarra de suco, lâmpada, suportes para tablet, binóculos (we bring the whole world in your eyes) e uma fábrica de coxinhas. Do lado de fora da loja, esta é apenas uma das dezenas de prateleiras que abrigam a imensa coleção de mercadorias do Sorria Variedades.

As flores de plástico já junto à calçada como que decorando a entrada da loja compõem uma das poucas prateleiras com um produto só. Junto a baldes, bacias e vassouras, os carros-chefes da loja, elas disfarçam o muro externo do pintado de tinta prata. Placas de plástico ondulado fixadas com silver tape unem o topo do muro lateral a um toldo coberto de papel alumínio, que recobre a entrada da loja. Sobre ele se assenta uma confusa estrutura de quatro banners, que estampam o nome do local e enormes sorrisos amarelos, completando a entrada da loja de comércio popular localizada em Barão Geraldo, distrito de Campinas, no interior de São Paulo.

Como me disse uma frequentadora, entrar no Sorria é como andar pela internet. A quantidade de informação simultânea chega a confundir. Chegamos lá com um propósito e sem perceber nos perdemos em meio a tantas outras coisas  no caso, chaveiros em forma de tijolo, cubos mágicos, conjuntos de bigodes postiços ou artigos paralelos, como o prato plástico da Angolita e seus pintinhos. Os olhos não conseguem parar de procurar a próxima informação e, quando começamos a cansar, de repente algo inusitado surge, como bonecas que pendem do teto andando em cavalos de pau. Meia hora depois lembramos que fomos ali só pegar um par de flanelas e talvez um chocolate.

Basta parar em meio a qualquer corredor e tentar descrever para si tudo o que está à vista para entender a experiência. Se um padrão de produtos parece começar a se estabelecer, esta impressão logo desaparece. E, quando parece que já se viu tudo, percebemos pequenos cartazes colados em meio às prateleiras, onde setas — com rosto — feitas a lápis de cor e canetinha dizem “no alto”, “lá em cima…”. Armações metálicas presas à parede beiram o teto de quase todos os ambientes, expondo produtos que por vezes não são sequer possíveis de identificar. Em apenas uma delas observo uma espécie de cola pega rato (com a ilustração de um elefante e um rato pouco menor grudados numa poça branca), uma raquete elétrica de matar mosquitos, um paquímetro, toucas de banho e um suporte plástico para cozinhar ovos no micro-ondas.

Clientes frequentes e curiosos são atraídos para esta mina de traquitanas, utilidades e mesmo velharias, onde o pagamento continua sendo só em dinheiro para “manter nossos preços imbatíveis”, como avisa o cartaz colado no caixa. Inúmeras câmeras, espelhos côncavos e TVs se espalham pelo alto dos vários corredores da loja, dividindo espaço com produtos num intrincado sistema de segurança que não deixa dúvida de que estamos sendo filmados. O divertido caos visual e a inegável variedade fazem do estabelecimento um lugar único, querido por estudantes iniciando repúblicas a senhoras necessitadas de baldes novos  mas, que de tão singular que é, torna difícil não se perguntar como os próprios funcionários entendem o local e como um comércio desses sobrevive.

Conhecido como pólo universitário por abrigar o campus central da Universidade Estadual de Campinas, um dos campus da Pontifícia Universidade Católica, além das Faculdades de Campinas, Barão Geraldo foi região de grandes fazendas, algumas das quais ainda existem em seu entorno. Hoje situa-se entre as regiões com maior índice de qualidade de vida de Campinas, com um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal comparável ao de países escandinavos. Separado de Campinas por uma rodovia de 12 quilômetros, o distrito parece ter uma identidade própria e autocentrada com contrastes particulares, uma espécie de bairro alternativo “hippie-ster” do interior, cercado de condomínios fechados por um lado e área rural por outro.

Tal como Campinas, onde diversos comércios possuem “camp” no nome, há inúmeros locais no distrito chamados Barão algo: Barão Areias, Escola Estadual Barão Geraldo de Rezende, Barão Fest, Yakissobarão, o bar Bambu Barão,  Bicicletaria Barão, Barão das Pizzas, Restaurante Baronesa e mesmo um Nail Bar des Barão. Em meio a esta baronice, o Sorria não deixa de ser um pouco autêntico. Aberta em 2002, a loja começou vendendo apenas ferramentas e doces para aos poucos ampliar o escopo de produtos. De início, os clientes reclamavam da falta de um nome para o estabelecimento, ao que seu Vergílio, o dono, respondia: “Como não tem nome? Olha ali!” e apontava para a famosa placa que diz “Sorria, você está sendo filmado”. A piada funcionou e o nome e a carinha amarela foram logo oficializados.

