Uma crônica sobre o futebol de 5

Por Guilherme Eler (gui1475@gmail.com)

“Não dá para dimensionar por que o brasileiro é tão apaixonado por futebol. Coisa de louco.”
Felipe de Paula, 20 anos, jogador de futebol de 5

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(Arte: Leandro dos Santos Bernardo/Jornalismo Júnior)

Cheguei muito antes do que estava programado para começar o treino. O trânsito cooperara apesar da chuva fina que caía e o trajeto de transporte público era menos tortuoso do que pintava o mapa. O centro recreativo da prefeitura, localizado em uma ruazinha escondida mas não distante do centro de São Bernardo do Campo já estava aberto.

Na arquibancada, Felipe já esperava. “Chego sempre bastante cedo”. A princípio reservado, hesitante em dar declarações extra-oficiais a um – quem dera – jornalista, me contou sua experiência com aquela modalidade, até então pouco conhecida por mim, mas importante parte da vida daquele carioca.

Carioca. O seu sotaque um pouco carregado o denunciava. E a paixão pelo futebol fazia com que ele deixasse Volta Redonda aos fins de semana em direção ao ABC. Afinal, o que era percorrer sozinho semanalmente mais de seiscentos quilômetros? Normal, deveras. Deixar a família toda sexta à meia-noite e voltar para casa ao fim do sábado já virara rotina. Pelo segundo ano Felipe repetia o trajeto em busca do sonho de ser um jogador.

Apesar de ter a base em sua cidade, lá as coisas não deram muito certo. O clube em que manteve contato com o esporte a partir de 2007 se dissolvera após não ter bons resultados ao disputar a segunda divisão do campeonato brasileiro. O desgaste do grupo e a falta de apoio foram os principais motivos que contribuíram para que ele tivesse de ficar fora das quadras por um tempo.

Em 2012, após nova experiência frustrada no esporte, o sonho quase foi deixado de lado. Ao encontrar uma equipe fragilizada e promessas não cumpridas no time de Campos dos Goytacazes, interior do Rio de Janeiro, a vontade de jogar deu lugar à sensação de que talvez não fosse dar certo. Mas, no ano seguinte, por meio de contatos com amigos, surgiu a oportunidade de treinar na região metropolitana de São Paulo. Estava ali, e estava feliz. “O pessoal me acolheu muito bem”.

Muito devido ao espaço reduzido que os esportes para pessoas com deficiência possuem, ainda é difícil praticá-los. “Não é em todo lugar que a gente chega e pode jogar. Tem que ser um espaço mais adaptado, não é qualquer campo que tem as marcações no chão. As barreiras em volta da quadra que você está vendo, mesma coisa. São muitos empecilhos para se praticar normalmente um esporte”. Estavam justificadas as odisseias semanais.

De sorriso no rosto, enquanto compartilhava suas frustrações como flamenguista fiel, o jovem mantinha um discurso bem familiar. Profissional, por que não.

– Tem que se dedicar em todos os aspectos. Eu, particularmente, não me contento só em fazer o esporte. Tenho que vir, ganhar espaço no grupo, tentar de alguma forma impressionar o treinador. Pude já ano passado participar de campeonato com a equipe. Esse ano a gente vai entrar firme para ver se os resultados são mais satisfatórios. Com o pessoal que tá chegando, a tendência é que o time entre forte.

A conversa tinha de ser interrompida por conta do horário. Era o momento de Felipe assumir os trajes de jogador. Um a um, o time vinha chegando. O auxiliar e preparador físico da equipe cumprimentava os presentes. O multifuncional seu Zé, zelador nas horas extras, pendurava os banners dos patrocinadores e separava os equipamentos dos atletas. Até a voz do treinador já tinha sido ouvida.

– Quem é o técnico?
– Aquele gordão ali, apontou.

Tratei de ir também investigar quem comandava. Expus a ele a proposta inicial da visita: participar efetivamente de um treino, viver um pouco da experiência do futebol de 5 in loco. Mesmo que fosse jogando no gol, quem sabe. O professor, um senhor atencioso e de fala firme, longe da forma física que espera de seus atletas, logo tratou de me corrigir. De certo era alguém – mais um – que desconhecia o esporte que ele, há oito anos, tinha contato bastante próximo.

– Infelizmente não vai ser possível. Aqui é um trabalho de alto nível, você atrapalharia o treinamento. Você vai ver. E também, já temos goleiros que treinam com a gente.

Tentando disfarçar a aproximação pouco amistosa, que transpassou mais falta de conhecimento do que interesse no esporte e no trabalho realizado ali, me empenhava para me retratar.

– Qual é a parte mais complicada da preparação deles, o que o senhor costuma trabalhar mais nos treinos?
– Você já teve oportunidade de conversar com outros atletas? O que eles mais reclamam de fazer?
– Sim. Creio que seja mais essa parte física.
– Aqui é da mesma forma. Igual. Por eles, era só coletivo, são atletas como os outros. A gente tem que ficar em cima. Se puderem dar migué, vão dar. Olha aquele ali, de camiseta branca. Tenho que pegar muito no pé dele, vive fingindo que está sentindo a perna.

