Inteligência Artificial: utopia ou extinção?

O passado, presente e futuro da tecnologia que nos acompanha em todos os lugares

Por Luísa Amorim (luamorcor@gmail.com)

Entre odisseias no espaço e famílias Jetson, foi criada uma concepção sobre a tecnologia do futuro: entidades robóticas que superam o conhecimento humano e podem ou extinguir a humanidade, ou completar o nosso conforto cotidiano. Tema de discussões tanto técnicas quanto filosóficas, a inteligência artificial é uma tecnologia desenvolvida pela Ciência da Computação e que – por mais que não a enxerguemos – permeia nossas vidas diariamente em todos os aspectos.

Wall-E Eva

O casal de robôs do filme Wall-E, com o personagem homônimo e a companheira Eva, é um caso em que é representada a inteligência artificial forte. O longa apresenta máquinas que pensam e sentem convivendo pacificamente com os seres humanos. (Foto: Divulgação)

O conceito: mas o que é inteligência artificial?

Nos aviões, no mercado de ações, nos celulares, e até nas máquinas de lavar existem computadores que realizam tarefas que podem ser consideradas como “inteligentes” para os humanos. O termo “inteligência” tem origem do latim intus (entre) e legere (escolher), e, portanto, refere-se a uma capacidade de assimilar, compreender e saber escolher entre soluções ou ações. Porém, os níveis dessa habilidade podem variar entre as tarefas que são desempenhadas, motivando uma classificação que diferencia a inteligência artificial em mais ou menos desenvolvida.

A distinção mais comum no campo da inteligência artificial está na abrangência de habilidades do sistema. Há o tipo fraco (weak, em inglês), representante de tudo o que há no mundo atual da informática, que compreende programações capazes de realizar ações unidirecionais, específicas de uma função, como calculadoras ou GPS. E há o tipo forte (strong, em inglês), considerado utopia por alguns e futuro próximo por outros, que efetua as habilidades de um ser humano com perfeição – o que é extremamente trabalhoso de se concretizar. A evolução da inteligência artificial forte levaria ao que os especialistas chamam de superinteligência artificial: sistemas tão inteligentes que superariam os melhores cérebros em todas as áreas de conhecimento e aplicação.

A evolução tecnológica e o desenvolvimento da inteligência artificial

Apesar de o tema ser vastamente discutido por sua participação no futuro da humanidade, ainda existem muitos passos para avançar até um grau mais elevado de inteligência artificial (atualmente, a inteligência artificial forte). A computação surgiu, efetivamente, há apenas 60 anos e, de lá para cá, houve uma série de saltos na tecnologia, marcados por importantes invenções, mas que evoluíram o conhecimento computacional sem conseguir chegar ao seu desenvolvimento máximo.

O primeiro a pensar na possibilidade de existir uma máquina que age como um humano foi Alan Turing – matemático cuja vida foi retratada recentemente no filme O jogo da imitação (2014), de Morten Tyldum -, ao escrever, em 1950, seu trabalho Computadores e Inteligência (Computers Machinery and Intelligence, no original título em inglês). Nele, o acadêmico sugere um teste, denominado “Teste de Turing”, que consiste em por em prova a capacidade de distinção entre um computador e um ser humano por um próprio ser humano. A partir daí, formou-se uma área de estudos relacionados a uma possível inteligência não-natural. Apenas em 1956 apareceu o termo “inteligência artificial”, em uma conferência de cientistas interessados em criar programas de computador que pudessem solucionar problemas: o Encontro de Dartmouth.

Hal

Em “2001: Uma Odisseia no Espaço”, o computador HAL 9000, ou simplesmente Hal, é uma ameaça à segurança dos tripulantes da nave espacial da missão Júpiter. A produção de 1968 sugere o fracasso da inteligência artificial como uma evolução na história da humanidade.

