São Paulo: pai da esquerda e mãe da direita

Por Claire Castelano (claire.castelano4@gmail.com)

Analisando a sociedade paulista, o historiador Marcos Napolitano, professor na Universidade de São Paulo (USP), é pontual: segundo ele, “é patente que é um estado muito conservador politicamente e, também, o berço de vários movimentos sociais importantes”.

A citação, ao abordar São Paulo, diagnostica sua matriz contraditória. Estado símbolo das vanguardas artísticas e marco do conservadorismo nacional. Palco da maior greve operária brasileira, assim como de uma das maiores manifestações pró-ditadura civil-militar, a Marcha Da Família com Deus. Em 1980, os metalúrgicos do ABC fundaram aquele que seria, então, o partido das bases sociais — ou o Partido dos Trabalhadores (PT) —, da mesma forma que, cinco décadas antes, o paulista Plínio Salgado virara líder da Ação Integralista Brasileira (AIB), uma das mais fortes vertentes fascistas do Brasil. Atualmente, é a região de maiores mobilizações, em números absolutos de manifestantes, frente à crise política, sejam elas em favor do impeachment ou contra o golpe.

Como frente libertária, o estado tem em suas origens uma forte influência de seus vários imigrantes. Os europeus, que, a partir do século XIX, vieram para trabalhar em cafezais e fábricas, trouxeram consigo a conscientização do proletariado, alavancando as forças dos anarcossindicalistas. Décadas depois, tornando-se o maior fluxo de mão de obra para as indústrias do Sudeste, os nordestinos também anexaram a São Paulo seus ideais revolucionários, vindos dos tempos em que a região sediava rebeliões de grande participação popular — entre elas, a Conjuração Baiana (1798), a Revolução Pernambucana (1817) e Cabanada (1832).

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São Paulo: berço do movimento operário. Sede dos anarcossindicalistas. Pai do Partido dos Trabalhadores. (Imagem: Reprodução/Blog Lado Esquerdo)

À sombra dos cafezais, nasceu a indústria. Assim, nas terras paulistas, brotaram não só os grãos de café mais lucrativos do Brasil, como também a burguesia nacional. Vale ressaltar que, depois do capitalismo financeiro, a classe do fronte da Revolução Francesa perdeu seu “ideal Adam Smith” de liberalismo, em aspectos que vão desde o livre mercado até a conquista de direitos sociais. Hoje em dia, ao falarmos em uma vertente de direita, os reducionismos conservadores já nos vêm à cabeça. Tratando-se de São Paulo, em particular, o patriarcalismo e o direitismo ilustram sua burguesia e “classe média” — a qual, em vez do liberalismo de fato, defende apenas sua vertente mercadológica. Segundo Napolitano, essa é uma tendência de estado. “Tanto na sua elite política e econômica — e na boa parte dos setores médios — sempre houve posturas muito conservadoras em relação, sobretudo, a temas de conquista de direitos sociais e políticos”, ele diz. A seu ver, é esse o “DNA” de São Paulo, cuja política teve sustento em oligarquias muito fortes. “Predomina o que poderíamos chamar de um liberalismo ‘antipopular’, que até aceita a base do liberalismo político, [mas] sem nenhuma negociação com a expansão dos direitos políticos para as maiorias. É um DNA que se firma na Primeira República, mas que já mostrava sinais antes. Vale lembrar que foi um estado contrário ao Ventre Livre…”

Antonio Carlos Mazzeo, cientista social e também professor na USP, salienta que essa caricatura das elites paulistanas se estende para um quadro nacional. O país, ele diz, carrega um histórico de aristocracia burguesa; um arranjo que, por alto,  exclui o povo das decisões. O quadro é arraigado desde os tempos coloniais, quando a supressão dos movimentos sociais destruíram o caráter engajado do povo brasileiro. “A própria escravidão e o histórico de repressões às insurgências populares — como Canudos, a Conjuração Baiana e a Greve Geral de 1917 — geram uma sociedade de cidadãos pela metade e com baixa função democrática”, afirma.

O PSDB paulista

Uma prova das forças do conservadorismo de São Paulo é seu quadro de governadores. Contrários a bandeiras como o assistencialismo e a legalização do aborto, o PSDB se mantém no cargo desde 1994. Danilo Fiore, mestrando em ciência política na USP, analisou em dissertação a longevidade do partido. “O PSDB é a maior hegemonia político-partidária desde a consolidação da democracia”, ele diz. “Na história democrática brasileira recente, nenhum partido conseguiu vencer seis eleições consecutivas. E o PSDB conseguiu esse feito em São Paulo.”

