A mídia, o Islã e nós

Por Giovanna Querido (gioquerido@gmail.com)

“Tu pega aquele momento [atentado terrorista], generaliza algumas informações e cria um estereótipo, que vira preconceito, que vira discriminação. Agora, fala: qual é objetivo? Por exemplo, você vê uma noticia, sei lá, dois, três anos atrás, teve um rapaz na Finlândia branco, fundamentalista cristão, que pegou uma arma e matou mais de setenta pessoas – você acha que algum jornal botou ‘fundamentalista cristão mata em nome da Bíblia’? Não. Se isso acontece no mundo muçulmano, chamaria de muçulmano terrorista. Há um tempo atrás, não precisa ir muito longe, nos Estados Unidos, quantas pessoas entraram em escolas, armadas, e mataram um monte? Imagina se acontecesse em uma escola muçulmana, imagina qual seria a notícia. Nós vemos, assim, pouco interesse, eu não sei se é a pauta, se é a redação, se é o editor, eu não sei quem faz isso. Quando teve o atentado no Charlie Hebdo, em janeiro do ano passado, vieram centenas de jornalistas perguntando para nós o que nós achávamos. Claro que nós achamos errado, né? Nós achamos errado, pô, mas insistem, insistem. Isso acaba virando um estigma para as pessoas –  ‘muçulmano terrorista’, ‘terrorista é muçulmano’ –, sendo que não é verdade, assim como não é verdade que não existem muçulmanos que cometem terrorismo. Só que eles não cometem porque a religião está cobrando deles. A pessoa simplesmente é louca. Se nós pensarmos na história, a ditadura matava, torturava as pessoas em nome de um negócio, em nome de um emblema, que era democracia. Agora: o que era democracia para eles? O problema é que essas pessoas descontroladas, grande parte da imprensa tenta colocar como muçulmano. Em 2011, 2012, teve aquele caso no Realengo, lá no Rio de Janeiro, de um rapaz que matou dez crianças. Ficaram divulgando que ele era muçulmano, era muçulmano, porque ele tinha uma barba grande – foram ver e ele não era. Então essa tendência cria na sociedade um estigma, um estereótipo – ‘muçulmanos é isto, é aquilo’ – e nós acabamos pagando o pato por isso. Não é que a imprensa não dá espaço. Não. Isso é decorrente ou de má informação ou de má intenção, vocês jornalistas sabem bem. Fizeram uma reportagem sobre o Estado Islâmico e o Fantástico veio aqui na mesquita falar comigo. Gravaram trinta e cinco minutos de vídeo, passaram quinze minutos falando o que o Estado Islâmico fazia e, no final, só botaram uma imagem minha dizendo [que] ‘não é certo’. Isto é tendência, é isso que gera tudo, sabe? São raríssimos os casos que buscam esclarecer. Então quem é que cria isso é a mídia. É uma coisa, assim, que você muda as palavras que eu vou empregar. Hoje grande parte da imprensa mundial faz o mesmo papel da Inquisição. O que a inquisição na Idade Média fazia? Você concorda com a Igreja Católica, tá vivo; você não concorda, é queimado. Agora, alguém consegue falar o que acredita, o que é certo, mas vai contra os interesse de quem está noticiando? Não estou falando do quarto, mas do quinto, sexto poder do mundo hoje. Esses terroristas usam o nome da religião para fazer isso [que fazem], mas tu tratam que é a religião muçulmana: ‘ele foi na mesquita’, ‘ele assistia aulas lá’, ‘ele lê o Alcorão’. Fica chato isso.”

Mesquita do Pari
Salão Principal da Mesquita do Pari. O Brás, bairro onde fica a mesquita, tem a segunda maior população muçulmana do Brasil. (Foto: Reprodução/Liga da Juventude Islâmica do Brasil)

Quarta feira, dia 27 de abril, cinco da tarde. O sheikh Rodrigo Rodrigues, de longa bata branca e taqiyah – um chapéu curto e arredondado que cobre a calota craniana, normalmente utilizado durante as cinco orações diárias –, me respondia as indagações referentes à cobertura midiática sobre o Islã. Sentávamos num grande salão da Mesquita do Pari, no Brás, bairro da Zona Leste de São Paulo. Seu falar cantado, seu “tu” puxado, logo denunciam sua origem: gaúcho de nascença, Rodrigo se interessara pelo Islã ainda na juventude, em meio à curiosidade de ler sobre história e geografia. “Vi que tinha um livro chamado ‘Alcorão’. Li o Alcorão, procurei entender o Alcorão e foi assim que me converti à religião muçulmana, assim que me tornei muçulmano”, contava.

