Contracultura e militância: viva a Tropicália!

Por Bianka Vieira (bianka.vieira2@gmail.com)

Encontrando na breguice de roupagens coloridas e cabelos desgrenhados a morada perfeita para a representação de sua insurgência, o Tropicalismo, já à altura de suas primeiras manifestações, optou por se abster não somente das convenções estéticas propostas até então, como também daquelas que se firmavam no plano musical, social e político. Sendo registrado como um dos últimos suspiros antes que um dos mais duros golpes fosse instaurado pela Ditadura Militar, o Ato Institucional nº 5 (AI-5), a Tropicália difundiu, de forma inédita e marginal, uma intensa cultura de ruptura.

Fosse através de canções, cinema, poesia ou artes plásticas, o modo com que a vanguarda tropicalista questiona o tradicional e influencia o contemporâneo corporifica “uma herança viva até hoje não só na música, mas em todas as áreas da cultura que se tornam cada vez mais híbridas, respondendo com força à tendência homogeneizante da cultura globalizada de nossos dias”, tal como define Heloisa Buarque de Hollanda.

De acordo com a escritora, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o final dos anos 60 foi marcado por movimentos internacionais jovens e estudantis que se radicalizavam na Sorbonne e em  Berkeley, bem como na América Latina e em outras localidades do mundo. Assim como esses grupos, o Tropicalismo era contra verdades instituídas e contra rótulos. “A ideia era sintonizar com os jovens rebeldes de todo o mundo e colocar a imaginação no poder”, afirma Heloisa.

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Heloisa Buarque de Hollanda entende o Tropicalismo como “uma herança viva até hoje não só na música, mas em todas as áreas da culturas”. (Foto: Divulgação/Marcelo Correa)

Nesse sentido, o questionamento do status-quo feito senão pela esquerda ou pela direita é uma das principais características do Tropicalismo. Não era de seu interesse o lado institucional e programático enunciados pelos “engajadinhos políticos”, como define Rita Lee em entrevista disponibilizada no Youtube. Esse fator, no entanto, não é suficiente para caracterizar essa onda como apolítica: utilizando-se do que alguns teóricos optam por definir como “guerrilha artística”, para aqueles jovens cariocas, baianos e paulistas, a revolução se daria através do inovador e da criatividade estética, o que era uma visão totalmente oposta aos amantes das canções de protesto.

A rebeldia tropical, portanto, se estende para além das indagações políticas e passa a criticar também a cultura da época, mais especificamente o que tange a aclamada Bossa Nova da classe média, que não tinha pretensão de repercussão externa em função do nacionalismo proclamado por alguns artistas da esquerda. O antagonismo interpelado pela contracultura era tamanho que, em 1967, isso rendeu à história do Brasil a hilária Passeata Contra a Guitarra Elétrica.

Caetano Veloso, Gilberto Gil e Nana Caymmi na Passeata dos Cem Mil, em 1968
A “Passeata Contra A Guitarra Elétrica” ou “Passeata dos Cem Mil” aconteceu em 17 de julho de 1967, em São Paulo, sai do Largo São Francisco e desemboca diretamente no Teatro Paramount, na avenida Brigadeiro Luís Antonio, onde ocorreria o programa Frente Ampla da MPB. Na foto, pode-se ver Caetano Veloso, Gilberto Gil e Nana Caymmi. (Foto: Reprodução)

Contando com cerca de 400 pessoas, a Passeata congregou artistas da MPB como Elis Regina e Jair Rodrigues e se voltou contra a influência estrangeira advinda com a guitarra elétrica, teoricamente uma novidade nociva para a produção musical brasileira. Ocorrido no mês de julho de 1968, um mês após o lançamento do lendário álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o evento contou a curiosa presença de Gilberto Gil, cantor assumidamente influenciado tanto pelo álbum, quanto pela sonoridade elétrica do instrumento; até hoje ele nega ter participado por pura convicção, apresentando justificativas que vão desde a vontade de estar ao lado de seus amigos ao fato de estar apaixonado por Elis Regina.

“A introdução da guitarra elétrica por Caetano e Gil desafiou frontalmente os movimentos nacionalistas da nossa música popular”, alega Heloisa Buarque de Hollanda. Nesse confronto dicotômico entre o nacional e o internacional promovido por parte da esfera artística, a real preocupação consistia em superar o hegemônico e universalizar a cultura brasileira em um ato deliberadamente antropofágico. Inspirado no Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, Caetano Veloso, principal figura percursora da Tropicália, associa a “antropofagia cultural” ao momento em que eles devoravam Beatles e Jimi Hendrix. Ao incorporar a bossa nova, o samba e o rock, a real é que, para o Tropicalismo, o único ato proibido era o de proibir.

Tropicália para além da “sala de jantar”

Sendo o nascimento do Tropicalismo associado às performances de “Alegria, alegria” e “Domingo no parque” durante o III Festival de MPB da TV Record, vemos, em 1968, aquilo que se tornaria o marco definitivo para o movimento: considerado pela revista Rolling Stone Brasil um dos 100 maiores discos da música brasileira, o irreverente Tropicalia ou Panis et Circencis traz, nas vozes de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mutantes, Rogério Duprat, Tom Zé, Nara Leão e Gal Costa, 12 canções simultaneamente capazes de explorar duetos, música pop e poesia concreta.

