Falar de suicídio enquanto há vida

Por Giovanna Wolf Tadini (giwolftadini@gmail.com)

Segundo o primeiro relatório sobre a prevenção do suicídio divulgado em 2014 pela Organização Mundial de Saúde (OMS), depois de dez anos de pesquisas, mais de 800 mil pessoas morrem por suicídio todo ano, aproximadamente 1 pessoa a cada 40 segundos. Além disso, o suicídio é a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Especificamente no Brasil, a cada 45 minutos alguém morre vítima de suicídio, ou seja, 32 mortes por dia. Diante de números alarmantes, a OMS coloca o suicídio como um problema mundial de saúde pública.

Um dos maiores entraves ao se tratar dessa questão é o tabu que a cerca. Talvez por ser execrado em determinadas religiões, por carregar tristezas e remorsos, por lidar com o desconforto do ser humano em relação à morte, ou por acabar lembrando da fragilidade humana, fala-se pouco sobre suicídio. Assim como já houve avanço no tratamento de várias doenças que carregam tabus, como as sexualmente transmissíveis, o primeiro passo para desenvolver formas de ajuda e prevenção é falar sobre o assunto, a fim de conhecê-lo melhor.

Felizmente, a nível governamental, já há preocupação com “o falar” sobre suicídio. O próprio trabalho da OMS na conscientização da dimensão do problema e no incentivo a técnicas preventivas é expressão disso. No Brasil, o Ministério da Saúde instituiu em 2006 as Diretrizes Nacionais para Prevenção do Suicídio, a fim de articular organizações para que sejam desenvolvidas estratégias de prevenção.

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Quadro encostado na estante do Centro de Valorização da Vida em Pinheiros, São Paulo. (Foto: Giovanna Wolf Tadini/Jornalismo Júnior)

Já a abordagem da mídia é alvo de questionamentos. Para a OMS, uma das formas de prevenção é evitar que se fale sobre suicídio de forma sensacionalista e evitar a descrição detalhada de métodos utilizados no suicídio de alguém famoso e que é noticiado na televisão, por exemplo. Por isso é necessário cuidado ao tratar de um assunto complicado como o de tirar a própria vida.

Grande parte da tarefa preventiva é competência de profissionais da área da saúde, como psicólogos e psiquiatras, que têm formação acadêmica na área. Apesar de todos nós convivermos com o tema suicídio de forma indireta e na maioria das vezes velada, há quem opte, mesmo sem ser profissional de saúde mental, por lidar com ele mais diretamente, oferecendo seu ouvido e, consequentemente, sua ajuda. Nesse caso, falar sobre suicídio se aproxima ao senso comum e, sendo mais palpável, se torna um exemplo de como um ser humano sem formação em saúde mental pode falar sobre um assunto tão delicado.

Antônio é voluntário na ONG CVV (Centro de Valorização da Vida), que existe há 53 anos e tem como missão prevenir o suicídio. É um trabalho semelhante ao que é feito em várias entidades ao redor do mundo: ajuda emocional por telefone, chat, e-mail, correspondência ou pessoalmente, nas sedes. Em 1973, o CVV foi reconhecido como entidade de utilidade pública federal e em 2004 e 2005 fez parte do Grupo de Trabalho do Ministério da Saúde para definição da Estratégia Nacional para Prevenção do Suicídio.

Antônio é profissional da área de Ciências Exatas e voluntário do CVV há 15 anos. Na década de 80, interessou-se por uma propaganda do CVV em que um rapaz tentava pegar um telefone, mas sua mão o atravessava; assim, transmitia-se a mensagem de que, talvez, se ele tivesse conversado com alguém, não teria se suicidado. Anos mais tarde, Antônio estava conversando com uma boa amiga quando descobriu que ela era voluntária da ONG. Ele pediu informações, quis saber mais sobre o trabalho e um ou dois meses depois se inscreveu no treinamento para voluntários.

No treinamento, gratuito, que normalmente dura 8 semanas, conhece-se melhor a organização e o trabalho do CVV, as características que o voluntário  deve ter e procura-se entender quem é essa pessoa do outro lado do telefone que liga para a ONG. “Essa pessoa é qualquer um que queira comunicar algo que está acontecendo com ela e que não tem com quem dividir”, diz. Os voluntários fazem exercício para aprenderem a ouvir melhor, como escutar uma música e tentar entender o que o autor quer dizer.

