Uma vida [trans]formada

Por Rafael Oliveira (rafael.oliveira.br@gmail.com)

“Você ainda seria meu amigo se descobrisse que eu sou transgênero?”, ele me perguntou no princípio de abril, ainda em 2014. O questionamento veio depois de uma pitada de suspense e o anúncio, um tanto quanto irônico, de que tinha “algo simples” a me dizer.

“Pra você, isso muda algo? Pra mim não muda!”, eu lhe respondi, o mais sincero que consegui ser, depois de uma breve, mas suficientemente esclarecedora explicação de como aquela conclusão tinha sido alcançada. À época, ele me disse que nada mudaria.

Hoje, nos aproximando do segundo aniversário daquela pergunta, nós sabemos o quanto as coisas mudaram. Felizmente, para melhor.

 

Cerca de  dois meses depois de me dar a notícia, ele postou em sua página do  Facebook, que ainda trazia Jéssica como nome, uma pergunta aparentemente despretensiosa, que poderia confundir quem não tivesse a mínima ideia da carga significativa que trazia: “Vocês acham que eu tenho cara de Murilo ou Felipe?”.

 

Murilo
Na janela de seu apartamento, Murilo posa para a lente (Foto: Rafael Oliveira)

Murilo é um publicitário recém-formado, que aos 24 anos busca estabilidade profissional na terceira agência que sua curta carreira conheceu. Tatuado, de piercing no nariz e topete cantor sertanejo, ele em nada mudou o estilo que ostentava há um ano e meio. Ali, nos primeiros meses de 2014, em meio à mais banal e informal das conversas numa roda de amigos, ouviu a frase que no começo não fez muito sentido, mas depois mudou a sua vida: “Ah, meu, eu acho que você é transexual”.

A partir daquele momento, os sentimentos, os pensamentos e, especialmente, a forma como ele se enxergara por toda a vida começaram a fazer muito mais sentido; passaram a ter um significado muito melhor definido. Logo depois do “diagnóstico” feito por uma amiga, Murilo passou a devorar informação sobre identidade de gênero: “fui pesquisar na internet, fui atrás de palestra, fui em palestras de pessoas transexuais, assisti muito vídeo, fui atrás de outros meninos trans, de outras pessoas trans. E aí eu falei, ‘porra, é isso’”.

Quando aquele mundo recém-descoberto tornou-se minimamente concreto, as lembranças da infância, as situações da adolescência ganharam uma nova significação. A recusa em se encaixar nos padrões ditos femininos, especialmente  nos primeiros anos de vida; a admiração – mas não atração – pelas formas masculinas; a sensação confortável que sentira quando, aos 15 anos, a namorada da época lhe criou um alterego masculino – cujo nome assumido naquele momento era, justamente, Murilo. Todas essas memórias, que antes se escondiam em um canto esquecido da mente, voltaram à tona, como que para mostrar que, o tempo todo, ele sabia.

 

A fundamental autoaceitação tardou. Em um primeiro momento, Murilo sentiu como se tivesse desperdiçado uma parte de sua vida:  “Eu passei oito anos da minha vida achando que eu era uma coisa, porque era o limite do meu conhecimento”. Depois, com o passar do tempo e com a soma de novos conhecimentos acerca de si próprio, ele se encontrou, e, a partir desse ponto, sentiu alívio. “Foi muito bom saber que eu não era anormal, que não era coisa da minha cabeça”.

Restava, então, revelar ao mundo a sua velha-nova identidade. Depois de mais de 22 anos identificando-se como uma mulher cis, e pelo menos 8 mostrando-se ao mundo como homossexual, Murilo teve que começar praticamente do zero. Foi devagar, cauteloso, e ele reconhece, teve muita sorte.

Encontrou na namorada da época uma aceitação automática, de uma quase indiferença que não poderia ser mais positiva. Aos pais, introduziu o tema a conta-gotas e, quando tomou coragem de dizer com todas as letras, antes para a mãe, e depois para o pai, recebeu o apoio que mais precisava e ansiava por receber: a primeira disse que se “era aquilo que ele queria para a vida, tudo bem”; o segundo já sabia do que se tratava o “precisamos conversar” antes mesmo que qualquer explicação fosse dada.

