Política

Eu fui mesária

Por Fernanda Guillen (fernandaguillengomes@gmail.com) e Nairim Liz Bernardo (nairimlizbernardo@gmail.com)

Em julho deste ano, recebi uma carta da Justiça Eleitoral. Ingênua e sem nunca ter votado, pensei que era um lembrete sobre as votações e achei um ato atencioso. Antes de abri-la, comentei sobre a carta com meus pais. Solidários, eles riram com certa piedade e explicaram que deveria ser uma convocação para trabalhar nas eleições. Li a carta e confirmei a hipótese (que para os meus pais já era uma certeza). Minha mãe disse: “Nossa, filha, não conheço ninguém que tenha sido convocado. Que sorte!” Meu pai: “Ou azar…” Até agora, eu ainda não sei por que ser mesário é algo tão ruim, mas, naquele momento, já senti a preguiça e a chatice se aproximando.

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O serviço de mesário não é remunerado, porém cada dia trabalhado da direito ao dobro de dias de folga. (Imagem: TRE-MG)

Só em São Paulo, a Justiça Eleitoral convocou 400 mil mesários. A palavra “mesário” é um termo genérico para designar aqueles eleitores que trabalham nas eleições. Mas, na verdade, há quatro tipos de cargos convocados para cada local de votação: um presidente (organiza toda a mesa), dois mesários (ficam na mesa conferindo documentos), dois secretários (auxiliam e tiram dúvidas dos eleitores) e um suplente (para substituir alguém que possa ter faltado). Eles também são responsáveis por garantir sigilo de voto e livrar os eleitores de tentativas de corrupção e assédio. Porém, nem sempre houve essa preocupação com a democracia e a transparência nas eleições brasileiras. No início da República, final do século XIX, a prática do voto de cabresto garantia o “curral eleitoral” do coronel, já que os eleitores eram obrigados, por meio até de violência, a votar nos candidatos apoiados pelo fazendeiro. Esses termos animalizam o eleitor, já que o coronel não vê os cidadãos como pessoas que precisam ser representadas, e sim como animais desprovidos de inteligência e servem apenas como números usados para seu próprio interesse econômico e pessoal.

Dentre os convocados está Isadora Vitti, que nunca votou, mas recebeu a carta para ser mesária em Mogi das Cruzes. O cargo para o qual ela foi chamada é de segunda secretária, e ela já sabe que terá que trabalhar o dia todo em pé. “Na hora em que soube da convocação, não gostei nem um pouco. Fiquei um pouco brava e pensei em maneiras de faltar”. Com o treinamento, a situação se inverteu e ela percebeu que pode ser uma boa oportunidade para conhecer pessoas diferentes. Sobre o treinamento, “Foi uma experiência bem engraçada”, ela conta. “Eles mostraram um pequeno filme sobre cada função, e que, a cada cinco minutos, repetia que ser mesário é um ato de cidadania. Também havia três urnas para quem quisesse praticar, além de os convocados receberem manuais com as funções do mesário e com alguns exercícios de fixação. Uma mulher também explicou sobre o trabalho e tirou possíveis dúvidas”.

Por outro lado, o senhor Domingos, que hoje tem 91 anos, foi mesários três vezes na década de 50. Para ele, era um trabalho fácil e importante. Ele nunca foi voluntário, e disse que dá uma certa preguiça ficar um domingo inteiro no local da votação, mas que é uma experiência proveitosa. Saudosista, disse que na época não achava ser um trabalho cansativo. “Eu era jovem”, disse em um tom nostálgico, olhando para a sua mocidade, presente em inúmeros retratos pendurados pelas paredes de sua casa. Tentando me incentivar, ele disse que ser mesário é legal, e que alguns eleitores até levam café para quem está na mesa. Apesar de ter sido mesário há mais de 60 anos, senhor Domingos lembra de uma história da época. Certa eleição, na qual ele havia sido convocado para ser suplente, os homens convocados estavam decidindo poupar a única mulher presente, mandando-a para cada e deixando o senhor Domingos em seu lugar. Na hora, ele já rejeitou o acordo, “afinal, se a moça for embora, eu quem vou ter que ficar. Os senhores já ficarão de qualquer jeito, não é mesmo? Nada disso! Quem volta para casa sou eu, o suplente!”, lembra senhor Domingos. Animado, ele veio com uma pasta cheia de documentos e me mostrou os comprovantes de votação das últimas eleições. Eu, assustada, perguntei se ele ainda votava. “Lógico, vou votar esse ano de novo! Afinal, se a gente não vota, o país acaba indo parar nas mãos de bandidos. Eu gosto de votar. Mas se me chamarem para for mesário, hoje eu não vou mais não”.

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Comprovantes de voto de seu Domingos (Imagem: Fernanda Guillen)

O senhor Neposiano, que foi mesário nos anos 70, conta que nunca foi convocado previamente para o trabalho. Como ele era um dos primeiros a chegarem na votação, ele simplesmente foi tirado da fila para ser mesário. Depois disso, trabalhou em várias eleições seguidas.

Já que nem sempre há voluntários suficientes, é isso que acontece. Alguns têm que ser obrigados mesmo. O cientista político Humberto Dantas, conta que certa vez estava trabalhando como mesário, no cargo de presidente, quando um eleitor (muito mal educado, por sinal) chegou ao local da votação gritando e xingando todo mundo. Ele dizia que eram todos muito lerdos, que a fila estava demorando, que estava tudo desorganizado. Como estava mesmo faltando pessoal, Humberto teve uma ideia: “Já que o senhor acha que tudo tá ruim, vai ficar pra ajudar a organizar a fila”. O reclamão disse que não ia ficar coisa nenhuma, que não era obrigado. Mal sabia ele que estava redondamente enganado. Na ausência do juiz eleitoral, o presidente da mesa passa a ser a autoridade máxima dentro da seção eleitoral. E foi assim que esse senhor deu sua contribuição ao país, ajudando nas eleições para não sair algemado.

Mas há casos em que as pessoas não podem ser obrigadas, e nem mesmo convocadas para trabalhar como mesário. Érica Leoni, defensora pública, será mesária pela primeira vez, e na Fundação Casa. O que a motivou para se voluntariar foi a preocupação em contribuir para o processo eleitoral democrático. “O Poder Público não designa mesários para ir às penitenciárias e Fundações Casa. Dessa forma, presos provisórios e adolescentes infratores, que têm o direito de votar, não podem exercer esse direito a não ser que pessoas se voluntariem para trabalhar nesses locais durante as eleições. Essa  população é marginalizada e excluída da sociedade por “n” fatores. Vi no trabalho como mesária uma oportunidade de contribuir para que essas pessoas possam exercer o seu direito de cidadania.”

Segundo o estudante João Cesar Diaz, uma das dificuldades do trabalho é o trato com pessoas agressivas. A sala em que ele ficou na última eleição é a primeira do colégio, então todas as pessoas que não conseguiam subir a escada votavam nela. Duas senhoras chegaram empurrando uma cadeira de rodas com um senhor muito idoso que iria votar. João pediu, “Por favor, um documento com foto”, elas contestaram, brigaram e gritaram que não era necessário mostrar o documento. Na verdade, precisa sim. “Por favor, um documento com foto”. O senhor não falava nada, nem se mexia, e elas muito irritadas tacaram um documento em cima da mesa: “Porte de arma, serve?”.

Mas nem tudo são espinhos na vida de mesário. O governo tenta retribuir aqueles que ajudam o país. Alguns benefícios são: dispensa do serviço pelo dobro dos dias prestados à Justiça Eleitoral; auxílio- alimentação para o dia da eleição; créditos em disciplinas de cursos em instituições de ensino superior, se conveniadas com os tribunais regionais eleitorais; vantagem de desempate em concurso público, se houver previsão em edital; e por último, mas não menos importante, a aquisição de novos conhecimentos e experiências de vida.

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Os mesário devem conferir o título de eleitor e um documento com foto. (Imagem: TRE-CE)

Ao invés de pensar o que mais poderia estar fazendo em um dia de domingo, tentarei concentrar-me em ser uma boa mesária, em dar a minha contribuição para esse dia tão especial para a democracia brasileira. Se pensarmos bem, veremos que é apenas nesse dia, que acontece a cada dois anos, que todos nós somos realmente iguais. O voto do patrão vale o mesmo que o do empregado. Quem sabe esse dia não seja o fim (como ao final da votação, em que a ridícula mensagem FIM aparece na tela da urna), quem sabe seja o começo. O começo de um Brasil melhor e mais justo e o começo da minha vida de mesária. Afinal de contas, eu posso acabar gostando.

Neste momento, só torço para que eu possa concordar com a afirmação do jornalista Leonardo Sakamoto: “Ser mesário é o melhor trabalho do mundo. Depois de jornalista, é claro.”

J.Press
A Agência J.Press de Reportagens é um espaço destinado à publicação e divulgação de matérias com abordagens inovadoras. Vinculada à empresa Jornalismo Júnior, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a agência busca novas formas de explorar assuntos de interesse público por meio do jornalismo.

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