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Permacultura, uma forma de vida alternativa

Por Helena Mega (helenamega8@gmail.com)

“Sempre acreditei que compartilhar é melhor do que competir, então a Permacultura me trouxe amigos e amigas com quem eu pude compartilhar sonhos sem me sentir esquisito. O mundo não acolhe muito bem o que é diferente; mas, para descobrir quem a gente é, e qual  é o nosso caminho, precisamos experimentar ser diferente, senão a gente fica na mesmice do que temos a nossa volta.”

É o que diz Peter Webb, australiano que vive no Brasil desde 1984. Formado em Horticultura em seu país de origem, ele é adepto de um estilo de vida mais sustentável, que valoriza o meio ambiente e as trocas humanas como forma alternativa de construir o seu dia a dia, e usa a Permacultura como seu instrumento.

“A sociedade vigente, em nome de inteligência, deixa colocar veneno na comida que todo mundo come; fala que umas pessoas têm mais direito do que outras; deixa que se jogue lixo por todos os lados: nos rios, na terra, nos oceanos, no espaço fora do planeta; não atende as necessidades das crianças como seres de inteligências variadas, ou dos velhos e aqueles que enfrentam a morte”, critica Peter.

Por isso, Webb encontrou na Permacultura um espaço para desconstruir esses conceitos, que sempre o incomodaram, e coloca: “Na verdade, como seres humanos, precisamos coisas muito básicas para ser felizes. A Permacultura ensina que estas necessidades são: ter uma casa/lar, comida e água, e uma razão para viver. Parece simples, mas cada coisa exige um grau de interação honesta entre cada pessoa.”

Peter Webb, horticultor australiano adepto da Permacultura. (Fonte: Arquivo pessoal)

Por interação honesta, ele se refere ao fato de que não há um certo ou errado no que as pessoas pensam, e construir um lar deve ser o resultado da expressão de um grupo como um todo – seguindo, é claro, as diretrizes do meio ambiente. “Sustentabilidade depende muito deste interface entre o que o ambiente e o momento pedem com o que as pessoas estão sentindo e percebendo”, explica.

Para ele, que tinha o sonho de viver uma vida alternativa, o começo não foi tão simples: “Trabalhei para comprar terra, mudas de fruta, e arrumar materiais de demolição para construir uma cabana. Cuidava de jardins como jardineiro e lavava louças sujas a noite em restaurantes. Aprendi a mexer com madeira e metal”, lembra o australiano. Mas veio o resultado: passou quatorze anos em Minas Gerais vivendo de maneira autossustentável antes de se mudar para São Paulo, em 1998.

Assim, ele foi uma das testemunhas do crescimento do movimento da Permacultura no país, onde encontrou um cenário diferente do que ele via no exterior: “Aqui no Brasil, sempre tinham empregados e empregadas fazendo as coisas; uma extensão da escravatura. A sociedade tem vergonha dos trabalhos braçais em geral, faz de tudo para ‘libertar’ os filhos e filhas de tal ‘dureza’.” Contudo, ele acredita que as pessoas estão aprendendo a tirar satisfação das atividades coletivas por aqui, perdendo o medo de encontros sociais nos quais se constrói, se planta, se cozinha, se cuida de crianças, e assim por diante.

E a dificuldade de envolvimento, quando existe, é certamente histórica: “No mundo onde as pessoas estão separadas fisicamente ou nas suas imaginações, é muito mais fácil criar inimigos e semear a discórdia em vez de plantar paz, amor e equanimidade. Sendo que somos parecidos, porém diferentes, precisamos ter mais conversas para explorar exatamente o que as outras pessoas querem. Em perceber os outros, me ajudo a me perceber também. Não apenas racionalmente, mas uma troca de sentidos e de emoções”, adiciona Webb.

Permacultura, afinal, “envolve a resolução de conflitos e o questionamento interno das pessoas; as suas capacidades de acessar o que é verdade para si e ter um espaço onde se sentem seguras para se expor; se expressarem em grupo sem se sentirem ameaçadas. Envolve a sensibilidade em saber o que usar, quando e onde, sem medo de experimentar”, escreve Peter. E afirma: “As pessoas amparadas são capazes de fazer coisas incríveis juntas, mas estamos fora da prática de compartilhar e trocar, pois não é a mensagem que recebemos na educação e na sociedade aonde nascemos.”

Mas como funciona na prática?

Fundada em 2012 com a proposta de trabalhar com a Permacultura no contexto urbano, surgiu a ONG Veracidade, localizada na cidade de São Carlos, interior de São Paulo.

“É uma grande experiência, o principal lance de a gente morar aqui é poder vivenciar as propostas que a gente tem e estuda dentro da Permacultura no nosso dia a dia, porque muito se fala de possibilidades, de tecnologias ecológicas, e tal, mas o lance mais interessante para ver se elas realmente funcionam, se são práticas, é experimentar”, diz Djalma Nery, um dos responsáveis pela fundação da instituição e morador do local.

“A casa sempre teve uma característica de receber gente, de ter movimentação, de ter algum evento, e desde 2009, 2010, a gente já recebia pessoas como voluntárias por uma lista internacional que chama WWOOF (World Wide Opportunities on Organic Farms)”, diz o morador. O programa funciona como um rede de voluntariado internacional, na qual, em troca de hospedagem e alimentação, a pessoa oferece trabalho em fazendas orgânicas ao redor do mundo.