Pouco a pouco, revelou a cada um dos amigos mais próximos, tal como fizera comigo. Dos companheiros de vida, recebeu já esperadas manifestações positivas e de encorajamento. Por fim, buscou cada parente, um a um, independente da proximidade e da relevância dos laços, e os explicou, pacientemente, o que tudo aquilo significava. Recebeu, em troca, um apoio – ou, ao menos, um não desencorajamento – uníssono que, dada a realidade que boa parte da população trans enfrenta, não esperava ter.

Apesar da recepção positiva (ou indiferente), praticamente todos, dos pais aos colegas, dos familiares aos amigos, ainda “escorregam”: não foram poucas as vezes em que ouvi Murilo sendo chamado pelo gênero feminino ou pelo seu nome de batismo durante os nossos encontros. Em meio a esses acidentes de percurso, ele exercita sua paciência, ciente de que relevar pode não ser a solução mais correta, mas certamente é a que funciona melhor.

 

Quando nos encontramos pela primeira vez para conversar sobre a sua transição, em um Fran’s Café quase que totalmente vazio,  ele vestia-se no estilo de sempre. Blusa larga, calça apertada, ambas pretas, apesar da noite estar desagradavelmente quente naquele meado de outubro. O ar-condicionado desligado era definitivamente um problema para mim, mas Murilo, que à época já tomara a quarta dose de testosterona, sofria substancialmente mais do que eu, graças a um dos menos entusiásticos efeitos que o hormônio lhe apresentou.

Sua trimestralmente companheira para o resto da vida, a T, como ele costuma chamá-la, entrou na sua vida em um 25 de fevereiro iluminado. Foram sete longos meses entre o cadastro no SUS e a primeira aplicação, que só veio depois da realização de exames e do cumprimento de algumas burocracias, como a apresentação de um laudo da sua psicóloga autorizando a tão esperada hormonioterapia.

A partir daquele final de fevereiro, independente das reações negativas que sabia que seu corpo enfrentaria nas primeiras doses do hormônio, Murilo sentiu “tudo junto. Ansiedade, emoção, felicidade, alívio”. Alívio de saber que, daquele momento em diante, apesar das incontáveis dificuldades que ser transexual em um país preconceituoso obriga a enfrentar, sua vida começaria a mudar para melhor. Embora lenta e progressivamente, sua voz, seu rosto, suas formas, seu corpo aproximariam-se daquilo que sua mente desejava:  “‘Tá acontecendo, mais pra frente eu vou ver o que eu sempre quis ver no espelho, o que eu sempre imaginei e idealizei pra mim”.

Logo de cara, entre a primeira e a segunda dosagem – que ocorrem com um intervalo de tempo menor, para alcançar os níveis desejados mais rapidamente –, as mudanças já começaram a acontecer. Fora o calor quase insuportável que passou a sentir, seu apetite cresceu substancialmente; a quantidade de pelos nas pernas, que ele já cultivava há anos, aumentou de forma considerável, tanto no volume quanto na espessura. Além disso, suas costas, sua barriga e, especialmente, seu rosto, começaram a ser tomados por pelos até então inéditos; pegar no sono ficou mais difícil, sua pele ficou mais oleosa, seu clitóris ficou mais sensível.

Com a terceira e a quarta dosagem de Nebido, o medicamento de 4mL que lhe acompanha há nove meses*, as alterações em seu corpo foram ficando cada vez mais claras. Seu quadril tornou-se mais reto, seus ombros mais largos; seus pés e suas mãos ficaram maiores, os tênis mais apertados; seu cheiro ficou mais forte e sua voz mais grossa; seu rosto tornou-se mais quadrado, e seu cabelo ganhou entradas. Pouco a pouco, seu corpo foi adquirindo os contornos que, por toda a vida, Murilo desejou ter.

