Cultura Sociedade

Pixação: a cidade como um caderno de caligrafia

Por Natalie Majolo (nmajolo95@gmail.com)

Praças, parques, museus, cinemas, clubes, teatros e bibliotecas. Nem todos existem em todos os lugares, muito menos abertos gratuitamente ao público. Numa metrópole como São Paulo, diversão e lazer são caros – mesmo que o destino seja de graça. Ônibus, trem, metrô e mais um ônibus. Para quem mora longe, na periferia, é cara não só a locomoção, como o tempo.

Todo cidadão possui o direito de expressar sua cultura. Nem sempre, contudo, todos podem e sabem como e onde fazer isso: são poucos aqueles que têm uma voz que é escutada. Vivemos em cidades que carecem de locais públicos para convivermos e trocarmos experiências político-sociais; todo o resto não é nosso. Pessoas se escondem atrás de grades e seguram papéis que dizem que o espaço do muro pra lá é deles.

Veja o vídeo exclusivo produzido pela repórter Natalie Majolo, da J.Press:

Há décadas parte da paisagem das grandes cidades, o pixo ainda não é reconhecido como uma expressão artística. Como prática marginalizada, o pixo revela que, na cidade, o valor do patrimônio é maior do que o dos cidadãos. Leia mais na nova reportagem da J.Press e confira o vídeo!Por Natalie Majolohttp://bit.ly/1mpv7o1

Posté par Jornalismo Júnior (ECA-USP) sur vendredi 1 janvier 2016


Arte para quem te quer

A pixação é uma forma dessas pessoas que não têm acesso à cidade se expressarem. Carrega a mesma lógica perversa e egoísta da cidade. São pessoas que querem falar, mas que não têm espaço. Por não ter espaço, subvertem a norma patrimonial da urbe; fazem do espaço “dos outros” também o seu. Também deixam sua marca: a partir do momento em que fere algo do outro, o pixador, até então invisível, passa a ser enxergado.

São três as principais motivações para os pixadores se envolverem com a cultura de rua: lazer e adrenalina, reconhecimento social e protesto. A essência da pixação é a ilegalidade, o que é contraditório, tendo em vista que em nossa cultura, a tendência é a preservação do conteúdo artístico.

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Pixador no centro de São Paulo. (Foto: Circuito Fora do Eixo/Flickr)

De onde vem a sede de subversão

Não é de hoje que pintamos as paredes para nos expressarmos. A cidade de Pompeia existiu durante a Roma Antiga. O vulcão próximo dali explodiu com tamanha voracidade que cobriu toda a zona urbana. Por causa da lava, tudo acabou sendo preservado exatamente como estava durante o momento da explosão. O sítio arqueológico é escavado desde o século XVIII. Dentre as descobertas, estão os escritos nas diversas paredes da cidade. Mensagens de amor, de escárnio, expressões culturais de uma época imemorável. Conteúdo preciosíssimo para traçar quem eram e o que faziam as pessoas que ali moravam. Mas isso não é a pixação como conhecemos hoje em dia.

A pixação começou como um movimento político contra a ditadura. Depois surgiu a pixação poética, espalhando versos líricos pelos muros. Na década de 80, veio a pixação de São Paulo, focada no ego do pixador. Um dos precursores foi o “CÃO FILA KM 26”, um homem que tinha um negócio de venda de cachorros da raça fila e saiu pixando pela cidade a propaganda do seu negócio.

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Foto de matéria de 1977 da revista “Veja” sobre Antenor Lara Campos, conhecido como Tozinho, que se utilizou de um precursor do pixo como propaganda do seu negócio. (Foto: Sérgio Sade)

O movimento em si migrou do movimento punk. O intuito era agredir a sociedade e não se comunicar com ela – somente entre os próprios pixadores. Cada indivíduo ou grupo tem um “logomarca” única. Por ela, os pixadores se arriscam nos mais diversos locais da cidade, rabiscando do chão até os prédios mais altos. Como um imenso caderno de caligrafia, a pixação segue as linhas da cidade.

O pixo como expressão artística acaba sendo duplamente marginalizado, afinal além de não ser apenas compreendido por quem está no meio, também contrapõe e questiona a arte tida como verdadeira. Pelo fato de contrapor o que os que estão no poder chancelam como uma arte digna, o pixo é criminalizado. Ou seja: para alguns é expressão artística, para outros é crime.