Sentia na fala orgulhosa do técnico uma realidade compartilhada com poucas equipes no país. Esbarrando na pouca visibilidade do esporte, precariedade de estruturas e falta de incentivo, muitas não conseguem participar de competições e descobrir mais jogadores, ficando fadadas ao amadorismo. No caso deles, o patrocínio de empresas e um trabalho comprometido conseguiam driblar as adversidades e manter uma equipe profissional, com atletas profissionais ou se profissionalizando. Há até os que já chegaram à seleção brasileira.

– Aqui todo mundo recebe ao menos uma bolsa, é o trabalho deles. Eles têm de se dedicar, vir aos treinos, recebem para isso. Por isso a gente cobra.

O começo da parte física e tática do treinamento abreviou nosso diálogo. As bolas adaptadas com guizos delimitavam o percurso a ser feito no aquecimento. Alongamentos, treino de passes, finalização, pênaltis, escanteios, jogadas de ataque e defesa. Os goleiros trabalhavam separadamente. Agilidade nos movimentos e um pequeno tempo de resposta aos chutes eram imprescindíveis.

Abordo Pablo, goleiro reserva e, como eu, iniciante no esporte. Após aceitar o convite do amigo e também goleiro Vinícius, participava de seu primeiro treino. E a dificuldade de acompanhar a dinâmica do futebol de 5 era evidente. Arqueiro acostumado com o futsal, ressaltava como é complicado prever as jogadas. “É como se, igual a eles, a gente não enxergasse. É imprevisível. Não dá para saber quando eles vão disparar uma bica na bola”.

Com o começo do coletivo, ia percebendo que o esporte se assemelhava muito mais do que pensava com sua versão mais consagrada. Desentendimentos por causa de erros de marcação, cobranças por melhor posicionamento e maior rapidez na troca de passes. Tudo isso fazia parte. Ali o Felipe se estranhando com o defensor fora do lance. Normal, jogo que segue.

De fato, era uma partida muito brigada. Cada lance era acompanhado até o fim, em um ritmo muito intenso. Durante uma disputa de bola em um contra-ataque, Dudu se choca com o defensor e abre o supercílio. Lá vai o seu Zé socorrer o camisa nove. Por sorte, duas moças familiarizadas com primeiros socorros que acompanham o treino dão suporte e estancam o sangramento rapidamente.

Com um lançamento do goleiro e falha de marcação, Felipe chuta bem e assinala um gol. 1 a 0. Pouco depois, Tiago tira três da jogada e bate forte de direita, no canto do goleiro. Vem o empate e logo o fim do jogo. Penalidades máximas alternadas. Na terceira cobrança, de Felipe, o goleiro pega sem dificuldades.

Todo mundo para o vestiário. Aproveito para chamar Tiago. Enquanto passa desodorante e gel no cabelo, o autor do gol me conta sua trajetória com a camisa da seleção. Desde a sub-23 fazendo boas apresentações, trata as convocações como fruto do trabalho e dedicação nos treinos. Elogio o surpreendente posicionamento dele e de seus companheiros em quadra. “É treino, tudo muito treino.”

O corte sofrido no mundial do Japão, no ano passado, não o desanimou nem um pouco. Apesar de estar entre os dez selecionados, seu nome fora tirado da lista dos oito convocados no último momento. O morador de Curitiba, que eventualmente viaja para treinar com o elenco do ABC, destaca ainda como foi jogar contra nossos principais adversários. “A rivalidade Brasil e Argentina é muito forte. Mas cara, se eu te disser que não é uma delícia ganhar deles… é (pausado) sen-sa-ci-o-nal”.

O simpático Vinícius, goleiro do time, vem ao meu encontro. Também jogador da seleção principal, conta com satisfação o orgulho de representar o Brasil. Lembrando-se de quando passou a integrar ao grupo, consegue resumir muito o que senti desde que cheguei. “A gente vem treinar querendo ajudá-los em tudo, mas os caras são muito independentes, não precisam disso”.

Único integrante da equipe que enxerga, a tarefa do goleiro é dar o suporte defensivo aos jogadores. A linha que delimita sua área de atuação consegue transmitir perfeitamente o tamanho de sua influência. Não podendo defender fora do retângulo de 2×5 metros à frente da baliza, as orientações são sua principal forma de cooperar com o time. O quinto homem brilha raramente, deixa o protagonismo para os da linha.

Aproveito ainda para falar com Otávio, o mais jovem e um dos mais reservados do grupo. Diferentemente dos colegas de equipe, sem deficiência visual total, é capaz de perceber alguns flashes de luz. Pergunto se, sem a venda, os vultos não poderiam ajudá-lo, conferindo vantagens ante os outros companheiros. Sou surpreendido. “Na verdade não. Acho que até atrapalharia na verdade, ficaria muito concentrado em ver. E ver é o que a gente menos precisa nesse jogo”.

Talvez por isso mesmo me tenha sido barrada a participação no treino. Mais do que atrapalharia o treinamento dos jogadores, não me daria uma experiência completa do que é o esporte. Enxergando, – ou ao menos tentando enxergar por debaixo da venda – não conseguiria entender o que significa para cada um daquele time correr atrás de uma bola. Isso tudo vai muito além. Muito além do olhar.

Mais um dia normal para o pessoal do futebol de 5.

– Terça-feira tô aí de novo, hein, professor?
– Até terça.

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