Embora — ele mesmo diga — o mestrado não tenha chegado a conclusões muito aprofundadas, justamente pelo caráter do trabalho, muito se pôde dizer sobre a popularidade do partido no estado. “Aqui, ele tem bases populares”, afirma, “o que não tem em estados como os do Nordeste.” Fiore verificou os dados das bases escolares dos eleitores, fornecidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para demarcar os votantes do PSDB paulista. Na pesquisa, foram estratificadas as zonas mais escolarizadas da capital — como Higienópolis e Jardins, segundo apontam —, as médias e as de menor escolaridade, como Grajaú e outras periferias. Até 2014, ele conta, “você tem [na cidade] uma distribuição mais parecida com o geral do Brasil. Isso quer dizer, de maneira muito grosseira, que os ricos votam no PSDB e os pobres, no PT. Já no interior, o PSDB tem um amplo predomínio em todos os setores sociais. Nas cidades pequenas, [esse predomínio] é avassalador: estatisticamente, quando menor o município, maior o número de votos no PSDB”.

“Acho que os perfis [da capital e do interior] são bem parecidos. Mas, ao adentrar o interior, temos, sim, uma maior presença do conservadorismo”, Napolitano comenta. Toda pequena e média cidade tende a ser mais conservadora. Isso é uma força comportamental, é quase uma regra sociológica. E, ainda, há uma certa identificação da classe média com valores oligárquicos que vêm desses donos de terras. Há uma identificação com os de cima, com aquela elite fazendeira que foi a marca do interior do estado.”

“Na cidade de São Paulo, bem ou mal, acho que houve um tempero dessa tendência, com a presença do imigrante e do operário”, ele acrescenta. “Mas, também, é forte tal conservadorismo que vem se revelado nos últimos anos.”

Crise política e antipetismo

Ratifica o quadro político paulistano a atual crise brasileira. Nesse sentido, apesar de haver uma forte movimentação de ambas — movimentações pelo impeachment e contra o golpe —, o lado verde-amarelista mantém sua soberania. Um dos principais personagens na manutenção desse desequilíbrio é a imprensa nacional. “As mídias não cumprem com a responsabilidade social que deveriam arcar por serem concessões públicas”, afirma Mazzeo. Nossos principais veículos de comunicação, em sua maioria, são mantidos por grandes grupos econômicos. Essa “patologia midiática”, por sua vez, só contribui para a sobreposição, na imagem de São Paulo, do conservadorismo e do esquecimento das contradições que aqui vigoram.

Nos últimos meses, as ruas têm sido marcadas pelo antipetismo, pelo nacionalismo e por reivindicações direitistas, como a volta da ditadura militar. Napolitano analisa que  “a atuação do estado nesse momento vai ao encontro dessa tradição do liberalismo antipopular” — as críticas feitas ao governo petista têm esse viés muito forte. O professor também acrescenta que a vertente da corrupção, por vezes até honesta, vem atrelada a um elitismo social muito grande. “É só olhar os cartazes que tem na rua: há tanto valores de direita, assumidamente de direita, quanto um elitismo social.”

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São Paulo concretiza o histórico de aristocracia burguesa. A Av. Paulista, um de seus símbolos, mantém a sede da Fiesp e é palco do desfile de camisas da CBF. (Imagem: Reprodução/Agência BR)

“O Brasil também é marcado pelos golpes: o Golpe da Maioridade, o Golpe da República, os golpes nas eleições de cabresto, o Golpe de 1930 e o golpe de 1964”, lembra Mazzeo. “Esse ideal surge do medo que as classes dominantes nutrem do povo”. Nessa onda golpista, retoma Napolitano, São Paulo “sempre foi um estado que se posicionou contra as vertentes da esquerda, contra o que chamam de populismo e contra o nacionalismo econômico varguista”. A própria Revolução de 1932 — ou Guerra Paulista, como alguns preferem chamar — foi um sintoma desse liberalismo oligárquico. “Frequentemente, esse liberalismo apela para a legalidade, mas para manter seus privilégios”, ele diz.

Para Napolitano, o ideal político de São Paulo advém dessa tradição liberal, identificada com valores oligárquicos, com ojeriza à expansão de direitos sociais e políticos e encontrada no antipetismo. Atualmente, no entanto, seus protestos têm tido maior legitimidade. “Uma coisa é você sair às ruas contrário a um governo porque ele é nordestino; outra coisa é sair porque ele é corrupto.”

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