Tal como a síndrome do vira-lata, vemos para além do Atlântico a inspiração do que desejamos desde 1500: queremos ser o outro. Ou ao menos alguns querem que sejamos. O outro, muito mais digno, de cultura mais elevada, e que deve ser preservada. Nós próprios nos vemos como indignos de preservar algo, como se não tivéssemos história. A apagamos constantemente numa forma de amenizar o cheiro de sangue da nossa pátria amada.

Não só no Brasil, mas em toda a América Latina, a tendência é apagar essa história e implantar a “modernidade”. As cidades se modificam e se reconstroem na velocidade do capital – diferentemente dos nossos colonizadores, por exemplo, cuja tendência da cidade é preservar a história daquele lugar. Presente muito mais em São Paulo, a pixação parte do princípio de que um dia será apagada. É uma arte temporária.

O pixo também é estudado

Arqueologia não é somente o estudo dos povos antigos, nem apenas de ossos ou de vasos, mas também o estudo de todo e qualquer material produzido e utilizado pelo ser humano. Portanto, a arqueologia estuda o fomos e o que somos. A partir daí, é possível traçar os costumes e a cultura daquele povo em determinado período.

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Renato e Erberto fazem grapixo em muro em Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo. (Foto: Natalie Majolo/Jornalismo Júnior)

Existe um ramo da arqueologia que estuda a cidade, como ela se forma e como vivem e viveram as pessoas que ali habitavam. Por causa desse constante reconstrução presente na América Latina, muito conteúdo material que poderia ser estudado sobre as transformações sociais do ser humano é perdido.

“O olhar arqueológico pode problematizar isso para além desse senso comum que olha a pixação como a destruição de alguma coisa. São poucos os olhares que associam o grafite e a pixação a uma expressão urbana, uma prática cultural urbana. Essa prática na verdade ela é vista como algo que está ‘destruindo o urbano’, e não construindo ele”, afirma o arqueólogo Rafael.

No Brasil existe uma visão de patrimônio muito forte: ele está congelado no tempo, e nada pode acontecer com ele ou naquele lugar. Se esta arte está numa parede de um patrimônio, ela é vista como algo relacionado à criminalidade. Portanto, a arqueologia poderia problematizar muito mais essa prática: olharmos para esses grupos que estão pintando, o que aquilo representa pra cidade.

Nós olhamos o pixo como se ele não fosse uma etapa daquele momento, daquele lugar. “Na história daquele determinado lugar, daquele patrimônio, a arte urbana também faz parte. Não é que ele está destruindo a história do lugar, ele é a história do lugar”, completa Rafael.

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Senhor retira pixação de fachada na rua Augusta, centro de São Paulo. (Foto: Natalie Majolo/Jornalismo Júnior)

Quando Rafael foi fazer sua pesquisa de arqueologia urbana, estudou as expressões artísticas presentes numa antiga fábrica têxtil. Ela estava “abandonada” na visão patrimonial, mas ocupada por pessoas. “O discurso de patrimônio era muito forte em relação àquilo que devia ser preservado. Ali era um lugar ocupado constantemente por pessoas: um grupo de jovens que não tinha espaço aonde pudesse ir e se relacionar com outras pessoas. Mas como essas pessoas são vistas como marginais a quem estava aplicando o discurso, o lugar estava abandonado – e não ocupado. à medida que eles ocupam, tudo é ressignificado.”

Ou seja, não devemos reafirmar o discurso de “vândalos destruindo patrimônio”, mas sim que esses grupos estão se reapropriando do espaço do qual eles não estão autorizados a entrar por uma questão de poder hierárquico. “Eles têm uma complexidade cultural e simbólica, e estão não só se reapropriando, como também subvertendo diversas ordens que vêm de cima: a lógica de não modificar o espaço”, completa Rafael.

O estudo do grafite e da pixação é uma ponte para que a sociedade enxergue mais a arqueologia não como algo que estude apenas o passado, mas também o presente. “É preciso que a arqueologia estude e questione a atualidade. Ao estudar essas expressões urbanas, questionamos nossos princípios não só como arqueólogos, mas como cidadãos de uma cidade”, finaliza Rafael.

Dica: para saber mais sobre pixação, não deixe de ver o documentário “Pixo”, de João Wainer e Roberto Oliveira.

J.Press
A Agência J.Press de Reportagens é um espaço destinado à publicação e divulgação de matérias com abordagens inovadoras. Vinculada à empresa Jornalismo Júnior, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a agência busca novas formas de explorar assuntos de interesse público por meio do jornalismo.

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