Nebido - T
A primeira dose do medicamento que mudou a vida de Murilo (Foto: Arquivo pessoal)

 

Todas essas mudanças corporais serviram de contrapeso para o aspecto no qual a testosterona mais e pior afeta: o psicológico. Desde o primeiro dia de T na corrente sanguínea, a personalidade, o humor e as atitudes do publicitário começaram a ser afetadas pelo hormônio. Ele não só tornou-se mais instável, mais irritadiço, como teve também a sua memória e a sua capacidade de concentração prejudicadas. Para piorar, a falta, senão de orientação, de compreensão do que a testosterona significaria para o seu psicológico, o fez acreditar que “precisava ser tudo aquilo que as reações da T diziam”. Hoje, ele consegue enxergar com nitidez o que era e o que não era real: “Eu acho que foi muito mais da minha cabeça do que realmente aconteceu. Do tipo, ‘eu precisei ficar nervoso, eu precisei ficar grosso’. E eu fui. Hoje eu me arrependo pra caralho.”

Quando a realidade veio à tona, já depois da terceira dose de Nebido, as crises de irritação e a instabilidade tornaram-se mais controláveis, quase suportáveis. A experiência de descontrole dos primeiros meses, afinal, serviram de parâmetro do que era ilusão e do que era realidade, e, pouco a pouco, a experiência psicológica com o novo hormônio foi tornando-se mais confortável e os efeitos adversos menos significativos “Hoje eu consigo controlar muito mais, hoje eu sei quando estou nervoso, eu sei quando eu vou estourar, eu sinto e consigo controlar.”

 

Hoje, dentre as modificações corporais que já ocorreram quase que totalmente, e as que começam a se impôr na forma como ele se enxerga, só um aspecto do corpo ainda o incomoda. Em todos os nossos encontros, ele fez questão de frisar que não são todos os trans homem que se sentem dessa mesma forma, mas ele não nega, quer tirar os seios assim que possível. “É por uma questão pessoal, de estética, de conforto, de me sentir bem com o meu corpo. Mas também para me sentir seguro dentro da sociedade, de me dar mais confiança para eu ir nos lugares e não ficar receoso de que  vou receber olhares preconceituosos e  esquisitos.”

A mamoplastia masculinizadora, que deve lhe custar quase dez mil reais, ainda é um sonho distante. Murilo acabou de sair da casa dos pais, e as suas poucas economias se reduziram consideravelmente com os custos da mudança. Desde o começo de novembro, ele divide um apartamento e as contas com a namorada, na República, centro de São Paulo.

Murilo mostra sua barba
Murilo exibe, orgulhoso, o nascimento de sua barba (Foto: Arquivo pessoal)

 

Sentado no sofá de pallets do seu mais novo endereço, Murilo me conta – com certa satisfação – que desde a última vez que nos encontramos, um mês antes, o número de confusões acerca de seu gênero se reduziram consideravelmente. Os quilos perdidos com a reeducação alimentar, e, principalmente, os efeitos dos nove meses de T, diminuíram as situações de constrangimento que ele ainda é obrigado a enfrentar. Atualmente, os grandes “vilões” são seus documentos de identidade, que ainda trazem seu nome de registro, e que ele evita apresentar sempre que possível.

Para acabar de vez com esse mal-estar, em meados de junho desse ano Murilo contratou um advogado especializado para mudar seus documentos. Desde então, ele luta contra uma justiça burocrática e preconceituosa para colocar seu nome e sua identidade de gênero no papel. “Basicamente, eu tenho que provar para o juiz que eu sou homem, o que é uma coisa ridícula. O juiz pediu perícia, que provavelmente ele queira me ver, mesmo, queira que eu compareça para ele olhar para mim. E o advogado está tentando justamente fazer eu não passar por isso.”

Para ele, a mudança lhe traria a “liberdade de poder ser quem eu sou [também] dentro da lei”. Sem nenhuma data definida para resolver esse problema, entretanto, o publicitário exercita a paciência. Apesar de impertinentes, hoje ele consegue lidar bem com as pessoas que ainda se confundem ou que deliberadamente o chamam pelo seu nome de registro. “Sinceramente, eu ‘tô muito mais tranquilo. Não sei se fui eu comigo mesmo, que trabalhei meu psicológico do tipo, ‘foda-se, não vou ficar me preocupando se a pessoa quando ela me olha, o que que ela enxerga’. Eu simplesmente comecei a aceitar a imagem que eu tenho, que automaticamente é a imagem que eu vou passar para as pessoas.”

