Homem máquina, ensino produtivo

sala-de-aula
Ensino nas escolas está cada vez mecanizado e mercantilizado. (Fonte: Reprodução)

Por Leonardo Milano (leormilano@gmail.com)

Acordar cedo, tomar café, talvez um banho, checar o Facebook, WhatsApp, Instagram, Twitter, ou qualquer outra rede social do momento, esperar a perua escolar ou alguma carona que te leve até o seu colégio e desfrutar de mais um dia tentando encontrar o “valor de X”. Faça isso por alguns anos e, se tiver a sorte de ter nascido filho de pais com dinheiro suficiente para pagar uma escola particular, você provavelmente conseguirá passar no vestibular!

Entrar para a faculdade representa o ápice da curta vida acadêmica de qualquer jovem que acabou de se formar no Ensino Médio. Mas antes é necessário vencer os milhares de concorrentes que competem, a partir de um pedaço de papel chamado de “vestibular”, para ingressar no tão sonhado Ensino Superior.

Desde cedo você é preparado para o grande dia. O dia em que grande parte da baboseira que você foi obrigado a engolir a sua vida inteira, a partir de repetições e tarefas obrigatórias, poderá ser útil por um instante. Quem nunca sonhou em ser questionado acerca do agente etiológico da elefantíase na FUVEST para, então, responder de forma triunfante: Wuchereria bancrofti? Afinal, em que outro momento da sua vida essa informação serviria para algo? Mas você precisou aprender.

Aulas de matemática, física, química, biologia, história, geografia, inglês e português lotam a grade escolar da maioria dos colégios, que estão interessados em transformar os alunos em máquinas de fazer vestibular. “É para o seu bem”, é o que dizem. Parte do conteúdo exigido pelos grandes vestibulares é importante para a formação de um cidadão consciente, mas a “outra parte” apresenta importância no mínimo discutível. Questiono: é de suma importância que um futuro psicólogo tenha de estudar o relevo e vegetação da Ásia? Por que um futuro jornalista deveria passar anos tendo aulas de logaritmo?

A resposta para essas perguntas é simples. Todos que, na infância ou adolescência, indignaram-se ao menos uma vez com uma matéria que consideravam insuportável e decidiram questionar, seja quem for, o porquê da necessidade de se aprender aquilo, ouviu a fatídica resposta: “porque cai no vestibular”.  “E daí?”, você pode indagar. “Como assim ‘e daí’? Você não quer entrar na faculdade?”.

Imagine o seguinte: sua mãe é empregada doméstica e gasta 3 horas por dia no transporte público para trabalhar num bairro nobre da cidade. Seu pai é pedreiro e você tem dois irmãos, um deles recém-nascido. Você vive numa comunidade violenta, uma das tantas esquecidas pelos engravatados que discursam na televisão. TV aberta, pois a cabo é raridade no seu bairro. Mas, mesmo com fatores adversos, você frequenta a escola todos os dias. Escola pública, evidentemente. Dedica-se ao máximo, pois sempre sonhou em ser veterinário. Mas o que você precisa aprender para entrar numa bom curso de Veterinária? A história do Império Carolíngio. Botânica. Como funciona um circuito elétrico.  Fórmulas matemáticas para calcular o apótema de uma pirâmide. Enfim, não é difícil pensar em matérias inúteis para um garoto de periferia que almeja um diploma universitário para melhorar suas condições de vida.

De alguma forma, porém, passar no vestibular tornou-se critério básico para dividir os futuros endinheirados dos pobres. E quem não teme ser pobre nesse sisteminha tão simpático com os menos favorecidos chamado de capitalismo? O sistema da meritocracia! Onde seu maior mérito é nascer rico para ter algum tipo de oportunidade na vida. É bom que esse garoto dê um jeito de aprender tudo o que precisa, senão quem sabe, terá o mesmo destino do pai: construir a casa de quem teve tempo e dinheiro pra estudar em uma escola particular, capaz de passar todo esse conteúdo absurdo exigido para alguém que quer ingressar em uma boa faculdade de veterinária.

