Política Sociedade

Ódio de todos a tudo

Por Carolina Pulice (carolmppulice@gmail.com)

Diante da dificuldade em expressar sua individualidade, o ser humano busca unir-se a grupos de pessoas semelhantes. Esses grupos possuem uma identidade, que os diferenciam e os destacam dentro da sociedade. Assim são criadas as religiões, seitas, partidos políticos, famílias. Porém, as diferenças entre os grupos e suas identidades geram também o preconceito. Preconceito pelo que não condiz com as ideias e características de tais conjuntos de pessoas.

Acompanhando a história da humanidade, nota-se que o preconceito gerado pelas diferenças sempre ocorreu, sendo muitas vezes violento e destruidor. Guerras, segregação, extermínios ocorreram movidos pelo preconceito.

E hoje não é diferente. Notícias e imagens abaixo captadas na internet, somente nos últimos meses, mostram o quão persistente é esse conflito de identidades em nossas vidas.

Post no facebook
Alguns eleitores expuseram sua insatisfação e sectarismo nas redes sociais após a vitória de Dilma Rousseff (PT) na eleição para a Presidência (Fonte: Reprodução)

“Militantes do PT e do PSDB entraram em confronto no centro de SP”, Folha de S.Paulo, out. 2014
“Polícia Civil apura se jovem gay morto em Goiás foi vítima de homofobia”, Folha de S.Paulo, set. 2014
“Rapaz é esfaqueado em confusão entre punks e neonazistas no centro de SP”, Folha de S.Paulo, out. 2014
“Jovem negro é morto por policial nos EUA”, Folha de S.Paulo, ago. 2014

Os exemplos dados acima são recentes. As três primeiras notícias no Brasil, a última nos Estados Unidos. O post no Facebook ocorreu após o resultado do segundo turno para presidente. A derrota do candidato Aécio Neves foi vista com indignação por parte de seus eleitores, que expressou decepção com comentários preconceituosos e insultantes.

Brasil, mostra a tua cara 

O Brasil é um país de intensa miscigenação e diversidade social. Além disso, a desigualdade social reforça esse cenário eclético da sociedade brasileira.

Como dito anteriormente, a diversidade provoca conflito de identidades e preconceito. E esse preconceito foi evidenciado nesse ano, com a eleição para presidente.

Em reportagem à Folha de S.Paulo, o filósofo Paulo Eduardo Arantes disse que, após as manifestações de junho de 2013, uma nova direita surgiu em nosso país. Um grupo com opiniões políticas fortes, que querem desconstruir o governo atual.

Para o professor de Filosofia da USP (Universidade de São Paulo) Homero Silveira Santiago, a turma citada por Arantes não é “novo”. “Esse grupo é constituído pela classe média ressentida que perdeu exclusividade e privilégios após as reformas sociais implantadas do governo federal”, comenta o professor.

A elevação do consumo de bens materiais da classe baixa é um exemplo do que deixou de ser exclusividade da classe média. Essas perdas incitaram o ódio de classes que se revelou real e presente no pensamento de muitos, especialmente durante o período das eleições.

Assim, programas sociais como o Bolsa Família são duramente criticados pela classe média que justifica suas reclamações com o pensamento meritocrático e com a concepção de que quem recebe o auxílio é “vagabundo”.

ROTA
ROTA – Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Fonte: Divulgação)

Outro exemplo de preconceito social é exposto no jargão: “Bandido bom é bandido morto”. A concepção de que o bandido é inimigo e que deve ser liquidado para manter a paz e a ordem de nossas vidas coincide com a admiração que temos pelo filme Tropa de Elite, por exemplo. Vibramos ao assistir traficantes sendo torturados com sacos plásticos, e sendo brutalmente assassinados pelo BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais). Essa mesma vibração e admiração é apresentada no recém-criado blog Admiradores da Rota, em que são postados fotos e vídeos de ladrões assassinados ou sendo assassinados pela polícia de São Paulo. Recentemente, o blog foi desativado, mas os mesmos donos possuem página no Facebook e canal no YouTube.

O preconceito pelo banditismo é presente em todas as partes do mundo, tornando-se algo “normal”. Esse ódio pelo criminoso e admiração pelo policial deixam de lado questões como a causa do banditismo e as questões sociais e econômicas do país. Por que o garoto assassinado de dezesseis anos, como retratado no Admiradores da Rota, virou bandido?

Luz no fim do túnel?

Combater o preconceito seria quebrar os paradigmas da busca por uma única identidade. A miscigenação e a aceitação das diferenças são o cenário utópico que necessitamos buscar. Essa busca, porém, permanece no limite entre o impossível e o improvável. O ódio e o preconceito caminham juntos e permanecem muito fortes em nossas vidas.

Para o professor Homero, o ódio e preconceito generalizado só não são expressos fisicamente porque existem leis que ordenam nosso comportamento social. “Pensar em mecanismos de contenção à violência é essencial para a vida em sociedade. Preconceitos sempre existirão, porque é algo natural do ser humano; mas propagá-lo e de maneira violenta é algo impensável para a convivência harmônica no país”, finaliza o filósofo.

A boa convivência entre os diferentes grupos não elimina as identidades e pensamentos que cada um possui. No entanto, a racionalidade e priorização do respeito à maioria deverão ser sempre os guias de nossas vidas.

J.Press
A Agência J.Press de Reportagens é um espaço destinado à publicação e divulgação de matérias com abordagens inovadoras. Vinculada à empresa Jornalismo Júnior, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a agência busca novas formas de explorar assuntos de interesse público por meio do jornalismo.

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