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“Tropicalia ou Panis et Circencis”, álbum lançado em 1968 pela gravadora Philips Records, corporifica o movimento tropicalista e é reconhecido como uma obra prima da música brasileira. (Foto: Reprodução)

Apesar desse fenômeno, os quatro anos de duração da Tropicália não se resumem ao plano musical das experiências.

No teatro, a censura e a repressão crescentes dificultavam a sobrevivência da dramaturgia brasileira. Sem investimentos e impossibilitados de levarem seus roteiros para os palcos, nomes como Oduvaldo Vianna Filho, Augusto Boal e José Celso Martinez Corrêa se entregam às peripécias da contracultura. Zé Celso, em seu teatro radical e experimental, ganha destaque em espetáculos como “O Rei da Vela” (1967) e “Roda Viva”. Além disso, o marginal se sobrepôs ao tradicional com o advento de companhias que funcionavam coletivamente, como os grupos Oficina e Asdrúbal Trouxe o Trombone. Atores como Regina Casé, Evandro Mesquita e Luiz Fernando Guimarães faziam parte dessa experiência comunitária.

Se nas artes plásticas é inconcebível não citar Hélio Oiticica – afinal, foi ele que deu o nome ao movimento liderado por Gil e Caetano com a sua instalação “Tropicália” (1967) – no cinema, Glauber Rocha é passagem obrigatória.

O termo "Tropicália" nasce como nome da obra de Hélio Oiticica exposta na mostra Nova Objetividade Brasileira, realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ, em abril de 1967.  (Foto: Reprodução)
O termo “Tropicália” nasce como nome da obra de Hélio Oiticica exposta na mostra Nova Objetividade Brasileira, realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM/RJ, em abril de 1967. (Foto: Reprodução)

Responsável por obras consagradas como “Deus e o Diabo na terra do sol” (1964), “Terra em transe” (1967) e “O dragão da maldade contra o santo guerreiro” (1969), Glauber não só serviu como referência para as composições musicais, como também se utilizou da sétima arte para realizar críticas à realidade política e cultural difundidas no país, tendo como fios condutores a  ditadura militar recém-instalada e o Cinema Novo.

Marcelo Machado, diretor do documentário “Tropicália” (2012), reconhece a importância dessa reviravolta, apesar de não identificar uma herança do período em sua forma de fazer cinema. “Vi muita coisa desse cinema e do chamado cinema marginal quando estudante, passava no cineclube da FAU-USP; mas depois desse período, peguei um certo bode da postura desses cineastas, o que incluía o próprio Galuber Rocha. Fui me reconciliar com a genialidade dele na pesquisa para o filme. Vi várias vezes o Terra em Transe e poderia ver mais. É incrível não só clareza desse homem quando olha o Brasil mas como sua capacidade de conectar até o futuro politico, coisas que só estão acontecendo agora. O Bandido da Luz Vermelha é mesmo um clássico e o Andréa Tonacci fazia e ainda faz coisas que me deixam de boca aberta”.

“Tropicália”, produção onde 90% do material de pesquisa origina precisamente dos anos em que o Tropicalismo aconteceu, transmite ao espectador, de forma feliz, cores, vídeos de arquivo e imagens dispostas de um modo que o permita sentir a vivacidade daqueles anos. Para isso, além do desafio de buscar soluções visuais e de animação junto com a montagem das sequências sem que o objetivo narrativo pudesse ser prejudicado, Marcelo teve que lidar com a seletividade requerida diante de um tema tão amplo.

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Marcelo Machado, diretor do documentário “Tropicália” (2012). (Foto: Reprodução)

“Esse assunto tem muito mais aspectos e eu não daria conta de todos, sabia disso desde o começo. Mas haviam pessoas fundamentais que eu queria muito ter incluído e não consegui. Um foi o José Agripino de Paula: o pouco material que consegui dele no período, não consegui liberar os direitos. Outro exemplo é o maestro Júlio Medaglia, que, mesmo sendo entrevistado, não consegui editar; todas as tentativas que fizemos “desmontavam” uma certa linha de raciocínio que o filme estabelece”, explica.

Impetuosos e provocantes, os tropicalistas, sobretudo, não tinham escrúpulos, o que, é claro, irritou muita gente. Nesse sentido, se o Tropicalismo foi um dos últimos suspiros antes que um Ato Institucional viesse a ceifar a liberdade de expressão no país, é de se imaginar que o próprio AI-5 tratou de dar um fim àquela efervescência desregrada.

A cerimônia de despedida ganhou data e local: 20 de julho de 1969, Teatro Castro Alves, Salvador. Enquanto o homem chegava à Lua, Caetano Veloso e Gilberto Gil deram seu último show antes de partirem para o exílio, após cinco meses encarcerados em prisão domiciliar. Estava encerrada, oficialmente, a Tropicália – encerrada, mas para sempre viver.

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Caetano Veloso e Gilberto Gil, principais percursores do Tropicalismo. Em tese, o exílio dos dois consuma o fim do movimento artístico. (Foto: Reprodução)
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