A curiosidade parece guiar a busca pelo conhecimento da religião muçulmana. “Eu gostei da coerência do Islã, não é aquela fé cega”, dizia uma das fiéis. “Você procura primeiro entender para depois acreditar”. É em razão disso que todos os sábados, às três horas da tarde, a mesquita oferece aulas de religião , baseadas nos relatos do livro. De acordo com o sheikh, não há pregação nas aulas.“Estamos ensinando como entender o Islamismo.”

Sábado, 30 de abril, quatro da tarde

No salão, em volta dos sofás, onde antes havia entrevistado o sheikh, havia agora uma lousa e cadeiras enfileiradas. Do lado esquerdo sentavam os homens e, do direito, as mulheres. Sentei-me na última fileira, e era a única sem hijab (o véu islâmico).

Do lado oposto, um homem lia o texto da apostila, até que Rodrigo pedisse para parar. “Grifa essa parte aí, é importante”, falava. “Podem colocar umas aspas”. “Vamos analisar essa citação agora”. Aqui, o sheikh virava professor: ora pegava o canetão para explicar, por exemplo, que eram um profeta e um mensageiro, ora para esclarecer a etimologia de “Muhammad” em árabe, ou até mesmo questionar o conceito de fé. “Podem pesquisar no Google”, garantia ele, nos casos mais inusitados. Formado em Ciências Sociais pela Universidade Cruzeiro do Sul (UNICSUL) e em cursos de religião pela Universidade Rei Saud, na Arábia Saudita, Rodrigo salientou a diferença entre a história do Islã e a história dos muçulmanos, criticando uso das expressões “sunita” e “xiita” pela mídia: “Quando a TV fala: ‘milícia sunita mata…’, [ela] está xingando o profeta”, já que os sunitas seguem os ensinamentos tanto do Alcorão como do Suna, livro dos feitos de Maomé.

Ao final da entrevista, Rodrigo havia deixado claro o quanto sua realidade era diferente da de outros muçulmanos. “Agora você está conversando com um sheikh, que é uma pessoa oficial. O sheikh tá tranquilo, na boa, tá tranquilo, tá favorável”, reforçava. Eu estava naquela aula para ver o lado dos alunos, o outro lado do Islã, normalmente não abordado pela mídia tradicional. Como eles conciliavam religião e vida profissional? Como era ser o único muçulmano da família?

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Aula de religião na Mesquita do Pari. Em meio a críticas, o acolhimento e o senso de humor do sheikh, que fala de Eduardo Cunha a Wesley Safadão, servindo-se de bolo e café, parecem concretizar a máxima muçulmana: “a minha casa é a sua casa”. (Foto: Giovanna Querido/Jornalismo Júnior)

Não precisaria levantar da cadeira. Durante o intervalo, uma moça, antes sentada na outra ponta, levantou-se e ficou ao meu lado. “É a sua primeira vez aqui?”, perguntava. Simone converteu-se há 26 anos. No começo, dizia, era bem difícil; sua família não aceitava, principalmente o uso do véu. Perguntei o que ela sentia quando entrava na mesquita: “Paz, sossego… É como se toda aquela cobrança do dia a dia acabasse”, respondeu. “Queria que mídia divulgasse o que Alcorão prega de verdade.”

