Sociedade

Transexualidade – quando a aparência esconde quem você é

Por Joana Darc Leal (joanadarcll30@gmail.com)

A transexualidade é um assunto que está em voga na mídia, em uma busca rápida na Internet  é possível encontrar diversas matérias e sites que abordam a questão. Contudo, é um tema que ainda sofre com preconceitos, tabus e falta de informação.

Transexual é a pessoa que não se identifica com o gênero que nasceu e está registrado em cartório, por exemplo, um menino que desde a infância se identifica com os hábitos, as roupas e a aparência feminina. Ainda hoje, a transexualidade é tratada como um distúrbio mental pela Organização Mundial da Saúde (OMS), porém isso está prestes a mudar, a próxima edição do CID – 11 (Classificação Internacional de Doenças) deverá deixar de tachar como distúrbio ou patologia comportamentos relativos à identidade de gênero. Essa nova proposta está prevista para entrar em vigor em 2015.

Essa discussão da transexualidade vista como distúrbio já alcançou patamares tão elevados, que pesquisadores da Europa já realizaram autópsias em transexuais homens-para-mulher com o intuito de encontrar alguma anormalidade, fosse ela genética, nos cromossomos ou de formação. Contudo, os estudos não encontraram nada que explicasse a identificação com o sexo oposto. Outro argumento bastante usado é que a escolha de gênero dos transexuais está atrelada a traumas familiares vividos durante a infância, logo teria uma causa psíquica de ser, porém este argumento torna-se falho ao constatar que a maioria dos transexuais vêm de famílias bem estruturadas, e nunca passaram por situações durante a infância e adolescência que os  traumatizasse.

Gênero: muito além do biológico, uma questão de identificação

Em média, 66% das pessoas transexuais se descobrem como tal ainda quando crianças, o que facilita o processo de transição, que quando tardio tende a ser mais complicado.

A transição

É comum que as pessoas transexuais promovam mudanças em seus corpos, de forma a se sentirem mais a vontade com eles. Essas mudanças são chamadas de transição, e acontecem de forma gradativa. A transição completa pode variar dependendo da necessidade de cada indivíduo, em muitos casos há a necessidade de realizar a cirurgia de mudança de sexo, já em outros não, e as pessoas convivem bem com seus corpos.

A cirurgia de mudança de sexo ou redesignação sexual é uma das grandes dificuldades que cercam a questão. Antes da realização do procedimento é essencial o tratamento com hormônios por pelo menos um ano, eles preparam o corpo para passar por mudanças e têm a função de mascarar as características do sexo original e desenvolver as do sexo desejado. Não há estudos que delimitem a dosagem exata para o uso desses hormônios, elas variam em cada caso, por isso a necessidade de se consultar um especialista. Entre aqueles que opitam pela transição completa poucos se arrependem do procedimento, apenas 1% a 2%. E complicações precoces relacionadas ao uso de hormônios são raras.

No Brasil, a cirurgia de mudança de sexo começou a ser oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no ano de 2008, e desde então a procura pela mesma é crescente. É importante frisar que o SUS somente realiza o procedimento do sexo masculino para o feminino, pois o processo contrário é mais complexo. Por enquanto, apenas quatro hospitais realizam o procedimento, e por isso, há sempre longas filas de espera.

Para entender melhor o assunto entrevistamos Assussena. Ela é transexual, tem 26 anos, é cantora e cursa história na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Com quantos anos você percebeu que não se encaixava ao corpo e ao tratamento que lhes davam ?

ASS: Desde muito nova me incomodava com a doutrinação do que é ser e homem e do que eu tinha que ser. Creio que tinha ceca de seis anos quando comecei a compreender melhor pelo que estava passando. Recordo-me que quando minha mãe saia de casa eu me vestia com as roupas da minha irmã, e colocava panos na cabeça para representar cabelos compridos.

E a essa época já tive minha primeira paixão, era um amigo da minha tia, um garoto hétero, poucos anos mais velho do que eu.

Mas para mim esse momento foi algo tão orgânico que não apreendo tão bem o momento exato.

Você tem planos de realizar a cirurgia de mudança de sexo ?

ASS: Isso é um sonho para mim, porém pretendo deixar para mais tarde, devido ao uso de hormônios necessários para o tratamento pré-operação, que prejudicariam a minha voz. E hoje estou em um intenso processo de produção musical , incluindo a gravação de um CD.

Eu estou em um processo de transformação, e quando digo isso me refiro à transformação física, e esse processo é longo, tenho consciência disso.

Quais são as maiores dificuldades por quais os transexuais passam na sua opinião?

