Cultura Sociedade

Pauliceia forasteira

Por Felipe Saturnino (saturnofelipe.fs@gmail.com)

O café oferecido com duas colheres adoçadas em recepção cordial logo afastou imagens de acadêmico apático. “O forasteiro”, diz Marco Antônio de Moraes, “tem o olhar mais livre para inventar o espaço que não conhece”, e finda, “porque é capaz de se surpreender mais”. No Instituto de Estudos Brasileiros da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, são nove horas. Mês e meio antes, entre divergências políticas, o boliviano Enrique Añez e o argentino Octavio Carreño concordaram sobre o caráter “frio” dos paulistanos quando falavam da capital. Enquanto leio Mário de Andrade, lá dentro me espera o professor de literatura. Para a mesa em que sentamos traz consigo o indispensável Pauliceia Desvairada. Lá fora, frio e neblina conjuram típica manhã paulistana mal-humorada.

O clima explica a frieza? No país tropical, aqui o que há é subtropical, de inverno seco e frio de temperatura média abaixo de 18ºC. A média da cidade, 18,6ºC, é de 6 a 7 graus menor que a do Rio de Janeiro. Além disso, Fábio Teixeira, meteorologista do Instituto de Astronomia e Geofísica da Universidade de São Paulo, considera o clima paulistano “confuso”. “Aqui, digo que ocorrem ‘quatro estações por dia’”, afirma por email outro meteorologista do IAG, Mario Festa. Em vez do frio, fala do aquecimento local, que contribuiu para aumentar a temperatura da cidade 2,2ºC em 81 anos – a média de 20,1ºC fez de 2014 o ano mais quente desde 1933,  segundo o instituto. “A temperatura aumenta pelo crescimento urbano, aumento de veículos, redução de áreas verdes, etc.”, escreve ele.

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A obra inaugural do Modernismo em sua capa arlequinal: o arlequim, irreverente personagem da Comedia dell’ arte italiana, trajava vestes com diversos losangos coloridos. Para Mario de Andrade, o arlequinal manifesta a variedade e a multiplicidade da capital paulista

No nordeste polaco, temperaturas chegam a -30ºC, mais frio que paulistanos. Isso fala Emilia Helena Lemanska que, bebendo café sofisticado e comendo bolo de nozes, pergunta o que acontece na Avenida Paulista. “A greve dos professores”, respondo. Ela também é professora: leciona inglês em bairro nobre de Barueri. Tem simpatia pela América Latina e por viajar: já passou por 27 cidades em países como Costa Rica, Colômbia e Itália, além da autônoma Hong Kong. “Estive em cidades grandes, mas São Paulo é enorme.” Não faz cara de espanto ao falar isso porque não se importa com cidades do porte, ainda que Ketrzyn, sua cidade natal, tenha 30.000 pessoas – o distrito paulistano mais populoso, Jardim Ângela, possui mais de 295.000. Desiludida, repreende homens paulistanos: “Eles não procuram relacionamento.” “As pessoas aqui estão sempre ocupadas, apressadas, focadas em suas carreiras.” Porém, a polonesa, loira de olhos negros, não entristece. Sorri. “É uma cidade bem diferente da América Latina, uma capital financeira do continente”. E, sem temer minha reação ao afirmar que São Paulo não está entre as mais belas cidades que viu, dá bye, bye para ter aula de português com professora particular.

Matthias Goossens esteve aqui por 2 anos e meio e, para ele, a pichação reduz a beleza paulistana. Em videoconferência, relata perspectivas da estadia. Primeiro, a permanência de duas semanas na rua Bela Cintra não agradou. Depois, passou ao bairro do grito de Dom Pedro I, Ipiranga, Vila Mariana e Ibirapuera até chegar a Santa Cecília, região central, onde viveu por mais de um ano. “Adoro o centro”, citando a lotada estação Sé – em 2014, a Sé teve a maior média de entradas de passageiros por dia, com 621.000 usuários a cada 24 horas.