Foi em busca dessa verdade que Samantha – uma jovem de hijab florido e falar calmo – encontrou o Islã. Após os ataques ao Charlie Hebdo, no ano passado, Samantha se perguntara, “como todo brasileiro que não conhecia o Islã”, que religião era aquela, que poderia ser tão violenta. Por que as pessoas se comportavam dessa forma? Será que existia algum tipo de estímulo no Alcorão? Suas descobertas foram complemente diferentes daquilo que a mídia divulgava. “Quando comecei a estudar”, disse, “percebi que a religião [o Islamismo] prega muita paz, me deparei com coisas extremamente positivas, que inclusive iam mais de acordo com a minha crença que o Evangelho.” Pouco tempo depois, por meio das redes sociais, descobrira um evento que o Dawah Brasil (um programa de promoção e esclarecimento sobre a religião), faria no vão do MASP “Fui correndo, porque estava com sede de conhecimento, e fui extremamente recebida. Aliás, a moça que me recebeu está aqui hoje, de hijab amarelo.”

Essa era Rita. “Sempre fui muito crente em Deus”, contava. “Relatei isso no meu shabab”. Shabab é a cerimônia de reversão do Islamismo, uma declaração de fé e de aceitação do profeta Muhammad como mensageiro único de Deus. Rita lia, estudava, e foi passando de religião a religião até 2012, quando se reverteu. “[O Islã] veio ao encontro de tudo o que eu procurava.” Como membro do Dawah Brasil, sentiu vontade de levá-lo à rua, explicar e tirar dúvidas a seu respeito.

“Eu respondo pelos meus atos, não pelos atos dos outros”, dizia. “Mas, cada vez que estoura um caso com algum maluco desses grupos fundamentalistas, recai sobre a gente.” Após o episódio do Charlie Hebdo, enquanto passava na rua, usando o véu, Rita contou que chegaram a lhe gritar.

“Ê, terrorista!”

“Olha a filha do Bin Laden!”

“Mulher-bomba!”

“Já vem com um kit de pólvora…”

Não, não é brincadeira. Diante do preconceito, da islamofobia, fiéis acabam abandonando o véu e a barba para não serem vistos como radicais. Escondem seus símbolos de fé e convicção. O medo é maior.

Não fosse o medo, Samantha usaria o hijab por escolha própria. “Meus pais têm muito medo da islamofobia, de alguém empurrar, machucar”, contava. “Tem muita gente que julga que nós somos reprimidas pelo véu, mas, na verdade, é a sociedade que reprime e não nos deixa usar.” Sahara, originalmente de família cristã, reiterou a dificuldade de aceitação do véu na sociedade. O preconceito estende-se, inclusive, a pessoas mais próximas: ela contou que tinha combinado de sair com os amigos e, ao colocar o véu, ouviu: “se você colocar o véu, nós não vamos mais sair não.”

O Islã é radical?

“O radicalismo não cresceu, não cresce, não é um fenômeno que existe entre os muçulmanos”, contou-me o sheikh. “O radicalismo religioso está presente em todas sociedades, entre todos os povos.” Segundo ele, no próprio Brasil, o radicalismo religioso vem desde 1500, com a primeira oração do padre Anchieta – embora o Ocidente não o veja como tal. “Justificaram a escravidão dos negros dizendo que eles não tinham alma por causa da cor da pele. Isso é radicalismo. Podemos falar também das Cruzadas e assim por diante”, continuou.  “O radicalismo islâmico hoje, assim como o radicalismo cristão e judeu de antigamente, todo ele é movido por interesse politico.”

“Pensemos no Brasil”, reforçou. “Nós não estamos distantes de ter um radicalismo – entre aspas – evangélico na ala política. Agora, você acha que aquela bancada, lá do Senado, de linha frente do Cunha, que são em grande parte evangélicos, estão fazendo aquilo em nome da Bíblia, em nome de Jesus? Não. A mesma coisa acontece nos países muçulmanos: estão pregando o Alcorão para atingirem objetivos políticos.”

Como jornalistas, como humanos, tendemos a buscar as causas de tudo. Olhamos os fatos – o 11 de Setembro, o atentado a Paris, ao Charlie Hebdo – como consequências diretas de causas já dadas. Talvez nos esquecemos de perceber sua dimensão humana. “O radicalismo, seja qual for, mostra que algo na pessoa [que o prega, que o pratica], no seu íntimo, está atrapalhado, perdido. Isso é do ser humano”, Rodrigo disse. Esses movimentos extremistas empregam o sentimento religioso, o desalento, os problemas, as angústias dessas pessoas para atingirem objetivos políticos. “Por isso que cresce o radicalismo, por isso que nascem grupos fundamentalistas religiosos, pregando o que estão pregando. São todos consequência da instabilidade social e política de uma região”, continuou. “A política, a religião ou mesmo o futebol são usados como massa de manobra.”

