Big Bang: as origens do conflito entre ciência e religião

Por Paula Lepinksi (paulalepinski.usp@gmail.com)

Existem 4,6 bilhões* de pessoas com alguma fé religiosa. A probabilidade de você, leitor(a), ser uma dessas pessoas é de 63%, segundo a pesquisa de 2015 da Win/Gallup International. Historicamente, ciência e religião tem uma relação complexa. Por vezes, doutrinas religiosas influenciaram o desenvolvimento científico, e, principalmente nas últimas décadas, o conhecimento científico tem surtido efeitos sobre crenças religiosas – basta lembrar do discurso do Papa Francisco, em 2014, na Pontifícia Academia de Ciência, durante o qual ele disse que a Teoria da Evolução e do Big Bang são reais e não contradizem a criação divina. Mas casos como esse em que religião e ciência entram em acordo sobre algum assunto não são comuns.

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(Fonte: Reprodução)

História

Milhares de anos atrás, assim que importantes traços cognitivos relacionados à imaginação, dúvida e curiosidade somaram-se à capacidade de raciocínio, o homem passou a buscar compreender os fenômenos naturais que influenciavam a vida, refletindo também sobre a própria existência. Surgiam, desta forma, os mitos e também as primeiras crenças religiosas. A ideia de Deus ou Deuses esteve, inicialmente, associada a tais fenômenos meteorológicos e também a situações vivenciadas pelo homem, como a caça, a guerra e as relações humanas.

Arqueologistas, historiadores e pesquisadores que estudam civilizações antigas relatam que, em muitas delas, a ciência e a religião surgiram concomitantemente e/ou estavam relacionadas. No Egito Antigo, por exemplo, a crença em deuses antropomorfizados e suas influências na vida cotidiana não afetou o desenvolvimento egípcio no ramo da medicina e da farmacologia – o que inclui até mesmo a criação de métodos contraceptivos a partir da mistura de mel, acácia, caroba e tâmaras. Na Grécia Antiga, berço da ciência Ocidental,  a exploração científica se desenvolveu de um ramo da filosofia e buscava explicar o mundo e seus fenômenos sem recorrer à religião, baseando-se em especulação, análise e teorias. Apesar de ser uma civilização politeísta que explicava o mundo através de crenças, geralmente baseadas em mitos, os estudos desvinculados à religião não eram considerados um desrespeito aos deuses, e os gregos reuniram conhecimentos principalmente na Matemática, Física, Astronomia.

A partir do Cristianismo a relação entre o conhecimento científico e a crença religiosa tornou-se mais complicada. Se por um lado é dito que a Ciência Moderna não existiria sem a fé cristã, por outro a Igreja Católica foi incisiva nas ocasiões em que descobertas colocavam em dúvida os ensinamentos da Bíblia.

Apesar de ter ganho certa projeção no período do Baixo Império Romano (séc. III – V), durante o qual o cristianismo passou de perseguido à religião oficial do Império, a Igreja católica consolidou-se como poder político, econômico e social nos séculos seguintes, a partir da Idade Média (séc. V – XV). Durante este período, a Igreja foi fundamental para recuperar e traduzir para o latim obras gregas perdidas durante as invasões dos povos bárbaros ao Império Romano. Também surgiram diversos estudiosos Medievais que analisavam o universo físico segundo a razão e a lógica. Contudo, houve embate entre a Igreja Católica e pensadores da natureza que sentiam sua liberdade investigativa limitada pela instituição quando essa sentia os seus dogmas ameaçados. Alguns conhecimentos gregos, por exemplo, foram banidos e proibidos até Tomás de Aquino e outros católicos, a partir do século XII,  incorporarem algumas visões filosóficas da natureza à Teologia Católica.

