As mulheres e as famílias entram em campo

Por Marina M. Caporrino (marinamcapo@gmail.com)

Os meses de fevereiro e de março de 2015 ficaram marcados na história das torcidas brasileiras: dois jogos diferentes, um no Nordeste e outro no Sul, mas ambos com propostas inovadoras para seus torcedores. Em Pernambuco, no dia oito de fevereiro viria a ocorrer o clássico entre Sport e Náutico. O que muitos dos torcedores do Sport não esperavam era uma equipe de seguranças tão inusitada: suas próprias mães. A escalação das senhoras após atos de vandalismo no jogo anterior do time causou reflexão nos torcedores sobre sua própria postura nos estádios.

Já no Rio Grande do Sul, outra iniciativa em um clássico foi marcante. No dia primeiro de março, famílias e casais, que às vezes não iam ao estádio por torcerem para times rivais, puderam curtir o jogo juntos. Realizou-se o primeiro jogo com torcida mista entre Internacional e Grêmio. Apesar de ser uma decisão arriscada, a torcida mista no Beira-Rio foi um sucesso e suscitou debates pelo Brasil inteiro sobre a adoção de tal sistema como forma de promover a paz nas torcidas.

Mesmo sendo medidas distintas, ambas tocam em um tema relembrado de forma incessante pela mídia: a violência nos estádios. A partir de ideias formadas pela imprensa, a concepção de que estádios são violentos, que não são lugares para mulheres e muito menos para famílias com crianças e idosos, já é senso comum. Mesmo isolados, alguns casos de vandalismo e de brigas geram medo nas pessoas, fazendo-as ficar em casa e, consequentemente, gerando uma falta de diversidade nas torcidas – que ficam majoritariamente masculinas e na faixa dos 18 aos 35 anos.

Entretanto, a partir de 2014, principalmente, essa imagem vem mudando. As famílias, assim como as mulheres, se sentem mais seguras para vestir a camisa de seu time do coração e ir ao estádio torcer. Essa trajetória de volta da pluralidade nas torcidas tem influência direta dos novos estádios e arenas da Copa do Mundo e do pós-Copa e do que eles oferecem a seus frequentadores.

Além disso, medidas para diminuir casos de violência têm atraído cada vez mais as mulheres e as famílias para os estádios. Mesmo que muitas mulheres ainda prefiram ver os jogos pela TV, é inegável que sua crescente participação no universo tão restritamente masculino do futebol tem quebrado cada vez mais barreiras sexistas e conquistado, de forma definitiva, o espaço da mulher em uma das expressões esportivas e culturais mais autênticas do nosso país.

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Famílias também aproveitam os dias de jogos para passear e conhecer os novos estádios de seus times. (Foto: Marina M. Caporrino/Jornalismo Júnior)

Lugar de mulher é no estádio

Nos primeiros jogos de futebol do Brasil, considerava-se que as mulheres iam aos estádios apenas para admirar os jogadores e serem admiradas por sua beleza. Pouco se reconhecia a mulher como torcedora. A presença feminina nos estádios, na década de 1920, trazia elegância e beleza, reforçando a concepção do futebol como esporte praticado pela elite. Nas décadas de 1960 e 1970, acontece o contrário: Com a popularização dos estádios e o surgimento das torcidas organizadas, as mulheres deixam de frequentar os jogos. Surge também o ideal de torcedor guerreiro e apaixonado: eram tempos de exageros e paixões exacerbadas que levavam, muitas vezes, à violência. As décadas de 1980 e 1990 foram marcadas por episódios violentos nas partidas de futebol, amplamente divulgados pela mídia, o que gerou uma marginalização das torcidas organizadas e o afastamento das mulheres que ainda acompanhavam o esporte.

Para piorar a situação dessas mulheres, o Brasil proibiu a prática feminina do futebol em 1941, só liberando novamente em 1979. Tal proibição não foi exclusivamente brasileira, ocorrendo na Inglaterra e França na década de 1920, onde foi liberado apenas em 1970. Até mesmo a FIFA (Federação Internacional do Futebol) só reconheceu o futebol feminino como um esporte em 1988.