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(Imagem: Reprodução/Nossa Causa – Agência de Transformação Social)

Muhammeed dizia ser a ignorância uma doença e a pergunta, a sua cura. Questionei Rodrigo, então, sobre os pilares do Islã.

Profissão e Fé. Oração. Jejum durante o mês sagrado do Ramadã. Zakat (caridade). Peregrinação a Meca pelo menos uma vez na vida. Além dos pilares práticos, o sheikh ressaltava ainda os preceitos fundamentais, como “a crença que o Deus é único, que somente ele merece e deve ser adorado, que Muhammad é seu mensageiro, que Deus [o] enviou para a humanidade inteira, que [ele] deu exemplo de como seguir a religião de Deus, que cabe aos fiéis seguirem essa religião.” Reiterava também o livre arbítrio de cada ser humano perante suas escolhas. O Islã, como filosofia geral, diz para você ser você mesmo.

Estar com o Islã                                                                                                                                                                                                               Sente, olha, toca, degusta.

Entre arabescos, luas e tâmaras.

Transformado e transportado.

Entre o ser e o não-ser muçulmano.

Olho para mim, há outros em mim.

Ex-pe-ri-ên-cia.

 Trecho do vídeo Poema, de Francisrosy Ferreira Barbosa

Com dezoito anos de estudo recém-completados sobre antropologia e Islã, Francisrosy Ferreira, antropóloga da Universidade de São Paulo (USP), versa sobre as performances islâmicas, “sobre o mundo sensível no qual estão inseridos os muçulmanos”. “Da transmissão da Palavra à recepção, das mudanças corporais, gestuais e de hábitos que podemos observar no cotidiano.” Instigada, inicialmente, pela relação dos muçulmanos com a imagem, Francisrosy, por meio de um processo de imersão, queria descobrir, em suas pesquisas, qual o sentido de ser muçulmano. “Explorando tudo que via, sentia e ouvia.”

No artigo “Jihadistas são todos muçulmanos”, publicado em fevereiro pela revista Caros Amigos, ela questiona o papel do jornalismo – ou melhor: do (des)jornalismo brasileiro, que não tem interesse em estudar e conhecer a história de uma comunidade como a islâmica. “Este é o jornalismo que não me atrai e não atrai aos bons jornalistas”, escreve, “porque ele simplesmente não fala da realidade e não mostra a conjuntura desses grupos, mas tenta atrelar sempre ao que há de pior.” Atualmente, segundo ela, o jornalismo existiria para vender revista e desinformar.

“A mídia tende àquilo que dá ibope; se dá ibope, serve para eles. É mais fácil falar que muçulmano atacou, mostrar a mesquita… acho que a criminalidade choca e atrai”, reforçava Simone. Eu perguntava e ouvia. Passei depois a me questionar se realmente vivo em uma democracia como um processo de respeito à diferença. Samantha me contava sobre a dificuldade de revelar sua reversão para os próprios pais: “O medo do muçulmano para revelar à família é justamente porque a mídia coloca [a religião] de uma forma errada.” Qual seria o verdadeiro Islã que a mídia não divulgava? “É mais fácil falar que muçulmano atacou, mostrar a mesquita.” Sahara, a outra fiel, completa “faltava da mídia diferenciar, frisar que essas coisas [os atentados] não têm nada a ver com o Islã. Mudar essa imagem de um Islã radical e terrorista.”

Na minha primeira conversa, naquela quarta-feira de abril, entrara na mesquita para aprender, escutar, sentir o islamismo. Me deparei, no entanto, com o meu eu, com o meu papel como jornalista. Vozes marginalizadas, estigmatizadas ansiavam para serem ouvidas, contempladas. Não, eu não consegui escrever sobre tudo do mundo muçulmano, nem cheguei perto. Mas, sim, lembrei o que o sheikh me falou ao final da entrevista: “Quem vai mudar isso? São vocês [mídia]. Vocês que criaram e agora precisam desfazer.” Que um nó esteja desfeito.

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