O segredo que guardam os sambaquis

Por Mariana Miranda (marimiranda94@gmail.com)

Se engana quem acredita que a história do Brasil começou com a chegada dos portugueses em Porto Seguro. Igualmente equivocados estão os que afirmam que, na verdade, tudo começou com os índios residentes do território brasileiro. Através de constantes descobertas, a arqueologia brasileira mostrou que há mais de 10 mil anos o Brasil já era povoado por grupos pré-históricos, alguns deixando suas marcas no solo em formato de sambaquis.

A palavra “sambaqui” tem origem tupi e significa “amontoados de conchas”. “Falantes desta língua ocuparam o litoral séculos depois dos sambaquieiros, e reconheceram os montículos”, conta Paulo DeBlasis, professor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo.  Contudo, um sambaqui é formado por muito mais do que isso: conchas de moluscos, areia, sedimentos lamosos, ossos de animais, artefatos, restos de fogueiras e esqueletos humanos também fazem parte de sua composição.

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Sambaquis: estruturas feitas por homens pré-históricos através do acúmulo de conchas e outros sedimentos (Foto: Paulo DeBlasis / Museu de Arqueologia e Etnologia – USP)

Esses sítios arqueológicos são estudados desde a época de Dom Pedro, possuindo três características básicas: são estruturas antrópicas, ou seja, feitas pelo homem, muitas vezes funerários e localizam-se próximo a água, seja rios, lagos ou o mar. “Há sambaquis por quase todo o litoral brasileiro, principalmente nas baías, lagunas e estuários, áreas de grande produtividade e muito ricas em recursos alimentares. Apesar de haver concheiros espalhados pelas áreas litorâneas de quase todo o mundo, o termo ‘sambaqui’ é usado apenas para os concheiros brasileiros, e se refere às culturas locais”, explica o professor.

Os maiores sambaquis são quase sempre monumentos funerários. Durante séculos, as cerimônias eram realizadas em um mesmo local, gerando o acúmulo de sedimentos: “Para essas cerimônias, ao que parece bastante festivas, grandes quantidades de alimentos eram trazidas e os restos eram, depois, depositados sobre as áreas funerárias. Assim, aos poucos, o sambaqui vai ganhando volume e se agigantando”, conta DeBlasis. Cada camada da estrutura representa uma época específica de habitação, sendo as mais superficiais as mais recentes e as mais profundas as mais antigas. Apesar da grande semelhança entre os sambaquis em toda a costa brasileira, o professor diz que é pouco provável que tenham sido construídos pelo mesmo grupo social.

Analisando os esqueletos encontrados, foi possível concluir que os sambaquieiros tinham estatura baixa, os homens por volta de 1,62m e as mulheres de 1,53m. Além de coletores, eram também caçadores e pescadores, o que lhes  proporcionava corpos robustos devido ao intenso esforço muscular. Tinham poucas cáries, pois possuíam uma alimentação altamente protéica e com poucos carboidratos. Utilizavam as fogueiras para cozinhar seus alimentos e espantar animais selvagens, sendo possível encontrar vestígios delas nos próprios sambaquis.

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Sambaqui do litoral sul catarinense (Foto: Paulo DeBlasis / Museu de Arqueologia e Etnologia – USP)

Para realizar as pesquisas acerca  desses sítios, os arqueólogos utilizam diversas técnicas. As escavações são utilizadas para documentar  o contexto em que viviam os sambaquieiros, descobrindo sobre seus habitats e atividades cotidianas. “A forma mais conhecida são as famosas escavações arqueológicas que, por serem destrutivas, são feitas em áreas escolhidas e, em geral, não muito grandes. Existem hoje métodos não destrutivos, como o radar de solo (GPR), que estão se tornando cada vez mais populares”, conta o professor. O GPR usa sinais eletromagnéticos para encontrar objetos enterrados na terra sem que seja necessário escavar o local. Desse modo, o sambaqui permanece preservado e os arqueólogos conseguem realizar o estudo da área.

Apesar de sua grande importância histórica, muitos brasileiros não conhecem a existência dos sambaquis devido  à  falha divulgação científica no Brasil. Além disso, esses sítios sofrem com a falta de preservação, desde a chegada dos primeiros europeus, que os utilizavam para a produção de cal, até hoje, quando são muitas vezes destruídos. “Os sambaquis são importantes porque demonstram a ocupação humana do litoral  milênios atrás, representam um registro cultural e paleoambiental importantíssimo, e podem mesmo servir de referência para se pensar em estratégias de sustentabilidade para áreas costeiras”, conta DeBlasis.

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