Ainda em horário alternativo e pouco movimentado, o centro de São Paulo é palco de várias atrações. Na estação Sé observa-se dois moradores de rua lutando no chão, enquanto outros dois – um tentando impedir o combate e outro gritando “Só os dois! Só os dois!” – assistem ao  espetáculo. A 50 metros dali, um homem canta consoante ao som do forró que deixa as caixas dos alto-falantes e inunda as ruas. Pessoas param, algumas continuam a andança. À frente, a rua 15 de novembro, data do advento da República, está deserta por não se tratar de horário de expediente. Não está iluminada artificialmente pois o fim de tarde é ensolarado, de calor que pode incomodar paulistanos. No trajeto, além de ver as belas construções de importâncias históricas e financeiras, como a Bolsa de Valores de São Paulo, no número 275, é possível ouvir, de um senhor ébrio, receios sobre a homossexualidade na cidade, ao que chegamos ao vale do Anhagabaú. Ali, outro senhor, perto de um muro que o separa de gramíneas, fala palavras confusas, enquanto dois homens e uma mulher distribuem jornal evangélico para os que passeiam pela aventura do centro e não param por nada.

“Gosto do centro porque tem história e muitas culturas”. Festas, mistura de gente, de estudantes a moradores de rua viciados, fazem o centro atraente para ele. “Ali você encontra a verdadeira São Paulo”.

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A Rua XV de Novembro, que abriga a Bolsa de Valores de São Paulo, pouco frequentada em horário alternativo

“A primeira impressão de um estrangeiro é que a cidade não é bem planejada”. Critica a poluição ambiental na cidade e o rio salubre – referindo-se ao Tietê, que, com 1150 km, é indelével da paisagem. Valoriza a culinária: “Nunca encontrei uma cidade com tantas opções de comida”. Exalta, além disso, a cultura musical, não só paulistana, mas brasileira: “O Brasil é o melhor lugar do mundo para escutar música ao vivo”, ressalvando, porém, incompatibilidade com o sertanejo. Mas samba, forró e rock dos anos 60 compensam para ele.

“Não acho o paulistano menos receptivo”. Quando fala de ações e comportamentos de pessoas da capital, diz que viu preconceitos com nordestinos e negros na empresa em que trabalhava. Pela reputação positiva do Brasil em relação ao tema do racismo no estrangeiro, para ele, atitudes desse tipo surpreendem. “Na Europa, as pessoas têm medo de parecer preconceituosas”, e cita a islamofobia lá existente. Divagando para lutas partidárias, afirma que “a discussão política em São Paulo não é tranquila”. Para encerrar, “elogia” o liberalismo econômico da cidade: “Os bancos são ladrões.” Comentou de taxas de juros abusivas e da necessidade de intervenção no mercado. Despediu-se.

Sentado no cimento, o geógrafo Felipe Cabañas vê o contingente de alunos que papeiam  em frente à Biblioteca Florestan Fernandes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, não reduzido pelo sol  tímido. “Vamos para os banquinhos das Sociais”. Não sente amores por Jacareí, a cerca de 82 quilômetros a leste de São Paulo: no tempo de nascituro, ficou ali por três semanas. A capital, contudo, lhe faz mal das pernas: “Minha relação afetiva com São Paulo é mínima”. Sua visão da megalópole é crítica. “Em São José, as pessoas reclamam de passarem 40 minutos no trânsito”, contando sobre a cidade em que foi criado. “Aqui, elas falam em 2 horas.” O Ibope, em 2012, estimou que o paulistano gasta, em média, quase três horas para chegar ao trabalho todos os dias.

“O paulistano é abstrato, é essa categoria em que você inclui todos”, adverte. “São Paulo é uma cidade de forasteiros”. Fala de migrações: nordestinos, italianos, japoneses que acumularam, historicamente, determinados status sociais. “O paulistano médio, mais da elite, descendente de europeus, reconheço que tenda a ser individualista, conservador e estressado”, se incluindo entre eles. Considera que São Paulo é “cidade de pessoas estressadas, mas não por culpa das pessoas”. Digo que ele entende o estresse por ser professor. Ele não vê assim. Não possui experiência no problemático ensino público. Seu mestrado relaciona literatura e espaços geográficos. “Aqui, seria importante estudar a literatura da periferia.” Na cidade permeada por desigualdades, as palavras marginais representam melhor as contradições.

