Cultura

A nova música brasileira

Por Luísa Amorim (luamorcor@gmail.com)

Os brasileiros que viveram sua juventude nas décadas de 1960 a 1980 costumam criticar os estilos musicais atualmente escutados pelos jovens. Eles alegam que a música de hoje não chega aos pés da música de “sua época”, sem musicalidade e sem conteúdo. Seus argumentos foram fortes por 20 anos: depois da primavera musical que acompanhou o período da ditadura, o som da música brasileira abafou-se, perdendo espaço para os sucessos norte-americanos e europeus dos anos 1990 e 2000 – quando hip hop, pop, rap e música eletrônica chamaram toda a atenção dos jovens do mundo todo.

Nas últimas duas décadas, o Brasil vivenciou uma intensa importação musical e os únicos sucessos nacionais consistiram, com poucas exceções, em canções de composições simples e sem conteúdo crítico – justificando o preconceito dos adultos que viveram em um período de alta criatividade, acostumados com obras voltadas para sentimentos profundos, política e desigualdades sociais. Assim, os jovens que admiravam a música brasileira, no início do século, dividiam-se, majoritariamente, em dois grupos: os que ouviam músicas regionais como sertanejo universitário, funk carioca e axé; e os que ouviam os clássicos nacionais, como a bossa nova, o rock nacional e a velha guarda.

Porém, o cenário alterou-se a partir da década atual. É perceptível uma nova tendência para a produção musical do país desde o fim dos anos 2000 novos músicos começaram a fazer sucesso com estilos completamente originais, inspirando-se em tendências do passado do som brasileiro e adaptando-as para criar estilos inovadores. Gêneros musicais como rock, eletrônica, reggae e MPB fundem-se em arranjos simples e harmônicos que combinam-se com letras mais elaboradas – muitas vezes poéticas, com o uso de muitas metáforas e sinestesias. Cada artista possui peculiaridades que o divergem do grupo da nova música brasileira, seja o modo de cantar da cantora Céu, as letras compactadas de Cícero, o experimentalismo extremo de Apanhador Só. Por causa da pluralidade, a nova música é capaz de atender a um público maior.

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Os membros da banda Zimbra compõem misturando o que já ouviram e o que gostariam de ouvir (Foto: Reprodução)

Assim, a juventude atual voltou novamente seus ouvidos para o som nacional, aproveitando um novo florescimento cultural que conta com um elemento extremamente inovador: a internet.

O novo meio de comunicação alterou a divulgação musical de um modo profundo: a partir do surgimento de programas de compartilhamento de arquivos, a pirataria ganhou força e colocou em decadência o monopólio das gravadoras. Os direitos autorais passaram por uma crise. Foi necessário criar um modo de ganhar da pirataria – ou aproveitar-se dela. A solução para o problema foi a disponibilização de downloads gratuitos da produção musical, que possuiu como principal força o movimento Música Para Baixar (MPB), criado em 2009. A união de artistas, produtores, ativistas da rede e usuários da internet criticava o monopólio da produção cultural e defendia que distribuir música gratuitamente (por pirataria ou compartilhamento) é mais um modo de divulgação. Dele participaram diversos músicos do Brasil inteiro, como Leoni e a banda Teatro Mágico.

Após essa manifestação a favor da disponibilização gratuita das obras musicais pela internet, percebeu-se que o método era um sucesso para a divulgação da produção. Veículos como SoundCloud e YouTube contribuíram para a ascensão de inúmeras bandas e músicos iniciantes, porém que atendiam às demandas de uma música de “cara nova”. A indústria independente ganhou força e se igualou à indústria corporativa musical, devido ao acesso aumentado ao público – principalmente após o nascimento das redes sociais. “A internet é um ambiente bem mais democrático, é ótimo”, conta Pedro Furtado, baterista da banda santista Zimbra, formada em 2007, “você não fica refém de grandes empresas, nem nada do tipo. Somos parte da geração de bandas que usam a internet como principal ponto de contato com o público e aliada para divulgação”. Logo, os grupos passaram a ter a opção de produzir em casa – o desenvolvimento de programas de edição gratuitos para computadores pessoais musical auxiliou na independência produtiva – e de divulgar sozinhos suas obras.

Para verificar a importância da internet para os músicos atuais, a J.Press realizou uma pesquisa entre grupos de fãs das principais bandas atuais no Facebook, e constatou que 33,4%  dos membros as conheceu por meio da internet, o principal meio citado. A descoberta por indicações de conhecidos, em segundo lugar, teve 23,7% das respostas, e ficaram a televisão com 22,2% e outros meios com 20,7%. A facilidade de acesso aumentou ainda mais com o recurso que sugere novas páginas de acordo com os interesses do usuário demonstrados pelo que ele curte, além de outros métodos de divulgação. Hoje, encontramos no Facebook diversas páginas de músicos de 20 até 300 mil seguidores (número que cresce a cada dia), provenientes de todos os cantos do país, em que são divulgados eventos, apresentações, turnês, novidades e lançamentos que permitem que o público sinta-se próximo.

A proximidade é um item característico dessa nova onda de produção musical. Não apenas perfis na internet criam uma impressão de que os fãs acompanham seus artistas de perto, mas, também, na sua maioria, os shows acontecem  em casas pequenas, como teatros e centros culturais, e os preços dos eventos costumam ser mais baixos do que de artistas consagrados  e estrangeiros. Isso permite a maior identificação dos fãs com os músicos, ainda mais quando, após o show, eles se disponibilizam para encontrar-se pessoalmente com quem quer autógrafos, fotografias ou até abraços. Outras bandas também realizam apresentações em bares e baladas, atraindo pessoas para as quais eram desconhecidas e seus próprios fãs para esses espaços.

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Lollapalooza 2015 em no autódromo de Interlagos, em São Paulo (Foto: Divulgação)

Entretanto, diversos festivais têm aberto espaços para os artistas em questão: o Lollapalooza, por exemplo, é um aclamado evento onde grandes ídolos  tocam no mesmo lugar que bandas recentes menos conhecidas. Em sua edição de 2015, o festival contou com as bandas Baleia, O Terno, e Scalene. Festivais como o Lollapalooza são uma oportunidade enorme para obter mais fãs, como Pedro Furtado reconhece: “A galera já vai na intenção de conhecer música nova, estão muito mais abertos à sua música do que quando você abre algum show. Para nós sempre é uma experiência positiva”.

J.Press
A Agência J.Press de Reportagens é um espaço destinado à publicação e divulgação de matérias com abordagens inovadoras. Vinculada à empresa Jornalismo Júnior, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a agência busca novas formas de explorar assuntos de interesse público por meio do jornalismo.

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