O Sorria é um empreendimento tipicamente familiar. Vergílio administra o negócio de casa e faz as compras de novas mercadorias em São Paulo. Formado em Mecânica no Colégio Técnico da Unicamp, reconhecida escola de nível médio técnico em Campinas, Vergílio tentou trabalhar na área por alguns anos, mas não conseguiu se estabelecer. Deixou de lado a Mecânica para abrir o comércio no imóvel de propriedade do pai, onde há ainda vizinha ao Sorria uma loja de suplementos alimentares e produtos naturais.

Dona Neusa, mãe de Vergílio, começou vindo para ajudar, mas foi ficando. Quem a vê séria no caixa ao lado de um bibelô dourado de gato que acena sem parar em meio a uma maçaroca de fios de computador pode não imaginar que ela goste mesmo de ir à loja, onde vê gente e amigos: “Melhor do que ficar em casa, cozinhar, lavar”. Além da mãe, também trabalha no local a esposa de Vergílio, Viviane, e Matheus, único que não é da família e que tem carteira assinada. Antigamente, sem contar dona Neusa e Viviane, eram 4 os funcionários registrados.

S2.2 - A fachada da loja parece uma homenagem a seu próprio logo
A fachada da loja parece uma homenagem a seu próprio logo. (Foto: Raphael Concli)

Vergílio chega por volta das oito da manhã numa Ford Courier prata já bem rodada para abrir o negócio de que é proprietário e idealizador. Começa a tirar dos corredores da loja inúmeras prateleiras com rodinhas e posicioná-las do lado de fora com ajuda de Viviane. É um homem alto, robusto e acelerado. Fala enquanto puxa os carrinhos que não param de sair da loja, explicando o funcionamento do local mesmo que não haja perguntas. Embora cada tópico sobre o qual fale tenha o tom de ser aquele que encerrará o assunto, demora até que pare de falar e a próxima pergunta lhe seja feita.

Após posicionar bem uns 15 carrinhos só na parte de fora da loja, Vergílio apoia-se na pick-up e segue falando. Conta que ainda aplicou bem pouco do que aprendeu no curso de administração de empresas que acaba de completar na Pontifícia Universidade Católica. Fez a graduação tardia movido pela onda de acesso ao ensino superior dos últimos anos, quando todo mundo parecia estar fazendo faculdade, diz. Estava empolgado com os rumos do país e investiu não só na formação, mas no negócio. Tomou empréstimos, ampliou o espaço e mantinha a renovação de produtos em ritmo constante.

Apesar disso, Vergílio faz questão de demonstrar que o otimismo dos últimos anos minguou. Com o momento econômico delicado do país, a frequência com que traz produtos e novidades diminuiu. Suas declarações e explicações sobre o funcionamento do negócio são marcadas diversas vezes por ressalvas e pontuadas pelas palavras “crise” e “inflação”. Discorre mais sobre isso do que sobre o aspecto criativo do lugar que concebeu. Conta que um lema sempre lhe orientou nos negócios: “Proprietário pobre, empresa rica”. Agora com um filho pequeno, se diz preocupado com o que poderá lhe deixar.

Antes “comprava mais e faturava mais”, mas começou a acumular produtos demais e perceber que o excesso ofuscava coisas que já tinha. Numa loja que trabalha com grandes quantidades e produtos de baixo custo, a riqueza está justamente na variedade. E é este o negócio, a própria ideia de variedade, que ali no Sorria se mostra bem ampla e flexível; é ao mesmo tempo novidade, diversidade, quantidade e forma de organização. Com a dificuldade em renovar o mostruário, Vergílio investe em deixar todas as prateleiras que puder com rodinhas: “Agora com os carrinhos tá tudo se movendo”. É mudando as mercadorias constantemente de lugar, reorganizando-as, que a variedade se refaz. Com este tipo de loja, “não sou obrigado a ter nada”, diz, o que lhe parece ser uma das grandes virtudes de um tipo de comércio usualmente conhecido como “tem tudo”.