“O paulistano tem tendência conservadora” – para ele, o PSDB, originário da centro-esquerda, é dessa tendência -, ainda que hoje a prefeitura da cidade seja governada por um petista. “Com muito boa vontade, pode-se falar que o PSDB é de centro, mas tem que ter muito boa vontade…” “Você tem essa boa vontade?” “Não, para mim, está na direita.” Para ele, o caráter de proeminência econômica da Pauliceia condiciona estilos de vida, valores éticos e políticos disseminados pela sociedade. Em sua ótica, há aqui uma tensão contínua, comprometedora da qualidade de vida das pessoas. “Todo ano tem crise na educação, crise no metrô, crise na CPTM, tem greve de professores”. Àquela ocasião, a greve dos professores se encontrava no 83º dia. Nove amanheceres depois, ela terminaria como a mais longa de todas.

A oito quilômetros dali, em sentido ao centro, a Avenida Paulista tem automotivos, lojas, prédios, moradores e artistas de rua, pessoas que se cruzam sem se olhar. À altura 2073, em livraria do Conjunto Nacional, onde pares de amigos disputam partidas de xadrez aos moldes oficiais e a sonoridade é mistura de buzinas e motores com banda de blues, Danilo Bueno tenta (em vão) pedir café simples e uma comida rápida. “Ela disse que só atende a partir das onze”, falando da garçonete que não ouviu antes seu chamado e o fez esperar passivo. “Vamos tomar um café?”

Poeta sem provar das prosas, também ensina literatura. A face séria, preenchida por barba proeminente, esconde sorrisos. Faminto, pouco fala. Pede um espresso e uma saltenha. Que é saltenha? “Um salgado latinoamericano“, responde vagamente. Tempo depois, frente a minha ignorância, o boliviano Enrique explicou: “É a melhor comida de meu país.” “O paulistano ainda é frio, Enrique?” “Muito frio, ainda mais agora por causa do inverno”, escreve jocoso.

Nascido em Mauá, compreende as possibilidades e a lógica “fria” do jogo de interesses da sociedade paulistana: “Como a cidade é grande, as pessoas são individualistas. Numa cidade cosmopolita, os interesses são muitos.” Ele os cita, desde financeiro-empresariais até acadêmicos. “Isso contribui para que as pessoas estejam menos preocupadas em recepcionar ou pensar nos outros”. Ele menciona a falta de turismo em São Paulo, apesar de seu cosmopolitismo. Ano passado, porém, os mais de 15 milhões de turistas, muito pelo Mundial de futebol, fizeram a maior movimentação turística da história da cidade – a receita dos gastos dos visitantes passa de 11 bilhões de reais.

Ao sair da estação Clínicas, em 200 metros chega-se à Teodoro Sampaio, rua célebre pelo catálogo de lojas de instrumentos musicais. No cruzamento seguinte a que a rua das novíssimas guitarras, violões elétricos amadeirados e baterias faz com a Oscar Freire, está o bar Vermelho, onde se toca rock dos anos 70, 80 e 90. Ali, o jornalista escocês Euan Marshall e o produtor musical inglês Daniel Hunt bebem cerveja ao modo brasileiro: “Na Inglaterra, nós não compartilhamos garrafas. Cada um tem a sua.” Hunt conta a primeira de algumas anedotas: seus amigos que vieram para São Paulo durante a Copa do Mundo ficaram atordoados com a cultura própria de beber álcool no Brasil. Não acostumados ao tamanho das garrafas de cervejas brasileiras, eles, por costume europeu, pediam individualmente uma cerveja de 1 litro e bebiam-na solitariamente em vez de compartilhar. “As pessoas do bar olhavam para eles e pensavam: ‘Esses caras não sabem o que estão fazendo’”, descreve, cômico.