Com o início do período renascentista (séc. XV – XVIII) e a ascensão do Iluminismo, o estudo científico tornou-se laico. O antropocentrismo, o racionalismo e o positivismo eram a nova regra entre estudiosos como René Descartes e Johannes Kepler. Gradativamente, rompeu-se a antiga relação entre a filosofia e a ciência, que então buscava ser um conhecimento independente e metodologicamente comprovado. As duas formas de enxergar o mundo passaram a concorrer, o que, somado a expansão do protestantismo, incentivou a Igreja a endurecer sua doutrina. O caso de Galileu Galilei, que comprovou e defendeu a Teoria Heliocêntrica de Nicolau Copérnico, é o mais emblemático: Galilei foi intimado pela Santa Inquisição, obrigado a proclamar publicamente que a teoria era falsa e condenado a passar seus últimos anos de vida em prisão domiciliar. Somente em outubro de 1992, 350 anos após a morte do cientista italiano, o papa João Paulo II reconheceu o erro do tribunal eclesiástico. Mas este fim “brando” não foi reservado a todos. Giordano Bruno, filósofo e teólogo contemporâneo e conterrâneo de Galilei, foi condenado à morte na fogueira ao propor a existência de outros planetas e possivelmente outras civilizações no Cosmos – o que gerou, para a Igreja, o incômodo de ter de haver muitos Cristos.

O matemático e astrônomo alemão Johannes Kepler também se baseou na Teoria Heliocêntrica para deduzir as três leis fundamentais da mecânica celeste (Leis de Kepler). Por pressão das autoridades eclesiásticas, teve que se exilar em Praga. Já o matemático e físico francês René Descartes quis evitar problemas similares com a Igreja e preferiu não publicar sua obra O Mundo, na qual dissertava sobre o Heliocentrismo. Outro alvo do ramo mais conservador da Igreja Católica foi o herói da independência americana, Benjamin Franklin, que também era inventor. Sua criação mais conhecida é o para-raios, que partia do conceito criado por ele de que relâmpagos são descargas elétricas, e não sinais da ira de Deus.

Após a Reforma Protestante, a Igreja Católica, que durante séculos monopolizou a distribuição de livros, lançou a primeira edição do Index Librorum Prohibitorum, uma lista de publicações literárias proibidas pela Igreja. Além de Galileu e Copérnico, já tiveram obras proibidas no documento pensadores e escritores célebres como Maquiavel, Rousseau, Montesquieu, Vitor Hugo, Immanuel Kant, Descartes e tantos outros.

Da Idade Moderna a Contemporânea (séc. XVIII – hoje), o estudo científico adquiriu cada vez mais objetividade. Grandes revoluções científicas, principalmente na Física, com a Física Quântica e a Teoria da Relatividade, incentivaram a reforma na epistemologia da ciência.  Gaston Bachelard, Karl Popper, Thomas Kuhn, Paul Feyerabend e Imre Lakatos foram alguns nomes que notaram a presença de diversos fatores subjetivos na forma de pensar dos cientistas que levaram a enganos a respeito da natureza. De tais considerações configurou-se o método científico válido hoje, que visa a minimizar ao máximo dentro da ciência influências de origem pessoal – como religião e contexto social e político. O principal incômodo da Igreja nesse período foi o naturalista inglês Charles Darwin e a sua Teoria da Evolução, que contraria interpretações rígidas da Bíblia sobre a criação do ser humano e do mundo. Albert Einstein era outro nome que incomodava os cristãos. O físico alemão era considerado ateu por muitos devido a sua descrença na fé católica, mas ele não era totalmente sem fé – tinha uma visão religiosa em que a ciência e a religião não eram antagônicas, mas complementares.

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Simulação da evolução do ser humano. (Fonte: Reprodução)

Hoje

O papa Francisco pode ter aceito a Teoria da Evolução e do Big Bang, mas dificilmente as religiões e a ciência não irão debater sobre algum ponto. Atualmente, o principal impasse entre os lados é a utilização de células-tronco embrionárias em pesquisas. Apesar de ter o potencial de chegar à cura para problemas renais, hepáticos, na medula e para o mal de Alzheimer, a retirada da célula-tronco provoca a destruição do embrião. Enquanto correntes científicas e, inclusive, outras religiões não interpretam que a vida se inicia na sua concepção, a Igreja Católica acredita que o embrião é um ser humano. Isto significaria a manipulação da vida humana pelo homem, o que fere a ética católica. A manipulação genética, a clonagem e a fertilização artificial são outras questões atuais amplamente debatidas.  