Mas a reflexão que pretendo desenvolver não se baseia em criticar a desigualdade social. Não hoje. Gostaria de abordar tanto negligência dos colégios de nosso país em relação ao desenvolvimento artístico, espiritual e cultural dos nossos jovens alunos, quanto o conteúdo desproporcional cobrado pelos vestibulares. Gostaria de questioná-los. Qual o papel da escola: formar cidadãos, ou máquinas de fazer vestibular?

Nossas escolas estão lotadas de alunos que nunca se tornarão estudantes. “Aluno” vem do latim “sem luz”.  Aluno, portanto, é aquele que vai receber a luz de um tutor, para passar a ter sabedoria. Precisa de alguém que o ensine. Já um estudante é quem estuda e, esta atividade, pode ser solitária, como os autodidatas. O bom aluno é também um bom estudante, já que pode aprofundar seus aprendizados. Alunos contentam-se apenas com o que aprendem em sala de aula. Já um verdadeiro estudante busca, fora da escola, expandir seus conhecimentos. Aqui vale traçar um paralelo entre educação e política. O horizonte de qualquer governo deveria ser a busca por cidadãos capazes de se “autogerirem”. O horizonte de qualquer sistema de ensino, seguindo esta mesma linha, a linha da autonomia, deveria ser a busca, por formar jovens capazes de ampliar os conhecimentos abordados em sala de aula, por conta própria. A educação é a arte de transmitir a fome de conhecimento.  Mas que jovem, adulto ou idoso – não importa a faixa etária, neste caso – iria se interessar por aprender mais sobre ésteres, éter, cetonas, e cadeias de carbono. Talvez, os químicos, farmacêuticos… Algum outro palpite?

Mas todos somos obrigados a ter mais aulas de química, do que aula de filosofia, por exemplo. “Filosofia” é um nome de origem grega que significa literalmente “amor à sabedoria”. Pode ser definida, de forma simplificada, como o estudo de problemas fundamentais relacionados à existência, ao conhecimento, à verdade, aos valores morais e estéticos, à mente e à linguagem. No entanto, é uma disciplina cada vez mais marginalizada pelos grandes colégios, sendo, em muitos casos, uma mera optativa na grade curricular.

“Muitos colégios escolhem dar ênfase à Filosofia em apenas um dos anos que compõem o Ensino Médio, o que não é suficiente para o exercício da capacidade de reflexão e abstração. Sendo assim, muitos jovens acham a disciplina desnecessária por não compreenderem sua função. Estamos em uma sociedade que busca resultados concretos e imediatos, sendo muito mais familiarizada com a técnica e o produto do que com a reflexão acerca deles. Formamos, portanto, indivíduos que facilmente são condicionados aos interesses dos que estão no poder político e econômico pela incapacidade de questionar, desconstruir e recriar mentalmente a realidade em que vivem, buscando maior valorização do ser em detrimento do ter”. Essa é a opinião de Willian Ungari, professor de filosofia, sociologia e história da arte do Colégio Vértice, primeiro colocado no ranking de melhores escolas do Enem em 2012, e formado em história pela USP.

Anderson Valle é agente Federal do IBAMA e coordenador voluntário do projeto Escola da Sustentabilidade, em Brazlândia, DF, que busca conscientizar a população acerca de temas ligados ao meio ambiente. Ele afirma que o conteúdo escolar é ruim: “O currículo pedagógico necessita de uma profunda revisão olhando não mais para a formação de técnicos altamente especializados em marcar X em provas de vestibular, mas sim na formação de cidadãos voltados para viver em sociedade. Posso dar inúmeros exemplos: veja, aprendemos que a planária é um platelminto acelomado com capacidade de autorregenerarão e sistema neural difuso, mas não sabemos sequer a constituição de nosso país. Não sabemos quais nossos direitos e obrigações em relação ao próximo e ao meio ambiente, mas temos que entender sobre um platelminto de vida livre que pouca interferência tem na vida adulta de qualquer cidadão”.

