Olhos voltados ao espaço

O nordeste como principal pólo astronômico e aeroespacial brasileiro

Por Aline Naomi (aline.naomi.mb@gmail.com) e Carolina Marins (carolinamarinsd@gmail.com)

Todos os brasileiros conhecem as praias nordestinas, se não pessoalmente, por fotos ou por ouvir falar. A costa do nordeste abriga inúmeras paisagens entre as mais belas do mundo, mas a beleza da região também se encontra em um lugar pouco levado em conta pelos turistas, porém que não escapa aos olhos da ciência: o céu. O nordeste brasileiro possui um importante polo astronômico e aeroespacial.

Há apenas três universidades brasileiras que oferecem o curso de Astronomia: a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade de São Paulo (USP), que contam com o curso propriamente dito, e a Universidade Federal do Sergipe (UFS), que possui o curso de Física com Habilitação em Astronomia. A UFS surpreende por estar fora do eixo Rio-São Paulo e também por ser a única opção no Brasil fora desse eixo, apesar de o nordeste ser um campo extremamente promissor para quem quer estudar o universo.

A região agrupa inúmeras sociedades astronômicas, tais como a Sociedade Astronômica do Recife (SAR), Associação Astronômica de Pernambuco (AAP), Associação Paraibana de Astronomia (APA), entre várias outras. Todo ano acontece no Nordeste a EANE (Encontro de Astronomia do Nordeste) que em 2015 alcançou a sua 15ª edição, reunindo os clubes de astronomia do Nordeste, além de receber astrônomos profissionais e amadores. Este ano o evento ocorreu nos dias 4, 5 e 6 de junho em São Cristóvão, em Sergipe.

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Observatório Astronômico da Sé em Olinda, Pernambuco. (Foto: onordeste.com/Reprodução)

Além da EANE, há o ENAST (Encontro Nacional de Astronomia) onde o nordeste marca presença em peso. Everaldo Faustino, presidente da Sociedade Astronômica do Recife (SAR), anfitriã do ENAST em 2010, nos contou sobre o evento: “É uma reunião anual, organizada por astrônomos profissionais e amadores, que ocorre desde 1998 em várias cidades do Brasil. O objetivo é promover o intercâmbio entre as várias associações, entidades nacionais, astrônomos amadores e interessados que desenvolvem projetos de ensino, divulgação e pesquisa em Astronomia. Os encontros contam com a participação de grupos de Astronomia de todo o país. O encontro de 2010, foi organizado por uma parceria entre a SAR, o CEA – Centro de Estudos Astronômicos, Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) –  e o Grupo Céu de Pernambuco. Tivemos a presença de alguns Astrônomos profissionais, além de outros astrônomos amadores presentes que contribuíram realizando apresentações orais”.

Dentre as atrações do ENAST de 2010, Faustino destacou os 400 anos de Georde Marcgrave; Do Big Bang à matéria escura; Gravitação, buracos negros e alternativas e Modelos pedagógicos no ensino da astronomia. “O evento foi o primeiro, com conteúdo astronômico, deste porte” , conclui.

Infelizmente os estudos ainda não trazem um forte retorno financeiro para a região, principalmente por causa do baixo investimento que os clubes recebem, porém o retorno social é bastante destacado pelo presidente da SAR: “O retorno social é bastante visível. Como levamos a Astronomia para as regiões mais carentes deste tipo de evento, vemos o interesse das pessoas por este tipo de assunto. Além disso as crianças adoram tudo isso. Observamos que o interesse delas pelas ciências tem aumentado bastante. Com o término da construção do Observatório Astronômico que estamos realizando conjuntamente com CEA (Centro de Estudos Astronômicos) na cidade de Itacuruba, interior de Pernambuco, iremos ampliar ainda mais os nosso trabalhos de divulgação.

A casa dos foguetes

Além da astronomia o nordeste também possui grande força nas atividades aeroespaciais. A região abriga as duas únicas bases de lançamento de foguetes do Brasil: Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI), no Rio Grande do Norte, e Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão. Juntamente com o Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa, estes são os únicos centros de lançamento de foguetes da América Latina.

Barreira do Inferno foi o nome dado à primeira base de lançamento de foguetes do continente latino americano. Fundada em 1965 pela Força Aérea Brasileira, ela já lançou mais de 400 foguetes de pequeno e médio porte. O crescimento da região circundante à base de Barreira do Inferno impediu sua expansão, o que levou a FAB a criar a base de Alcântara, em 1983. Alcântara sedia os testes de Veículo Lançador de Satélites (VSL) e objetiva, no futuro,  também lançar satélites. Lá já foram lançados mais de 470 foguetes nacionais e internacionais, além de realizadas 93 Operações de Lançamento.

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Barreira do Inferno, um dos dois centros de lançamento de foguetes brasileiros. (Foto: aventuraspelomundo.wordpress.com/Reprodução)

Segundo o Capitão Vladmir da Silva, ajudante de ordens da Diretoria-Geral do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da Força Aérea Brasileira, “as operações de lançamento realizadas nos centros (CLA e CLBI) propiciaram a consolidação das tecnologias desenvolvidas pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), pertencente ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA). Essas tecnologias integraram os projetos de desenvolvimento dos foguetes brasileiros, como por exemplo, os foguetes da família Sonda (Sonda II, III e IV), os suborbitais VS-30, VSB-30, VS-40 e o veículo lançador de satélites (VLS)”.

