Sociedade

O racismo na “terra da liberdade”

Por Vitória Batistoti (batistoti.v@gmail.com)

Era 28 de agosto de 1963. As ruas da cidade de Washington, a capital estadunidense, reuniam mais de 250 mil pessoas em uma marcha pacífica liderada pelo pastor e ativista Martin Luther King com o objetivo de lutar pelo fim da segregação racial no país.

Na intitulada “Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade”, Luther King proferiu o discurso com sua frase mais conhecida: “I have a dream” (“Eu tenho um sonho”). Em seu belo discurso, havia uma frase instigante: “Tenho um sonho de que meus quatro filhos viverão um dia em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo teor de seu caráter”. Em meio a uma sociedade que cultuava a segregação racial, o preconceito de cor e as agressões físicas e verbais proferidas à classe negra, Luther King tinha um sonho. E junto a ele, outros tantos ativistas compartilhavam o mesmo desejo.

O ativista Martin Luther King durante a Marcha Sobre Washington, em 28 de agosto de 1963. (Foto: Wikkimedia Commons)

Hoje, 51 anos após o discurso de Luther King, poderíamos crer que a situação social do negro nos EUA melhorou. Mas a vitória do primeiro presidente negro Barack Obama, desde 2009, pode dar a falsa impressão de que o racismo é um problema superado e vencido.

A herança da escravidão

A presença dos africanos na parte norte do continente americano iniciou-se a partir do século 17. Os negros destinados à América do Norte (as treze colônias britânicas) foram integrados aos estados sulistas para exercer a função de mão de obra escrava nas plantações baseadas no sistem de plantation (economia colonial típica, caracterizada pela monocultura de exportação em latifúndios). Os estados nortistas, por sua vez, eram povoamentos com mão de obra assalariada, produção para mercado interno e manufaturas.

Após a indepêndencia em 1776  até a década de 1850, as diferenças entre o Norte industrializado e o Sul agropecuário pareciam dividir os EUA em dois países muito distintos. A questão que mais os segregava era em relação ao trabalho escravo: de um lado, os nortistas eram contra e prezavam a mão de obra assalariada, já de outro, os fazendeiros sulistas muito se beneficiavam com o trabalho escravo. Nesse contexto de polarização, a Guerra Civil Americana teve início.

A vitória do conflito foi obtida pelos estados do Norte, em 1865, na liderança do presidente Abraham Lincoln, nortista que, em 1863, assinou a lei de Proclamação da Emancipação, iniciando os esforços para abolição da escravatura nos EUA.

Entretanto, derrotados no conflito, os sulistas não cederam aos ex-escravos direitos civis e políticos e o racismo e ódio aos afro-americanos não foi interrompido. Organizações como a Ku Klux Klan e Os Cavaleiros da Camélia Branca foram fundadas em 1866 por sulistas que desejavam semear o terror entre a população negra.

A luta por direitos civis

A situação social complicada em que os negros se encontravam perdurou até a década de 1960. O movimento de luta por direitos civis, iniciado em 1955, começou a aparecer nas cidades do Sul, recebendo apoio de militantes e sendo protagonizado por personagens importantes na história de luta ao racismo estadunidense.

Rosa Sparks, em 1955, deu início ao movimento ao recursar ceder seu assento (destinado a negros) no ônibus em que estava para um branco se sentar, já que os bancos para estes estavam lotados. Sparks foi condenada e presa posteriormente. Só que seu ato e prisão repercutiram, gerando desgosto e revolta à população, iniciando a luta dos negros por igualdade (além de um boicote à utilização de transportes públicos que quase levou à falência o sistema urbano de transportes), que só teve fim quando a lei de separação dos bancos foi extinta.

Após Sparks, muitos outros atos ocorreram em luta à segregação de negros em ambientes acadêmicos e, em 1963, houve a pacífica Marcha sobre Washington. Outra passeata de Luther King, em 1965, possibilitou a aprovação do presidente Johnson e do Congresso ao direito ao voto dos negros.

Em 1966, o Black Power (Poder Negro) e os Panteras Negras surgiram como grupos de fortalecimento da cultura negra e luta contra a violência e discriminação que sofriam.

A violência racial

No dia 9 de agosto deste ano, na cidade de Ferguson, no estado de Missouri (localizado na região centro-oeste do país) o adolescente negro de 18 anos, Michael Brown, foi baleado sem razões aparentes. Brown estava a caminho da casa de sua avó, desarmado e sem possuir qualquer antecedente criminal, quando foi abordado por um policial e, posteriormente, baleado com seis tiros. As versões do fato divergem entre uma testemunha que estava com Brown e a do policial que baleou o garoto. O fato é que o homicídio revoltou a população na cidade de Ferguson.