ASS: Pelo menos para mim, a parte mais difícil foi o auto-enfrentamento, me vestir com roupas de mulher foi muito fácil e gostoso. Inclusive tenho a acepção de que apenas passei a agir como sou, me assumi.

E claro o preconceito da sociedade também é algo que torna tudo mais difícil. Houve uma ocasião em que estava no metrô e todos e todas as pessoas começaram a olhar para mim, então me perguntei: será que eu estou errada e todos estão certos ?. Isso só reforça as dificuldades do convívio social.

Você é uma transexual heterossexual, correto?

ASS: Sim, porém acredito na plasticidade da sexualidade, e eventualmente posso ficar com amigos gays, afinal sou livre para ficar com quem quer que eu queira. Mas todos os homens por quem me apaixono são heterossexuais.

Está inserida em um ambiente como a USP, que tende a propiciar maior liberdade tanto ideológicas como sexuais torna as coisas mais fáceis?

ASS: Com certeza, ainda mais estando em um faculdade de humanidades. Aqui conheci pessoas com quem dividi minhas agruras. Mas ainda assim me sinto presa em alguns aspectos,  não há uma total libertação.

Já lhe aconteceu alguma situação desconfortável devido a adoção do nome social.

ASS: Eu ainda não passei por um processo de burocratização do meu nome social, mas sei que quando passar isso vai acontecer. Tenho amigas trans que já sofrem com isso, as pessoas não entendem a importância do reconhecimento.

Em específico, meu amigos mais antigos tem maior dificuldade em me chamar de Assussena, mas para as pessoas que me conhecem hoje é natural.

Quais são para você as razões da confusão entre transexualidade e homossexualidade?

ASS: Isso acontece porque as pessoas não falam se sexualidade, isso é um TABU. Principalmente sobre a diversidade da sexualidade.

Os dilemas de ser você mesmo

Uma grande dificuldade encarada pelos transexuais é a adoção do nome social e seu reconhecimento com legitimação em cartório. No Brasil existem casos isolados, que geralmente acontecem apenas após a cirurgia de redesignação sexual. Esse ano, pela primeira vez, transexuais tiveram o direito de usar o nome social junto ao civil no ENEM. Uma ideia que traria mais conforto aos transexuais seria uma lei como a em vigor na Austrália, em que não é obrigatório a definição do sexo no ato do registro, podendo ser definido depois.

É de suma importância o apoio da família para os transexuais, isso facilita o processo de adaptação que tende a ser complicado por si só. E esse apoio é ainda mais relevante para as crianças, pois elas irão crescer se sentindo muito mais a vontade com elas próprias, além disso o tratamento com a ajuda de hormônios pode ser iniciado antes mesmo da puberdade, período pelo qual o corpo passa pela maioria das transformações.

Um exemplo de como esse apoio é significativo é a adolescente Jazz Jennings, de 13 anos. A menina, que vive nos Estados Unidos, é cofundadora honorária da “The Transkids Purple Rainbow”, uma instituição de apoio a pessoas transexuais, e escreveu o livro I am Jazz (“Eu sou Jazz”), no qual conta sua história.

Um exemplo da maior visibilidade que vem sendo alcançada pelos transexuais é a apresentadora de televisão transgênera Padimini Prakash, recentemente ela foi escolhida para apresentar um dos principais jornais da Lotus TV, na Índia. No país a transexualidade é entendida como um terceiro gênero, o que gera discussões e é encarado por muitos como preconceito.

Lea T, modelo internacional e transexual (foto: divulgação)

Entre as personalidades transexuais brasileiras uma das mais conhecidas é a modelo Lea T, filha do ex-jogador de futebol Toninho Cerezo. Ela é um importante nome no mundo da moda internacional, e está presente em grandes eventos como o SPFW. Contudo, em suas entrevistas diz ainda se sentir afetada pelo preconceito e que ter uma vida amorosa saudável sempre foi uma questão complicada.

É propício também esclarecer as diferenças entre orientação sexual e identificação sexual, lembrando que são coisas independentes. A orientação sexual está relacionada à atração que se sente por outros indivíduos, já a identificação sexual diz respeito ao gênero ao qual a pessoa se identifica. Logo ser transexual não implica em ser homossexual. Portanto, um homem que passou pelo processo de transição, ou seja, nasceu no corpo feminino, e se relaciona com mulheres é heterossexual.

Os avanços relacionados à questão da transexualidade estão se mostrando mais intensos nos últimos tempos, mas ainda há muitas portas para serem abertas e direitos a serem alcançados. Qualquer preconceito para com as pessoas transgêneras deve ser repudiado e denunciado, pois todos devem ser livres para agir, se vestir e viver da forma como se sentem melhor.

J.Press
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