Backstage: o trabalho dos humoristas na era digital

Por Marina Caporrino (marinamcapo@gmail.com)

O fato de que a internet e os celulares revolucionaram o cotidiano das pessoas já é do conhecimento de todos. Atualmente, é muito difícil de ver alguém que não faça uso dessas tecnologias tão práticas. As facilidades que elas trouxeram à vida corrida das pessoas ajudam muito em obrigações do trabalho verificar o e-mail, marcar e desmarcar reuniões com agilidade, e tantos outros usos. Porém, a vida não é só feita de trabalho. O mundo das informações e das notícias também se tornou mais dinâmico e acessível, obrigando diversos veteranos da comunicação a se readaptarem. Muitos jornais e revistas aderiram a publicações online, além de criarem páginas em redes sociais.

Para além do mundo do trabalho e da notícia, também se passaram diversas mudanças. O entretenimento da sociedade e das novas gerações se remodelou ao estilo conectado. Hoje, jogos e aplicativos são uma escapatória muito acessível ao trânsito ou ao transporte público lotado. Cada vez mais surgem aplicativos para a diversão de diversas idades – até mesmo para bebês – e para diversos gostos.

Dentro do mundo do entretenimento e da diversão, um grupo se beneficiou das novas plataformas digitais e, cada vez mais, conquista espaço online e se destaca: os humoristas. Canais de humor no YouTube crescem de forma vertiginosa e congregam diversos fãs que, muitas vezes, não conheciam o trabalho do humorista antes do canal.

A facilidade que se tem hoje de acessar um vídeo de humor pelo celular enquanto volta para casa e aliviar parte do estresse do dia é muito grande. E essa facilidade é explorada dos dois lados, tanto por parte do espectador, que cada vez mais procura humoristas novos, quanto por parte dos comediantes, que têm a possibilidade de divulgar o trabalho deles para um número maior de pessoas.

No entanto, além de ser um meio para mostrar o trabalho do humorista, a internet também é um meio para fazer algo diferente. Para Cristiane Werson, integrante do grupo humorístico As Olívias, a internet trouxe a possibilidade de colocar em vídeo o que elas não faziam no teatro: “A gente é um grupo de teatro, mas a gente sempre gostou de vídeo, sempre quisemos fazer coisas em TV. E a internet veio muito a calhar, pois ela foi exatamente o meio termo disso. Então a gente criou uma websérie porque a gente tinha vontade de fazer coisas que não cabiam no teatro”.

E se engana quem pensa que para o comediante a internet é o meio mais livre, no qual se pode “falar tudo”. A liberdade na internet pode parecer gigante, porém esbarra no fato de o meio ser traiçoeiro, do qual muitas vezes não se consegue retirar um conteúdo publicado. Cada um se torna um alvo para interpretações diversas e consequências sérias, como processos judiciais.

Para Cristiane, o meio que permite mais liberdade ao trabalho dos comediantes continua sendo o teatro. Ela ressalta, ainda, que o público que costuma ir a peças tem a interpretação diferente do público do YouTube: “As pessoas que vão ao teatro estão mais habituadas com essa linguagem, com a transgressão da arte, coisa que na internet a maioria não está.”

Nem tudo são flores

Não só na facilidade de acesso, a internet ajudou o trabalho dos humoristas em diversos outros aspectos. Os trabalhos online abriram as portas para o trabalho na televisão para muitos artistas. Além disso, eles são importantes na divulgação dos próprios espetáculos teatrais. Anderson Bizzocchi, integrante da Cia. Barbixas de Humor, destaca o papel da internet como fundamental no trabalho de divulgação do grupo: “O erro de muitas mídias é pensar a internet só como um canal bônus e na verdade ele é nosso principal canal de divulgação e informação. Quando fazemos apresentações pelos teatros do Brasil, os ingressos esgotam muito antes dos produtores locais fazerem anúncios em mídias ‘tradicionais’ (rádio e TV)”.

Além da divulgação em território nacional, a internet também possibilitou que outros países entrassem em contato com os comediantes brasileiros. Essa aproximação nova trouxe um público internacional que, além de acompanhar os vídeos, também lota os teatros quando possível. Anderson ressalta o interesse do público de outros países nas apresentações teatrais do grupo: “A internet não tem fronteiras, já recebemos pedidos de apresentações em diversos lugares como Japão, China e Portugal. Neste último, conseguimos ir em 2011 para fazer três apresentações com ingressos esgotados no Teatro Tivoli, em Lisboa. É muito legal saber que você cria algo que pode ser visto por qualquer pessoa no mundo.” Com esse público diferente, os temas tratados pelos comediantes são amplos, como Cristiane destaca: “Como você atinge todo mundo, não precisa pensar num público brasileiro, você pode pensar num público do mundo.”

O fato de que as novas plataformas digitais trouxeram pontos positivos para o trabalho dos comediantes é consenso entre os dois humoristas, mas será que houve algum tipo de impacto negativo?

Muitas pessoas podem pensar que com os vídeos disponibilizados gratuitamente na internet, o público do teatro tenha diminuído – o que seria um contra. Porém, isso não se confirmou: o público aumentou, criando-se sessões extras em outros Estados e países.

Para os dois, os impactos foram somente positivos.

INFOGRAFICO FINALMENTE
Arte: Marina Caporrino

Para além da piada de loira

Apesar de todas as coisas boas que a internet trouxe para o humor, nem tudo são mil maravilhas. Ainda há um número muito grande de pessoas que fazem humor com base em preconceitos e um número ainda maior de pessoas que riem disso.

Essa banalização do humor é uma realidade viva no Brasil e ocorre por que o humorista tenta adaptar seu humor à mentalidade do público. Para Cristiane, esse é um grande erro, que deve ser superado pelos artistas de forma geral (não só humoristas).

O artista deve superar os limites do senso comum. Se hoje o senso comum é o humor preconceituoso, o humorista deve superá-lo e não se adaptar a ele. Cristiane acredita que ultrapassar esses limites e fazer um humor de extrema acidez seja o ponto principal do humor, mesmo que isso signifique que poucas pessoas irão entender e irão gostar.
A gente tá voltando no tempo, a gente tem um humor muito babaca e as pessoas riem. Quanto mais babaca, mais as pessoas riem. Eu acho que tem que ser ao contrário, você não vai atingir todo mundo, mas você tem que fazer um humor que reflita a sociedade bizarra que a gente vive. O artista nunca vai estar dentro da sua época, ele sempre vai ser meio que o ‘anticristo’”.

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