Manifestantes realizam passeatas em Ferguson após a morte de Michael Brown. (Foto: Joshua Lott/Reuters )

As ruas da cidade foram palco de protestos durante longos oito dias. Eram manifestantes que protestavam contra a violência policial e contra o tratamento da polícia para com a sociedade negra. Nestes protestos, houveram passeatas pacíficas, confrontos de manifestantes contra a polícia militarizada, violência e saques a lojas. A onda de dez dias de combate à violência racial em Ferguson lutou pelo fim de uma realidade enfrentada por muitos afro-americanos. Isso mostra que luta do século passado não parou. Ela continua persistindo enquanto houver qualquer foco de discriminação racial e étnica.

Em 2012, o adolescente afro-americano Tayvon Martin, de 17 anos, foi vítima de homicídio ao ser alvejado pelo segurança George Zimmerman em um condomínio onde o garoto estava hospedado, em Sanford, na Flórida, região Sul. Zimmerman foi inocentado, alegando legítima defesa, todavia existem rumores de que o motivo real seria racismo. O caso gerou uma onda de protestos nos EUA, visto que todos os policiais que cometeram os homicídios citados eram homens brancos.

Em 2001, em Cincinnati, Ohio, o jovem negro de 19 anos Timothy Thomas (que estava desarmado) foi morto por um policial durante uma perseguição. Após o ocorrido, houveram quatro dias de violência e 70 pessoas ficaram feridas. No ano do ocorrido, a morte de Thomas foi o 15° homicídio de um negro praticado pela polícia em Cincinnati  desde 1995.

Já em 1992, houve o caso do motorista negro Rodney King, que foi espancado por um grupo de policiais em Los Angeles.

Passeata em Ferguson

“Não somos cachorros! Para que eles carregam esses cassetetes?”, proferiu um manifestante em um dos dias de passeata, como dito pelo jornal St. Louis Post-Dispatch. Os policiais estavam tensos, com muitos equipamentos. Havia um francoatirador de uniforme militar. Alguns militares que participaram da guerra no Oriente Médio disseram que os policiais na passeata detinham melhores equipamentos do que eles em áreas de conflito. Em um dos dias, dois jornalistas foram detidos pela polícia, liberados em seguida.

Os dados são alarmantes. Em Ferguson, dos 21 mil habitantes, 67% são negros. E dos 53 policiais na cidade, apenas três são negros. O relatório do Ministério Público do estado de Missouri informou que, em 2013, 93% dos presos pela polícia em Ferguson eram negros. Além disso, a taxa de desemprego de jovens negros (entre 16 e 24 anos) é de 47%, sendo 16% para brancos na mesma faixa etária. Mais chocante ainda são as estastísticas do Departamento de Polícia de Ferguson: em 2013, a polícia parou 688 caros dirigidos por brancos e 4.632 por negros. Sobre esse assunto, a jurista Delores Jones-Brown diz que, “de forma geral, todos os ‘não brancos’ não são devidamente representados nos departamentos de polícia”. Ainda afirma que “policiais negros dizem que tendem a olhar para pessoas negras com menos suspeita que seus colegas”.

Pew Reserach, think tank (instituições dedicadas a produzir e difundir  conhecimentos e estratégias sobre assuntos vitais de política, economia ou de cunho científico) localizado em Washington, DC, constatou em um estudo do ano passado que 70% dos afro-americanos sentem que a polícia os trata com menos justiça do que trata os brancos. O instituto Gallup mostrou, também no ano passado, que apenas 38% dos negros confessam ter grande confiança nos policiais.

Para o advogado da família, Benjamin Crump, a morte de Michael Brown é “novamente a morte absurda de um negro”. Benjamin Crump foi o mesmo advogado do caso de Trayvon Martin.

Devemos ressaltar que o conhecimento dos casos citados só estão ao nosso alcance porque a mídia quis publicá-los, ou seja, existem tantos outros cuja existência nunca saberemos. Sobre o poder na mídia na construção (ou desconstrução dos casos), o site Huffington  Post Black Voices produziu uma matéria espetacular que aponta a diferença no linguajar da mídia quando se trata de jovens brancos suspeitos e jovens negros vítimas.

J.Press
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