O uso de células-tronco embrionárias levanta a questão: em que momento começa a vida? (Arte: Folhapress)

Deus(es), alma e a criação de tudo

Enquanto algumas questões são resolvidas, outras prometem ser atemporais na discussão entre ciência e religião. A criação do mundo e também a existência de um criador e da alma são as principais. Hoje, as religiões com mais adeptos são o cristianismo (2,2 bilhões), o islamismo (1,6 bilhões), o hinduísmo (850 milhões), a religião tradicional da China (400 milhões) e o budismo (376 milhões). Todas creem na existência da alma, mas cada uma tem a sua forma de enxergar a criação do Universo.

Dentre essas religiões, o budismo é o único que não acredita no início de tudo – para os budistas, a criação do mundo e da vida é inconcebível, sem um início e um fim. Já cristãos e muçulmanos acreditam em um único Deus, que criou o espaço e o tempo segundo seus desejos. Por outro lado, a religião tradicional chinesa acredita que nos seus princípios o universo era um caos na forma de um imenso ovo cósmico, dividido em dois polos, Ying e Yang. Desse equilíbrio nasceu Pangu, gigante de cujo corpo se formou a água, a terra e o Sol. Por fim, os hinduístas pregam que o Universo surgiu da respiração de Bhraman – o supremo Criador -, que a cada movimento respiratório cria (expiração) e destrói (inspiração), formando o espaço e o tempo. Durante a expiração forma-se o Universo, que é mantido com o auxílio dos Devas (Deuses) oriundos da inteligência e amor.    

Quando o assunto é a existência da alma, cientistas da atualidade como Stuart Hameroff (diretor do Centro de Estudos da Consciência na Universidade do Arizona, EUA) e Roger Penrose (físico matemático da Universidade de Oxford, Inglaterra) criaram a teoria quântica da consciência, chamada Orch-Or, segundo a qual a alma estaria contida em pequenas estruturas (microtúbulos) no interior das células cerebrais. A alma seria parte do universo e a morte, um retorno a ele – conceitos similares aos do Budismo e do Hinduísmo.

Já sobre a criação do Universo, dentre os cientistas a teoria mais aceita é a do Big Bang. Ao se analisar a luz de uma estrela, é possível saber a velocidade com que ela está se afastando ou se aproximando de nós, bem como sua composição química, idade, temperatura, massa e outros aspectos. Por meio destes estudos, os cientistas chegaram a conclusão de que as galáxias estão se afastando umas das outras – inclusive a nossa. Uma vez que elas estejam se expandindo, em algum momento elas estiveram mais próximas. Por isso é possível supor que, em um determinado momento, não só as galáxias como também toda a matéria existente no Universo estiveram reunidas em um único ponto, infinitamente comprido e extremamente quente. Há 15 bilhões de anos, esse ponto simplesmente explodiu, criando o espaço e o tempo. Com o tempo a temperatura diminuiu drasticamente, e assim se iniciou a formação da matéria por meio dos prótons, elétrons e outros elementos. Antes do Big Bang, contudo, os cientistas ainda divergem sobre de onde veio a matéria e a energia que apareceram no momento da explosão.

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(Fonte: Reprodução)

Muitos pesquisadores acreditam que a chave do entendimento de todo esse conjunto está na Física Quântica. Cálculos já realizados demonstram que muitas das peculiaridades do Cosmos, que hoje ainda parecem misteriosas, tem explicação perfeitamente natural quando se aplicam a elas as leis da mecânica quântica, que também explicam porque podem surgir do nada, com toda naturalidade, a energia e a matéria. Isso significa que a ciência suprimiu definitivamente a ideia de um criador? Não exatamente. Se hoje temos leis que podem explicar praticamente tudo, ainda não existem teorias para explicar a existência dessas próprias leis.

 

*População mundial: 7,3 bilhões (ONU 2015). População religiosa: 63% da população mundial (pesquisa da Win/Gallup International)

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