O início dos estudos sobre a inteligência artificial e o desenvolvimento tecnológico da Guerra Fria resultaram, no mundo todo, numa previsão de um futuro próximo e moderno, com robôs pensantes, veículos voadores e conquistas espaciais. A ficção científica tematizou incansavelmente tais elementos na literatura e no cinema dos anos 1960 até o fim dos 1980, quando o desenvolvimento da Ciência da Computação encontrou um limite e as inovações passaram a andar em passos cada vez menores. As novidades sobre essa tecnologia perderam alcance e ela diminuiu seu ritmo de evolução, porém continuou a caminhar e foi ganhando espaço nas nossas vidas cotidianas. Por trás de tudo o que é digital, atualmente, existe um sistema artificialmente inteligente operando. A humanidade adotou essa técnica por completo e, hoje, ela é aplicada em escala global em áreas desde o militarismo até a agricultura, passando pela economia, comunicação, saúde, e educação.

Entre os passos mais recentes em busca da inteligência artificial forte, encontram-se os chatbots, sistemas que são capazes de manter conversas com usuários (como a Siri, da Apple). Porém, o professor Mark Bishop, professor de Computação Cognitiva e diretor do Centre for Radical Cognitive Science (4Es) de Goldsmiths, Universidade de Londres, observa em seu artigo Chatbots, the Turing Test and the Chinese Room que, mesmo que um computador se comporte indistinguivelmente como ser humano, nunca será possível comprovar se ele realmente pensa ou se apenas envia respostas a estímulos de modo automático. Para o acadêmico, o maior passo na evolução recente da inteligência artificial foi a criação do sistema Watson pela IBM, semelhante ao sistema Deep Blue (cuja especialidade é o xadrez). Watson venceu os melhores jogadores do Jeopardy, um quiz da televisão norte-americana sobre assuntos gerais, respondendo a perguntas que exigem lógica e memória. Agora, o mesmo está sendo disponibilizado para descobertas de remédios e produção de ensaios sobre assuntos discutíveis.

Siri

Um dos sistemas mais evoluídos da inteligência artificial, é a Siri, desenvolvida pela Apple para conversar com o usuário. É um exemplo da presença da IA no cotidiano. (Foto: Reprodução)

Os obstáculos para o futuro

Cientistas estudam métodos continuamente  e desenvolvem novas maneiras de tentar produzir um comportamento semelhante à mente humana em computadores. Eles divergem entre variadas vertentes quanto ao projeto que triunfará no objetivo de inventar a inteligência artificial forte: há os que crêem na emulação das atitudes humanas; os que apostam nos sistemas reconhecedores de padrões; os que acham sentido nos programas de cálculos estatísticos; aqueles que vêem futuro nas redes neurais que se assemelham às sinapses cerebrais; os que acreditam em uma “seleção artificial” de sistemas…

Independente de qual método for triunfante, a partir do momento que um patamar mais elevado de inteligência for alcançado, a humanidade sofrerá com um grande impacto. As teses sobre o futuro da tecnologia transitam desde uma convivência pacífica, na qual os sistemas inteligentes trabalham para os homens, até o surgimento de uma superinteligência artificial que resultará no fim da nossa espécie e até de outras. Acontece que, quando uma máquina puder agir e pensar como um homem, qualquer avanço na área aproximar-se-á de um ser mais inteligente do que nós (o que pode ser perigoso, pois sempre nos enxergamos como os seres mais mentalmente desenvolvidos do Universo).

Entretanto, ainda há uma enorme lacuna entre a realidade e o futuro que a ficção científica sugere. Tudo indica que uma descoberta ainda precisa ser feita para que máquinas possam chegar a pensar como o homem: como funciona o cérebro humano. Não é possível reproduzir um comportamento, pensamento ou sentimento genuinamente consciente em um computador sem entender como ele ocorre naturalmente num cérebro. E, apesar dos diversos estudos sobre a biologia cerebral que têm sido realizados pelo mundo (inclusive experiências que utilizaram sistemas de inteligência artificial), ainda não se conseguiu decifrar qual é o método pelo qual funciona o processo do pensamento humano. Resta, assim, esperar pelo ponto de virada da inteligência artificial; só dessa forma chegaremos a uma conclusão sobre o futuro do pensamento não-natural e, consequentemente, da vida humana.

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