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A Avenida Paulista, sempre lotada de passeios, carros e lojas (Foto: Reprodução)

“Desde que cheguei aqui, mudei o vocabulário, porque na Escócia nós utilizamos palavrões sempre”, diz Marshall, mencionando uma palavra iniciada com a letra “f” que lá serve de substantivo, adjetivo e advérbio. Seu sotaque mudou por outra necessidade: tendo que se sustentar na cidade, tornou-se professor de inglês. Elogiam o transporte público. “O problema é que tem muita gente e não há estações de metrô suficientes”, diz Hunt um “but”. O trânsito barra desejos de guiar carros: “Na Escócia, eu dirigia. Aqui, não tenho vontade. Já estive em carros, em táxis aqui. Me mataria se passasse por isso”, finaliza Marshall.

“Nada aqui é para turistas, tudo é para quem vive aqui”, diz Daniel. Seus amigos turistas se divertiram por aqui durante a Copa, surpresos pelos lotados bares na Vila Madalena, subsistindo um estereótipo: “Eles pensam que São Paulo e o Brasil são feitos só de favelas”. Sem ingressos para a Copa, os amigos deram um jeitinho: disseram a um guarda da organização na Arena Corinthians que haviam sofrido furto. “Falaram que tinham sido roubados, e como todos queriam ser legais, deixaram-lhes entrar”. Era a primeira vez que eles viam São Paulo: “Durante a Copa, viam tomadas aéreas da cidade. Mas ninguém sabia de nada. É a maior cidade do hemisfério Sul e eles simplesmente não conhecem.” Marshall dá outra imagem: comprou guia de viagens quando ainda na Escócia. “Sobre o Brasil, havia muito falando do Rio, Fortaleza”, diz. “Para São Paulo, havia umas cinco páginas.”

“Aqui sua vida social é sua vida, você é definido pelo seu trabalho”, fala Hunt. Eles preferem a megalópole paulistana à Cidade Maravilhosa. Hunt faz analogia: “Barcelona é mais bonita que Madrid, e o Rio é mais bonito que São Paulo. Mas, se estou em Madrid e aviso algum amigo meu que mora lá, em uma hora estou num bar com dez pessoas. Em Barcelona, isso não acontece”. Ponto para a cultura de boteco: “Aqui, você nunca fica entediado.” Partidário dos bares, Daniel divergia em relação aos vizinhos que teve quando residia nos Jardins, bairro nobre da região oeste: “Por eu ser britânico, eles achavam que tinha sangue azul e ia concordar com eles”, considerando um desafio conviver com “nobres” e suas opiniões: “A maioria deles odeia pobres”.

“O paulistano é uma generalização, porque quando falamos dele estamos contando com o quê, umas 20 milhões de pessoas?!” (considerando a região metropolitana). Tirou de dentro do copo um mosquito morto: “Como a cidade é grande e as pessoas estão cercadas por muitas outras, elas querem um espaço próprio. Por isso, em feriados, vão a praia ou ao interior”.

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O Instituto de Estudos Brasileiros da Biblioteca Brasiliana, na Cidade Universitária, como de costume: deserto (Foto: Reprodução)

“Posso gravar?” De regresso à deserta Brasiliana, o professor, receoso do gravador, sussurra poesia com a frase: “Batata assada ao forno!”, que “corta” o poema em questão, como se a cidade falasse por si. Fala da “entorpecida” visão do paulistano sobre a capital: “É mais difícil de se distanciar da realidade do espaço em que se vive.“

Mário de Andrade vê a São Paulo dos anos 20, a urbanização em gestação: “Ele vivia, aqui, a experiência urbana, da riqueza do café e os pobres.” Degradés entre belas arquiteturas e falta de moradas para imigrantes deram à cidade uma paisagem caótica. “Talvez São Paulo tenha sempre esse traço de caótico.”

De fato, os poemas não contêm tensões da cidade, mas tensões próprias do eu lírico: “A questão era fazer com que a cidade e suas contradições fossem vividas internamente pelo sujeito poético.” A cidade não é o cenário em que estão nossas vidas. A vida é o cenário onde vive a cidade, onde ela se sente. “A cidade não está fora, mas dentro do sujeito”. A cidade está em nós. E o desvario e as visões forasteiras servem para entendê-la.

Acompanhou-me até porta automática que reluzia céu ensolarado e permitia ver tempo mais quente, afastando dali o mau humor cinzento do frio da manhã de outono.

J.Press
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