Há quem diga que vivemos na era da informação. Mas do que adianta a informação se não há interesse ou direcionamento por parte da sociedade em buscar a evolução cidadã?

por-uma-educação-que-nos-ajude-a-pensar-e-não-que-nos-ensine-a-obedecer
(Fonte: Reprodução)

O ambiente escolar mostra-se propício à proliferação do individualismo e da competição. Em alguns colégios, como o tradicional Bandeirantes, em São Paulo, os alunos são divididos em diferentes salas de acordo com suas notas. No já referido Colégio Vértice, que desponta como um dos principais colégios do país após recentes excelentes resultados no exame do Enem, há um mural onde o nome dos “melhores alunos” é estampado, caso estes consigam média acima de oito. Trabalhos em grupo são cada vez mais raros, já que o “vestibular é individual”; jogos de baralho são estritamente proibidos, “são de azar”; para quem pretende se expressar através do modo de se vestir, esqueça, os pré-históricos uniformes ainda são obrigatórios em muitos colégios.

É inegável a importância da faculdade na formação de um jovem que pretende especializar-se em alguma área de conhecimento e tornar-se um verdadeiro cidadão, e os colégios procuram adequar-se, da melhor forma, para conseguirem passar todo o imenso conteúdo exigido pelos grandes vestibulares.

O professor verticiano, “Will”, para os alunos, concorda que “vivemos em um período histórico no qual prevalece a razão instrumental, impulsionando a nossa sociedade ao desenvolvimento tecnológico desenfreado. A razão cognitiva, que busca responder às questões existenciais, é relegada ao segundo plano. Logicamente isso influencia o processo de ensino e aprendizagem levando os educandos a valorizarem e se dedicarem apenas ao pensamento lógico-matemático. Dessa forma, a arte, a cultura e, principalmente, a espiritualidade são vistas como um passatempo. Não há praticamente incentivo ao desenvolvimento emocional, as relações são cada vez mais breves e levam em conta apenas o desejo do indivíduo. Com isso, não se desenvolve a sensibilidade, a subjetividade, que é necessária para um indivíduo compreender uma obra de arte e assim ampliar o seu repertório cultural. A questão da espiritualidade, nessa sociedade cada vez mais materialista, é ainda um assunto muito mais delicado. Essa busca ocorre muitas vezes apenas em um momento de dificuldade ou desespero. Acredito que os jovens devem perceber esse caminho da espiritualidade como um meio que contribui para o processo de autoconhecimento.”

Não há espaço para a crítica, para debates, discussões, sugestões! Não há arte. Nossa geração se notabilizará pelo vazio. Um vazio artístico, construídos por pessoas que não cantam, não dançam , não pintam, não desenham, não tocam suas vidas com um pouco de arte entre um dever e outro. Pessoas que não se expressam  procuram vencer o tédio por meio de vícios.

“Mas pai, quero ser músico”. “Desista filho, não dá dinheiro”. Quer ser alguém na vida? Seja doutor. Medicina ou advocacia? Tanto faz: “paga bem!”.

Não há espiritualidade, religião ou filosofia de vida que nos sirva de alento. Nosso vazio educacional reflete nossa sociedade que pune quem critica. Que exclui o estranho e julga o diferente. Uma sociedade, onde usamos uniformes, porque assim desejamos. Afinal, o que é estar na moda senão, a busca por se enquadrar num padrão?

Não falamos sobre Deus ou sobre a natureza. Não nos ensinaram a pensar sobre aquilo que não vende. Política é chata, arte é “difícil” e espiritualidade é coisa de gente que não pode estudar.

O problema da educação não se resume às escolas públicas. Aos professores mau pagos. À falta de infraestrutura. À falta de dinheiro para pagar uma boa escola. O problema da educação é um buraco profundo, cavado por aqueles que alimentam um sistema caduco, que não forma cidadãos. Que não quer formar cidadãos, porque cidadãos questionam, cidadãos mudam aquilo que lhes desagrada. E o nosso sistema de ensino forma máquinas, que produzem. Pois é só o que importa.

Compartilhar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *