“Velha demais” uma ova!

Por Bianka Vieira (bianka.vieira2@gmail.com)

Vivemos um tempo em que o avanço científico e a soma de políticas de bem-estar social têm favorecido o envelhecimento populacional em diversos países ao redor do mundo. O aumento expressivo na expectativa de vida do brasileiro nos tem levado ao que se entende por transição demográfica, onde o número de jovens tem se revelado inferior ao de idosos, em comparação a décadas anteriores.

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Infográfico revela a inversão gradual na pirâmide etária brasileira. (Arte: Revista Nova Escola)

A partir de uma perspectiva de gênero, percebe-se o que muitos cientistas sociais entendem por “feminização da velhice”: as mulheres, em média, não somente vivem mais que os homens (eles, 71,3 anos; elas, 78,6 anos), como também representam a maior parte da população idosa.

Ser mulher é, historicamente, uma condição de existência sujeita a uma série de opressões sociais sofridas ao longo de uma vida inteira. Ao se deparar com o envelhecimento, essa cultura passa a ser reforçada por novos arquétipos, o que não torna as perspectivas para o sexo feminino melhores.

Nesse processo, o corpo é o primeiro a ser condenado. A chegada de rugas, dos fios brancos, a flacidez e os seios mais “caídos”, ainda que sejam marcas naturais do tempo, são impostos à mulher de forma arbitrariamente negativa, o que torna quase impossível não associar a velhice a uma jornada decadente para o sexo feminino.

De acordo com o relatório divulgado pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS, na sigla em inglês) em julho deste ano, somente em 2014 foram realizados 2.058.505 procedimentos estéticos cirúrgicos e não-cirúrgicos no Brasil. Apesar de ter perdido a liderança no ranking mundial para os EUA, esses dados representam 10,2% de todas as intervenções realizadas no mundo inteiro, colocando o país à frente de potências como Japão, Alemanha e França.

Mais do que o apreço do brasileiro pela simetria estética, é importante analisar a presença feminina no mercado dos bisturis. Dos números levantados, 86,3% representavam procedimentos realizados em mulheres, sendo que mais de 40% delas possuíam idades entre 35 e 50 anos.

Para Mirian Goldenberg, doutora em Antropologia Social, pesquisadora e docente na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), isso ocorre pelo fato de o corpo, principalmente o feminino, ser visto no Brasil como um capital. “Obviamente, numa cultura em que o corpo é uma espécie de bem material, as mulheres se sentem perdendo capital quando envelhecem. Elas perdem a juventude, perdem uma série de coisas consideradas de valor para as mulheres. A cultura faz com que elas se sintam assim”, afirma.

Mirian - Leandro Pagliaro
Antropóloga e colunista do jornal Folha de S. Paulo, Mirian rompe com o ideário invisível, triste e decadente que se tem sobre a velhice em sua obra A Bela Velhice. (Foto: Leandro Pagliaro/Revista TPM)

É claro que as presenças midiática e publicitária não devem ser esquecidas quando se aborda o envelhecimento feminino. Enquanto os homens aspiram a atuar como galãs em filmes, novelas e propagandas à medida em que envelhecem, as mulheres são submetidas aos papéis de mães, avós, governantas e assim por diante. Além disso, são raros os casos em que elas são apresentadas como pessoas que envelhecem naturalmente, senão com a intervenção de maquiagens pesadas e cabelos tingidos.

A psicóloga junguiana Daniela Bernardes de Oliveira reforça esse ponto. “De alguma forma, envelhecer na nossa sociedade tornou-se uma espécie de crime, principalmente para as mulheres. O tempo todo, nós somos bombardeadas com várias formas de retardar esse envelhecimento, seja com cremes antirrugas, tintas para o cabelo ou roupas que nos fazem parecer mais jovens. Fala-se pouco sobre como tornar esse envelhecimento mais saudável e muito sobre retardar esse envelhecimento”, diz.

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Ao contrário do que é pregado pelo mundo estético, as rugas e os fios brancos trazem ao envelhecimento muitos encantos. (Foto: Alex Ten Napel)

 

Outro ponto que chama bastante atenção, para além da rejeição do corpo, é a supressão da sexualidade da mulher mais velha. Com a chegada da menopausa, é comum que haja alterações constantes de humor, diminuição do desejo sexual e, até mesmo, desconforto durante a relação. Obviamente, todos esses fatores contribuem para mudanças notáveis na vida sexual, porém, mais uma vez, alguns rótulos e padronizações pesam muito mais do que os fatores fisiológicos em si.

Prova disso é a inibição sexual existente mesmo entre aquelas que optam por tratamentos de reposição hormonal. Muitas se queixam sobre se sentirem desvalorizadas sexualmente, como se o envelhecimento as fizesse perder algum tipo de atrativo. Nesse sentido, é comum que a maioria se mostre desalentada quanto a experiências amorosas e sexuais, entendendo isso como uma realidade possível somente para as mais novas.

Também fundadora do grupo terapêutico Resgatando a Mulher Selvagem, Daniela Bernardes de Oliveira fala sobre como essa falta de visibilidade pode ser extremamente prejudicial. “Sexualmente, o velho é considerado um incapaz. As pessoas não esperam que o avô ou a avó tenham vida sexual, sendo que para a mulher é pior ainda. Mas quem disse que as rugas e os cabelos brancos são um impedimento para a vida sexual? Infelizmente, há essa questão na sociedade e isso faz com que a pessoa se encolha, se diminua e se deprima mais cedo. Algumas chegam a desenvolver problemas de memória que podem ser confundidos com doenças mais graves como o Alzheimer, por exemplo”, afirma.

Vê-se, dessa maneira, como o estigma acerca do sexo impera de forma pungente quando se é mulher. Aquelas que não correspondem às tendências conformistas de sua idade, por sua vez, são vistas como senhoras pouco respeitosas e inadequadas e, ocasionalmente, são ridicularizadas, como se estivessem tentando agir como as jovens meninas que não são.

Em seu livro A Bela Velhice, Mirian Goldenberg revela alguns dados apurados após entrevistas com os dois grupos, mostrando como homens e mulheres envelhecem de forma diferente. Além de expressarem mais medo de envelhecer do que eles, elas saem em desvantagem quando os homens são representados como o grupo que chega à velhice mais satisfeito por suas realizações e conquistas pessoais ao longo da vida. Ainda, a distinção entre os sexos também se fez notável quando os homens eram vistos como “velhos charmosos”, enquanto as mulheres eram pouco estimadas.

Em contrapartida, quando o conjunto das entrevistadas possuía mais de 60 anos, os resultados eram diferentes. Aparentemente, enquanto um grupo de mulheres está lidando com alguns aborrecimentos advindos com a idade, o outro está satisfeito na plenitude dos benefícios adquiridos com a passagem do tempo. “As mulheres investem muito no corpo, isso faz com que elas sintam um certo pânico da decadência. Na fase dos 40, 50 anos, elas ainda sentem esse medo, mas, depois dos 60, dão um basta à cultura da juventude. Nessa idade, quando ocorre a libertação da cultura da aparência, são priorizadas a saúde e a qualidade de vida. Se antes viviam para agradar e seduzir ao outro, ao ter a possibilidade de serem elas mesmas, elas chegam na idade do ‘foda-se’”, esclarece a autora.

A chegada da idade consiste em inúmeras mudanças e, portanto, em um processo nada fácil. Isso, porém, não significa que tentar se esquivar dela a todo custo seja a melhor solução. Em um relato pessoal, Daniela compartilhou a experiência de seu aniversário de 40 anos e o espanto das pessoas ao seu redor ao perceberem o quão satisfeita ela estava por sua idade. “Eu me senti o máximo fazendo 40 anos. Não porque eu seja perfeita, tenha um corpo ou uma vida perfeita, mas porque foi uma vida plenamente vivida. Meu corpo tem marcas disso, meu rosto tem marcas disso”, conta com satisfação.

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Daniela Bernardes de Oliveira, psicóloga e mentora do Resgatando a Mulher Selvagem, baseia-se na obra da psicanalista Clarissa Pinkola Estés para empoderar mulheres ao seu redor e a si mesma. (Foto: Arquivo Pessoal)
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