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Casa de Djalma Nery, local da ONG Veracidade. (Foto: Helena Mega)

Através do WWOOF, Djalma visitou diversos espaços pelo Brasil e pela América Latina. “Depois dessas viagens foi quando decidimos fazer uma coisa parecida com esse espaço que a gente tinha na cidade, e esse era um grande diferencial. Não é um espaço rural, não é um sítio, não é uma fazenda, é o espaço urbano, onde achamos que havia potencial para desenvolver esses trabalhos que vimos que estavam acontecendo em vários lugares do mundo”, explica Nery.

“Dividimos os custos de água, luz, energia, gastos comuns. Todo mundo que mora aqui, no começo do mês, dá uma contribuição para um caixa coletivo. É de onde sai o dinheiro para a manutenção da casa, comida. Tentamos o máximo possível, com as tecnologias, baratear nosso custo de vida. Já instalamos o sistema de geração de energia, através de placas solares, aquecimento de água pra banho, tratamento e reuso de água, temos nossa horta de onde sai parte de nosso alimento. De um lado, reduzimos gastos, e de outro, vamos gerando renda”, conta ele.

As placas solares produzem aproximadamente 80% da energia consumida no espaço e aquecem a água do banho. Quando se acende o fogão à lenha, presente em uma cozinha externa, uma serpentina utiliza o calor para aquecer água, que é armazenada em um boiler (reservatório de água quente) e também utilizada nos chuveiros. Uma enorme caixa d’água acumula até 15 mil litros de água de chuva, usada para irrigação. O primeiro descarte, com as maiores impurezas, lava o telhado.

Os produtos da horta (alface, couve, cebolinha, salsinha, mirá) são utilizados na casa e também comercializados – não à toa, um dos maiores canais de aproximação com a vizinhança é a venda do alface orgânico e barato. “A gente não pode produzir tudo o que a gente come, mas que a gente então consuma nosso alimento de uma lógica produtiva justa, solidária e ecológica. Acho que aí é a opção, a gente não precisa comprar do agronegócio, a gente pode comprar de linhas de produção agroecológicas”, Djalma opina.

Horta orgânica com poucas plantas em função dos vários dias de chuva no mês de janeiro. (Foto: Helena Mega)

No quintal dos fundos estão o banheiro seco e as caixas de compostagem, recheadas de minhocas para tratar o lixo orgânico. Ao lado há dois tanques que abrigam a recente criação de peixes. Há também um galinheiro e uma agrofloresta, que parece pequena mas abriga uma quantidade impressionante de plantas: café, banana, babosa, pitanga, limão, citronela e manjerona são algumas delas. A água usada nos banheiros e na cozinha passa por um processo de várias etapas e sai de novo no fundo do quintal, irrigando a plantação.

O morador vai apontando as plantas e argumenta: “Tem esse mito, essa lenda, de que para produzir alimentos em grande escala para a população tem que ter monocultura, tem que ter veneno, e isso é mentira. Você pode produzir alimentos em grande escala para alimentar a população ecologicamente e com diversidade. Quanto mais diversidade, mais interação biológica. Quanto mais interação, mais fertilidade e mais produção, mais abundância e mais vida.”

“Quando você está praticando, vivendo aquilo que você fala, é muito mais inspirador, muito mais concreto para as pessoas perceberem que não se trata de um discurso apenas, uma proposta”, diz ele enquanto um dos fundadores da Veracidade. “A ideia é que a gente consiga estimular as pessoas, não digo a viver isso que a gente está vivendo, não se trata de impor um modelo de vida, mas convidar a reflexão de que um outro modelo de vida é possível. Qual é esse modelo, cabe a cada um pensar, refletir”, completa Djalma.

Quarto na parte externa da casa. (Foto: Helena Mega)

A própria Permacultura, como debate recente, possui suas várias faces, e esse é o tema de Nery em sua pós-graduação. “Estou estudando isso no meu mestrado: como as pessoas veem Permacultura. É uma filosofia, é uma ciência? Alguns falam que é um movimento social, outros falam que é um método, mas, entre tudo isso, acho há sempre um pouco de razão, de elemento de verdade em todos eles. Permacultura é uma metodologia de planejamento de espaços, então você pode aplicá-la como uma ferramenta mesmo. Ela também é uma filosofia porque te propõe uma maneira de ser no mundo, uma maneira de existir e uma conduta, ela carrega uma ética. Também é uma ciência porque reúne vários campos do conhecimento sob o guarda-chuva que é a Permacultura. Então ela é bem múltipla. As pessoas a interpretam de várias formas e ela de fato tem essas várias formas.”

Uma das missões da ONG, assim, é popularizar essa discussão, conectando o mundo teórico com o prático. “Tem muita gente que não está disposta a pagar o preço de entrar em uma outra vida, passar pelo estranhamento dos outros, passar por essa dificuldade de comunicação. Aqui no bairro mesmo, a gente fez muita coisa, muita panfletagem, conversa, para tentar chamar a galera. De vez em quando um ou outro vem para alguma coisa, mas, por mais que a gente esteja geograficamente próximo, parece às vezes que estamos distantes. Queremos muito romper isso, por isso estamos na cidade”, Djalma finaliza.

J.Press
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