Portanto, a discussão sobre o papel das mulheres no futebol não se trata apenas de admirar as “musas” das torcidas – como foram tão ressaltadas as belas torcedoras na Copa do Mundo de 2014 – mas sim de reconhecer a mulher como alguém que joga, que torce, que grita, e que xinga, sim. Para Regina Dercoli, membro da Gaviões da Fiel há 20 anos, as mulheres são fundamentais na torcida: “Assim como em algumas determinadas profissões, as mulheres ganharam espaços e acho que o papel da mulher na arquibancada é mostrar que também entendemos e gostamos de futebol”. A rivalidade em campo não impede que Rogéria dos Santos, membro da Mancha Alvi Verde há 8 anos, compartilhe de opinião semelhante: “A presença feminina, além de embelezar o ambiente, é importante para mostrar que não só os homens curtem o esporte e que tem espaço para todos ali”.

Apesar desse aumento feminino ser pouco estudado e analisado pelos órgãos responsáveis, não se pode negar que ele é real. A falta de dados disponibilizados pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e pela FPF (Federação Paulista de Futebol) demonstra que as mulheres ainda não são prioridade para essas entidades, mas isso não muda os fatos que podem ser percebidos por quem frequenta os estádios: as mulheres já fazem parte do futebol e, cada vez mais, felizmente, os homens vêm isso de forma natural. Para Maurício da Silva, membro da sede do Palmeiras e responsável pelo quinto andar do anel superior do Allianz Parque em dias de jogos, a questão do estranhamento em relação às mulheres na torcida já não ocorre: “Ninguém acha estranho quando uma mulher fala algum palavrão, ou pede para o time fazer alguma coisa… Isso ai não tem mais estranheza não, é normal”.

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O amor pelo time muitas vezes é passado de geração em geração. (Foto: Marina M. Caporrino/Jornalismo Júnior) 

Na arquibancada tem espaço para toda a família

É consenso que o número de famílias nos estádios tenha diminuído na última década, devido ao perigo que as torcidas organizadas podem representar. Essa situação de risco gera medo e faz com que os pais não queiram trazer suas crianças aos estádios. Entretanto, as torcidas organizadas acabam se configurando como as únicas responsáveis pelo afastamento das famílias, quando nem sempre são. Na visão de Maurício, a grande responsável por esse papel de vilãs assumido pelas organizadas é a televisão: “O problema é que a televisão banaliza um pouco a questão da torcida, né? Fala que todo mundo é marginal e, tipo, se tiver uma família onde fica a torcida organizada e se acontecer alguma coisa, todo mundo é considerado marginal… E não é dessa forma”.

Para além das arquibancadas, ainda existem outros fatores que afastam torcedores. O alto preço dos ingressos nas novas arenas, por exemplo, torna caro levar a família toda ao estádio. Além disso, há a corrupção no futebol, que é um tema ainda pouco abordado, mas o qual gera no torcedor um descontentamento e uma desilusão em relação ao esporte.

Apesar de tais fatores, também volta a aumentar  o número de famílias nos estádios brasileiros, o que gera um impacto positivo para a diversidade nas arquibancadas. O contato entre torcedores e torcedoras de diversas idades gera uma maior compartilhamento de experiências diferentes, sendo um importante ponto para a cultura popular construída nos estádios de futebol brasileiros. Regina destaca os relacionamentos gerados: “Muitas dessas famílias são constituídas nas arquibancadas. Começam relacionamentos e seguem com seus filhos e netos”.

Para muitos, o futebol não é só uma expressão cultural ou uma forma de lazer, mas uma paixão. A maior participação dessas pessoas atualmente, antes afastadas pelo medo, configura-se como uma possibilidade de acompanhar presencialmente uma de suas maiores paixões, como ressaltado por Maurício: “Falando do futebol, ele movimenta muita paixão. Então ele atinge desde crianças, até idosos e eles vem ao estádio e gritam, cantam… Tem idoso que vem e chega até a passar mal de tanta emoção que eles sentem…”.

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O futebol gera laços mais fortes entre membros de uma família, entre amigos e até entre desconhecidos, que se conhecem por meio dele. (Foto: Marina M. Caporrino/Jornalismo Júnior)
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