 

O acréscimo recente em sua autoconfiança, além das consultas semanais com uma psicóloga há mais de um ano, muito têm a ver com a sua situação no mercado de trabalho. Depois de anos sem conseguir se manter e  focar em um emprego, pouco depois de passar a se identificar como um trans homem, Murilo enfim encontrou a estabilidade profissional.

No começo, ele temeu a reação do mercado a sua situação, mas após conversar com outras pessoas trans, ele resolveu ir à luta: colocou seu nome social no curriculum e pouco tempo depois foi chamado para uma entrevista. Nessa primeira experiência, em uma empresa de marketing, chegou a ter que explicar para a entrevistadora o que era transexualidade. Mas, apesar de não ter conseguido a vaga, não se sentiu destratado, nem sofreu nenhum preconceito aparente: “Não passei [no processo seletivo], mas se foi por conta disso eu nunca vou saber”.

Logo em seguida, por meio de um site que reúne vagas de emprego para pessoas trans – o Transempregos –, Murilo conheceu a empresa em que hoje trabalha. Depois de alguma espera, ele foi chamado para a entrevista, já confiante de que não sofreria nenhum tipo de constrangimento. Começou na Orange em seguida, em abril desse ano.

Quando eu lhe pergunto se ele se considera uma exceção, ele concorda sem titubear: “Eu sou uma exceção. Não que isso seja ruim, mas em vista do restante, eu sou. Às vezes eu me sinto até mal de falar, porque parece que a transexualidade é um mundo fácil e muito bonito, mas não é. Eu não tenho intimidade, mas eu tenho muitas pessoas trans no meu Facebook, e a maioria passa por uma merda que eu não passei, do tipo ‘meus pais me expulsaram de casa, eu não consigo emprego, sou destratado na rua, eu apanho’. Enfim, só para deixar bem claro que essa é a experiência do Murilo”.

E em meio a sua primeira experiência de trabalho identificando-se como Murilo, primeiro como estagiário de mídias sociais, e agora como assistente de artes, ele já bateu o próprio recorde de permanência em uma agência. Graças a essa estabilidade, conseguiu juntar as escovas de dentes com a namorada, que, em um ano de relacionamento, nunca questionou ou teve qualquer tipo de problema com a identidade de gênero do publicitário –  mais uma prova de que, infelizmente, seu caso é um ponto fora da curva.

 

Deitada na cama, do outro lado do quarto que serviu de ponto de encontro entre mim e Murilo, Karen, uma baixinha ruiva de 20 anos, berra “libido” quando eu questiono seu namorado sobre eventuais mudanças na vida sexual desde o começo da sua transição. Meio constrangido, ele me responde que a sua forma de transar continua a mesma de antes, mas logo encerramos o tema, que não parecia trazer conforto para nenhum de nós três.

Sua companheira é peça-chave na nova fase em que Murilo se encontra. Depois de anos sem conseguir completar seu quebra-cabeça interno, parece que tudo começa a se encaixar. Quando eu, jurando-lhe ser a última pergunta, o questiono sobre a sua felicidade, ele não precisa nem refletir muito para me responder: “Eu acho que hoje eu ‘tô na melhor fase da minha vida, porra, sem sombra de dúvidas. ‘Tô feliz comigo mesmo. Óbvio, ‘tô feliz e ansioso para estar mais feliz comigo, por conta das mudanças físicas, eu tô muito esperançoso e muito ansioso para vê-las logo. ‘Tá tudo acontecendo, as coisas estão andando. Me descobri trans, isso foi muito bom. Consegui um trampo. Saí da casa dos meus pais. Então, assim, eu ‘tô na melhor fase da minha vida, sabe. Eu sinto que eu ‘tô amadurecendo muito rápido, e isso está sendo bom para mim. E eu acho que ser trans foi o empurrão, foi o que eu realmente precisava para minha vida andar. Era realmente descobrir que era isso que ‘tava faltando.”

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