Economia Sociedade

Muito além das xícaras

Por Carla Monteiro (carlamonteiro02@gmail.com)

Quarta-feira, cinco e meia da manhã, ainda não amanheceu e faz muito frio. Quebrando o silêncio da escura madrugada de uma pequena cidade no interior de São Paulo, soa o ronco dos motores dos antigos veículos coletivos de transporte rural. Dezenas de trabalhadores realizam migração pendular, não do modo convencional como estamos acostumados a ver – entre uma cidade satélite e uma metrópole. Desta vez o estéril turbilhão da rua, da cidade é deixado para trás; o destino será a serra, a terra. Enquanto milhões de pessoas preparam sua primeira refeição do dia passando aquele cafezinho preto básico, sagrado, de todos os dias, pequenos grupos de lavradores, em esmagadora diferença numérica em relação aos urbanos, arregaçam as mangas e partem para mais um dia de labuta, trabalhando na produção do fruto que dará origem àquele saboroso líquido negro, sagrado, de todos os dias: o café.

Quando um lavrador se predispõe a enfrentar o sol, os insetos e a brutalidade do trabalho braçal, ele atua na colheita, a parte inicial do longo processo que o fruto possa até chegar às nossas mesas. Nesse momento, a figura do trabalhador rural é indispensável.

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Lavrador realiza a abanagem, processo que separa os grãos do café de impurezas. (Foto: Carla Monteiro/Jornalismo Júnior)

 

Nas plantações, tudo começa com a derriça do café, etapa na qual o fruto é retirado do pé e derrubado junto ao chão. Ali, separa-se as folhas e algumas outras ‘impurezas’. Parte-se, então, para a fase que é considerada a mais difícil e a que requer mais habilidade: a abanagem. Nesse instante, os rurais colocam pequenos montes de café em peneiras para realizar movimentos que visam à separação dos grãos de café da sujeira da terra (ciscos, areia, pequenos galhos, etc). Feita esta limpeza, colocam-se os grãos do fruto em sacos para a conclusão da colheita.

Com um rosto negro e surrado pelo sol e com as mãos ásperas e calejadas, dona Irma, de 56 anos, conta que a vida inteira trabalhou na lavoura – de café e outros produtos agrícolas. No ano passado, ela conseguiu sua aposentadoria e, agora, para completar seu orçamento, ela trabalha na colheita do café durante a alta temporada do produto, que vai de maio a agosto. Dona Irma diz que é isso o que ela sabe e gosta de fazer mas tem uma coisa a se queixar.

“Nós trabalhamos tanto para ganhar tão pouco. Os preços das coisas sobem e o preço do saco abaixa”, reclama. Dona Irma e seus companheiros trabalham por empreita, ou seja, recebem de acordo com o tanto que trabalham. Nesse caso, o parâmetro de medida do salário do lavrador é o preço pago pelo saco de café colhido. Ao se queixar que o “preço do saco abaixa”, ela expõe o seu descontentamento com o fato de que no começo da colheita o valor pago por saco de café colhido era 10 reais, no entanto, esse valor abaixou para R$ 8. “Pra mim, está difícil porque eu consigo tirar só dois sacos por dia, aí fica pouco”, conclui.

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(Foto: Carla Monteiro/Jornalismo Júnior)

 

Eu trabalho na roça desde os oito anos de idade. Quando eu tinha treze, vim pra São Paulo [estado] com meu pai. Era pra trabalhar no café, porque lá na Bahia não tinha mais serviço. Naquele tempo não tinha lei, então meu pai já me trazia pra trabalhar desde criança pra não faltar comida em casa né”, lembra o sr. João Francisco. Baiano por natureza,  ele descreveu, de peito aberto e com muito orgulho, como foi exatamente os caminhos traçados por ele, e a família, que os levaram até a agricultura.

Acompanhando seu pai, que saiu da Bahia em busca de trabalho no interior de São Paulo, sr. João Francisco encontrou na lavoura a atividade que o acompanharia pelo restante de sua vida. Hoje, já aposentado aos 69 anos, ele lamenta que a labuta rural esteja tão desvalorizada e tão pouco procurada pelas novas gerações. “Olha, eu trabalhei por 36 anos numa única fazenda, com um único patrão. Mas, hoje, a moçada não quer nem saber da roça porque é ruim o salário e é ruim o trabalho”, lamenta. Nenhum de seus filhos decidiram-se por seguir os passos do pai, como este fizera durante a juventude. João Francisco reconhece que as condições do trabalho rural não são nada atrativas, no entanto ele não abandona a roça. “Hoje em dia tem o estudo, tem o trabalho na cidade. Só que eu ainda venho aqui [trabalhar na colheita do café]. Estou aposentado, mas não largo o osso. Aqui agora eu venho pra passar o tempo”, ele comenta, rindo.

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O café tem uma destacada posição na história do Brasil, sobretudo em São Paulo. (Foto: Carla Monteiro/Jornalismo Júnior)

O Brasil possui um passado dourado na produção cafeeira. O destaque fica com o estado de São Paulo, cuja economia era movida, basicamente, pela alta produtividade do grão no século XIX e início do século XX. Assim como o sr. João Francisco, que saiu da Bahia em direção a São Paulo, muitos imigrantes deixaram suas casas buscando trabalho nas lavouras do café paulista. O japonês Shunji Nishimura foi um desses imigrantes e deixou sua marca história da cafeicultura brasileira. Em 1979, Nishimura lançou, na cidade de Pompeia (interior de São Paulo), a primeira colheitadeira de café do mundo. A máquina derriçava, recolhia, abanava e ensacava o café, substituindo toda a mão de obra humana envolvida na colheita do produto, motivo de grande surpresa na época. Nishimura morreu em 2010 aos 99 anos e deixou um grande legado tecnológico para a sua cidade. A Faculdade Tecnológica (FATEC) Shunji Nishimura é o único instituto do país especializado em tecnologia e mecânica agrícola.

O estado de São Paulo foi o mais importante cenário cafeeiro do país, no entanto esse legado pertence ao passado. Dados de 2014 do Ministério da Agricultura apontam Minas Gerais como a unidade da federação campeã na produção de café. Segundo o Ministério, Minas é responsável por quase metade do café produzido no Brasil: a contribuição do Estado corresponde a 49,9% da safra brasileira. Aproximadamente 45 milhões de sacas de 60 kg totalizaram todo o café que o Brasil produziu em 2014, esses números fazem do nosso país o maior produtor e exportador do grão. Uma quantidade quase imensurável que sacia os apaixonados por aquele cafezinho.

J.Press
A Agência J.Press de Reportagens é um espaço destinado à publicação e divulgação de matérias com abordagens inovadoras. Vinculada à empresa Jornalismo Júnior, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a agência busca novas formas de explorar assuntos de interesse público por meio do jornalismo.

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