O CVV se propõe a falar do suicídio falando da vida, da dor e do sofrimento, e, assim, se coloca à disposição daqueles que, por algum motivo, seja para não influenciar na relação com o outro, seja para evitar levar mais dificuldades, não compartilham sua situação com as pessoas ao seu redor. Antônio conta que cada ligação é sempre nova. Ele dedica seu tempo para que a pessoa desabafe, se sinta acolhida e se alivie de alguma forma com essa comunicação. Não há pressupostos, julgamentos e avaliações por parte do voluntário, ele é treinado para ouvir e compreender, de forma humana e não automática. Ele comenta que quando a vida não se mostra de forma colorida, o trabalho do CVV às vezes pode ser determinante para alguém seguir caminhando: “de repente encontrar um espaço onde você possa falar, se fortalecer e encontrar um colorido (você encontrar, não sou eu que vou te dar essa cor) talvez faça toda a diferença.”

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(Ilustração: Antonio Victor Wolf Tadini)

 

Todo momento na conversa durante a ligação é valorizado. Até um silêncio merece valor: “A gente sabe que está sendo comunicado algo e a gente atende a esse comunicado também, de alguma forma, falando sobre isso e prestando atenção em como a pessoa está.” E como lidar com alguém descrente da vida, em estado de desespero, tristeza ou angústia? Antônio explica que, se a pessoa estiver em desespero, ela deve falar sobre seu desespero e quem sabe ela se esvazie falando, veja forma e significado naquilo e se restruture. “Se eu falar ‘calma’ eu não estou indo ao encontro dela, eu estou indo de encontro a ela”, diz. O CVV pensa que a ligação não é uma discussão, não é conflito: é uma conversa. Dessa forma, o principal trabalho da ONG seria ouvir atenciosamente o outro lado da linha, de forma acolhedora, e nunca ser um desconhecido que tenta resolver um problema complicado em cinco minutos, dando conselhos.

E dentro dessa proposta, Antônio esclarece que os voluntários não são terapeutas: “Estamos aqui na linha de frente, o CVV é um lugar pra pessoa comunicar o que está acontecendo com ela.” Apesar de alguns profissionais da área da saúde serem parceiros na construção e na forma de ser do CVV, são tipos de ajuda distintos: a ONG se propõe a escutar sempre, sem diferenciações entre os que ligam (um esquizofrênico vai ser escutado da mesma forma que uma pessoa que está apenas estressada), enquanto o tratamento das pessoas com foco nas patologias é competência da área da saúde.

Antônio menciona também que o CVV entende que há muitos problemas de comunicação no suicídio. “Se a gente olhar os bilhetes deixados, as pessoas contam as histórias de como os outros não percebem que ela está sofrendo. Não por culpa das pessoas, porque essa comunicação é muito difícil”. Ele argumenta que pensamentos como “ele estava normal e se jogou da janela” são frequentes e expressam essa falta de comunicação que cerca o suicídio. Por isso, a ONG valoriza tanto o falar: dentro de um sentimento de ambivalência, em que o instinto de preservação da vida e a angústia de não saber como resolver aquele problema doloroso contrapõem-se, talvez o ato de falar pudesse equilibrar essa balança.

Longe de ser um assunto confortável de se falar em um bar com os amigos, o tema suicídio incomoda por vários motivos e há notadamente uma dificuldade interior da essência humana de lidar com o assunto. É um grave problema mundial de saúde pública e por isso falar é necessário, embora exija cuidado. A existência humana é frágil e a humanidade precisa falar sobre isso, tentar digerir – por mais amarga que seja – essa sua condição, para ter como refletir (e discutir) sobre o arbítrio entre a vida e a morte e sobre as formas de cuidar das vidas.

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3 thoughts on “Falar de suicídio enquanto há vida

  1. Muito to bom seu artigo,parabéns para falar de um tema complexo se faz necessário enter mais sobre o tema.
    E como faço par participar como voluntária da ONG?
    Grata

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