O Capitão ainda enfatiza o retorno financeiro e social que as bases trouxeram para o nordeste: “ Desde a sua implantação, no início da década de ´80, o CLA estimulou o crescimento da região, gerando inúmeras oportunidades de emprego para os habitantes locais, atraindo o comércio para a cidade. Além disso, nesse período foram construídas sete agrovilas, cada uma com dezenas de casas de alvenaria, com infraestrutura (luz elétrica, água), algumas com escolas, igrejas, casas de farinha, etc. e vias de acesso. Condições de vida muito melhores do que aquelas anteriormente enfrentadas pelos habitantes das áreas rurais, que viviam em casas de pau-a-pique com telhados de palha”. Além disso há a manutenção de escolas de ensino fundamental que a base de Alcântara mantém na região e a realização de eventos culturais como Orquestras Sinfônicas.

Por que essas atividades acontecem no nordeste?

Há muitas razões que levam o Nordeste a concentrar pesquisas científicas e atividades astronômicas e aeroespaciais. Uma delas são suas características geográficas. O fato de a região ser próxima da Linha do Equador é um ponto favorável à instalação de bases de lançamento, já que velocidade de rotação da Terra é maior nas áreas próximas à linha imaginária. Essa maior velocidade dá um impulso extra ao foguete a ser lançado, levando a uma economia de até 30% de combustível.

É por isso que os países optam por realizar lançamentos nas proximidades do Equador, tanto que, em 2001 e em 2013, os EUA negociaram com o Brasil a utilização da base de Alcântara, mesmo possuindo a base no Cabo Canaveral, no extremo sul do território norte-americano.

Outras características favoráveis às bases de Alcântara e de Barreira do Inferno são a baixa densidade demográfica, que permite a instalação de vários pontos de lançamento, e a localização junto ao litoral, pois, no caso de um possível momento crítico no início do lançamento, o objeto cai no oceano, e não nas áreas habitadas.

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O VLS-1 (Veículo Lançador de Satélites) na torre durante a Operação Salina, na base de Alcântara. (Foto: Agência Espacial Brasileira/Reprodução)

O Capitão Vladmir também destaca outros motivos, como a estabilidade geológica da região, condições metereológicas bem definidas e favoráveis, com baixo índice pluviométrico e ventos favoráveis a maior parte do ano e a região é livre de Anomalia Magnética do Atlântico Sul (AMAS). O Capitão explica essa última razão: “A Anomalia Magnética do Atlântico Sul é uma região do planeta onde a parte mais interna do cinturão de Van Allen está mais próximo da superfície da Terra. Como consequência desse fenômeno, tem-se que para uma dada altitude, a intensidade de radiação é mais forte nesta região do que em qualquer outra. Essa forte radiação afeta sistemas eletrônicos embarcados em satélites e outras espaçonaves com órbitas a algumas centenas de quilômetros de altitude, na região de órbita baixa (Low Earth Orbit – LEO), e com inclinações orbitais entre 35° e 60°. Onde o CLA está localizado, ao norte da região NE, esse efeito é muito menor do que na região centro-sul do País”.

Além desses fatores geográficos, há diversos grupos antigos de astronomia espalhados pelo Nordeste, como a Associação Paraibana de Astronomia (APA), o Centro de Estudos Astronômicos de Alagoas (CEAAL), Sociedade Astronômica Maranhense de Amadores (SAMA) e o Clube de Astronomia de Fortaleza (CASF). Tais grupos vêm realizando atividades no campo astronômico há bastante tempo e, em eventos como o EANE, têm a possibilidade de trocar ideias de pesquisa, o que fortalece a produção científica, principalmente na astronomia, da região nordestina.

A Chapada Diamantina, localizada na Bahia, é um local muito utilizado para observações astronômicas. A atividade é favorecida pelas características da área que tornam o céu mais visível, como a distância de luzes e poluição urbanas e o clima mais seco. Esses fatores também facilitam a observação do céu por agricultores do sertão nordestino, onde o domínio sobre o ambiente é de extrema importância. A observação do céu e a posição dos astros foram utilizadas no campo por muito tempo como forma de prever a chegada de chuvas.

A descentralização industrial também contribuiu para o desenvolvimento da pesquisa científica no nordeste. No final da década de 1950, várias empresas que antes atuavam no Sudeste passaram a atuar na região, atraídos pelos incentivos fiscais implantados pelo governo federal por meio da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), criada em 1959 no governo de Juscelino Kubitscheck. Sendo atualmente uma das regiões brasileiras com maior crescimento industrial, o nordeste tem recebido forte investimento de grandes empresas, o que favorece o surgimento de pólos industriais e, consequentemente, fortalece a produção científica da região. O mais famoso parque tecnológico nordestino é o Porto Digital, no Recife. Fundado em 2000, o parque atua na área da informática e abriga desde pequenas e médias empresas da própria cidade até multinacionais, como a Microsoft e a IBM, além de manter contato com instituições de ensino superior e institutos de pesquisa.

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