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A grande presença síria em São Paulo

Por Nara Siqueira (nara.siqueirasil@gmail.com)

Mil e setecentos. Esse é o número aproximado de refugiados sírios em solo brasileiro, segundo o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare). O motivo é claro: a guerra na Síria já dura quatro anos e não há perspectiva de um fim próximo, o que faz com que a população local rume para outros países em busca de segurança.

A Síria, desde 2011, tornou-se palco de um conflito entre seus próprios habitantes. De um lado, a parcela da população fiel ao presidente Bashar al-Assad. Do outro, grupos rebeldes, entre eles o terrorista Estado Islâmico. O resultado, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos, é um número de mortos superior a 210 mil, sendo mais de 65 mil civis.

A ACNUR, Agência da ONU para Refugiados, aponta que, em julho de 2014, a quantidade de sírios que pediu proteção para o Brasil foi superior à de colombianos, tornando-se a principal nacionalidade de refugiados que vive em território brasileiro. Esse aumento no número de pessoas provenientes da Síria também pode ser justificado pela Resolução Normativa nº 17, adotada pelo Conare em 2013. O documento garante facilidades na concessão de refúgio para os sírios, com a desburocratização na emissão de vistos, o que fez com que quase a totalidade das solicitações fosse aprovada.

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Família síria na Mesquita de Guarulhos (Fonte: Reprodução/ Gabriel Chaim/G1)

O sírio Talal Al-Tinawi, 43 anos, mora com a esposa e os três filhos (Riad, 13, Yara, 10, e a pequena Sara, de dois meses) em um apartamento no Brás, centro de São Paulo. Veio para o Brasil em dezembro de 2013, depois de ter saído da Síria e passado um tempo no Líbano. Em seu país, foi preso por ser confundido com um homem de mesmo o nome, o qual, segundo ele, era opositor de Bashar al-Assad. Ficou por dois meses sem conseguir nenhum contato com a mulher e os filhos. “Nós achamos que ele estivesse morto. Ninguém nos dava notícias, telefonema, nada” conta Riad, o filho mais velho de Talal.

Depois de três meses, conseguiu ser liberado e rumou para o Líbano com toda a família, mas ainda não se sentia seguro. Decidiu, então, vir ao Brasil. Escolheu São Paulo como destino, pois já tinha um amigo que morava na capital e que poderia lhe oferecer moradia por um pequeno período de tempo. “Fomos buscar ajuda na Mesquita de Pari. Lá nos ajudavam com aulas de português e cesta básica”, declara Ghazal Al-Tinawi, esposa de Talal, referindo-se à mesquita localizada no Brás, que possui um projeto de apoio aos refugiados. A família, fiel à religião muçulmana, frequenta o local todas as sextas para a celebração do rito islâmico.

Apesar de todos preferirem São Paulo à Síria e não terem planos de voltar  ao país de origem, a família afirma que quer sair da capital paulistana: “Aqui também é perigoso. Entraram em casa e bateram muito na minha mãe, minha irmã tinha só quinze dias de vida quando fizeram isso”, revela Riad mostrando as marcas roxas no braço da mãe. Quando questionado sobre um provável destino para a família, ele responde com convicção: “Florianópolis. Meu pai tem um amigo que mora lá e diz que é muito melhor.”.

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Ghazal e o filho, Riad Al-Tinawi, em seu apartamento. Ao fundo, parte do Alcorão, livro sagrado da fé islâmica. (Foto: Nara Siqueira)

Além da Mesquita de Pari, os refugiados encontram ajuda no Adus, Instituto de Reintegração do Refugiado, localizado no bairro da República, em São Paulo. William, voluntário do Instituto, conta que o local recebeu cerca de cem refugiados no período de apenas um mês: “Muitos deles são sírios e, geralmente, só vem para o Brasil o homem. A grande maioria fica em abrigos e consegue empregos mais simples, como vendedor ou caixa de supermercado. Quando conseguem se estabelecer, trazem a família”.

No Adus, entre diversos projetos, são oferecidas aulas de português para os estrangeiros: “As aulas acontecem duas vezes por semana, e há turmas diferentes para homens e mulheres, porque, ao menos entre os sírios, quando ambos os sexos estão juntos, só o homem fala, o que não dá oportunidade para a mulher tirar todas as suas dúvidas com relação à língua.”, acrescenta William. Ana Madaleno, professora de
português formada pela USP, também é voluntária do Instituto. Ela conta que outro projeto do Adus é ajudar os refugiados a encontrar emprego, porém essa é uma tarefa complicada: “Há muita resistência (por parte dos empregadores), principalmente por desconhecerem o que é um refugiado. Alguns acham que são “fugitivos”. Uma das ações do programa é a conscientização dos empregadores”.

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Sala de aula do Instituto de Reintegração do Refugiado (Adus) (Foto: Nara Siqueira)

Embora existam institutos e programas que forneçam ajuda a esses estrangeiros, ainda há muita dificuldade quando se trata de construir uma nova vida em São Paulo, especialmente por conta dos próprio brasileiros, que apresentam certa resistência em os admitir na sociedade. Parte disso pode ser atribuída à imagem dos muçulmanos que foi construída por aqui  criou-se um esteriótipo associado ao terrorismo e radicalismo, o qual gera medo e desconfiança, o que pode explicar essa dificuldade dos brasileiros em integrá-los no conjunto social.

Os refugiados, em sua maioria, encontram inúmeros obstáculos para conseguir emprego e acabam exercendo atividades mais simples, mal remuneradas. Isso acontece mesmo com aqueles que possuem qualificação profissional, uma vez que o processo para conseguir revalidar o diploma não é dos mais simples. Conforme consta no portal do Ministério da Educação, somente universidades públicas podem fornecer a revalidação e “devem ser apresentados, além do requerimento, cópia do diploma a ser revalidado, instruído com documentos referentes à instituição de origem, duração e currículo do curso, conteúdo programático, bibliografia e histórico escolar”. A quantidade de documentos exigidos dificulta o processo porque, muitas vezes, os refugiados não os possuem  é válido ressaltar que saíram de seus países fugidos de uma guerra e a bagagem que trazem é mínima. Além disso, ainda pesam as diferenças entre as culturas, a complexidade da língua portuguesa e a insegurança por estar em um território desconhecido. O sonho de uma vida melhor muitas vezes não se concretiza.

J.Press
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