Pergunto a Vergílio se vender pela internet seria uma opção de negócio. O Sorria não tem site, nem página em qualquer rede social. Procurando a loja no Google, é possível obter, dentre os resultados, um box com o nome da loja, endereço e horário de funcionamento apenas, mas não telefone. A loja nunca divulgou o número e continuará com essa política. Não se pode saber o que vai ser achado no Sorria. Ao contrário de comércios que trabalham com variedade de utilidades domésticas, no Sorria a ideia não é buscar algo preciso como aquele cabo p2, p10 ou uma bomba para retirar água de galões –, mas, sim, encontrar o que não se procura. É este o critério principal que orienta a verdadeira montagem que é a loja, explica Vergílio, o que parece um tanto incompatível com o comércio online. Ele diz, porém, que não se fecha a nada, que as coisas podem mudar. A ideia de um Facebook já lhe passou pela cabeça e a página foi prometida por um amigo, mas não chegou a ser criada. Ele não se preocupa muito, afinal, “a propaganda é uma faca de dois gumes”, pois pode atrair quem ache que a loja deva ter algum produto em específico.

S3 - Mercadorias podem aparecer em qualquer lugar
No Sorria, mercadorias podem aparecer em qualquer lugar. (Foto: Raphael Concli)

Não há um estoque de mercadorias no Sorria, apenas um depósito para onde vão itens de temporada, como artigos de Natal ou Carnaval. Tudo o que a loja tem está diante do freguês. Algumas coisas, porém, parecem estar ali há anos, como a leve poeira de algumas embalagens dá a entender. Serão vendidas algum dia? Vergílio não se preocupa. “Se uma mercadoria estiver enchendo o saco, dou férias pra ela”. Aquilo que demora a ser vendido vai para o depósito pra voltar talvez dali a um mês ou mais, com certeza num lugar que não será o mesmo de antes.

Tavinho está um pouco solto em sua embalagem. É o único boneco negro em todo o Sorria. A caixa dá claros sinais de ter sido violada, dado que a folha plástica que permite ver o boneco em seu interior está colada com várias camadas de durex. Pelo que se nota da embalagem, Tavinho é “muito sapeca e adora um abraço” e adora “fazer travessuras” — frases que traduzem “I’m very naughty and I love a big hug” e “let’s do naughty”. Ele ainda deveria estar vestindo uma camisetinha listrada de azul e branco bermuda cinza e um boné, também azul. Não é o caso. Tavinho está só com um vestidinho rosa com a estampa de um bebê e a frase Bilu Teteia, curiosamente já sujo. Ele parece nunca ter tido férias.

Encontrar estes produtos inusitados e alternativos torna-se uma pequena gincana interna, um garimpo de bizarrices, objetos inúteis, invenções que parecem ter fracassado e pirataria criativa e ofertas curiosas como a que diz “Economize água! Utilize copos descartáveis”. Em meio aos utensílios de cozinha, surge uma coxa de frango assado de borracha, daquelas que fazem barulho quando apertamos. Perto de materiais escolares encontra-se o par de lâmpadas led com miniaturas de Jesus Cristo e da Virgem Maria, que “irá acender automaticamente à noite” (made in China).” No tabuleiro do mercado imobiliário mundial, a companhia ferroviária (representada pela foto de um trem da CPTM) vale 100 Reais, mais do que a cidade de Londres. O “familial train” é uma locomotiva puxando dois vagões que carregam tanques de guerra. Diversos heróis copiados descaradamente dos originais americanos, dizem ser “high quality” e alguns se chamam apenas “Hero”. Pergunto à Viviane se as crianças se importam com isso, se reclamam de não encontrarem os originais. Ela diz que não, só às vezes quando vem alguma mais exigente, afinal, “filho de dono de fazenda sabe o que é Power Ranger”.

Na loja desde 2005, é Viviane quem explica com mais animação a forma com que Vergílio concebeu a organização do Sorria, que ela e todos aqueles que trabalham e trabalharam no local mantêm. “A pessoa organiza de acordo com a própria criatividade até pra gente ver a ideia dela. Não é pra ser robô.” Graduada em pedagogia, ela, assim como o marido, não conseguiu emprego na área de formação e entrou com ele no ramo comercial. Hoje gerencia a loja, atende, cuida do caixa, organiza as prateleiras, faz limpeza.

S4 - Boneca nua andando saltando do carrinho no teto.
Boneca nua andando saltando do carrinho no teto. (Foto: Raphael Concli)

“Não tem é palavrão aqui”, conta. O que se deve dizer é que o produto pedido “vai chegar tal dia”, mas não adianta querer fazer um pedido, já que o Sorria não trabalha com encomendas.  Lançado aos corredores da loja, espera-se que o cliente descubra ali no meio algo que precisava e não lembrava ou mesmo que encontre uma nova necessidade. É assim que a busca por adaptador de tomada pode nos fazer esbarrar com um arrojado aparelho de desentupimento consistindo num cabo metálico de 5 ou 15 metros (depende da versão) com uma manivela usada para girá-lo no interior do encanamento. Pode-se também encontrar inovações quase implausíveis como a chapa de assar massas em banho maria à seco, cuja embalagem traz fotos que parecem saídas do Facebook do próprio inventor.

Viviane diverte-se com meu espanto em relação à disposição dos produtos e em querer saber como os funcionários se orientam em meio a tudo aquilo. Diz que há um sistema onde são (ou deveriam ser) lançadas todas as mercadorias da loja, mas não em qual quantidade. Enquanto conversamos numa manhã de dia útil, ela por vezes faz uma pausa para atender os clientes que chegam e quase sempre sabe onde está o que as pessoas procuram, seja pés de máquina de lavar ou Amoebas. Indica onde o produto deve estar e dá uma direção caminho ao cliente, por vezes usando um sistema de fitas adesivas coloridas coladas no chão que traçam caminhos no interior da loja.

“Antigamente a gente tinha setores. Mas não deu muito certo”. Como é possível, então, que as faixas ainda ajudem em alguma coisa se todos os produtos estão misturados? Viviane explica que há alguns critérios por trás de cada faixa, como “plásticos”, “tipos de varais”, ou “bacias”.  Mas o que pode haver ao redor de cada um destes produtos nem ela mesmo sabe. Conta haver clientes que brigam por não encontrarem o que querem ou pela falta de um atendimento personalizado, embora estes pareçam não ter entendido o perfil da loja, emenda.

S5 - A combinação de produtos por vezes gera montagens curiosas
A combinação de produtos por vezes gera montagens curiosas. (Foto: Raphael Concli)

Matheus anda pela loja e aos poucos vai decorando os corredores. Não lhe passaram nenhuma lista de produtos desde que entrou no Sorria, em janeiro deste ano. Ter trabalho num supermercado lhe deu alguma experiência com comércio. Outro dia encontrou uma bola de borracha colorida, daquelas que pulam nas prateleiras, mais ao fundo da loja e decidiu colocar o objeto mais à frente. Um cliente se interessou.  Matheus ainda conseguiu achar outra bola e o rapaz levou ambas.

Recém formado no supletivo do Ensino Médio, Matheus passou os dois últimos anos sem trabalho até chegar à loja de variedades. É um rapaz tímido a princípio, tido como bonzinho por dona Neusa. Carrega um crachá de “Posso ajudar?”, o que parece cruel no caso desta loja. Mora a cerca de meia hora de caminhada da loja, com a mãe e a irmã, que teve um filho recentemente. Como dona Neusa e Viviane, trabalha de segunda a sábado na loja, 8 horas por dia. Em tempos de crise, o emprego com carteira veio em boa hora.

Há 4 meses no emprego, ele já percebeu rápido como as coisas funcionam. Passou por um primeiro grande teste, tendo de reorganizar as mercadorias no corredor central da frente da loja. A parte com sua “assinatura” segue o estilo de mosaico aleatório de mercadorias, mas há algo autoral. No suporte de Matheus quase não há espaços vazios, nenhum produto se sobrepõe ao outro e quase nada se repete, como num preciso quebra cabeças de bugigangas.

Matheus não acompanha muito as informações sobre política e economia. Sempre a mesma história, a mesma ladainha, parece que nada muda, diz. Mas vê a crise como momento de crescer. “Uns caem e outros também sobem”, observa ele. Pergunto se não lhe parece que algo mudou de sua adolescência até os 20 e poucos anos de agora. A mudança que de fato sente é de quando começou a trabalhar aos 17, por vontade própria.

Fico intrigado em saber se ele não se desespera em meio a aleatoriedade da organização que agora tem de aprender. Puxo o assunto me dizendo surpreso por ter acabado de achar um monte de pipas montadas na loja, penduradas na parede ao lado de uma grade com roupas de bebê que pende do teto. “As pipas estão ali”, ele ri e diz, “mas as rabiolas ficam aqui embaixo”, e aponta uma prateleira de rabiolas ensacadas, “e a linha fica do outro lado”. Já lhe é claro como o lugar funciona. Num lugar de tantas coisas que não se mantêm, diz não ser tão difícil lembrar onde as coisas estão. Seu método é simples. Conta de um professor que uma vez lhe disse que, toda vez que piscamos, uma memória é criada em nossa cabeça. Pois é assim que Matheus faz enquanto vaga pelo Sorria — “cada piscada, uma memória”.

Compartilhar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *